Sobre o método: o que fazer? (II)



Participo num torneio no Country Club de Las Vegas, e concorro a uma vaga no campeonato estatal. O meu adversário é um miúdo chamado Roddy Parks. A primeira cousa que me impressiona nele é que ele também tem um pai especial. O Sr. Banks usa um anel com uma formiga petrificada dentro de uma grande gota de âmbar amarelo. Antes do jogo começar, pergunto-lhe sobre isso.

Sabe, André? Quando o mundo acabar num holocausto nuclear, as formigas serão as únicas criaturas que sobreviverão. Por isso, quero que o meu espírito passe para uma formiga.

(Open, Memoirs, Andre Agasi)

quase cristal

quase cristal

Este “congresso”, esta força inerente a todos os fenómenos vivos está muito longe da mecanicidade, da negatividade com que “o congresso” foi descrito. Certamente que a vida não pode ser reduzida a esta descrição que apenas revela um aspeto superficial da mesma. No entanto, é necessário tomar consciência disso. O ser humano interage com o seu ambiente movido por forças que ele não conhece mas que o permeiam. A sua ignorância significa um bloqueio da possibilidade de evolução, de crescimento. Seguindo a filosofia espinosista, ideias inadequadas sobre si próprio, o mundo e a natureza provocam este bloqueio de possibilidades. Estas não são ideias como meras representações abstratas mas sim crenças fixas e “visões erradas” sobre a realidade que confundem e abusam do fluxo de energia, estas crenças estão encarnadas no corpo e são algo operativo, por vezes muito distante daquilo que se acredita serem os valores morais e convicções da pessoa e sua autorepresentação. Ao longo da história vemos como superstições, distorções, crenças falsas tomam forma em várias sociedades, levando a situações críticas e muitas vezes brutais. Com uma certa distância vemos isso claramente, mas a situação atual não é diferente dos tempos passados. As ideias inadequadas tomam forma, por assim dizer, na própria expressão de instituições e indivíduos, constituindo a carne de canhão do mundo. Mas tudo se comporta de acordo com leis precisas que não podem ser ignoradas. O que governa o ser humano é o desenvolvimento do seu nível de consciência e a sua compreensão de todos os elementos que constituem o seu potencial. Se isto não for feito, a sua continuidade é posta em perigo. É uma compreensão do uso da energia, as forças vivas que se aninham na totalidade do seu ser. Spinoza usou a expressão: “não sabemos o que um corpo pode fazer”, referindo-se a estados de consciência: deu o exemplo de um sonâmbulo que andou à beira de um abismo sem cair, mas se estivesse consciente, no sentido comum, cairia. Sabemos, então, o nosso potencial?

Ao longo da história vemos como superstições, distorções, crenças falsas tomam forma em várias sociedades, levando a situações críticas e muitas vezes brutais. Com uma certa distância vemos isso claramente, mas a situação atual não é diferente dos tempos passados.

Podemos interpretar a vida em termos de um pequeno grupo de ideias (luta, esforço, busca, alojamento, exploração, desejo, etc.) mas sem entrar na extensão das suas consequências, sem entrar no objetivo final da mesma. É como se fizéssemos uso de vários instrumentos para atingir objetivos sobre os quais nunca paramos a refletir seriamente.

II

a] A maioria daqueles que escreveram sobre os afectos e a regra de vida dos homens, não parecem lidar com cousas naturais, que seguem as leis comuns da natureza, mas com cousas que estão fora da natureza. Além disso, parecem conceber o homem na natureza como um império dentro de um império, uma vez que acreditam que o homem, em vez de seguir a ordem da natureza, o perturba, e que ele tem poder absoluto sobre as suas acções, e é determinado apenas por ele próprio e não por qualquer outra cousa. A causa da impotência e inconstância que atribuem, além disso, não ao poder comum da natureza, mas ao não sei que vício da natureza humana, que por isso mesmo lamentam, ridicularizam e desprezam, ou, como é mais frequentemente o caso, detestam; e aquele que aprendeu a denegrir a impotência da alma humana com a mais argúcia ou eloquência, é tido como divino. Sem dúvida que tem havido muitos homens excelentes (a cujo esforço e habilidade confessamos dever muito) que escreveram muitas cousas excelentes sobre a regra de vida certa e deram aos mortais conselhos cheios de prudência. Mas ninguém, tanto quanto sei, determinou a natureza e os poderes dos afectos, e que pode a alma, por outro lado, para os moderar. Sei sem dúvida que o célebre Descartes, embora também acreditasse que a alma tem poder absoluto sobre as suas acções, tentou explicar os afectos humanos pelas suas primeiras causas e mostrar ao mesmo tempo a forma como a alma pode alcançar uma regra absoluta sobre eles; na minha opinião, porém, ele mostrou apenas a grande acuidade da sua inteligência, como mostrarei no seu lugar […].

