O Nomenclátor de Galicia 2026, aprovado pola Xunta após revisom linguística do Seminário de Onomástica da RAG, tem recebido bastante atençom mediática. A razom do interesse suscitado foi a modificaçom de 2.531 topónimos, entre eles catorze nomes de concelhos, para a recuperaçom de «formas históricas» (p. ex. Cangas > Cangas de Morrazo), para a correçom dos artigos que a «castelanización administrativa» teria provocado (p. ex. Campo Lameiro > O Campo Lameiro) ou para ambas as cousas (p. ex. Castro Caldelas > O Castro de Caldelas).
Seja como for, a questom dos artigos é a grande protagonista do novo Nomenclátor, pois motiva três em cada quatro alteraçons. Nada tenho a objetar às mudanças se som aprovadas polos moradores dessas localidades, mas permita-se-me discordar da sua justificaçom. Restituir artigos ou apelidos históricos aos topónimos parece-me mais uma iniciativa arqueologizadora do que galeguizadora.
Deixemos hoje de parte o debate sobre se os artigos devem ou nom figurar, nomeadamente em maiúscula, quando o topónimo aparece isolado (em mapas ou placas de estrada), e concentremo-nos no próprio facto de haver topónimos que levam artigo e outros nom: venho de Vigo e vou para a Corunha.
Pois bem, relativamente à toponímia, nada há de mais natural do que um nome de lugar ter perdido ou estar a perder o seu artigo. Em princípio, todos os topónimos nascem com ele, mas muitos vam-no perdendo à medida que desaparece o vínculo ao território originário ou a palavras de uso comum. Um dos motivos mais frequentes para isso acontecer é a sua reutilizaçom para denominar uma unidade administrativa diferente.
A minha freguesia da infância, Feás, é uma paróquia que recebeu o nome de uma antiga aldeola a que chamavam «os Feás», mas que perdeu o artigo ao subir de categoria administrativa. Como este caso, há centenas, sem necessidade sequer de os procurar fora da nossa sincronia, e entre eles estám Campo Lameiro e Castro Caldelas.
Nestes dois últimos casos, os nomes remetem para um Campo, um Lameiro, um Castro ou umas Caldelas que, no seu dia, designaram pequenas terras, mas que se deixaram arrastar pola tendência natural para a perda do artigo quando passaram a carregar sobre os ombros a responsabilidade de representar entidades administrativas maiores. Trata-se de uma tendência que às vezes vinga e às vezes nom; e muitas vezes vinga apenas parcialmente: a maior parte dos vizinhos dizem viver no Castro e no Campo, mas em Campo Lameiro e em Castro Caldelas.
O caso contrário, que no fundo é o mesmo, temo-lo em Cangas de Morrazo. É bem conhecida a tendência de várias línguas românicas para anteceder os nomes de comarcas e regiões com artigos que nem sempre acompanharam esses corónimos. Que sentido tem, entom, suprimir um artigo que toda a gente já usa? Que estádio concreto da evoluçom linguística se pretende restituir?
Numa direçom ou noutra, trata-se de processos naturais que nada têm a ver com a castelhanizaçom. O que me parece forçado é interrompê-los por meio de um prescritivismo linguístico de cariz extremamente conservador.
Artigo publicado no número 244 do Novas da Galiza.
