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Pequenas estórias sem importância

Mas isto que contas é um conto velho- dizem eles
Mas isto que contas é um conto novo provavelmente- dizem alguns
Conta-o de novo- dizem eles.
Oh!, não o contes outra vez- dizem outros
Mas eu já tinha ouvido tudo isto antes- dizem alguns
Oh!, mas não era assim como se contava- diz o resto
E esta, esta é a nossa gente, dervixe Baba, este é o homem.
(Recitação Naqshbandi)

Serviço disfarçado

24-casa-arvoreUm homem de certo conhecimento tinha um bom amigo que não compreendia certas ações suas que pareciam envolvê-lo sempre em situações críticas, que limitavam a sua reputação e credibilidade, fazendo-o alvo de ataques virulentos ou bem de uma hostilidade velada ainda mais nociva. Um bom dia este amigo, canso já, pediu-lhe que lhe explicasse este comportamento seu, porque começava a vê-lo como uma eiva de difícil justificação. E o que num princípio admirava era visto já como uma fraqueza.

O homem respondeu sinceramente:

– Não pensas que é melhor, também para eles, que me ataquem a mim e não ao primeiro inocente que se encontrem por aí!

O substituto

Há muitos anos no centro do bazar da cidade de Istambul um comerciante e o seu cliente tinham uma disputa. O ambiente começou-se a caldear de jeito que, num momento dado, o lojista empurrou ao seu cliente com tão má sorte que quando foram ajudá-lo para se levantar comprovaram que estava morto. O comerciante não podia dar crêdito ao que acontecia. Tão só tinha empurrado o homem mas uma má queda e ali estava inerte e sem vida.

Uma multidão rodeava ao comerciante quando chegou o juiz. Há que ter em conta que em aquela época a lei era inflexível. Se uma vida era tirada a pena de morte era inevitável.

Conheço a lei- disse o comerciante. Sei que devo morrer mas peço-lhe ao juiz que me conceda certo tempo. Tenho três filhos menores que ficarão órfãos e devo deixar arranjados os seus assuntos.

O que me pede é impossível- replicou o juiz. Não vê qual é a gravidade da situação? Acaba de matar um homem! Tem que responder perante a sua família. Sabe se ele tem órfãos também?

– Não foi a minha intenção mas compreendo- disse o homem. E baixou a cabeça.

– Se conseguir um substituto durante um dia que se comprometa a ser executado no caso de que não apareça, então concedo-lhe esse tempo que me pede- disse o juiz, benévolo.

– O comerciante alçou os olhos no meio da multidão até que se pararam num homem que não chamava a atenção por nada especial. O comerciante perguntou:

– Ficarás tu?

– Sim, eu fico- disse o homem.

Houve um sentimento de consternação e incredulidade no ambiente. O próprio juiz falou:

– Percebe os termos do acordo? Se este homem não voltar será o senhor o ajustiçado?

– Compreendo perfeitamente.

Entretanto o comerciante subiu ao cavalo e perdeu-se rapidamente além da multidão. A medida que o tempo passava as conversas e as dúvidas oscilavam nervosas e tensas.

E o tempo passou como um relâmpago na noite mas o comerciante não aparecia. Chegou o momento de cumprir-se o tempo fixado e o comerciante não estava lá.

Todos olhavam com horror ao substituto quando uma nuvem de pó se vislumbrou no horizonte. Era o comerciante no seu cavalo. Um grito de assombro surgiu da multidão.


– Desculpem, mas um azar de última hora impediu-me chegar antes. Aqui estou!
Todos ficaram impressionados. O juiz sentia-se agora estranho. Falou para o substituto:

– Mas conhecia este homem de algo?

– Não

– Porquê aceitou então ser substituto?
– Ele confiou em mim como á sua única e última esperança. Como poderia defraudá-lo?

O juiz gaguejou. A multidão ficou muda. Quando se repuseram do choque a família do morto solicitou a comutação da pena por uma multa, o que foi aceite pelo juiz.

