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O queijo do país de Pir-i-Lampo

As cousas nom som singelas / Nós ponhemos etiquetas / Amor, traiçom, lealdade /

Nom podemos prescindir dumha rede que capture /a vida em forma de peixe, / em forma de borboleta / para poder-nos nutrir /de alimento ou de beleza , / pois somos fame ou paixom ./ E assi passamos os dias / superponhendo vestidos / de decoroso saber / ao escandaloso e inculto / nu da realidade em bruto. / Mas é um sonho a nossa ciência./ As cousas som como som / e como nom som, selvagens /feixes de forças contrárias. /Temos que ponher-lhe nomes, / temos que deitar a rede para cobrar a raçom / de peixe ou borboleta / que calme o nosso apetito. / Mas os nomes som mentira. / Som congelaçom dum rio / que está, líquido, a fluir / em incessante aventura. / Segundo a rede que usemos,/ será umha ou outra redada. / O caso é pescar, caçar, / para comer, para amar, e que Sthendal ou Linneo / nos codifiquem o mundo. / Qualquer rede é umha ilusom /de que isto é aquilo e isso, / catalogaçom doméstica /dumha realidade indómita. / Baixo um teito de papel / sente-se o home mais seguro / que baixo um céu de verdade.

(Ricardo Carvalho Calero, Cantigas de amigo e outros poemas)

Um dia um maravilhoso queijo do país chegou como presente a Pir-i-Lampo, o velho sábio do Courel do que há tanto tempo não vos falava. Foi a ocasião mais fabulosa para uma experiência empírica de reveladores resultados.

O queijo estava aí, sobre a mesa. E ali permaneceu durante dias, pois Pir-i-Lampo não gostava de queijo. Como ele costumava dizer:

– Pensam que sou um rato! Mas deviam saber que nem os ratos gostam do queijo…isso é um mito. Eles gostam mais do toucinho afumado. Mas enfim…

Mas quem gostava de queijo eram uns vermes pequenos e brancos (suponho que para se camuflar melhor) que festejavam com fruição a feliz ocasião. De início eram uns poucos mas depois foram-se multiplicando. Pir-i-lampo observava nesse estilo espinoziano que o caracterizava, concentrado e calmo.

Era surpreendente ver o otimismo e confiança no futuro dos vermes. Eram felizes, as vacas gordas da vida cumprimentavam e piscavam o olho. E comer comiam. Que problema podia haver? Isto durou um certo tempo até que o queijo começou a minguar. O ambiente começou a se rarefazer. De início eram pequenos incidentes tipo:

-Que fazes aqui? Este é o meu sítio!

-Desde quando?

-Desde sempre!

-Quando cheguei não estavas. E o que foi à eira perdeu a cadeira.

-E isso que tem a ver! Todo o mundo sabe que este é o meu sítio!

Ou:

– Os vermes mais antigos pertencemos à parte central do queijo pelo que temos mais direitos que os da parte lateral. Já o diz a própria palavra: central. Quer dizer, fundamental, essencial!

Começou a haver diferentes partidos e grupos que reivindicavam os seus direitos, quando não a legitimidade absoluta e total.

21-galo-pretoOs vermes continuavam a se reproduzir mais e mais enquanto o queijo (queijo do país, lembrem) ia a menos. As discussões iam em aumento, os grupos multiplicavam-se…e não penseis que os grupos eram assim tão homogéneos: havia diferenças cada vez mais subtis no seu interior, o que dava lugar a subgrupos e subconjuntos cada vez mais sofisticados: vermes brancos-creme, vermes branquíssimos, vermes rosa, vermes vermelho-pálido, vermes pretos (ou mutantes), bi-vermes (portentos da natureza), e uma inumerável quantidade de desclassificados. Alguns, inteligentes eles, não diziam nada e comiam e comiam, sem se meter em problemas, com a íntima satisfação de sentir o parvos que eram o resto dos seus limitados congéneres, que em vez de comer brigavam.

Mas finalmente o queijo acabou. Lá estavam sobre a pequenina mesa de madeira na que Pir-i-Lampo pusera o agora desaparecido queijo, milheiros de vermes a se berrar, insultar, mesmo matar. Culpavam-se uns aos outros como se isso os liberta-se de qualquer cousa.

Pir-i-Lampo sorria sem maldade. Enfim, só se tratava de vermes…depois de tudo. Pir-i-Lampo saiu a recolher umas berças da eira. A vida continuava no fim de contas.

Quando voltou um imenso galo preto estava sobre a mesa de madeira em que outrora os vermes tiveram a sua história.

– Que bom galo para um bom caldo, pensou Pir-i-Lampo. O galo pareceu olha-lo com certo ar indignado, e saltou pola janela.

Ai!, a vida!

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