Presente contínuo na terra natal



Tentei encontra-lo na cruz dos cristãos, mas ele não estava lá.
Fui até os templos dos hindus e visitei os antigos pagodes
mas não achei nem mesmo o seu rastro…

Eu escalei montanhas e o busquei nos vales, procurei na montanha de Qaf
mas nem nas alturas nem nas terras baixas consegui encontra-lo.

Fui até a Caaba em Meca, mas não o vi nesse turístico lugar
Questionei os eruditos e os filósofos,
mas ele estava além do seu entendimento…

Então finalmente olhei para o meu coração
e lá estava ele.

Tentei encontra-lo na cruz dos cristãosFoi onde ele morava que o vi;
ele não poderia ser encontrado em nenhum outro lugar. 

(Jalaluddin Rumi)

Fotografia do filme "A cor das romãs" do arménio de Serguéi Paradzhánov.

Fotografia do filme “A cor das romãs” do arménio de Serguéi Paradzhánov.

Hoje cumpre-se um ano da abertura desta secção em que me comprometi a transmitir algumas noções da sabedoria tradicional que são tão necessárias para o nosso mundo contemporâneo. E hoje toca despedir-se por um bom tempo, tempo indefinido, na verdade. Claro que ficam muitos temas por tratar mas considero cumprido o meu objetivo. Basicamente tentei comunicar a necessidade de orientar-se cara um enraizamento na espiritualidade como tarefa filosófica primordial, de abrir um caminho que apenas está explorado no nosso contexto. E a ausência de curiosidade nesta área humana é produto de um condicionamento e de uma educação degradante. E também penso que é devido a uma experiência servil e pouco autónoma da cultura galega. Portanto, o meu contributo depois de anos de ausência do mundo social e cultural põe um grão de areia que sentia devia aportar. A razão é que, ainda que me sinto mui longe de problemas e controvérsias do nacionalismo e da “cultura galega” sinto um vínculo humano e um calor para com todas as pessoas que foram importantes para mim desde os meus tempos de membro de Agal nos anos oitenta e ativista da língua galego-portuguesa. Anos de aprendizagem e efervescência que me levaram bem mais longe do que nunca tinha imaginado. Mas também com o sentimento de que devia alguma explicação. Durante este ano dei alguns elementos de esta via solitária e solidária a um tempo. Digo solitária no que significou de separação do universo de compreensão do meu próprio contexto humano e cultural. Não que fosse algo secreto ou clandestino mas as pessoas que nos rodeiam só vêm o que podem ver. Muitas vezes só vêm o que os seus preconceitos lhes permitem ver. Não digo isto como uma crítica mas como a simples constatação de um facto da psicologia e da compreensão humana. Ninguém pode compreender mais do que tem realizado pessoalmente e esse facto devemos aceitá-lo tal como é ainda que às vezes produz certa tristura.

Basicamente tentei comunicar a necessidade de orientar-se cara um enraizamento na espiritualidade como tarefa filosófica primordial, de abrir um caminho que apenas está explorado no nosso contexto. E a ausência de curiosidade nesta área humana é produto de um condicionamento e de uma educação degradante. E também penso que é devido a uma experiência servil e pouco autónoma da cultura galega.

Na atualidade falar de estas questões pode não parecer tão estranho, começa a haver uma abertura entre pessoas de diversas idades e condições. Há trinta anos era bem diferente. Mas quando vemos com clareza um caminho temos que segui-lo. E, numa certa altura, não há outro caminho… Tudo resulta secundário em relação ao nosso propósito fundamental como seres humanos. Em realidade tudo se integra de outro jeito e aprendemos a pôr em perspetiva o verdadeiro foco dos problemas. Damos relevância ao relevante e procuramos evitar o irrelevante. O irrelevante aqui é esse jeito em que os seres humanos nos tratamos uns aos outros, esse jeito de tentar prevalecer por cima de tudo, chamar a atenção, procurar um reconhecimento, querer afirmar um status ou procurar quotas de poder ridículas. Todas essas doenças do nosso egotismo e muitas mais devem ser tratadas urgentemente e não há vacina de nenhum laboratório que nos resolva essa grave pandemia. Mas se amanhã houver algum que o prometa…desconfiem!

Quero expressar ao PGL a minha gratidão polo acolhimento e a confiança, pola democracia total e pola capacidade dinâmica e aberta de procurar uma interação com tantos setores e perspetivas diferentes. Isto também era impensável há trinta anos. Precisamos a diversidade e as diferenças como a água no deserto.

Quero expressar ao PGL a minha gratidão polo acolhimento e a confiança, pola democracia total e pola capacidade dinâmica e aberta de procurar uma interação com tantos setores e perspetivas diferentes. Isto também era impensável há trinta anos. Precisamos a diversidade e as diferenças como a água no deserto.

Especialmente a minha gratidão para Charo Lopes quem com o seu entusiasmo, maturidade, dedicação e gentileza em todo momento suportou a minha, as vezes, maçadora correção de gralhas de última hora.

E queria acabar com o extraordinário poema de Alice Ghiragossian (1936-2014) que condensa muitos pensamentos dos aqui desenvolvidos e que espero que seja compreendido como parte de essa sabedoria essencial que necessitamos como a água, como o ar, como a terra e a luz, como a vida mesma. Um forte abraço de coração!

CARTA PARA A ARMÊNIA

Terra Armênia,
eu te escrevo
da cidade longínqua de Buenos Aires,
passados dois anos de nossa separação.

E eu espero que
minha carta
aos teus sóis
e às tuas montanhas tu a leias,
e que me respondam tuas águas,
os confidentes íntimos
de tuas raízes…
e que me responda tua alma,
e que responda tão somente
com aquela sua verdade única,
que é minha também.

