Excerto da comunicação apresentada na XI Semana de Filologia
da Universidade de São Paulo
(9 a 13 de maio de 2016)
As Origens da língua portuguesa
O português nasceu na Galiza, mas esse espaço denominado Galiza, pouco tem a ver com o território que atualmente usufrui esse nome, pois essa Galiza histórica e originária entendia-se do mar Cantábrico até o Tejo.
O contexto político prévio à fratura da Galiza
Para entendermos o contexto da ruptura entre o norte e o sul do rio Minho, cumpre dar uma olhadela ao reino de Afonso VI de Leão.
O segundo dos matrimônios de Afonso VI, o de mais duração, é dizer o mais estável, pois durou até o falecimento da esposa e rainha no 1093, foi com Constança de Borgonha (do que sobreviveu a filha Urraca); este matrimonio levara-o a ter certa estabilidade de relações com Borgonha, e que para a corte viessem desde Borgonha vários cavaleiros, tais como os nobres borgonhóis Raimundo e Henrique.
No ano 1090, o Rei Afonso casou a sua filha e herdeira Urraca, com Raimundo de Borgonha, matrimonio ao que se garante o reino da Galiza à sua morte.
Raimundo muito faz por agradar ao Rei, fortalece a cidade estratégica, por estar na fronteira sul, de Ávila; e dirige continuas guerras contra o domínio muçulmano, especialmente no sul da Galiza, alargando o território. Raimundo incluso tentou tomar Santarém. Porém ele no ano 1107 faleceu.
Outro nobre borgonhão que viu à corte, primo do anterior, vai ser Henrique, e a quem o rei casa no ano 1095 com uma outra filha sua, Teresa, uma menina de uns 10 anos. Esta filha era o resultado dumas suas relações com uma moça de nome Jimena Nunes.
Henrique é posto sob as ordens de Raimundo e encarregado de guardar a extrema sul da Galiza. Sob Raimundo, a extrema da Galiza alcançara já o rio Tejo; e frente a tradicional historiografia portuguesa, há que afirmar que ele não teve nunca o título de conde de Portucale. Esse condado tinha sido suprimido, já havia algum tempo, pelo rei Garcia no 1071, após a derrota do último dos seus condes Nuno Mendes, na batalha do Pedroso.
Conflito Compostela Braga: A Compostela de Gelmirez não aceita a condição de primaz de Braga, e por tanto o seu submetimento a Braga, e entra em conflito com ela. Nisso esta a isca da fratura da Galiza e da independência e nascimento do reino de Portugal.
Braga era o cerne da Galiza, desde que os romanos a converteram na capital da província, e os Suevos na capital do seu estado. Era a cabeça da Igreja e das ordens religiosas. Após a invasão muçulmana da península, delega-se o poder eclesiástico de Braga na diocese de Lugo, como lugar mais seguro, e que ficava mais fora do controle muçulmano. O Rei Garcia da Galiza, também se encarregou de que Lugo devolvesse os poderes a Braga. Ele restaura a cidade, e converte-a de novo no cerne do reino. De essa política de Garcia não gosta a apostólica sede que nesse momento estava nascendo.
O bispo Gelmirez tece uma rede de poder, com o ouro que as peregrinagens levam a Compostela -e apoios, na sua condição de Sé apostólica-.
Quando em 1107 falece Raimundo de Borgonha, quem estava destinado por Afonso VI a ser o rei da Galiza, oferece a sua proteção e acolhida a Urraca e ao seu filho. Urraca também recebe o apoio da poderosa casa dos Trava aliada de Gelmirez.
Em 1109, falece o rei Afonso VI, e Compostela imediatamente age para que ela seja reconhecida como Imperatriz da Galiza, e também dos demais territórios que estavam sob a coroa do seu pai, mas o seu pai antes de morrer arranjara o matrimonio da sua filha com Afonso o Batalhador de Aragão, que o exige com as armas, e até ameaça Compostela.
Esse matrimonio vai resultar na perda de influência de Compostela/Gelmirez, e ele reage: -Tinha com ele, na sua condição de tutor, a Afonso Reimundes, o filho de Urraca e Raimundo de Borgonha-. E -apoiando-se na vontade de Afonso VI, responde, coroando em Compostela em 1111, como rei da Galiza e Toledo, a Afonso o filho de Urraca, -como Afonso VII- que era uma criança -duns 7 ou 8 anos.
Neste rei, pretende achar Gelmirez um poderoso instrumento para as suas ambições peninsulares, nas que Compostela aspira a ser a cabeça, além da Galiza, da península toda se puder.
Era tal o desejo de Compostela de estar a cima de Braga, que Gelmirez compra com ouro ao papado a mitra arzobispal e o submetimento a ele (Compostela), de parte das dioceses que respondiam ante Braga, mas nem assim lhe chegava para ganhar o respeito e o prestígio a que aspira.
