Encontro com o dervixe “Quebra-negócios”



 Bahodine Al-Shah, grande mestre dos dervixes Naqshbandi, um dia encontrou um confrade na grande praça de Bokhara. O recém-chegado era um errante kalandar dos Malamati, os “Condenáveis”. Bahodine estava rodeado de discípulos. “De onde você vem?”, perguntou ao viajante, na habitual saudação sufi . “Não faço ideia”, respondeu o outro, com um sorriso tolo. Alguns dos discípulos de Bahodine murmuraram palavras de censura pelo seu desrespeito. “Para onde vai?”, insistiu Bahodine. “Não sei!”, gritou o dervixe. “O que é o Bem?” A essa altura, uma grande multidão havia se reunido. “Não sei.” “O que é o Mal?” “Não faço ideia.” “O que é Certo?” “Aquilo que é bom para mim.” “O que é Errado?” “Aquilo que é ruim para mim.” A multidão, irritada até os limites da sua paciência, expulsou o dervixe. Ele saiu caminhando a passos largos e resolutos em uma direção que, até onde se sabia, não conduzia a lugar nenhum. “Tolos!”, exclamou Bahodine Naqshband. “Esse homem está interpretando o papel da humanidade. Enquanto vocês o desprezavam, ele estava, de forma deliberada, demonstrando negligência, como faz cada um de vocês, inconscientemente, todos os dias da sua vida.”

(Bahodine e o viajante, in A sabedoria dos idiotas, Idries Shah)

22-lisboaReproduzo aqui uma conversa não literal que tive em janeiro 1995. Lembro que o ano anterior viajara com Luis Maçãs a Lisboa. Fora no mês de julho. A mesma noite de chegada passeávamos pela Baixa e indo em direção à rua do Alecrim passamos por diante da montra de uma livraria de velho e Luís, de repente, disse-me: – Olha para aí! Na mesma montra encontrava-se a edição brasileira de Os Sufis de Idries Shah. Eu levava tempo tentando conseguir o livro que estava esgotado na edição espanhola. Comprei no dia seguinte. De inicio não reparei mas havia um pequeno papel escrito a mão quase ao final do livro, em que dizia:

“Se estiver interessado escreva para…” e um apartado de correios. Escrevi e vários meses mais tarde tive um encontro que me resultou difícil. Eu estava nervoso e não sabia muito bem como pôr as questões. Encontrei com um brasileiro de Minas Gerais mas que tinha vivido em Manaus durante muitos anos e outro tanto em Buenos Aires. Teria uns sessenta anos. Foi todo o que cheguei a saber dele porque nunca mais o voltei a encontrar. O texto a seguir não é literal mas reproduz, penso que com bastante fidelidade, o que foi aquele encontro. Ainda que inicialmente fiquei desiludido e algo deprimido pela situação, o seu efeito foi bom no decorrer dos dias. Houve algo nessa pessoa que, além das palavras, produziu em mim uma mudança, uma alegria e um sentimento de liberdade difícil de pôr em palavras.

P- Porquê as pessoas deveriam interessar-se pelo que os sufis chamam “conhecimento”?.

R- As pessoas não deveriam “interessar-se” pelo “conhecimento” realmente tal e como você diz. É algo que acontece ou não acontece nas pessoas. Muitas pessoas têm esse tipo de interesse por razões erradas. Eu não encorajaria ninguém a buscar esse conhecimento, francamente. Boa parte do trabalho do sufi consiste em desencorajar as pessoas de ter uma relação superficial com o que chamam “busca de conhecimento”. Só traz problemas a todos. Nós temos uma frase: “há algo pior que nos ataquem e é que nos defendam! É uma piada, claro. Não estamos chamando a ser atacados nem a que nos defendam. Melhor que nos deixem em paz.

Boa parte do trabalho do sufi consiste em desencorajar as pessoas de ter uma relação superficial com o que chamam “busca de conhecimento”. Só traz problemas a todos. Nós temos uma frase: “há algo pior que nos ataquem e é que nos defendam! É uma piada, claro. Não estamos chamando a ser atacados nem a que nos defendam. Melhor que nos deixem em paz.

P. Pensei que era algo essencial para a raça humana…!

R- É essencial para a raça humana mas antes deve “ser humano”. Um ser humano é alguém que se deu uma resposta à sua pergunta pelos seu próprio meios. Para nós a maior parte das pessoas na atualidade encontram-se na condição animal do “eu depravado” ou, quiçá, moralista Ninguém lhe pode responder a essa pergunta. Na verdade acontece assim com todas as perguntas essenciais. Eu posso-lhe dar informações mas não posso produzir em você a convicção que só você, por si próprio, deve obter do seu coração e do seu estudo. Por outro lado, compreenda que a sua pergunta está carregada. Pretende que eu lhe confirme certas suposições?

