Sobre o método: o que fazer? (e III)



III

Desejo então regressar àqueles que preferem detestar ou ridicularizar os afectos e acções dos homens, em vez de os compreender. A estes parecerá sem dúvida admirável que me proponha examinar os vícios e ineptidões dos homens de acordo com o método geométrico, e que deseje demonstrar por uma certa razão as cousas que proclamam ser contrárias à razão, vãs, absurdas e hediondas. Mas a minha razão é a seguinte: que nada acontece na natureza que possa ser atribuído a um vício deles. Pois a natureza é sempre a mesma, e uma e a mesma em todo o lado é a sua virtude e poder de acção; isto é, que as leis e regras da natureza, segundo as quais todas as cousas são feitas e mudam de umas formas para outras, são sempre e em todos os lugares a mesma cousa; e, portanto, uma e a mesma deve ser também a razão para compreender a natureza das cousas, sejam elas quais forem, nomeadamente, através das leis e regras universais da natureza. Assim, os afectos de ódio, raiva, inveja, etc., considerados em si mesmos, decorrem da mesma necessidade e virtude da natureza que outras cousas singulares; e admitem, portanto, de certas causas pelas quais são compreendidos, e têm certas propriedades tão dignas do nosso conhecimento como as propriedades de qualquer outra cousa, cuja mera contemplação nos agrada. Tratarei portanto da natureza e das forças dos afectos e do poder da alma sobre eles pelo mesmo método pelo qual tratei anteriormente de Deus e da alma, e considerarei as acções e os apetites humanos como se fossem linhas, planos, ou corpos.

(Baruch Spinoza, em Etica, Sobre a natureza e origem dos afectos, Prólogo).

simulação do milénio luz galáctica.

simulação do milénio luz galáctica.

Ibn Arabi é recordado como o autor da doutrina da unicidade do ser (o Wahdat al Wuÿûd) embora raramente tenha utilizado esta expressão e não parece ter tido a intenção de criar qualquer doutrina. Esta é uma criação posterior que é útil se forem tomadas precauções. As precauções têm a ver com a fixação de uma ideia de sistema ou algo que pode tornar-se uma “filosofia” ou algo do género. O pensamento de Ibn Arabi não se destina à filosofia no sentido ocidental. Depende realmente da percepção. Sem percepção interior, não tem sentido. O facto é que a palavra “wujûd” foi traduzida como “existência” ou “ser” mas a sua etimologia árabe refere-se a “encontro”, vindo do verbo “waÿada” (encontrar, no seu significado primário, ser afectado: de amor, de ódio, de alegria, de tristeza, etc., no seu significado secundário). Este significado da existência como lugar de encontro implica a compreensão de que é uma realidade simbólica, é como o lugar de um encaixe entre um interior e um exterior, um exterior (Al Zahir) e um interior (Al Batin).

O facto é que a palavra “wujûd” foi traduzida como “existência” ou “ser” mas a sua etimologia árabe refere-se a “encontro”, vindo do verbo “waÿada” (encontrar, no seu significado primário, ser afectado: de amor, de ódio, de alegria, de tristeza, etc., no seu significado secundário).

Por simbólico, refiro-me ao seu significado original, à forma como uma chave cabe numa fechadura. Na Grécia antiga, Symbolo era a moeda ou objeto dividido em dous que era dado a algumas pessoas separadamente e que constituiria a palavra-passe ou o reconhecimento quando ambas as partes fossem novamente colocadas juntas. Este duplo aspecto sobre um fundo unitivo em que a realidade se encaixa está directamente relacionado com os Nomes Divinos. São as qualidades essenciais, as presenças que fluem em nós, mas das quais muitas vezes desconhecemos. Eles surgem das profundezas do nosso coração onde o mistério do hadith é realizado: “Aquele que se conhece a si mesmo conhece o seu senhor” ou mais explicitamente o hadith que diz: “Nem o céu nem a terra Me podem conter. Mas o coração do Meu fiel servo pode conter-Me”. Para a maioria das pessoas a existência acontece independentemente de nós próprios, mas a verdade é que é a expressão para cada um de nós de uma certa configuração ou constelação dos nomes divinos. Assim, a mesma realidade será abordada de uma forma diferente para aqueles para quem um nome ou outro prevaleça em algum momento. Assim o encontro com o real pode ser velado, alienado da sua própria fonte: aquele cuja qualidade essencial predominante é Rahma (misericórdia), por exemplo, pode ser atirado para uma dura realidade, de corações de pedra. A projecção no mundo da sua qualidade essencial velada pela sua fonte luminosa, frequentemente atribuída a um mérito do seu eu mortal, do seu egoísmo, não lhe permite ver que a dureza do coração é a visão que ele percebe através do seu véu, um véu que é de um certo Nome (Al-Rahman, neste caso).

