3ª carta aberta a Henrique Monteagudo

Ampliar o repertório, para quê?



Caro Henrique,

eduardo-maragotoNa tua última carta levas a proposta de reconhecimento do português ao Estatuto, para o qual propões: “A lingua portuguesa, historicamente emparentada coa galega, será obxecto de ensino e gozará de recoñecemento oficial nos termos establecidos por lei”. Perante os meus receios, pões-me o exemplo occitano no Estatut. Pois bem, começarei por dizer que a tua proposta me satisfaz, e, como primeiro passo, consta-me que ela também agradou a muitas pessoas no reintegracionismo e fora dele. Fica assim provado que o nosso diálogo vale a pena ;).

Teríamos, por assim dizer, um binormativismo à luxemburguesa, que poderia avançar com o apoio do reintegracionismo, do autonomismo e até de quem nom usa o galego. O primeiro veria uma fenda para usar o galego à sua maneira. O segundo veria protegida a independência da sua língua. Quanto ao terceiro, só haveria de ver a praticidade da proposta, que se abstém de regatear espaços ao espanhol.

Mas desculpa que te acautele de novo: o texto que propões continua na corda bamba constitucional, porque a Lei fundamental refere-se com clareza à cooficialidade das línguas “españolas”, requisito, o da espanholidade, que cumpre o aranês (occitano, portanto) no território da Catalunha, mas é duvidoso que cumpra o português (galego, portanto?) no território da Galiza. Por isso, um oportuno parecer da RAG conforme o português é mais uma forma/norma do galego (entendido como língua histórica, se quiseres) poderia salvaguardar o novo articulado estatutário de recursos judiciais de grupos extremistas. A oficialidade do português assentaria assim no reconhecimento da sua galeguidade (espanholidade, portanto) por parte da RAG, organismo à qual a Lei de Normalización Lingüística parece conferir essa potestade.

O texto que propões continua na corda bamba constitucional, porque a Lei fundamental refere-se com clareza à cooficialidade das línguas “españolas”, requisito, o da espanholidade, que cumpre o aranês (occitano, portanto) no território da Catalunha, mas é duvidoso que cumpra o português (galego, portanto?) no território da Galiza.

Noutro plano, discrepas de colocar o debate em termos de galego local (RAG) e galego internacional (português), já que, havendo oportunidades para o contacto, ambos seriam intercompreensíveis. Quer dizer, o galego (RAG) já seria internacional precisamente graças à semelhança com o português. Se, como parece, pensas que alguém pode ver menoscabo no qualificativo “local” para o galego, comprometo-me a deixar de usá-lo. Porém, a fórmula “galego internacional” continua a parecer-me acertada para fazer ver que uma das formas do idioma que aqui nasceu é oficial em várias nações do mundo. Sem ideologia linguística integradora nem modelo ortográfico convergente (polo menos opcional), a mera capacidade de compreender em condições favoráveis é insuficiente, porque outras fronteiras continuam a desincentivar a partilha dos recursos imprescíveis para insuflar vitalidade ao nosso galego.

E como é disto que se trata, ligo aqui com outra focagem que me propões: a “ampliación do repertorio [email protected] [email protected]”. Como discordar se, além de oferecer oportunidades pessoais, ela também repercutiria na estabilidade interna do próprio galego?

O conhecimento do português daria oxigénio a muita língua em desuso. Adormecer, barulho, bochecha ou brincar, do meu repertório ativo ou passivo quando ainda era um neno, já som mais fáceis de encontrar em livros portugueses que galegos, rendidos às concorrentes durmirse, ruído, meixela ou xogar para expressar os mesmos valores.
Agora que sou pai, porei exemplos infantis. O conhecimento do português daria oxigénio a muita língua em desuso. Adormecer, barulho, bochecha ou brincar, do meu repertório ativo ou passivo quando ainda era um neno, já som mais fáceis de encontrar em livros portugueses que galegos, rendidos às concorrentes durmirse, ruído, meixela ou xogar para expressar os mesmos valores. Até aqui havemos de estar plenamente de acordo. A discrepância pode surgir ao avaliar se também nos devemos abrir à possibilidade de usar beicinho e dói-dói, ainda fora dos dicionários daquém Minho, ou se iremos safando só com pucherito/pucheiriño e pupa. Cedo ou tarde, irá ficando o mesmo caminho às normas que tu e eu temos aqui defendido: preparar-se para ampliar o repertório. A tua, a autónoma, admitindo a possibilidade de todo o léxico português; a minha, a já convergente com o português, recolhendo o léxico galego que outras regiões lusófonas deixaram de selecionar para os seus padrões (alouminho, agarimo…).

