Mote alheio:
Verdes são os campos
Da cor do limão:
Assi são os olhos
Do meu coração
Voltas:
Campo que te estendes
Com verdura bela
Ovelhas que nela
Vosso pasto tendes,
D’ érvas vos mantendes
Que traz o Verão,
E e eu das lembranças
Do meu coração.
Gado que paceis
C’o contentamento,
Vosso mantimento
não o entendeis;
isso que comeis
não são ervas, não:
são graças dos olhos
do meu coração.
(Luis de Camões)

Etimologicamente, na língua inglesa, “to thank” (agradecer) e “to think” (pensar) são a mesma palavra. Ao definir a etimologia de “thank” o Oxford English Dictionnary é claro: “The primary sense was therefore thought”. E, do mesmo modo, em alemão, zu danken (agradecer) é originariamente zu denken (pensar). Heidegger observou isto e desenvolveu o seu pensamento na perspetiva de uma meditação do cuidado e da cura, e da gratuidade do ser. Isto leva-nos à palavra “coração” que está associada ao órgão psico-espiritual de todas as tradições sapienciais. Por exemplo, no budismo encontramos o Sutra do Coração, expressão da “perfeição da sabedoria” Também significa que é o o órgão da vivificação do organismo porque é a mente compreensiva e abrangente não só numa dimensão intelectual ou cognitiva mas contemplativa e anímica. Um conhecimento sem “coração” carece de sentido, é algo morto. Na filosofia de Heidegger e dos filósofos antigos a questão da memória e o esquecimento tem a ver com a questão do recordo da realidade essencial, velada pola dimensão objetual e fenoménica (ôntica) do ser. Mas “recordar” é literalmente voltar a passar no coração. Aprender de cor, “learnt by heart”, “par coeur” são as expressões que ainda utilizamos para dizer que aprendemos de memória. No poema de Camões podemos ver a ressonância de esta frase de Ibn Arabi na que o coração é o elemento primordial da gnose e onde o “eu” não deve ser confundido com o eu biográfico do poeta.
“Na verdade o mundo é imaginação. É Deus lembrando-se de si em concordância com a sua realidade essencial” (Fusus al –Hikam, Os engastes das sabedorias)
Mas que tem a ver isto com os médicos e a medicina? A palavra médico procede da raiz indoeuropeia “med” que da lugar à forma latina “medeor”(cuidar) e meditari (meditar), que em grego é “medomai” (pensar, meditar, cuidar). Esta relação curiosa entre o cuidado e o pensamento ainda a temos no galego na expressão “eu coido” co sentido de “eu penso”, pouco usada hoje ainda que se abusasse dela noutra época. Os reintegracionistas deveríamos reivindicá-la.
A palavra médico procede da raiz indoeuropeia “med” que da lugar à forma latina “medeor”(cuidar) e meditari (meditar), que em grego é “medomai” (pensar, meditar, cuidar). Esta relação curiosa entre o cuidado e o pensamento ainda a temos no galego na expressão “eu coido” co sentido de “eu penso”
Esta expressão procede de “cogitare”. De aí “coita de amor” também? A perda do “g” intervogálico dá “coitare”, “coidar”. “Cogito, ergo sum”, dizia Descartes, mas ele não sabia de “coidados” do coração. Como não sabe o pensamento ocidental moderno. O poeta afegão contemporâneo, Khalilullah Khalili (1907-1987) escreve:
O gnóstico vê um mundo no coração de um átomo
Ele vê ali um sol, uma lua e uma constelação!
Que cegueira deste mundo nosso!