Para a maioria das pessoas a existência acontece independentemente de nós próprios, mas a verdade é que é a expressão para cada um de nós de uma certa configuração ou constelação dos nomes divinos. Assim, a mesma realidade será abordada de uma forma diferente para aqueles para quem um nome ou outro prevaleça em algum momento.

A imperiosidade do Nome tem um aspecto de mandato, de ordem: não escolhemos ter algumas qualidades ou outras, somos essas qualidades essenciais em potencial, ou em acto, quer queiramos quer não. É por isso que o auto-conhecimento é fundamental e consiste em começar a ver que tudo o que nos acontece na vida tem uma relação íntima com a nossa singularidade. Tudo aquilo a que chamamos negativo é a pedra de toque que nos permite compreender a realidade profunda da nossa própria essência e agir ao serviço desta realidade. Seguindo o exemplo anterior, é como se um homem carregando água de um rico poço da sua propriedade sentisse a sede como hostil, o que seria uma fonte de tribulações intermináveis para este homem. Só quando compreendesse que o seu poço está ali para o serviço dos sedentos é que a sua tensão desapareceria e a sua plenitude se realizaria, pois veria como os sedentos se enchem de satisfação enquanto bebem a água do seu poço. Então a sua relação com o mundo mudaria. Não haveria um desencontro, mas sim um verdadeiro encontro. O desencontro implica um dualismo, como se os elementos do símbolo permanecessem sem ligação, o encontro (existência como wujûd) é uma confluência através de uma ordem necessária. Necessidade, imperiosidade e soberania vêm da própria fonte do ser, da natureza mais íntima do nosso ser, da profundidade potencial que brota do nosso coração. Assim, as qualidades ou atributos essenciais não pertencem à pessoa, excepto como servidor. Só estando ao serviço podemos ter uma relação autêntica com a realidade do nosso ser essencial, um ser que não fizemos “nós” e, assim, actualizarmos os atributos essenciais. Daí que a Wujûd tenha esta dupla perspectiva de ser afectada por elementos opostos. Diríamos que a polaridade é uma dimensão própria da existência precisamente devido a este afloramento da essência (Dhat), o que implica uma renovação do próprio wujûd a cada instante. Mas estas manifestações têm sempre lugar através de fontes de consciência, através da vida do real, que também inclui seres inanimados e os diferentes mundos de percepção.

O congresso continua e a vida agita-se nele, a necessidade imperiosa de acontecimentos, de propósitos, de acções humanas que satisfagam necessidades e mandatos. Não podemos continuar a olhar para o mundo como hostil, é o nosso mundo e a nossa responsabilidade. O que seria trágico é que morrêssemos de sede sem abrir o nosso próprio poço. Voltar o nosso rosto para a origem, para a fonte, em vez de perseguir sombras a correr aqui para acolá. Há um trabalho que só podemos fazer parando e voltando-nos para o nosso coração, tão esquecido. Mas não descansa, chamando-nos de novo e de novo, a cada momento. Será que vamos escuitar?

Saber dar e saber receber completam a generosidade (provérbio)

José António Lozano Garcia

José António Lozano Garcia

Nasceu na cidade da Corunha em 1967. É professor de Filosofia no ensino secundário. Foi finalista em 1988 do Prémio de poesia Nacional O Facho. Em 1989 publicou no livro coletivo Fogo Cruzado (AGAL) o relato O pêndulo sob o pseudónimo Jorge Mário Novais. Em 1993 foi prémio ex-aequo junto a Xavier Alcalá no certame de narrações breves Manuel Murguia de Arteijo pelo seu relato Retrato antigo:pinturas e superfícies. No mesmo certame recebeu em 2016 o 3º prémio pelo relato A Aranha de Sidney . Publicou em 2002 no livro comemorativo dos 10 anos do prémio Manuel Murguia o relato Porco Transgénico.
Em 1995 publicou Nocturnos indígenas na obra coletiva 7 Poetas com o grupo Hedral, do que formou parte.
Em Fevereiro de 2020 publicou Obscura Anatólia na editora Urutau, o seu primeiro poemário a título individual.
No âmbito da filosofia tem várias publicações em Portugal e na Galiza sobre o filósofo portuense José Marinho. Especialmente interessado pelas vias iniciáticas da Tradição primordial está a dirigir a sua criação atual na interação de filosofia, poesia, teatro e música para resgatar a conexão originária e viva da arte na sua função espiritual e sapiencial. Tenta ligar-se a um pensamento libertário que integre as sabedorias ancestrais e originárias da raça humana.
É colaborador da revista digital Palavra Comum onde tem publicado ensaio, poesia e narrativa.
José António Lozano Garcia

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