Política e gentileza



Após a insurreição de 17 de Junho
O secretário da União dos Escritores
Fez distribuir panfletos na Alameda Estaline
Em que se lia que, por culpa sua,
O povo perdeu a confiança do governo
E só à custa de esforços redobrados
Poderá recuperá-la. Mas não seria
Mais simples para o governo
Dissolver o povo
E eleger outro?

(Bertolt Brecht, A solução)

20-historias-do-almanaqueBertolt Brecht é o autor de um conhecido poema intitulado A lenda da origem do livro Tao Te King no caminho de Lao Tse para a emigração”. Walter Benjamin, nos seus comentários sobre o este texto do autor alemão destaca a importância da gentileza. Esta não consiste em fazer simples favores ao passo mas em realizar grandes cousas como se fossem pequenas. A maneira em que isto se realiza é uma expressão da sabedoria íntima que marca uma condição política essencial. A sabedoria não é simplesmente uma riqueza pessoal mas a nutrição que pode permitir a existência de uma política autêntica. Portanto, não seria para Brecht ou Benjamin um instrumento para a política, mas a expressão aperfeiçoada de uma verdadeira política. Mas onde está essa política? Os tempos parecem já então obscuros e Lao Tse tem que sair da China, um exilado aos seus setenta anos, um velho mestre a sair sem pena nem glória por ínvios caminhos. Não parece que a sua sabedoria ofereça grandes benefícios ao atormentado mundo. Mas Bertolt Brecht apropria-se da figura de Lao Tse, volta-a contemporânea. Repete-se uma e outra vez a mesma história? Há um choque entre a “política realista” e a sabedoria? Brecht parece entrever um problema eterno da condição humana.

1

Quando estava com setenta anos, e alquebrado,
O mestre ansiava mesmo era por repouso
Pois a bondade mais uma vez se enfraquecera no país
E a maldade mais uma vez ganhara força.
E ele amarrou o sapato

2

E juntou ele o de que precisava: Pouco.
Mas mesmo assim, isso e aquilo.
Como o cachimbo, que ele sempre fumava à noite
E o livrinho que sempre lia.
Pão branco sem muito calcular

A figura humilde do grande mestre contrasta com o grande império da China, com o fracasso do próprio Confúcio, afogado polas suas próprias convicções humanitárias, morais e reformistas. A vida é escura, caótica, as guerras e os distúrbios sucedem-se, as políticas quebram-se uma atrás outra. Não há filosofias, nem grandes homens que ajudem a endereçar a situação. Benjamin, citando um filósofo chinês da antiguidade diz: “Os clássicos viveram nos tempos mais escuros e sangrentos e eram as pessoas mais gentis e alegres jamais vistas”. Podemos intuir como o próprio Walter Benjamin vê prefigurado o Angelus Novus da história: uma sucessão interminável de crimes e genocídios onde o poder uma e outra vez se mostra na sua barbárie, para melancolia do historiador historicista (mas que historiador não acaba por ser historicista finalmente?) . E porém, porém… O sábio é alegre, bondoso, gentil. Como é possível? A gentileza exprime-se nos diferentes elementos do poema: no rapaz, no aduaneiro, no sábio. Há uma incerta ligeireza no contexto que invita a uma pergunta e uma petição ousada por parte do alfandegário.

4

Mas no quarto dia, numa penedia
Um aduaneiro barrou-lhe o caminho:
Bens a declarar?”– “Nenhum.”
E o menino, que conduzia o boi, falou: “Ele ensinou.”
E assim também isso ficou explicado.

5

Mas o homem, tomado por alegre impulso
Ainda perguntou: “E o que ele tirou disso?”
Falou o menino: “Que a água mole em movimento
Vence com o tempo a pedra poderosa.
Tu entendes, o que é duro não perdura.”

A barragem, o obstáculo que o aduaneiro representa “numa penedia” é livrado com a resposta viva do rapazinho. Podemos intuir o orgulho e vivo afeto do rapaz que faz de interlocutor e diplomata entre o sábio e o aduaneiro. O velho sábio permanece no seu próprio silêncio permitindo que seja o rapaz quem leve a “voz cantante”. É o jeito de deixar que a vida se exprima por si mesma, que cada elemento cumpra a sua função de serviço, ao mesmo tempo que se “cumpra aquilo que tenha que ser”. O dogmatismo, as ideias fixas, a teimosia que se assenta nas posições rígidas (em parte representado por um aspecto do aduaneiro) é desarmado pola paciência e atitude gentil do sábio.

