Pedras que falam



Conta, conta, que contarás…
És veraz?
Para os rapazinhos que brincam à luz da lua, o meu conto é uma história maravilhosa
Para as fiandeiras-de-algodão durante as longas noites da estação fria, o meu relato é um passatempo deleitoso
Para os queixos velosos e os calcanhares enrugados, é uma autêntica revelação.
Sou portanto, ao mesmo tempo, fútil, útil e instrutivo.
Conta-o então para nós…
(Introdução a Kaidara, de Amadou Hampâté Bâ)

Mosaico do minotauro de Conímbriga.

Mosaico do minotauro de Conímbriga.

A citação anterior situa-nos no centro mesmo de uma experiência multidimensional da cultura tradicional africana. Tal e como o sábio de Bandiagara (Mali) nos lembra, o ensino e a transmissão cultural vão da mão da dimensão iniciática e a obra de arte do narrador iniciado nos mistérios da natureza e do cosmos cumpre simultaneamente vários cometidos: atua como divertimento dos mais novos, como elemento de coesão comunitária e transmite os mistérios mais profundos acessíveis àqueles que perseveraram durante longos anos de pesquisa interior. Ninguém está excluído e todos participam, desde criancinhas até queixos velosos e calcanhares enrugados. Existe uma técnica e uma arte da narração que tem em conta a qualidade do auditório e adapta o tipo de conto. Por vezes o narrador interrompe o longo conto iniciático para continuá-lo três meses mais tarde. O ensino não consiste em transmitir um conteúdo através de um funil de sentido único. Depende da ocasião. Uma vez perguntaram-lhe a um sábio africano porque não explicava o seu conhecimento e respondeu:

 -Pensa que tenho tanto apreço por ouvir a minha própria voz? A palavra é sagrada, falar por falar é um grande mal do nosso tempo. Desperdiçaria a sua semente em terra erma? Pois é o mesmo. Estou à escuta, quando for necessário falarei. Já tenho a sensação de ter falado demais.

A ocasião depende do estado interior do que narra e dos que escutam. Há uma profunda afinação. Porque não se está a transmitir simples informação. Há toda uma energia envolvida e toda uma dimensão potencial em jogo. É como enviar sementes através da palavra que frutificarão ao longo dos anos. Ter ouvido os mestres narradores de diversos modos e em diversos momentos pode ser um alimento que acompanha um ser humano durante toda a sua vida. Esta é a mesma razão pola que se pode ouvir uma e outra vez a mesma história sempre a develar matizes novos segundo o nosso estado de desenvolvimento, sendo objeto de meditação e absorção na textura do nosso ser até a mesma morte. O sábio está a ler sempre o mesmo livro:

para lá da cortina além da porta errada
silencioso e só está sentado
e lê num livro velho
a sua própria história
(Manuel de Castro)

Mas a questão é: de que tipo de conhecimento estamos a falar? Não se trata do conhecimento comum dos saberes ordinários das ciências e das letras tal e como as compreendemos na cultura atual, nos programas de estudos do ensino convencional. Trata-se de uma transformação da nossa consciência e do nosso ser. E isso é algo que não podemos obter de “fora”. Diz Epíteto: “A filosofia não promete a obtenção de nada exterior ao nosso ser” O que significa algo de imenso valor a se relacionar com a frase atribuída ao Oráculo de Delfos:

“Homem, conhece-te a ti mesmo e conhecerás o universo e os deuses”

Estou a falar de uma dimensão do conhecimento e do ser que simplesmente é negada polos saberes convencionais constituídos pola tradição religiosa, política, científica ou filosófica ao longo dos séculos. A razão é que a sabedoria iniciática só tem um objectivo: a reconexão do ser humano com o seu sentido cósmico e a compreensão do seu infinito potencial de realização a partir da sua própria essência. Obviamente isto compromete o status de todos os esforços que parecem querer converter ao ser humano num ser indigno, que se arrasta, cheio de pesares e medos, convertido num robot ou num ser acomodatício que tão só se interessa pola sobrevivência mais degradada, um pouco de pão e outro pouco de circo. E é fácil convocar as iras do ressentimento contra as pretensões de reclamar a dignidade própria do ser humano. Que arrogância!, clamam todos os poderes que vem comprometidos os seus interesses. Medo e covardia acompanham sempre estas atitudes, baixo diferentes formas de pressão e coação. Seguindo Espinosa o poder concebido nestes termos é simples superstição. Trata-se de outra cousa.

Estou a falar de uma dimensão do conhecimento e do ser que simplesmente é negada polos saberes convencionais constituídos pola tradição religiosa, política, científica ou filosófica ao longo dos séculos. A razão é que a sabedoria iniciática só tem um objectivo: a reconexão do ser humano com o seu sentido cósmico e a compreensão do seu infinito potencial de realização a partir da sua própria essência.