(Baruch Spinoza, em Ética, Sobre a natureza e origem dos afectos, Prologo).

Utilizei as palavras “energia” e “potencial”. Ambos vêm de Aristóteles, mas os seus usos atuais evoluíram para uma formulação diferente. O desenvolvimento da ciência moderna tendia a dar uma visão mecânica e “matemática” da natureza que queria ser contrariada a partir do interior por autores como Leibniz ou Spinoza, a quem devemos desenvolvimentos notáveis, mas que não foram suficientemente assimilados na altura ou mais tarde polos paradigmas do cientismo moderno. Mas vale a pena recordar a antiga visão da física tanto em Aristóteles como na antiguidade pré-socrática: um organismo vivo cuja essência é o crescimento autónomo (o que os biólogos Maturana e Varela chamam de “autopoiese”). Um processo que passa dos estados potenciais para a actualização desse potencial (“energeia” é traduzida para o latim por “acto”, enquanto que a “potência” é “dinamis”). A própria palavra “physis” vem do verbo “phýo” que tem o significado de “brotar, crescer”. Podemos dizer, então, que a natureza é “aquilo que brota”. Este sentido da natureza, com a sua espontaneidade, exuberância, luxúria e desperdício, é ao mesmo tempo uma transformação contínua, obedecendo a um propósito energético, ou seja, uma realização e actualização do seu potencial (dinâmica). Isto está relacionado com o conceito de semente (sperma em grego). A semente tem um programa de desenvolvimento, algo pequeno, escondido que se expande e é completado num prodígio de transformação. O mesmo se passa com o ovo. A vida é esta fecundidade distante de qualquer mecanicidade.

Podemos dizer, então, que a natureza é “aquilo que brota”. Este sentido da natureza, com a sua espontaneidade, exuberância, luxúria e desperdício, é ao mesmo tempo uma transformação contínua, obedecendo a um propósito energético, ou seja, uma realização e actualização do seu potencial (dinâmica).

