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Ângelo Brea: “O amor pela família, o cuidado dos filhos ou as exigências de uma vida com grandes responsabilidades atravessam os milénios”

Ensinamentos de Rahotep, a mais recente novidade da Através Editora, é o romance com que Ângelo Brea nos transporta ao Antigo Egito, numa narrativa que exigiu doze anos de trabalho e investigação. Distinguida com o I Prémio a Trabalhos de Criação Literária da Cátedra Carvalho Calero da Universidade de Santiago de Compostela, a obra parte da figura histórica do príncipe Rahotep para reconstruir uma sociedade distante, mas também explorar experiências humanas que continuam a aproximar-nos dela. Falamos com o autor.

Numa parte significativa da tua obra, por exemplo, Lembranças da Terra & outras histórias de um futuro possível ou Nos vales do Máriner e outros relatos, a tua ficção leva-nos para as estrelas. O que podemos encontrar nessas viagens?

No primeiro livro, Lembranças da Terra, publiquei 16 relatos de ficção científica, de temáticas diferentes. Normalmente, escrevo ficção científica “dura”, isto é, histórias em que os dados científicos apresentados são totalmente verificáveis. Por essa razão, muitas das histórias decorrem nos limites estreitos do Sistema Solar. Temos, por exemplo, relatos como Doze anos em Titã, ambientado nessa lua de Saturno, ou Perdidos na Lua, no qual se leva a cabo uma arriscada operação de salvamento de dois astronautas acidentados na superfície lunar. Também na Lua decorre o relato Estação Lunar Alfa, no qual se investiga um estranho crime, o primeiro a ocorrer na superfície do satélite terrestre. Outro aspeto de que gosto é que as personagens principais sejam robôs, quer sejam robôs bondosos para com os seres humanos, à maneira de Asimov, como acontece nos contos Nas montanhas de Magadar ou O bonsai, quer se trate do caso contrário, em que os robôs são perigosos, como acontece em O caso do robô assassino, que apareceu em Nos vales do Máriner. A terceira faceta seria a ficção científica já fora do Sistema Solar, mas sempre relacionada com a expansão humana, como nos contos O sol no horizonte, Rosas de Admete (um conto de terror espacial) e Um planeta remoto. Finalmente, não podia faltar um relato sobre as viagens no tempo, como A máquina da entropia inversa, em que, curiosamente, aparece pela primeira vez o Egito na minha obra, já que o protagonista viaja para o Antigo Egito, e a história não acaba demasiado bem, nem para ele nem para o mundo que deixou para trás. Um último tema é o da destruição das línguas humanas e o perigo da uniformidade linguística, como acontece no breve conto As grandes vantagens da neolíngua. Curiosamente, esse conto inspirou o livro A voz dos mundos, no qual autores galegos, portugueses e brasileiros escrevemos relatos de ficção científica, mas com um único nexo temático: a língua.

Nos vales do Máriner e outros relatos, amplio mais a temática, indo para além da simples ficção científica dura, e já aparecem nele contos de terror ou de mistério, como Um coração de ouro ou O quarto mandamento. Outro relato de terror é O estranho caso de Vladimir Lucard, em que respondi  a uma petição de um leitor: como seria uma viagem espacial na qual um vampiro começasse a matar alguns membros da tripulação, em viagem para um novo mundo a colonizar?  O terror psicológico aparece também em As ratazanas ou A pandemia , que narram o futuro da Terra, num tempo não demasiado afastado, em que as alterações climáticas e o ressurgimento de pandemias globais fazem com que o planeta se torne praticamente inabitável. Também incluí no livro dois relatos sobre a colonização do planeta Marte: Nos vales do Máriner e O climatólogo, assim como a continuação de relatos do primeiro livro, para criar assim um nexo entre ambos os livros, algo que vários leitores me pediram.

Com os Ensinamentos de Rahotep, recuamos até ao século XXVI a. C e transitamos do relato breve para o romance. Calculo que esta obra envolvesse muitos anos de trabalho.