O poder não é isso, meu filho, o poder é outra cousa
    a vida, minha filha, a vida é outra cousa
realmente podemos ser outra cousa
“sabemos que ti podes ser outra cousa
sabemos que o home pode ser outra cousa”

Mas não nos enganemos, estes poderes não são só algo exterior a nós. São parte do nosso egotismo, parte do condicionamento ao que fomos submetidos durante anos de enculturação e de  socialização e com os que encaixamos de um jeito ou outro. A expressão da condição humana é perfeitamente refletida na alegoria da caverna que Platão nos oferece no livro VII da Politeia (República). Um grupo de seres humanos vivem no profundo de uma caverna com os seus pescoços atados e agrilhoados, obrigados a contemplar as sombras refletidas sobre uma parede da cova. Por trás deles outros seres levam objetos que fazem passar por diante de um lume que arde, são os produtores das sombras. Mais atrás e para acima da caverna está o exterior onde a realidade é viva, livre e gozosa, bem diferente da vida cavernária. Na caverna os homens disputam sobre a “realidade” até apaixonadamente. Imaginamos diferentes facções a se enfrentar mantendo polaridades que se necessitam mutuamente e que são o reflexo de uma totalidade autárquica. Misteriosamente um preso consegue libertar-se e começa o ascenso. Gradualmente vai descobrindo as verdades, com dor inicialmente, os olhos levam muito tempo afeitos à escuridão. É doloroso, provoca perplexidade, um choque. Superado o desconcerto inicial continua até chegar à contemplação das estrelas, a lua, as florestas e os rios que correm na realidade exterior, o sol. Lembra então dos seus amigos a discutir na caverna, apaixonadamente, implicados em mudá-la, em melhorar as suas condições (os mais nobres). Movido pola philia (amor, amizade) penosamente começa o descenso. Lembremos o fragmento que fala da volta:

SócratesE se então distribuíssem honras e louvores, se tivessem recompensas para aquele que se apercebesse, com o olhar mais vivo, da passagem das sombras, que melhor se recordasse das que costumavam chegar em primeiro ou em último lugar, ou virem juntas, e que por isso era o mais hábil em adivinhar a sua aparição, e que provocasse a inveja daqueles que, entre os prisioneiros, são venerados e poderosos? Ou então, como o herói de Homero, não preferirá mil vezes ser um simples lavrador, e sofrer tudo no mundo, a voltar às antigas ilusões e viver como vivia?
GlaucoSou de tua opinião. Preferirá sofrer tudo a ter de viver dessa maneira.
SócratesImagina ainda que esse homem volta à caverna e vai sentar-se no seu antigo lugar: Não ficará com os olhos cegos pelas trevas ao se afastar bruscamente da luz do Sol?
GlaucoPor certo que sim.
SócratesE se tiver de entrar de novo em competição com os prisioneiros que não se libertaram de suas correntes, para julgar essas sombras, estando ainda sua vista confusa e antes que seus olhos se tenham recomposto, pois habituar-se à escuridão exigirá um tempo bastante longo, não fará que os outros se riam à sua custa e digam que, tendo ido lá acima, voltou com a vista estragada, pelo que não vale a pena tentar subir até lá? E se alguém tentar libertar e conduzir para o alto, esse alguém não o mataria, se pudesse fazê-lo?
GlaucoSem nenhuma dúvida.

textil-fula-2Comecei com a evocação da sabedoria africana porque sofreu de um jeito brutal todo o processo de colonização que alterou e perseguiu as formas tradicionais que garantem uma continuidade à iniciação humana. Este processo de colonização só pode ser feito por seres que previamente foram colonizados e com isto quero deixar hoje aqui aberta esta questão. Só por um processo de autocolonização, de degradação e submetimento do próprio ser é possível criar uma civilização que tem como base, processo e finalidade motivações exclusivamente materiais (o que é conhecido por diferentes nativos de diferentes culturas como o “mundo morto”). Trata-se de um genocídio da própria condição humana e a situação mundial pola que estamos a atravessar é consequência disso. As crenças inculcadas na população são o software que mantém a programação robótica que parasita o crescimento e realização do ser essencial.
Na década dos 30 o antropólogo A. Irving Hallowell estabeleceu um estreito contato com a tribo Anishinaabe-Ojibwa no Canadá. Era amigo do chefe, chamado William Berens, e tinham uma funda confiança mútua. Irving advertiu que na língua dos Anishinaabe as pedras pareciam estar categorizadas entre os seres animados. Intrigado perguntou a Berens:
– As pedras estão vivas?
Berens não respondeu imediatamente, demorou um bom pedaço. Depois falou:
-Não!. Mas algumas sim!
E depois explicou como ele mesmo tinha visto algumas pedras correr e falar.

José António Lozano Garcia

José António Lozano Garcia

Nasceu na cidade da Corunha em 1967. É professor de Filosofia no ensino secundário. Foi finalista em 1988 do Prémio de poesia Nacional O Facho. Em 1989 publicou no livro coletivo Fogo Cruzado (AGAL) o relato O pêndulo sob o pseudónimo Jorge Mário Novais. Em 1993 foi prémio ex-aequo junto a Xavier Alcalá no certame de narrações breves Manuel Murguia de Arteijo pelo seu relato Retrato antigo:pinturas e superfícies. No mesmo certame recebeu em 2016 o 3º prémio pelo relato A Aranha de Sidney . Publicou em 2002 no livro comemorativo dos 10 anos do prémio Manuel Murguia o relato Porco Transgénico.
Em 1995 publicou Nocturnos indígenas na obra coletiva 7 Poetas com o grupo Hedral, do que formou parte.
Em Fevereiro de 2020 publicou Obscura Anatólia na editora Urutau, o seu primeiro poemário a título individual.
No âmbito da filosofia tem várias publicações em Portugal e na Galiza sobre o filósofo portuense José Marinho. Especialmente interessado pelas vias iniciáticas da Tradição primordial está a dirigir a sua criação atual na interação de filosofia, poesia, teatro e música para resgatar a conexão originária e viva da arte na sua função espiritual e sapiencial. Tenta ligar-se a um pensamento libertário que integre as sabedorias ancestrais e originárias da raça humana.
É colaborador da revista digital Palavra Comum onde tem publicado ensaio, poesia e narrativa.
José António Lozano Garcia

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