7

O que está por trás dessa água, velho?”
Deteve-se o velho: “Isso te interessa?”
Falou o homem: “Eu sou apenas guarda de aduana
Mas quem vence a quem, isto também a mim interessa
Se tu o sabes, então fala!

8

Anota-o para mim! Dita-o a este menino!
cousa dessas não se leva embora consigo.
Papel há em casa, e também tinta
E um jantar igualmente haverá: ali moro eu.
E então, é a tua palavra?”

9

Por sobre o ombro, o velho mirou
O homem: jaqueta remendada. Descalço.
E a testa, uma ruga só.
Ah, não era um vencedor que dele se acercava.
E ele murmurou: “Também tu?”

10

Para recusar um pedido gentil
O velho, como parecia, já estava demasiado velho.
Então disse em voz alta: “Os que algo perguntam
Merecem resposta.” Falou o menino: “Também vai ficando frio.”
Está bem, uma pequena estada.”

Não era um vencedor o que perguntava. Não era de aqueles arrogantes, pagados de si mesmos que são incapazes de compreender a suavidade, a gentileza, a força da água, a fecundidade do feminino. Mas aqui a pobreza vai acompanhada da riqueza de querer saber. Também cabe supor um último serviço do sábio baixando-se do boi, parando uma semana numa pequena choupana a escrever a obra mestra como quem simplesmente arranja o carro e continua o seu caminho. Todos os gestos e pequenos feitos que dão lugar a uma fundamental e latente história da China. Uma China subterrânea que se disfarça de confuciana mas que tem no exílio ao velho mestre.

11

E o sábio apeou do seu boi
Por sete dias escreveram a dois.
E o aduaneiro trazia comida (e nesse tempo todo apenas
Praguejava baixo com os contrabandistas).
E então chegou-se ao fim.

12

E o menino entregou ao aduaneiro
Numa manhã oitenta e uma sentenças
E agradecendo um pequeno presente
Entraram pelos rochedos atrás daquele pinheiro.
Dizei agora: é possível ser mais gentil?

13

Mas não celebremos apenas o sábio
Cujo nome resplandece no livro!
Pois primeiro é preciso arrancar do sábio a sua sabedoria.
Por isso agradecimento também se deve ao aduaneiro:
Ele a extraiu daquele.

20-lao-tse-sobre-um-boi

lao Tse sobre o boi que o leva fora da China.

Bertolt Brecht mostra uma das grandes lições políticas através da gentileza. Não é algo a imitar, não é uma táctica, nem tampouco se trata de uma operação de marketing. Mais bem é a evidência de uma maneira de habitar o mundo que não pode ser alheia à política. Se a política, como expressão da eticidade e como cumprimento da mesma, tem um sentido apenas é o próprio desenvolvimento da natureza inata do ser. Lao Tse deixou, num ato de gentileza e compaixão, uma obra mestra sem apenas dar por isso. O que entendemos por política amiúde esconde limitadas e distorcidas visões que evitamos analisar por um sentido pragmático mais imediato mas que ao cabo pode resultar pouco inteligente. Certamente a política não pode ser feita como uma mera questão de gentileza, esta mais bem aparece como um indício de algo muito mais elevado na figura do sábio, como se o simples gesto do filósofo exilado fosse a confirmação da ausência de verdadeira política ali onde é praticada com fruição polos politiqueiros (homens de reuniões e conspirações que confundem as suas curtas perspetivas com o bem comum e o seu ego com o mundo). Lembra-nos também o caso de Sócrates, enfrentado ao governo dos Trinta Tiranos e condenado a morte no momento da restauração da democracia. As intenções, as lutas concebidas como uma tecnologia dos saberes políticos ou como uma mecânica da história naufragam no espelho imperturbável da natureza taoísta e mostram o grau de loucura egocéntrica de aquela perspetiva. Ninguém que tenha um pouco de consciência básica pode deixar de percebê-lo. A solução proposta por Brecht no início do artigo, e que reflete sobre a repressão produzida por um governo “comunista” da RDA contra os próprios operários que se negaram a construir uma praça em homenagem a Staline em 1953 é eloquente da situação. Paradoxalmente a Realpolitik tem sempre um problema chamado realidade. Pode que as ideologias tenham como função cercear esta realidade sem complexos de culpa mas não podem evitar que se faga um balanço: mereceu a pena? A resposta não costuma ser otimista exceto para os fanáticos que estão dispostos a imolar-se a si e aos outros no altar da sua vaidade, do seu orgulho ou da sua estupidez. Como todos os sistemas de crenças, promovem o doutrinamento com entusiasmo. A realidade incomoda. Lao Tse lembra-nos que água mole vence à pedra dura, que o feminino supera ao masculino, que o fraco perdura e o forte perece. Que o silêncio é o fundamento da palavra e a não-ação da ação. Que a verdade é a mentira e que aquilo que nos parece decente e digno de ser admirado só é uma farsa persistente. Toda uma inversão dos valores.