Comecei o romance em 2013 e só o acabei em 2025, após muitas e sucessivas revisões. Não conto, obviamente, os anos prévios, em que estudei em profundidade tudo o que pude ler sobre a matéria, para dar verosimilhança e contexto histórico ao que ia escrever. Depois, à medida que o romance avançava lentamente, sempre que o protagonista falava de algum novo texto, devia deitar mãos à obra para o escrever. Assim, quando nos Ensinamentos, Rahotep mostra a história do Filho de Hesire ao seu filho Djédi, é óbvio que esse livro existe, já que, ao ser mencionado, tive o trabalho de o escrever. Isso dá verosimilhança ao que se narra. Outro relato de que se fala no livro é A viagem a Iúnu e a Expedição a Wawat e Irtkhet. Esse romance decorre uns anos antes dos Ensinamentos e nele se narra a guerra na Núbia, que os exércitos de Sneferu, liderados pelos três irmãos, Nefermaat, Rahotep e Ranefer, tiveram de travar para acabar com o levantamento das tribos núbias, estendendo os domínios do rei Sneferu entre a primeira e a segunda catarata, onde levantaram o assentamento de Buhen. Por ser mencionado no romance, tive de escrever o texto, que acabou por se converter num texto de uma extensão equivalente à do livro dos Ensinamentos de Rahotep.

Tendo em conta tudo isto, além das contínuas tarefas de estudo necessárias para que todos os dados cronológicos encaixassem no relato, compreende-se facilmente por que razão levei doze anos a acabar o romance. 

Rahotep. Porque escolheste esta figura histórica para protagonista?  O que sabemos dele e o que foi preciso inventar para lhe dar uma vida interior?

Escolhi Rahotep pelas formosas estátuas do conjunto escultórico dele e da sua mulher Nofret. Trata-se de obras-primas da escultura egípcia. Inscritos na sua estátua encontram-se os títulos que detinha. Isso fornece-nos muitos dados de interesse. Era sumo sacerdote de Rá em Iúnu (Heliópolis), cargo que, na IV Dinastia, parece ter sido ocupado pelo segundo filho do rei, já que o primogénito ocupava o cargo de sumo sacerdote de Ptah em Mênfis. Também tinha o cargo de Primeiro dos Videntes. Os videntes de Iúnu eram uma espécie de astrónomos, já que podiam indicar o dia da aparição de Sopdet (a estrela Sírius), que coincidia com o começo da inundação na primeira catarata, marcando assim o início do ano egípcio. Aquilo era fundamental para o culto e devia ser anunciado a todos os templos do país de Kemet. Rahotep tinha muitos outros cargos, como cháti do reino, uma espécie de vizir do rei. Também era governador da cidade de Pé (Per-Wadyet). Era ainda general das esquadras, supervisor do exército e capataz das obras. Isso dá conta dos seus múltiplos cargos, tanto militares como políticos ou ligados à arquitetura. 

Rahotep tinha muitos outros cargos, como cháti do reino, uma espécie de vizir do rei. Também era governador da cidade de Pé (Per-Wadyet). Era ainda general das esquadras, supervisor do exército e capataz das obras. Isso dá conta dos seus múltiplos cargos, tanto militares como políticos ou ligados à arquitetura.

Sabemos que Rahotep trabalhou intensamente na pirâmide de Meidum. No campo de mastabas de Meidum foram enterrados Nefermaat, Rahotep e Ranefer. Ao morrerem os três, antes de falecer o seu pai Sneferu, o trono ficou para Khúfu (Quéops). A história teria sido muito diferente se algum deles tivesse sobrevivido. Também sabemos que eram filhos de uma esposa secundária, já que não há provas de que a grande esposa real Hetepheres fosse a mãe deles, embora fosse a mãe do seu meio-irmão Khúfu. 

A palavra Ensinamentos faz parte do título da obra. Que tipo de sabedoria pode transmitir um homem que viveu há quatro mil e quinhentos anos?