Entretanto, enquanto sonhamos que o galego voltará a ser língua de crianças, comecemos por unir todo o galeguismo para reclamar português no ensino… e no Estatuto.

[Este artigo foi publicado originariamente em Nós Diario ]

Eduardo S. Maragoto

Eduardo S. Maragoto

(Barqueiro, Galiza, 1976) Estudou Filologia Portuguesa em Santiago de Compostela, cidade onde participou no sindicalismo estudantil e na fundaçom do Movimento de Defesa da Língua (MDL) através da Assembleia Reintegracionista Bonaval. Entre 2001 e 2006 trabalhou na Escola Oficial de Idiomas (EOI) de Valência, onde participou na constituição de Veu Pròpria (associaçom de novos e novas falantes de catalám) e da plataforma Nunca Mais. Na atualidade trabalha como professor de português na EOI de Compostela. Desde 2006 até 2010 pertenceu ao conselho de redaçom do jornal Novas da Galiza, jornal onde coordenou os trabalhos de correçom e a secçom de Além Minho. Também pertence à Gentalha do Pichel e à AGAL, associaçom que preside na atualidade. É autor do livro Como Ser Reintegracionista sem que a Familia Saiba e co-autor do Manual Galego de Língua e Estilo e dos documentários Entre Línguas, Em Companhia da Morte e A Fronteira Será Escrita.
Eduardo S. Maragoto

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  • Ernesto Vazquez Souza

    Não gosto nada de este diálogo, que vos traedes, de tu a ti em confiança, que parece o de dous senhorões, feudais ou caciquinhos, aquelando o temita, de sobremesa, café e puro num reservado do casino…

    • Eduardo Maragoto

      Pois, como é óbvio, eu gosto. E nom só gosto senom que animaria todas as pessoas que habitualmente escrevem sobre a questom a tentarem converter os seus desabafos em diálogos ou apelos ao diálogo com quem nom pensa igual. Na medida do possível, aliás, sem a pretensom de derrotar a “outra” norma ou postura, senom simplesmente de provocar reflexom noutros âmbitos, de fazer avançar o galego, esse que falamos uns e outras, as do ll e os do lh. O estilo é o de menos, cada quem com o seu. Passado o tempo, há-se notar, já verás.

      • Ernesto Vazquez Souza

        Não falam com todo o mundo, hom… São gente mui escolhida, no mínimo tens de ser professor de universidade, de EOI, estar na nata e ter algum livro publicado em Galáxia, Xerais ou no CCG…

        • Eduardo Maragoto

          O que quero dizer é que antes de dizer ou fazer algo, convém pensarmos antes se o podemos fazer conjuntamente com alguém que à partida nom partilha o nosso ponto de vista. Para fazer isso, mais que estar na nata, há que partir do princípio de que nom se vai falar com “eles”, ou com o “inimigo”, como tenho lido polas redes sociais. O reintegracionismo está a avançar e vai avançar mais, só temos de ver a forma de que esse avanço seja favorável para toda a sociedade e, também, para todas as pessoas implicadas neste debate. Pola saúde do galego e pola nossa própria. 😉

          • Ernesto Vazquez Souza

            Parece-me muita política e buenrrollismo em excesso… Lamento, mas isso não vai comigo.

            Saúde e Sorte…

          • José Luís Maceira

            Concordo com o Ernesto a 100%.
            Não tenho lá agora muito tempo para escrever um comentário demorado, mas a minha opinião é esta: fiar toda a sorte do ‘reintegracionismo’ ao (mais que improvável) sucesso do ‘binormativismo’ e dos (estéreis) diálogos com o Monteagudo (o Ramón Lorenzo, o verdadeiro ‘boss’, não dialoga, pois não?), ao mesmo tempo que se está a inibir totalmente a construção (sólida, séria, científica) do ‘modelo galego’ do português, é uma insensatez cega de que nos daremos conta daqui a 10, 20 anos… quando, depois de perdermos tanto tempo, vejamos que permanecemos no mesmo sítio.

          • Arturo Novo

            Eduardo, dialogar como ponto de partida para chegar a acordos é algo imprescindível. Mas aqui não estamos no ponto de partida, pois já passaram uns quarenta anos de luta. Quarenta anos de marginalização, de abuso da força ou do poder. Que classe de diálogo ou de entendimento pode sair daí? Haverá proposta mais dialogante e singela de entender que a binormativista? Ou a aceitas ou não a aceitas. E a estas alturas está bem claro que nunca a vão aceitar. Por que insistir com esta gente? E não seria melhor intentá-lo com outro interlocutor? Por exemplo, com o Bloque? Segundo tenho entendido, formalmente no Bloque nunca houve devate sobre o reintegracionismo. Por que não fazer-lhe a eles a proposta binormativista?