O galego do futuro



obrigadaDesde Carvalho Calero, nunca deixou de estar no horizonte do galego admitir as regras ortográficas portuguesas, polo menos opcionalmente. Por que motivo?

Primeiramente, é preciso esclarecer que esta reforma só se plasmará na escrita, mesmo que incentive na fala formas de sabor antigo como canzón. Teremos “Carvalho” por “Carballo”, pronunciado igual, só que multiplicando o seu potencial comunicativo, dado que nos servirá para comunicar entre nós e países como Portugal ou Brasil.

Teremos “Carvalho” por “Carballo”, pronunciado igual, só que multiplicando o seu potencial comunicativo, dado que nos servirá para comunicar entre nós e países como Portugal ou Brasil.

Contra isto ouvimos principalmente dous argumentos. O primeiro é que esta troca dificilmente vai  parar a perda de falantes. É verdade, ao menos prontamente. No entanto, o idioma poderá adquirir suficiente valor pragmático para deixar de ser promovido exclusivamente por motivos sentimentais e principiar a ser valorizado como ferramenta útil.

O segundo é que entre nós continuaremos preferindo o idioma de Cervantes ao de Rosalía, mesmo que este se una ao de Camões, menos empregado no mundo que o primeiro. Isto é verdade se pretendemos competir de forma suicida, só que a proposta de Carvalho proporciona potentes motivos para transmitir pacificamente ambos idiomas, e contra o que tanto se pregoa “El gallego no sirve fuera de Galicia” diremos “Podemos usar os dous para chegar a universos idiomáticos diferentes”.

Contra o que tanto se pregoa “El gallego no sirve fuera de Galicia” diremos “Podemos usar os dous para chegar a universos idiomáticos diferentes”.

O “carballo” segue sendo emblemático para nós, só que nos círculos comerciais agora metemos o “roble” para falar da madeira. Conscientes de que a frase “madeira de roble” é entendida por todo o mundo, iremos deixando de usar carballo, como aconteceu antes a estrada (‘carretera’) ou a pescada (‘merluza’). Para reanimar estes termos é preciso ampliar o seu campo comunicativo. O uso do galego seguramente continuará igual a curto prazo, só que a mocidade terá poderosos motivos para se vincular ao galego no futuro. Da mesma maneira que dar utilidade ao monte é a única forma eficaz de evitar as queimas, dar utilidade ao idioma será o modo de evitar o seu esmorecimento.

[Este artigo foi publicado originariamente em La Voz de Galicia]

Eduardo S. Maragoto

Eduardo S. Maragoto

(Barqueiro, Galiza, 1976) Estudou Filologia Portuguesa em Santiago de Compostela, cidade onde participou no sindicalismo estudantil e na fundaçom do Movimento de Defesa da Língua (MDL) através da Assembleia Reintegracionista Bonaval. Entre 2001 e 2006 trabalhou na Escola Oficial de Idiomas (EOI) de Valência, onde participou na constituição de Veu Pròpria (associaçom de novos e novas falantes de catalám) e da plataforma Nunca Mais. Na atualidade trabalha como professor de português na EOI de Compostela. Desde 2006 até 2010 pertenceu ao conselho de redaçom do jornal Novas da Galiza, jornal onde coordenou os trabalhos de correçom e a secçom de Além Minho. Também pertence à Gentalha do Pichel e à AGAL, associaçom que preside na atualidade. É autor do livro Como Ser Reintegracionista sem que a Familia Saiba e co-autor do Manual Galego de Língua e Estilo e dos documentários Entre Línguas, Em Companhia da Morte e A Fronteira Será Escrita.
Eduardo S. Maragoto

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  • Ernesto Vazquez Souza

    Depois de tantos anos de debate e conversa já vai havendo um pouco, e a cada dia mais, um clima de consenso. As propostas do reintegracionismo finalmente estão a ser debatidas e consideradas por fora dos espaços reintegracionistas.

    Finalmente o ano CC foi bom, mesmo que fosse para ver a sociedade e o ativismo, que o isolacionismo em todos os seus níveis está esclerosado como projeto, obsoleto como discurso, terminado como projeto de futuro, reconheçam ou não. E está porque de início decidiu tratar de deter o que é per se um dos objetivos do galeguismo desde as origens: a reintegração.

    Afinal imos onde temos de ir. O reintegracionismo sempre foi um caminho, e o objetivo final é a reintegração no português, tanto escrito como oral.

  • Celso Alvarez Cáccamo

    O último parágrafo parece-me confuso. Com esses usos do tempo futuro, não se sabe se dizes que é como se argumenta que vai ser ou como propões que seja.

  • https://pglingua.org/index.php abanhos

    Com o Eduardo Maragoto podes estar de acordo com ele em tudo ou no 90 por cento, ou no que for, mas não conheço ativista do agit pro pra mover mntanhas, do fazer mais ativo e dinamizador que ele, hai outros muitos bons, o Fagim por exemplo, mas o Maragoto pode apapostiar ao mais pintado e tricar-lhe o pensamento e enfia-lo na esperança.