O cientista discerne os membros e as cabeças dos mortos
A prática da medicina significa uma forma de meditação e ponderação que se baseia na observação sintomática, e parece indicado conceber uma certa transferência nessa relação entre o paciente e o médico. A própria palavra “pensar” (cogitare) dá “coidar” mas, surpreendentemente, “cogitare” procede de “co-agitare”, o que implica uma projeção na acção, uma co-acção, uma projecção mútua e um dar-lhe volta às cousas, o que neste último caso nos leva a “recordar”. De facto “pensar”vem do termo em latim “pensare” que traduz um significado de suspender ou “pendurar” e refere-se aos pratos da balança, facto que originou na nossa língua também a palavra “pesar”. Seguindo por esse caminho de sentido figurado, o “pesar os prós e os contras” traduziu-se num enfoque de ponderar, examinar e, por fim, gerou pensar no sentido de refletir, meditar. A sua raiz indoeuropeia é “(s)pen” (esticar, fiar). E aqui aparece Hermes ou Mercúrio, o mediador entre os humanos e os deuses, ou entre o terrestre e o celeste, que leva consigo um caduceu, uma duplicidade da própria vara de Asclépio. Hermes é o patrono do comércio (podemos ver a ligação entre Mercúrio, o Hermes romano, e mercadoria, mercado, comercio) enquanto Asclépio é-o dos médicos. Esta ligação entre economia e medicina é básica porque exprime os princípios fundamentais das trocas entre o que entra e o que sai do corpo, a economia essencial. Escreve Al-Gazzali na Alquimia da felicidade:
“Quando digo “coração” não quero dizer o pedaço de carne situado na parte esquerda dos nossos corpos, mas aquilo que utiliza o resto das nossas faculdades como instrumentos e servos. Na verdade não pertence ao mundo visível mas ao invisível, e veio a este mundo igual que um viageiro a um país estrangeiro: para comerciar e imediatamente voltar ao seu pais de origem”
Médico, meditar, mediar?, medida?, fiar, ligar, confiar, trocar, pensar, compensar, equilibrar, pesar, agradecer, de graça são alguns dos universos semânticos que poderíamos estabelecer com a “arte da medicina”. Esta ideia de que a medicina seja uma “ciência produtiva” é algo novo. Como indica Hans George Gadamer no seu livro “O estado oculto da saúde”, o mundo moderno pretende fazer da saúde um produto mais das suas operações. Grave erro.
Esta ideia de que a medicina seja uma “ciência produtiva” é algo novo. Como indica Hans George Gadamer no seu livro “O estado oculto da saúde”, o mundo moderno pretende fazer da saúde um produto mais das suas operações. Grave erro.
E não vou entrar aqui no que significam as corporações e multinacionais “diabólicas” (no sentido etimológico de separadoras da integridade do ser) porque justamente se trata de contrapor uma concepção “simbólica” (unificadora de diferentes níveis) e manter assim a integridade das relações. Com este fim deixo aqui este conto que do início do Masnavi de Jalaludim Rumi e que simboliza com múltiplos aspetos aqui comentados. Este conto é a base da concepção psicoterapeutica e já está presente em Maria, a judia ou alquimista (S. III n.e) numa versão própria. O psiquiatra suiço Carl Gustav Jung considerava-o a base da sua prática. O “reino” corresponde com a totalidade da pessoa, o “rei” com o Intelecto ou Principio Reitor doente, a princesa, a essência por desenvolver, o ourives os aspetos corruptos e animais do ser, o sábio a intuição profunda da totalidade do ser vinculada à regeneração do Intelecto Superior. Como pode ver-se, não há moralismo. É tudo uma questão “técnica”, quer dizer, uma tekné, uma arte. E o problema, evidentemente, é sempre um problema do “coração”. Os romances sabem disso, os filmes também.