Sabemos pelo papiro Westcar que uma personagem chamada Djédi, cujo nome coincide com o do primogénito de Rahotep, tinha fama de homem sábio durante a IV Dinastia, coincidindo a sua vida com o reinado de Khúfu. É possível que a sua fama tenha alastrado até à XII Dinastia, quando foi escrito ou copiado o texto. Também se pensa que Rahotep teria sido um homem sábio e culto. A própria estátua mostra-o como uma pessoa de alta linhagem e, obviamente, os seus cargos falam por ele. Imhotep também tinha fama de homem sábio, sendo-lhe atribuído um livro de Ensinamentos perdido, pelo que seria normal que um homem como Rahotep também o fosse. 

O romance é constituído por 19 rolos (ou capítulos) e apenas um inclui os seus Ensinamentos (o rolo décimo primeiro). Mas a sabedoria da personagem perpassa todo o romance. O príncipe Rahotep é uma imagem ideal do que seria um homem culto daquela época, mas não podemos projetar nele os nossos preconceitos do século XXI, porque ele viveu há 46 séculos. Seria um grave erro e retiraria verosimilhança ao romance, comprometendo o contexto histórico. 

Rahotep ocupa uma posição privilegiada na sociedade do seu tempo. Ao mesmo tempo, está submetido a enormes deveres. Privilégio e responsabilidade.

Exatamente. Os cargos que ele ocupava colocavam-no em segundo lugar na linha de sucessão ao trono e na cúspide da pirâmide social egípcia. O seu irmão mais velho, Nefermaat, seria o herdeiro do trono. O posto de sumo sacerdote de Rá em Iúnu (Heliópolis), o título de cháti (vizir) do reino ou o de primeiro vidente de Iúnu davam-lhe a prerrogativa de proclamar aos Dois Reinos o começo do ano oficial. Era uma prerrogativa muito importante. Também devia conciliar esses cargos com o de arquiteto ou com os cargos militares, que o levariam a combater nas guerras travadas pelo seu pai Sneferu. Obviamente, ele seria o comandante da divisão de Rá na guerra da Núbia. Para além destes cargos oficiais, o príncipe Rahotep tinha uma vida privada. A estátua da sua mulher Nofret dá conta do amor que ele sentia por ela, pelo realismo e pela majestade que transmite o grupo escultórico que partilham e que foi colocado na sua mastaba em Meidum, perto da enorme Casa da Eternidade de Nefermaat.

No Egito antigo, religião, política, ciência e vida quotidiana não estavam separadas como na atualidade. Como representaste essa unidade?

Tive especial cuidado em representar a vida privada da família. A intimidade entre ele e Nofret está presente ao longo do romance, assim como as conversas relativas ao cuidado dos filhos. Igualmente, tratei detalhadamente o interesse que mostram pelos estudos dos filhos ou o cuidado com que gerem as relações com a família de Nefermaat. Finalmente, é de notar como se mostra a relação da família com o rei Sneferu, o senhor dos Dois Reinos. 

Conciliar a vida privada e a enorme responsabilidade que devia assumir o príncipe Rahotep como arquiteto e diretor de grandes grupos de trabalhadores é algo a que dediquei especial atenção.

O que pode encontrar neste livro alguém que não tenha um interesse particular pelo Antigo Egito?

O romance exige bastante do leitor atual, pelo contraste com uma sociedade que existiu há 46 séculos. É um mundo diferente, mas com elementos intemporais que nos falam de perto, a nós, às pessoas do nosso tempo. Assim, o amor pela família, o cuidado dos filhos ou as exigências de uma vida com grandes responsabilidades atravessam os milénios e aproximam as pessoas do século XXI daquela sociedade de há 46 séculos. 

Aliás, as histórias que Rahotep conta aos filhos podem ajudar a que os leitores vejam o romance de uma maneira diferente. Esses relatos simples e tão humanos podem ajudar qualquer pessoa a tirar proveito deste romance.

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