Carvalho terá 1000 primaveras



carvalho_mozoCarvalho Calero tivo várias fases bibliovitais, permita-se-me o neologismo, em que cultivou praticamente todos os géneros que podia exercitar um autor contemporâneo. A poesia está presente em todas elas, mas costuma ser lembrado por umha faceta intelectual mais concreta para cada etapa.

Até 1936, por exemplo, podemos dizer que ele é referido principalmente como poeta, mas também começava a destacar como orador. No último lustro dos anos 30 tem sido destacada a sua poesia em castelhano, principalmente os sonetos que escreveu na prisom de Jaém (pola qual tivo que passar por ter defendido a República), embora a sua obra poética nesta língua se prolongasse ainda por um decénio. A década de 40 também é o período em que escreveu o primeiro romance galego do pós-guerra, A Gente da Barreira, publicado em 1951.

Nos anos 50 e primeiros 60 destaca o seu trabalho pedagógico, por estar em Lugo dirigindo um colégio privado muito avançado para a época chamado Fingoi. Dessa altura também cabe salientar a sua produçom teatral e é o momento em que escreve a que passará à história como a obra-prima de Carvalho, a História da Literatura Galega Contemporânea, usadas por várias gerações durante décadas.

No ano 1965 começa a sua época compostelana, vinculado à Universidade de Santiago. A partir daqui começa a prestar cada vez mais atençom à língua, tanto nos artigos em que analisava a obra dos autores e autoras que estudava, como em muitos artigos sobre planificaçom linguística, nas diferentes propostas de normas ortográficas que redige e, obviamente, na sua Gramática elemental del Gallego Común, que publica em 1966. É a etapa em que se converte, em 1972, no primeiro catedrático de Linguística e Literatura Galega da Universidade Galega.

No ano 75 começa a enxergar-se um novo período da sua vida. Pronuncia-se a favor da convergência do galego com o português e dedica cada vez mais páginas a desenvolver e atualizar a sua obra conforme este ideário. Seis anos mais tarde nascia o movimento reintegracionista e começava o famoso ostracismo de Carvalho polos círculos académicos que até entom tanto o aplaudiram.

Os últimos cinco anos da sua vida som os mais prolíficos de um ponto de vista literário. A sua obra poética e narrativa é ainda desconhecida para o grande público, porque ficou eclipsada por outras dimensões e polo facto de as duas obras mais aplaudidas e importantes dele (Scórpio, de narrativa; e Reticências, de poesia) estarem escritas em galego reintegrado, de maneira que, infelizmente, ainda nom lhes foi possível chegar ao ensino com normalidade.

Os últimos cinco anos da sua vida som os mais prolíficos de um ponto de vista literário. A sua obra poética e narrativa é ainda desconhecida para o grande público, porque ficou eclipsada por outras dimensões e polo facto de as duas obras mais aplaudidas e importantes dele (Scórpio, de narrativa; e Reticências, de poesia) estarem escritas em galego reintegrado, de maneira que, infelizmente, ainda nom lhes foi possível chegar ao ensino com normalidade.

Os parágrafos anteriores nom deixam lugar a dúvidas. Carvalho Calero foi todo para a língua e a cultura galegas. É verdade que a unanimidade sobre a monumentalidade da sua obra, nom tem ainda continuidade no relativo aos efeitos de se ter convertido no principal pensador do reintegracionismo linguístico, mas o debate sobre esta parte da sua obra continua sem perde vigor passados 30 anos da sua morte. É, a meu ver, a faceta que já o fijo passar à história do nosso país e a que o vai preservar na nossa memória coletiva mais 1000 primaveras.

[Este artigo foi publicado originariamente no jornal O Farelo]

Aqui o PDF do número do Farelo, onde há conteúdos sobre Carvalho Calero da página 10 à 15:

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Eduardo S. Maragoto

Eduardo S. Maragoto

(Barqueiro, Galiza, 1976) Estudou Filologia Portuguesa em Santiago de Compostela, cidade onde participou no sindicalismo estudantil e na fundaçom do Movimento de Defesa da Língua (MDL) através da Assembleia Reintegracionista Bonaval. Entre 2001 e 2006 trabalhou na Escola Oficial de Idiomas (EOI) de Valência, onde participou na constituição de Veu Pròpria (associaçom de novos e novas falantes de catalám) e da plataforma Nunca Mais. Na atualidade trabalha como professor de português na EOI de Compostela. Desde 2006 até 2010 pertenceu ao conselho de redaçom do jornal Novas da Galiza, jornal onde coordenou os trabalhos de correçom e a secçom de Além Minho. Também pertence à Gentalha do Pichel e à AGAL, associaçom que preside na atualidade. É autor do livro Como Ser Reintegracionista sem que a Familia Saiba e co-autor do Manual Galego de Língua e Estilo e dos documentários Entre Línguas, Em Companhia da Morte e A Fronteira Será Escrita.
Eduardo S. Maragoto

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  • Jose Carlos Silva

    Há muito que se estudar e pesquisar sobre Carvalho Caleiro e toda a dimensão de sua obra para a Lusofonia.
    Parabéns pelo texto!!