A princesa e o médico

Havia uma vez um rei que tinha uma formosa filha, luz dos seus olhos, esperança viva do seu coração, que subitamente caiu doente. Toda a corte sentiu um profundo obscurecimento, como se uma negra nuvem ocultasse o sol do gozo e o entendimento. O rei procurou os melhores médicos da corte e do reino mas sem resultados. O estado da princesa piorava, o seu pulso latejava irregular, o seu rosto perdia cor e a sua vida parecia fugir, vazia e melancólica. Os doutores contemplavam impotentes o seu estado: poções, ervas e filtros pareciam acrescentar a doença da princesa. Aquela noite o rei compreendeu que em todo esse tempo tinha confiado unicamente nos seus esforços e nos dos seus médicos, esquecendo-se de dizer: Insh’Allah!. Se Deus o quiser! Quando o homem esquece a fonte da generosidade volta-se estéril e impotente. O rei, ajoelhado, chorando como uma criança pediu perdão com toda a sinceridade do seu coração. Essa mesma noite recebeu um visitante num sonho quem lhe anunciou que no dia seguinte apareceria um médico na corte, venerável ancião de cabelos de neve. Devia recebê-lo e facilitar-lhe tudo o que pedisse. E assim foi. O rei, inquieto, olhava desde o seu palácio os caminhos tentando distinguir um viageiro insigne. E ali apareceu, tal e como tinha sido anunciado, o velho físico dos sonhos, dos sonhos… de um rei. Gentilmente foi recebido e, sem mais cerimónias, pediu que se lhe levasse perante a princesa. Houve uma hesitação pelo que parecia um excesso de precipitação e os cortesãos clamaram ao céu quando o médico pediu ficar só com a princesa. O rei aceitou a condição do ancião mas podia sentir os murmúrios de desaprovação que o rodeava. O velho médico sorria com gentileza e graça, e o seu vivo olhar parecia desterrar qualquer dúvida. Ele simplesmente olhou para os murmuradores e eles sentiram que tinham que calar-se. Quando um homem é realmente um homem não precisa explicar-se muito. A princesa estava inconsciente no seu leito. O médico, na sua solidão, podia distinguir apesar da sua doença, a beleza das suas facções. O sábio começou a falar suavemente, com a sua grave voz, com uma cadência envolvente e serena. Os olhos da princesa abriram-se mas a sua lassidão não a abandonava. Um médico mais, pensou! Tomando o seu pulso o médico começou a lhe fazer diversas perguntas sobre a sua vida, a sua infância, as suas viagens. Subitamente quando mencionou a cidade de Samarcanda o médico notou como o coração da princesa se acelerava. Comprendeu, então, que tinha que seguir essa pista. Falou dos bairros da cidade, dos seu lugares, dos seus homens e mulheres até que desvelou o segredo. A princesa estava fortemente apaixonada de um ourives de Samarcanda. O sábio convenceu o rei de que era absolutamente necessário que o ourives fosse trazido à corte. Com dor de coração, mas confiado na recuperação da sua filha o rei enviou uma carta solicitando a presença do ourives no seu palácio. O ourives, estimulado pela codícia, acudiu rapidamente abandonando a sua mulher e os seus filhos. A princesa e o ourives viveram uma paixão intensa. A princesa recuperou a saúde e o ourives começou a mostrar as suas verdadeiras qualidades: tratava ao rei com arrogância, mostrava actitudes indolentes e era um déspota com os servidores. O rei era infeliz e chamou ao velho sábio:
– Que podemos fazer, ó velho amigo! Que desgraça assola ao meu reino? Como podo entregar a minha filha a um meio homem, criado na baixeza e na insolência, na petulância vulgar? Não sou responsável da triste situação da minha filha? Ajuda-me, amigo.
– Tudo tem o seu tempo para alcançar a maturidade. É o momento da medicina, disse o sábio enigmaticamente.
A partir de então o sábio começou a introduzir na bebida do ourives uns pós que começaram a ter uns estranhos efeitos. A cada dia que passava o ourives perdia o seu cabelo, envelhecia e o seu carácter piorava, voltando-se colérico e obsessivo. A princesa começou a rejeitá-lo primeiro e a sentir nojo mais tarde. Finalmente o ourives foi deixado às portas do palácio como um mendigo, pelos caminhos do mundo. O ancião, pelo contrario, sofreu uma estranha transformação. Cada dia era mais novo, os seus cabelos recuperaram o negro azulado e os seus olhos profundos iluminavam de jovialidade e vida o interior dos seres. A princesa reparou nele e apaixonou-se “do velho”, mas desta vez sentindo o despertar do profundo amor que emanava do sábio como uma estranha força da natureza. O sábio desposou a princesa e o rei foi imensamente feliz até o resto dos seus dias. E acaba Rumi: O amor que é só pelo corpo não é amor, é uma vergonha. Se a história che parece cruel nalgum ponto reflecte bem e pensa que os actos de Deus estão além da crítica humana.
Provérbio:
Algum dia todos levaremos uma camisa que não leva mangas.
