A voz de Pir-I-Lampo

Pragmática



 

Vida é morte, morte é vida
(Heráclito em poucas palavras)

O que quer entender, entende; o que não quer entender, não entende.
(Sabedoria popular)

gatosA corrente da sabedoria antiga pode ser percebida através de diferentes escolas que são vistas como opostas ou enfrentadas entre elas polos historiadores da filosofia. O certo é que muitas de estas escolas formavam parte de um contexto imbricado em que se complementavam ou formavam parte de um jogo mais amplo que a mera questão doutrinária de defender umas determinadas teses. A filosofia prática poderia significar-se com um aforismo:

“Não é o que se diz ou o que se faz mas o efeito sobre o ser o que finalmente conta”

Os estoicos consideravam-se continuadores dos cínicos e da escola socrática mas para muitos estudiosos da filosofia não pode haver maior disparidade no seu comportamento e nas suas teses. Apresentam-se aos estoicos como uma reação ao pensamento cínico. Certo que isto é assim mas não no sentido em que comummente se entende. Ambas escolas são momentos de um certo impacto do conhecimento essencial e mostram diferentes estratégias perante a necessidade de desnudar o eu convencional e desenvolver a sabedoria. A atitude anti-social dos cínicos, as suas provocações, a sua “arrogância” perante os valores da sociedade grega, o seu jeito austero podia ser visto como uma “loucura” uma verdadeira mania de questioná-lo tudo, como de facto era visto o próprio Sócrates, até o ponto de que o tiveram que condenar a morte: vestir pobremente, criticar os valores do nacionalismo ateniense, recriminar o modo costumeiro da religião e o seu convencionalismo social, etc. Tudo isso foi também algo que se achava nos princípios do estoicismo mas a diferença estava na maneira de mostrar publicamente isso. A razão é que o estoicismo tivo que compensar os excessos e a ressaca provocada pola corrente cínica. Os seguidores das diferentes escolas tendem a idolatrar os princípios sem compreender o seu aspeto pragmático e funcional.

A atitude anti-social dos cínicos, as suas provocações, a sua “arrogância” perante os valores da sociedade grega, o seu jeito austero podia ser visto como uma “loucura” uma verdadeira mania de questioná-lo tudo, como de facto era visto o próprio Sócrates, até o ponto de que o tiveram que condenar a morte.

Certas práticas pertencem a uma gente e um tempo. Aquilo que numa certa altura era um instrumento para conseguir uma redução do próprio ego acaba convertendo-se num “ideal” que é utilizado para engrandecer a personalidade ou o ego da pessoa, concebendo-se como um “mérito”, um “sucesso” a ser alcançado. Quer dizer, consegue-se o efeito contrário do inicialmente projetado para um tempo e pessoas determinadas. É bem sabido que a “humildade” é convertida em objeto de “orgulho” quando se converte “num ídolo a admirar” num ou noutros. Como diz o velho aforismo:

“A humildade não está aí para ser venerada, esta aí polas suas próprias razões”

As próprias razões são uma questão de método. Sem humildade, por exemplo, simplesmente não podemos ter compreensão, da mesma maneira que sem olhos não podemos ter visão. Não é um mérito, algo a louvar ou algo a idealizar, simplesmente, é uma vital necessidade para o nosso crescimento como seres humanos. Isto reflete-se numa velha história em que o próprio sábio se nos oferece como parte do jogo, e onde a experiência se realiza baixo a própria consciência da responsabilidade pessoal. Dito claramente: não pode haver aprendizagem sem envolvimento pessoal nas situações e sem consciência de que um é um peão mais no jogo. Diz Yusuf al Hakim:

“Durante muitas das minhas viagens e encontros com diversas pessoas utilizei a técnica do alheamento de si. Para isso adotei um comportamento extremamente humilde e comprovei o seu efeito. Algumas pessoas atacavam-me duramente ao ver tal comportamento. Eu afastava-me delas o antes possível. Depois estavam aquelas que me rodeavam e santificavam. E estas ainda eram piores. Desfazia-me delas de imediato.”

No texto anterior podemos observar como as atitudes de hostilidade ou veneração podem ser induzidas desde uma mera aparência dependendo do condicionamento prévio das pessoas.