Terra Armênia,
tu me chamas.

Tem necessidade de ti e te chama
também o meu sangue,
e a mim atormenta a febre da espera.

Outros tantos amores
emocionam somente
num piscar de olhos.

São teus, Armênia,
meu tempo inteiro intocado
e as mais límpidas
de minhas lágrimas.

Terra Armênia,
quando eu quero dar-te um nome,
em mim desperta uma oração oculta,
a mais antiga.

Quando eu te canto,
o movimento dentro de mim é
o início de minha célula mais nova.

Não sei, se grito, se choro,
se mesclo silenciosamente às minhas lágrimas
a dor da minha saudade,
que é inenarrável.

Eu sonho contigo
e a nuvem límpida de minha essência
se une a ti,
e vou a um banho eterno.

Mesmo eu ainda não tendo te visto,
reconhecia tuas pedras.

Depois te vi,
te toquei,
te respirei,
dissolvi na água
e me tornei pó nos teus ventos.

Sabes,
nossa união
é antiga,
eu existo primeiro em tuas lembranças.

Eu vivi na tua terra
agitada pelo vento,
como uma fatalidade inevitável,
e algum dia retornaria
para o meu começo,
para encontrar minha inocência
e minha essência,
sem elo com o mundo,
relativa,
nesse jogo.

Desse mundo
venho aqui
para cumprir as leis,
leis simples de movimento da matéria.

Porque aquilo tudo
que é narrado
da terra mãe,
do sangue,
da nuvem e da montanha,
do pão e da glória,
do sal e da luz,
da música,
da poesia,
das lágrimas,
do abismo,
do estremecimento
e das pedras
continuamente me conta sobre ti.

Não é que eu vi
o Hrazdan,
com o choque eterno da pedra e da água,
o que ele desenha.

E sob as nuvens vi o palpitar
do monte Ararat,
a montanha Ararat,
uma explosão enorme
que me incendiou
sem lava…

A mim me perguntam
— “Armênia, o que é?… ”

Mas será que é fácil assim explicar
completamente?

Será que dá para decifrar a fé,
o que é Deus?…

E como contar sobre o tremor,
sobre a fé?

E como desnudar a essência
para dar mostras
da imagem do amor?

Agora ela e eu
somos uma união,
e com a totalidade de nossa verdade,
e com nossos sonhos etéreos,
e com nossa face marcada pela tortura e desgraça,
e com o berço branco e cálido,
não temos necessidade de discursos e palavras,
porque as almas em silêncio
se unem uma a outra.

Terra Armênia,
eu ascendi com as asas de tua glória,
com tuas perdas sangrei,
rezei com tuas mães,
com tuas feridas me afligi,
com teus nascimentos, uma singela alegria.

Por cinco mil anos
tenho estado com teu sofrimento.

E isso tudo como explicar
àqueles homens que
a mim me perguntam:

“Acaso você gostou da Armênia?”

E eu queria dizer para esses homens:
— Eu vivo a Armênia, homens,
eu a vivo na pele com suas velhas cores,
com seu aroma solitário,
e a sinto com minhas raízes…

E eu não fui a ela para ver e crer,
fui lá para nascer de novo
e buscar minha luz primeira
e para começar do meu ano zero.

Tu que me conheces
e entendes meu grito único,
sabes o quanto é difícil para mim
falar de ti
com a língua terrena? —

Nosso encontro é
nos mais altos
céus,
lá onde se fala
mas não se sente necessidade do verbo.

E para tanto,
eu com as minhas orações silenciosas
sempre te revivo,
imagem de mim mesma.

E te bendizendo
me bendigo.

E te sobrevivendo,
sobrevivo.

E meu grito, meu grito,
este és tu, que existes,
meu solo pátrio
e minha bandeira,
terra de Hayastan.

(Tradução de Deize Crespim Pereira)

José António Lozano Garcia

José António Lozano Garcia

Nasceu na cidade da Corunha em 1967. É professor de Filosofia no ensino secundário. Foi finalista em 1988 do Prémio de poesia Nacional O Facho. Em 1989 publicou no livro coletivo Fogo Cruzado (AGAL) o relato O pêndulo sob o pseudónimo Jorge Mário Novais. Em 1993 foi prémio ex-aequo junto a Xavier Alcalá no certame de narrações breves Manuel Murguia de Arteijo pelo seu relato Retrato antigo:pinturas e superfícies. No mesmo certame recebeu em 2016 o 3º prémio pelo relato A Aranha de Sidney . Publicou em 2002 no livro comemorativo dos 10 anos do prémio Manuel Murguia o relato Porco Transgénico.
Em 1995 publicou Nocturnos indígenas na obra coletiva 7 Poetas com o grupo Hedral, do que formou parte.
Em Fevereiro de 2020 publicou Obscura Anatólia na editora Urutau, o seu primeiro poemário a título individual.
No âmbito da filosofia tem várias publicações em Portugal e na Galiza sobre o filósofo portuense José Marinho. Especialmente interessado pelas vias iniciáticas da Tradição primordial está a dirigir a sua criação atual na interação de filosofia, poesia, teatro e música para resgatar a conexão originária e viva da arte na sua função espiritual e sapiencial. Tenta ligar-se a um pensamento libertário que integre as sabedorias ancestrais e originárias da raça humana.
É colaborador da revista digital Palavra Comum onde tem publicado ensaio, poesia e narrativa.
José António Lozano Garcia

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  • Luis Mazás López

    Adorei!!! Um grande abraço, Chíqui

    • José António Lozano

      Obrigado, Luis. Outro grande para ti

  • Lamões

    Muito obrigado

    • José António Lozano

      Obrigado eu.