O vizinho bêbado de Jafar Sadiq

O grande sábio Jafar Sadiq não tinha uma boa relação com as autoridades. Respeitava as leis mas não assistia nunca às reuniões da corte e aos convites do rei apesar da suas reiterada insistência. Acontecia que tinha como vizinho um homem de costumes dissipados, alcoólico e que incomodava insistentemente a Jafar Sadiq, com os seus ruídos e os seus escândalos. Um bom dia este homem envolveu-se numa disputa que o levou à cadeia. Podia ficar ali indefinidamente já que não parecia que houvesse muita vontade de manter as garantias legais com um vagabundo bêbedo.

Jafar Sadiq estranhou-se do silêncio que rodeava o seu lar. Por primeira vez podia meditar sem ser perturbado mas não estava tranquilo. De modo que saiu à rua e averiguou o que se passava.

E vemos agora ao ilustre imã Jafar Sadiq entrando na sala de recepções do rei perante o assombro dos seus cortesãos e do próprio rei.

– Que felicidade ver-te aqui, ilustre amigo. Ver ao sábio dos sábios visitando a um rei não rebaixa a tua sabedoria mas eleva a minha realeza.

– Belas palavras, majestade, que humildemente agradeço. Serias, então, capaz de aceitar uma petição da minha parte?

– Fala, Jafar, farei tudo o que me peças pois é de sábios saber pedir!

– Majestade, libertai ao meu vizinho, preso na cadeia desde há dois dias. Ele não tem família e eu sou o único que pode velar pelo seu destino.

A presença de Jafar, a sua elegância e a sua nobre humildade não produziram no rei sentimentos ofensivos nem de orgulho ultrajado como poderia ser habitual e libertou ao prisioneiro perante o assombro dos cortesãos.

O rei falou:

“A tradição diz que não existem os sábios para adornar as cortes mas as cortes para cenário dos sábios”

Um galego e outro

24-maca-vermelhaUm dos meus avôs, Rafael, contou-me muitas vezes esta história que bem poderia ser do Mullah Nasrudin.

Dous homens estão a rematar o almoço. Trata-se de um almoço de negócios: um é tratante de cavalos e outro de burros mas isto não é importante. O caso é que chega a hora da sobremesa e duas maçãs se encontram à espera de serem comidas. São vermelhas, carnosas, apetitosas.

O tempo passa mas as maçãs continuam sem serem apanhadas. A conversa deriva sobre temas quase esotéricos: os costumes dos burros do interior e as suas manias, a história da mula que quando lhe perguntaram que classe de animal era respondeu que o seu pai era um cavalo, e toda uma série de contos e pequenas histórias enovelados e sem fim.

As maçãs, solitárias e no meio da mesa, continuavam sem comer mas, de súbito, o galego alongou o braço e apanhou uma: era grandiosa, imensa e vermelha.

No prato ficava uma maçã formosa mas muitíssimo mais pequena. O companheiro indignou-se:

– Parece mentira. Não esperava isso de ti. Que educação recebeste?

– De que me falas?

– Como apanhas a maçã mais grande? Quando se viu semelhante cousa?

– E tu que farias?

– Evidentemente colheria a pequena.

– Pois aí a tens!

Problemas de identidade

Conta-se que uma vez um grupo de homens muito zelosos da sua fé foram importunar e culpabilizar a um bom homem, ainda que idólatra.

– Deverias fazer-te muçulmano e abandonar essa fé maldita de adoradores do lume. Abandona a ignorância!
O bom do zoroastriano deixou o trabalho que tinha entre as suas mãos, alçou os olhos e disse:

– Desconheço o que quereis dizer com isso de “ser muçulmano”. Se o que quereis dizer é que tenho que ser como Abu Said, simplesmente careço de valor. Mas se o que quereis dizer é que tenho que ser como vós. Bem… isso simplesmente não quero!

Foi depois de essas palavras quando lhe bateram no rosto e lhe fizeram sangue.

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