P- Não percebo a que se está a referir.

R- Se percebesse não faria as perguntas que faz. Mas eu devo responder de jeito que note a sua falha. Não há pior cousa que pensar que se compreende quando o único que se têm são emoções e convicções. O que quero dizer é que você pensa que pode perguntar mas ainda não sabe fazê-lo. Faz o tipo de perguntas que deveria ter resolvido por si próprio.

Não há pior cousa que pensar que se compreende quando o único que se têm são emoções e convicções. O que quero dizer é que você pensa que pode perguntar mas ainda não sabe fazê-lo. Faz o tipo de perguntas que deveria ter resolvido por si próprio.

P- Então qual é a razão das publicações e notícias que os sufis fazem chegar à sociedade? Não é uma maneira de dar importância e promover o trabalho sufi?

R- É uma maneira de se pôr em contacto com aqueles que podem chegar à conclusão por si mesmos de que necessitam o sufismo. É também um jeito de dar elementos de orientação para o trabalho próprio. Esta é a razão de que os materiais sufis não estejam aí para ser objeto de crença nem, obviamente, para fazer proselitismo. Verá, o sufismo não pode ser promovido. Analise as suas suposições. Você está a pensar segundo os padrões habituais de que “deveria seguir o sufismo porque é importante, porque há “algo aí”, segundo os modelos ideológicos, religiosos e políticos habituais. Ainda funciona com o esquema “rebanho”, a forma primitiva de pensar em termos grosseiramente materiais. Pensa nos termos invejosos de “ter algo” que é valioso.

P- Não compreendo. Como pode dizer que o sufismo não se promove, não é evidente que houve no Ocidente uma clara promoção do sufismo nos últimos 40 anos? Não o encontrei por causa de uma nota deixada num livro?

R- Houve e há uma atividade súfica essencial como parte de uma realidade orgânica. Não tem nada a ver com “planos e promoções” que partem de uma intencionalidade mecânica. Não considero os cultos e imitações que sim podem mover-se com esse esquema, algo inevitável por outro lado. Toda atividade genuína está acompanhada da sua imitação e isto é parte dos factos. É parte da própria atividade súfica e do trabalho de discernimento das pessoas reconhecer isto. E atuar em consequência.

Por favor, ponha atenção às suposições que estão por trás das suas perguntas. Deve fazer um maior esforço em ter uma compreensão mais apurada. Não me parece uma atitude mui prometedora a maneira em que assimilou as fontes atualmente disponíveis. Se pensa que esse papel deixado num livro é um jeito de captar gente para uma seita ou algo assim não o culpo por pensar nesses termos. É compreensível mas é um sentimento que atua agora como um véu importante. Pode que mais adiante compreenda mas deve libertar-se da ideia que alguém está tentando-o escravizar.

P- Pode dar-me uma indicação que me ajude mais concretamente a melhorar a minha compreensão?

R- Não se dirija ao sufismo para sustentar outra cousa. É melhor, nesse caso, que o esqueça. Só lhe vai provocar sofrimento. Se está interessado no sufismo, pergunte-se qual é a raiz de esse interesse. Se o faz por ambição, ocultismo ou esoterismo abandone. Está a tempo. Dedique-se a uma vida singela, proponha-se metas boas no mundo, case, tenha uma família e esqueça-se do sufismo.

P.- Esta-me a desencorajar? Considera que não sou apto?

R- Como poderia eu desencorajá-lo? Como poderia eu intrometer-me no mais intimo e próprio de você? Pelo amor de Deus, escute-me. Novamente tenho que repetir-lhe o essencial: é você quem pode desencorajar-se, é você quem põe as questões e quer que lhe responda nos seus termos. Agora não está em condições de receber o que lhe tento transmitir. Não há nada “oculto” no que lhe estou a dizer mas peço-lhe que escute o que lhe estou a tentar dizer.

P- Não parece dar-me muita esperança.

R- Não necessita esperança. Necessita que alguém lhe diga uma pequenas verdades básicas que deveria ter encontrado por si mesmo.

P- Pode uma pessoa estar limitada ou incapaz para compreender o sufismo e mais tarde compreendê-lo?

R- Pode, sim. Mas deveria desiludir-se um pouco. Renuncie às suas ambições. Entenda que não “pode fazer nada”. Não pode manipular as situações. Não pode mexer “no guiso” ao seu jeito.

P- Um mestre é necessário?