Mas o que devemos recordar é que somos a natureza. Não somos um “império dentro de um império” ou um produto artificial. Saímos desta mesma realidade misteriosa e infinita, como nos lembra o filósofo sefardita. A nossa autoconsciência, o nosso pensamento, surge da própria expressão deste infinito, levanta questões sobre o seu significado e torna-se consciente da natureza problemática da sua própria existência, da sua própria vida. E além disso, podemos refinar o nosso pensamento e a nossa vida com este fundo básico, como um continuum da própria vida. A interessante perspetiva levantada pola ciência biológica sobre a evolução como expressão da selecção natural é francamente grosseira, polo menos na versão darwinista vulgar que infetou a cultura do século XX. Darwin mostra um facto indiscutível: a transformação de espécies num ambiente em mudança, no qual os mais adaptados sobrevivem por meio da seleção natural. Ao colocar a questão em termos de luita e sobrevivência física, é evidente que as bactérias, ratos ou inúmeras plantas são seres vivos com mais possibilidades de se perpetuarem no planeta do que o próprio ser humano. Poderíamos dizer, então, que o ser humano é inferior a eles na perspetiva da adaptação, mas poderíamos descer mais na escala e ver que o único objetivo é que os genes sejam transmitidos e sobrevivam de uma geração para outra, uma tese de Richard Dawkins. É surpreendente que atribuamos a genes as intenções de vida que obedecem a ideias formadas numa cabeça humana. Nesta perspetiva, o máximo que podemos dizer é que as cousas acontecem, a vida é. Finalidade? Hoje é, amanhã ou em milhões de anos pode não ser. Como podemos falar sobre o propósito de um gene e negar a necessidade de pensar sobre o significado da própria existência humana? Se o “significado” consiste em mera sobrevivência, é evidente que estamos a “dar-lhe outro significado”, que consiste em dizer que devemos evitar questões filosóficas e metafísicas porque as plantas e todos os seres na terra excepto o homem não o fazem (o que não significa que não tenham um significado metafísico). E temos de seguir essa “lei natural”. Mas somos nós quem construímos as noções de “lei da natureza”, “propósito”, “significado”, “existência”, “sobrevivência” ou “selecção natural” e são também estas questões metafísicas básicas que estão na base do desenvolvimento da consciência do próprio ser humano, um pouco para além da condição animal, quanto mais não seja porque temos linguagem, o que não é uma questão trivial. Em última análise, a compreensão que o intelecto nos permite é apenas uma pista de algo muito mais amplo: como é possível que através da nossa razão podamos compreender leis cósmicas objetivas? Que sentido faz para a mera “selecção natural”? Como pode algo que surgiu de meras determinações materiais, de acordo com a ciência actual, estar consciente de si próprio e investigar a sua própria origem? Por que razão é que as cousas encaixam umas nas outras? Poderíamos também dizer: por que é que a natureza simboliza? Isso é suposto ser metafísica. Bem, a questão é que estas perguntas são respondidas, embora não no sentido de um conhecimento “neutro”, independente do assunto. Na realidade, não existe esse conhecimento neutro. Portanto, estamos num caminho que não tem regresso e está relacionado com a nossa própria consciência e autoconsciência. As diferentes causas e ligações neurais não explicam a minha consciência e autoconsciência. É a minha consciência e autoconsciência que explica as ligações neurais, parafraseando a frase de Marx: “Não é o macaco que explica o homem, é o homem que explica o macaco”.

As diferentes causas e ligações neurais não explicam a minha consciência e autoconsciência. É a minha consciência e autoconsciência que explica as ligações neurais, parafraseando a frase de Marx: “Não é o macaco que explica o homem, é o homem que explica o macaco”.

Na realidade, os aspetos que a ciência trata têm a ver com a dimensão explícita da existência, o que implica uma capacidade explicativa, ou seja, as relações são estabelecidas entre factos ou fenómenos, muitas vezes sob o princípio da causalidade (um princípio da nossa psicologia, não um facto do mundo como David Hume nos mostrou) que é necessariamente falsável e modificável por novas experiências. Por exemplo: o que é observável num espaço bidimensional significará encontrar eventos e factos que podem ser compreendidos de uma forma completamente diferente desde um espaço tridimensional. É por isso que a frase de Chesterton escrita no seu livro “Ortodoxia” continua a ser insuperável: “passamos de uma cousa inexplicável para outra inexplicável e aquilo que está no meio chamamos de explicação”. Assim, a compreensão seria ir um pouco além da “ligação causal das aparências”, o que não significa que as explicações não sejam necessárias. Caso contrário, este texto não faria sentido. Há algo no processo do devir do tempo que obedece também a uma necessidade de compreensão e que acontece olhando para o óbvio uma e outra vez. Há sempre uma história de Mullah Nasruddin que esclarece a questão para nós:

“Numa ocasião, um homem em pé em cima de uma casa escorregou do telhado e caiu em cima de Mullah Nasruddin, que na altura passava acompanhado por um discípulo. O homem estava ileso mas o Mullah sofreu um choque grave. Após um tempo de recuperação em que foi atendido polos vizinhos e já sentado numa poltrona na sala de estar da casa, o discípulo ousou perguntar:

– Mullah, que lição devemos tirar deste evento?

– Nunca faga suposições do tipo: se um homem cair do telhado de uma casa, irá matar-se? Ele caiu, mas aquele que quase morreu sou eu.

