Um lugar na língua para o nosso primeiro reino

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A Mesa pola Normalización Linguística e a AGAL estám a desenvolver umha campanha para recuperar o sistema tradicional do galego-português para nomear os dias da semana: por “feiras”. A Galiza, junto com os países de língua portuguesa, foi o único territóriodo mundo em que sobreviveu o sistema cristão de denominar os dias da semana e a razom está seguramente na existência, entre o século V e o VII, do reino suevo (o Galliciense Regnum), que polo menos na sua segunda fase tivo umha política de cristianizaçom especialmente intensa.

No limite da desmemória

Exceto na Límia Baixa, em que ainda tem plena vitalidade, este sistema chegou mui débil ao século XXI no resto do território galego, escondido entre as pessoas mais velhas (agora teriam de ter mais de 90 anos) das zonas rurais. O contacto com o espanhol, com um sistema completamente diferente, provocou que as formas galegas fossem ficando relegadas. Em finais do século XX, quando o galego chegou à escola, optou-se por outras denominações, que ainda que também fossem tradicionais na zona mais norte-oriental da Galiza, no resto do território eram maioritariamente adaptadas do castelhano (luns, martes, mércores, joves, venres). Naquele momento pensava-se que tinham mais possibilidade de subsistir porque eram de fácil acomodaçom ao castelhano, mas hoje muitas pessoas pensam que a proximidade em relaçom ao castelhano nem sempre é garantia de conservaçom.

Motivo de orgulho linguístico… e histórico

Som muitas as razões que nos deveriam levar a empenhar-nos na sua recuperaçom.

Em primeiro lugar, como sempre que restauramos o galego mais genuíno, este sistema ajuda-nos a afirmar a identidade comum galego-portuguesa. Mas isso nom quer dizer que seja preciso ser-se de umha normativa ou outra para apoiar a campanha. Tenhamos a perspetiva que tivermos sobre a ortografia, nom existe nenhumha pessoa galeguista que nom seja firme partidária de intensificar os vínculos afetivos com o mundo lusófono.

Em segundo lugar, a conservaçom deste sistema é um grande motivo de orgulho linguístico para nós, já que nos particulariza entre todas as línguas do mundo. Mas este orgulho nom é só linguístico, senom também histórico e cultural, pois nenhum outro traço nos fai lembrar com tanta nitidez a nossa primeira existência política: o reino suevo.

Mas a razom mais importante é motivacional. Muitas palavras perdidas ao longo do século XX fam-nos adivinhar que ainda serám mais as que virám a perder-se nas próximas décadas. As pessoas preocupadas polo galego temos duas opções: resignar-nos ou conjurar-nos em prol da recuperaçom desta valiosa herança linguística, ainda que seja no limite da desmemória.

A história das “feiras”

A origem remonta-se ao século IV e tem a ver com a mistura de diferentes tradições: a judia e a cristã. A semana começava-se a contar desde o sábado, que era o dia de descanso no mundo judeu, sendo a segunda-feira o segundo dia depois do sábado, a terça-feira o terceiro, a

quarta-feira o quarto, a quinta-feira o quinto e a sexta-feira o sexto. Entretanto, o domingo (dia do Senhor) fora o dia imposto polo polo cristianismo para superar a tradiçom judia de dedicar ao senhor o sábado, e por isso permaneceu, sem ser substituído por umha hipotética *primeira-feira. A igreja, nos primeiros séculos posteriores à queda do império romano, tentou impor estas formas, mas só o conseguiu no Reino da Galiza, onde estavam os suevos, liderados polo religioso Sam Martinho de Dume, que fizérom umha política mui ativa de cristianizaçom da populaçom, talvez tentando combater o priscilianismo, tam arraigado na Galiza.

Texto publicado no Festagal 2018