R- Absolutamente necessário mas não o pode ter a demanda. Assim não funciona. Ter um mestre é parte de uma relação objetiva que não depende da “nossa vontade superficial”. Se vai a um mestre para que lhe confirme nas suas suposições simplesmente não se encontrarão. Estarão em contacto físico, poderá participar de atividades, até poderá ter uma interação. Pode unir-se a um grupo durante anos ao redor de um mestre e ter a ilusão de um contacto mas isso não significa que tenha um mestre. É algo tão delicado que baixo nenhum aspeto pode ser forçado. Mesmo quando a relação está estabelecida parte do trabalho do discípulo consiste em discernir de jeito adequado esta proximidade e manter a perceção adequada. É função do mestre atuar como espelho neste sentido para transmitir uma perceção interna que se interiorize no discípulo até que se volte autónoma nele. Muitas pessoas que dizem “ter um mestre” só são pessoas que andam ao redor de um homem e ficam a dar voltas em torno da sua personalidade. Os mestres não podem fazer nada com gente assim.

É função do mestre atuar como espelho neste sentido para transmitir uma perceção interna que se interiorize no discípulo até que se volte autónoma nele.

P- Não há, então, um perigo de culto de personalidade?

R- Como não? Mas nesse caso o mestre “desaparece”. Veja, o culto da personalidade é praticado continuamente na nossa sociedade de um jeito ou outro só que em situações “socialmente disfarçadas” o que o converte em algo invisível ou aceitável. Pense nos círculos de partidos políticos, literários, artísticos, académicos, familiares… O reconhecimento da necessidade de um mestre porá isso em evidência e as pessoas, já sabe, não gostam de ser desmascaradas. Gostam de que ninguém quebre a “respeitabilidade” sob a que praticam a sua insanidade. Encontrar e ter um mestre autêntico é a consequência de um duro trabalho sobre si mesmo.

P- Parece-me uma visão excessivamente pessimista e radical. Como posso estar certo de que o que diz é autêntico?

R- Não pode na sua condição atual. Se quer um circo de diversões há muitos funcionando por aí. Entristecer não é o nosso propósito mas as falsas ilusões de “verdades doces” não são o nosso negócio. Pode fazer o que queira com as minhas respostas. É a sua responsabilidade. Estou a conceder-lhe o meu tempo e compartilhar o meu pensamento e experiência. Mas, repito, é a sua responsabilidade dar-me crédito ou deita-lo ao lixo. É a sua decisão. E deveria ter claro porque faz uma cousa ou outra.

P.- Confesso-lhe que desde que descobri o sufismo não posso pensar que haja um esforço e uma atividade mais real para o ser humano.

R- Você pergunta por motivos alheios a si. Mas você sabe mais do que aparenta aqui. Está a fazer-se o parvo comigo e com você próprio. Não pense em mim, não pense no que outros digam. Centre-se naquilo que descobre por si mesmo e atue em consequência. Não seja dependente dos outros. O seu coração esta a expressar-se continuamente. Não o sufoque com mais ruído mental.

P- Pensei que esta entrevista seria mais plácida. Confesso que estou algo confuso. Poderia facilitar-me alguma indicação de como posso encontrar pessoas que estejam a trabalhar nesta direção?

R- Mas foi plácida! A confusão é a sua colheita. Quanto a “contactos” e indicações não tenho nada que lhe transmitir. Espero tê-lo ajudado! Salaam!

José António Lozano Garcia

José António Lozano Garcia

Nasceu na cidade da Corunha em 1967. É professor de Filosofia no ensino secundário. Foi finalista em 1988 do Prémio de poesia Nacional O Facho. Em 1989 publicou no livro coletivo Fogo Cruzado (AGAL) o relato O pêndulo sob o pseudónimo Jorge Mário Novais. Em 1993 foi prémio ex-aequo junto a Xavier Alcalá no certame de narrações breves Manuel Murguia de Arteijo pelo seu relato Retrato antigo:pinturas e superfícies. No mesmo certame recebeu em 2016 o 3º prémio pelo relato A Aranha de Sidney . Publicou em 2002 no livro comemorativo dos 10 anos do prémio Manuel Murguia o relato Porco Transgénico.
Em 1995 publicou Nocturnos indígenas na obra coletiva 7 Poetas com o grupo Hedral, do que formou parte.
Em Fevereiro de 2020 publicou Obscura Anatólia na editora Urutau, o seu primeiro poemário a título individual.
No âmbito da filosofia tem várias publicações em Portugal e na Galiza sobre o filósofo portuense José Marinho. Especialmente interessado pelas vias iniciáticas da Tradição primordial está a dirigir a sua criação atual na interação de filosofia, poesia, teatro e música para resgatar a conexão originária e viva da arte na sua função espiritual e sapiencial. Tenta ligar-se a um pensamento libertário que integre as sabedorias ancestrais e originárias da raça humana.
É colaborador da revista digital Palavra Comum onde tem publicado ensaio, poesia e narrativa.
José António Lozano Garcia

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  • Luis Mazás López

    Gostei muito da leitura. Parabéns