A realidade incomoda. Lao Tse lembra-nos que água mole vence à pedra dura, que o feminino supera ao masculino, que o fraco perdura e o forte perece. Que o silêncio é o fundamento da palavra e a não-ação da ação. Que a verdade é a mentira e que aquilo que nos parece decente e digno de ser admirado só é uma farsa persistente. Toda uma inversão dos valores.

O Tao te King não é precisamente um tratado sobre a gentileza como nos lembra Benjamin mas é o fruto da mesma. O Livro do Curso e a Virtude não nos mostra sempre a cara amável da sabedoria, não aquilo que na nossa condição dependente e comum esperaríamos. A palavra singela da sabedoria não está aí para ser votada nas assembleias. Nem sequer tem a pretensão de convencer ninguém. Que terá a ver a compreensão com a convicção? Gentilmente, a palavra de Lao Tse expressa as cousas tal como são, para além de apreços e desapreços.

O Céu e a Terra não têm amor humano;
Consideram as dez-mil-cousas como cães de palha
O homem real não possui amor humano;
Considera as dez-mil-cousas como cães de palha.
O espaço entre o céu e a terra é como um fole!
Esvazia sem contrair-se, ao soprar-se mais sons produz.
Mas muitas palavras e números o esgotam
Melhor guardar o que está no íntimo.

Mas como estes últimos versos do Tao Te King reconhecem as palavras não fazem compreender ao homem. Apesar disso uns versos de Ferreira Gullar servirão para rematar este artigo que patentemente deve mais a outros que à própria capacidade do autor, mas onde estejam os mestres melhor fazer como o rapazinho que acompanha ao velho sábio, pormo-nos a um lado e não incomodar.

A poesia é, de fato, o fruto
de um silêncio que sou eu, sois vós,
por isso tenho que baixar a voz
porque, se falo alto, não me escuto.
A poesia é, na verdade, uma
fala ao revés da fala,
como um silêncio que o poeta exuma
do pó, a voz que jaz embaixo
do falar e no falar se cala.
Por isso o poeta tem que falar baixo
baixo quase sem fala em suma
mesmo que não se ouça coisa alguma.

José António Lozano Garcia

José António Lozano Garcia

Nasceu na cidade da Corunha em 1967. É professor de Filosofia no ensino secundário. Foi finalista em 1988 do Prémio de poesia Nacional O Facho. Em 1989 publicou no livro coletivo Fogo Cruzado (AGAL) o relato O pêndulo sob o pseudónimo Jorge Mário Novais. Em 1993 foi prémio ex-aequo junto a Xavier Alcalá no certame de narrações breves Manuel Murguia de Arteijo pelo seu relato Retrato antigo:pinturas e superfícies. No mesmo certame recebeu em 2016 o 3º prémio pelo relato A Aranha de Sidney . Publicou em 2002 no livro comemorativo dos 10 anos do prémio Manuel Murguia o relato Porco Transgénico.
Em 1995 publicou Nocturnos indígenas na obra coletiva 7 Poetas com o grupo Hedral, do que formou parte.
Em Fevereiro de 2020 publicou Obscura Anatólia na editora Urutau, o seu primeiro poemário a título individual.
No âmbito da filosofia tem várias publicações em Portugal e na Galiza sobre o filósofo portuense José Marinho. Especialmente interessado pelas vias iniciáticas da Tradição primordial está a dirigir a sua criação atual na interação de filosofia, poesia, teatro e música para resgatar a conexão originária e viva da arte na sua função espiritual e sapiencial. Tenta ligar-se a um pensamento libertário que integre as sabedorias ancestrais e originárias da raça humana.
É colaborador da revista digital Palavra Comum onde tem publicado ensaio, poesia e narrativa.
José António Lozano Garcia

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