É este tipo de compreensão a que está por trás das escolas de sabedoria. Trata-se de alcançar um certo desapego com respeito às atitudes das emoções condicionadas. Comprovamos como as pessoas podemos ser manipuladas facilmente por comportamentos externos que induzem em nós estados emocionais nos que nos sentimos implicados. No texto anterior podemos observar como as atitudes de hostilidade ou veneração podem ser induzidas desde uma mera aparência dependendo do condicionamento prévio das pessoas. No caso das pessoas hostis “perante o humilde” podemos ver um padrão de pessoas que sentem hostilidade perante o “fraco”. Este tipo de pessoas podem sentir que o seu comportamento está justificado e que “devem atuar assim”, bem porque pensam que o outro é um “hipócrita” ou porque não podem dar crédito à existência de uma pessoa humilde. Muitas vezes é uma maneira inconsciente de pôr a prova as suas próprias convicções. Seja qual for “ a razão” a questão aqui é que se consegue uma forma de “reagir”. Não é uma resposta que surja da própria consciência íntegra mas de uma “humor e ira mui particular” que se canaliza contra esse objeto “fraco” ou “hipócrita”. Se a pessoa chegar a ser consciente de esta atitude, o objetivo do que quer conhecer-se a si mesmo, pode passar a uma segunda parte em que analise esse padrão de conduta e tente ver os juízos implícitos (propriamente preconceitos) que o acompanham. No segundo caso, os veneradores, são qualificados por Yusuf al Hakim como “piores”. Mas porquê seriam piores? Pode que no primeiro caso, os que atacavam duramente a Yusuf al Hakim, polo seu comportamento estereotipado, haja uma sinceridade e energia válida que deve ser reconduzida mas não estão podres. No caso dos segundos reconhecemos essa perversão da falsa humildade tão típica dos ambientes eclesiais, por exemplo, que esconde uma ira interiorizada e uma hipocrisia dificilmente corrigível. Estão muito mais longe da veracidade que os primeiros ainda que o seu comportamento é muito mais concorde coas formas e aparentemente devoto. Como dizia o profeta Muhammad:

“As minhas costas quebraram-mas os homens piedosos”

Seguindo esta questão da pragmática ainda duas histórias mais.

nigella sativa

nigella sativa

Numa ocasião, Ali, o companheiro do profeta Muhammad estava no meio duma batalha luitando contra um beduíno. Levantou a espada para atravessá-lo quando o beduíno lhe cuspiu no rosto. Ali deixou cair a espada. O Beduíno falou:

– Não compreendo. Ias matar-me, cuspo-te na cara e deixas cair a espada!?

– Ia matar-te cumprindo um dever, impecavelmente, no destino que nos tocou. Quando me cuspis-te senti uma ira pessoal. Assim não podo matar-te.

E ainda outra:

Havia uma vez dous rapazes que levavam un paxaro na mão. Era domingo pola tarde, estavam entediados e decidiram ir passar a tarde incomodar uma velha que vivia só numa cabana. Tinha fama de sábia e bondosa. Mas eles queriam pôr a prova a sua sabedoria e perspicácia. Achegaram-se a ela com o paxaro metido na mão, bem apertado e dixeram-lhe:

– Velha, seique sabes muito!. Mesmo que podes adivinhar as cousas que vão passar! Quantas mentiras diz a gente! Venha, aqui temos um paxaro. Tenho-o no meu punho. Diz: está vivo ou morto?

A velha ficou um tempo em silêncio e fechando os olhos falou:

– O paxaro está morto e bem morto

– Ignorante- dixeram os rapazes- não sabes nada, cousa ruim! E um deles abriu o punho e o paxaro saiu voando

Por isso naquele país há um refrão que diz:

As palavras “paxaro morto” significam paxaro vivo, as palavras “paxaro vivo” significam paxaro morto.

Mas porquê deveríamos tentar avançar nesta compreensão? A resposta é mui simples. Sem compreensão que importa qual seja a índole das nossas razões e decisões? Em que alicerces se fundamentam os nossos atos, crenças, projetos e ideias?. Seria triste descobrir tarde demais que jogamos um jogo infantil, sem consciência, alheios de nós próprios. Mas a questão mais relevante pode ser que por trás do véu das nossas emoções e afeições condicionadas há um campo originário, essencial que nos nutre do verdadeiro sentido das nossas teimosias. Há algo nobre, poderoso, singelo, vivo e grácil à nossa espera: o que realmente somos.

José António Lozano Garcia

José António Lozano Garcia

Nasceu na cidade da Corunha em 1967. É professor de Filosofia no ensino secundário. Foi finalista em 1988 do Prémio de poesia Nacional O Facho. Em 1989 publicou no livro coletivo Fogo Cruzado (AGAL) o relato O pêndulo sob o pseudónimo Jorge Mário Novais. Em 1993 foi prémio ex-aequo junto a Xavier Alcalá no certame de narrações breves Manuel Murguia de Arteijo pelo seu relato Retrato antigo:pinturas e superfícies. No mesmo certame recebeu em 2016 o 3º prémio pelo relato A Aranha de Sidney . Publicou em 2002 no livro comemorativo dos 10 anos do prémio Manuel Murguia o relato Porco Transgénico.
Em 1995 publicou Nocturnos indígenas na obra coletiva 7 Poetas com o grupo Hedral, do que formou parte.
Em Fevereiro de 2020 publicou Obscura Anatólia na editora Urutau, o seu primeiro poemário a título individual.
No âmbito da filosofia tem várias publicações em Portugal e na Galiza sobre o filósofo portuense José Marinho. Especialmente interessado pelas vias iniciáticas da Tradição primordial está a dirigir a sua criação atual na interação de filosofia, poesia, teatro e música para resgatar a conexão originária e viva da arte na sua função espiritual e sapiencial. Tenta ligar-se a um pensamento libertário que integre as sabedorias ancestrais e originárias da raça humana.
É colaborador da revista digital Palavra Comum onde tem publicado ensaio, poesia e narrativa.
José António Lozano Garcia

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