Outra história que destaca o princípio da causalidade, embora de uma perspectiva mais próxima da mecânica quântica, é esta:

Mullah Nasruddin foi despertado a meio da noite pola discussão de dous bêbados levantando a voz no meio da rua sem qualquer consideração. A esposa do Mullah, irritada, repreendeu Nasruddin para investigar o assunto. Nasruddin levantou-se, pegou no cobertor e colocou-o sobre os ombros e rastejou no frio gelado até ao meio da rua onde os dous homens estavam a gritar. Quando o viram caíram em silêncio, olharam para Nasruddin e, rapidamente, um deles puxou o cobertor e fugiu. O outro foi atrás dele.

Nasruddin regressou cristalizado e congelado à cama. Quando a mulher se achegou, ela perguntou-lhe:

– Qual foi o problema?

– Penso que foi o cobertor. Assim que o conseguiram, o problema desapareceu.

No seu livro, A reastauração das ciências religiosas, Al Ghazali é mais explícito do que o habitual sobre a sua noção de “conhecimento”. O grande mestre sufi Idries Shah lembra-nos isto no seu livro Thinkers of the East (Pensadores do Oriente):

“Ghazali mostra que o elemento a que os Sufis chamam “conhecimento” é utilizado como um termo técnico e que as suas funções para o ser humano vão muito além do que se consideraria normalmente conhecimento. Alguns pensadores contemporâneos e escritores em menor perigo de represálias totalitárias chamariam a esta forma de conhecimento a própria força que sustenta a humanidade.

Ele diz: O conhecimento – o objectivo dos sufis – é o que sustenta a vida, na medida em que se a sua transmissão fosse interrompida durante três dias, a medula do indivíduo morreria, tal como morreria um indivíduo se fosse privado de certos medicamentos. O conhecimento sufi, portanto, é algo que flui continuamente dentro do homem. A percepção e emprego deste conhecimento é o objetivo dos místicos (citando Fatah el-Mosuli).

Por vezes a sabedoria é entendida como “compreensão de conhecimentos especiais”. Isto por vezes faz com que as pessoas se afastem dos seus hábitos normais. Naturalmente, as pessoas comuns opõem-se a tal comportamento.

As pessoas comuns são aquelas que estão cegas à necessidade urgente de conhecimento. Esta cegueira é para Ghazali como uma doença. Produz arrogância. Quando há arrogância, o conhecimento não pode agir”.

José António Lozano Garcia

José António Lozano Garcia

Nasceu na cidade da Corunha em 1967. É professor de Filosofia no ensino secundário. Foi finalista em 1988 do Prémio de poesia Nacional O Facho. Em 1989 publicou no livro coletivo Fogo Cruzado (AGAL) o relato O pêndulo sob o pseudónimo Jorge Mário Novais. Em 1993 foi prémio ex-aequo junto a Xavier Alcalá no certame de narrações breves Manuel Murguia de Arteijo pelo seu relato Retrato antigo:pinturas e superfícies. No mesmo certame recebeu em 2016 o 3º prémio pelo relato A Aranha de Sidney . Publicou em 2002 no livro comemorativo dos 10 anos do prémio Manuel Murguia o relato Porco Transgénico.
Em 1995 publicou Nocturnos indígenas na obra coletiva 7 Poetas com o grupo Hedral, do que formou parte.
Em Fevereiro de 2020 publicou Obscura Anatólia na editora Urutau, o seu primeiro poemário a título individual.
No âmbito da filosofia tem várias publicações em Portugal e na Galiza sobre o filósofo portuense José Marinho. Especialmente interessado pelas vias iniciáticas da Tradição primordial está a dirigir a sua criação atual na interação de filosofia, poesia, teatro e música para resgatar a conexão originária e viva da arte na sua função espiritual e sapiencial. Tenta ligar-se a um pensamento libertário que integre as sabedorias ancestrais e originárias da raça humana.
É colaborador da revista digital Palavra Comum onde tem publicado ensaio, poesia e narrativa.
José António Lozano Garcia

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