No ano 1102 Braga conseguiu a condição de arcebispado, e além disso conseguiu de Henrique de Borgonha, que tinha direitos sobre a cidade, que estes lhe fossem entregues na sua totalidade a ele como arcebispo de Braga.
Gelmirez responde a isso e organiza nesse ano, o assalto noturno a Sé de Braga e a outras igrejas da localidade, para roubar e trazer para Compostela os venerados restos dos santos que ali estavam -Frutuoso, Susana, Cucufate, Silvestre e alguns outros (A Frutuoso e Susana mandou Gelmirez erguer sendas igrejas em Compostela). Tentava assim. de ganhar o prestígio da vero caput para Compostela.
O arcebispo de Braga é perseguido por Gelmirez utilizando o poder real
A viúva de Henrique de Borgonha, Teresa, que mora em Guimarães, tem uma posição favorável à Gelmirez, além disso relaciona-se com o Conde de Trava -outro aliado de Gelmirez, que era o responsável de Viseu e Coimbra, e localidades mais ao sul.
Em 1120, sob a direção do arcebispo de Braga, o menino Afonso Henriques que tinha na altura uns doze anos, tomou uma posição política oposta à da mãe.
Como resultado dessa posição, o arcebispo de Braga Paio Mendes é forçado a deixar Braga e ir desterrado, mas levou consigo o infante, do que era tutor. Em 1122 armou-o cavaleiro em Tui. Pacificadas as tensões, voltará de arcebispo para Braga.
A Sé de Braga usa o seu pupilo Afonso Henriques, e Gelmirez a Afonso VII, na luta incansável que travam. Em 1127, Afonso Henriques vai ser cercado em Guimarães, para que se submeta ao rei. Porém ao estar montando o cerco, sabe que faleceu a sua mãe Urraca rainha de Leão e que a ele corresponde esse reino, pelo que abandonará o cerco. Para Afonso VII, ser rei em Leão, e proceder a recuperar a coroa de Castela, que usufruía Aragão, passa a ser central. Com isso, vai por fim libertar sua pessoa do controle estremado a que estava submetido por Compostela, e cada dia vai ficar mais longe e menos interessado nesses assuntos, pois Afonso VII ao título de rei da Galiza e de Toledo acabara somando, os reinos de Leão e de Castela, e o centro dos seus interesses deslocara-se geograficamente, sendo isso também determinante na fratura da Galiza e o nascimento do reino de Portugal.
A batalha de São Mamede
Uns meses depois estalam de novo as tenções entre Afonso Henriques, que na altura tinha já uns 20 anos, e sua mãe. Em 1128, enfrentam-se tropas de Teresa e Fernão Peres de Trava, com as de Afonso Henriques na batalha de São Mamede (batalha na que participaram uns poucos centos de homens, tendo as tropas do nosso rapaz, a bênção e o guia do bispo de Braga, que achegou homens, saído vitoriosas – o que consagrou a sua autoridade no território portucalense
O arcebispo, consciente da importância das forças que ameaçavam o poder de Afonso Henriques, guiou a este no governo, e fez esforços em negociações junto da Santa Sé, com um duplo objetivo: por um lado, alcançar a plena autonomia da Igreja de Braga, recuperando dioceses das que perdera o controle (O Pio Latrocínio foi de ajuda). e assim recuperar a sua condição de igreja metropolitana e primaz, e deixar de estar submetida a Compostela, e pelo outro lado, obter o reconhecimento do espaço de Portucale como um reino. E teve sucesso. No momento oportuno o arcebispo de Braga faz rei a Afonso Henriques.
O nascimento do galaico-português ou galego-português para a história da língua portuguesa
Em Portugal começa-se a lhe dar à língua o nome do reino, de jeito geral, ainda que não unânime, durante o reinado de D. Afonso III (1248 -1279), num processo que aliás é muito frequente por todo lado.
Carolina Wilhelma Michaëlis de Vasconcelos, foi a primeira estudiosa moderna da história da língua portuguesa, com rigor científico. Ela com Leite de Vasconcelos revolucionaram o estudo histórico da língua portuguesa, e criam o termo galego-português e/ou galaico-português.
Qual a razão de usar esse nome, em vez de chamar à língua de portuguesa (como recomenda Lidley Sintra, quando fala de português antigo), pois o nome nada variava sobre a sua natureza, e a realidade de estarmos ante uma língua única, como se passa na mesma península com o castelhano/espanhol.
Pois isso foi por uma razão muito simples, e que se rastreja na sua correspondência, é o processo de desbotar o esforço que suponha ligar o nascimento de Portugal a uma outra realidade jurídica, o qual, e não é preciso ser muito exaustivo no exame, resultava -e ainda resulta- muito problemático e esquisito, a particular historiografia portuguesa, que no processo de virar as costas a Castela, com grande inteligência e sucesso, faz nascer Portugal dum ato praticamente milagroso ligado a santa figura de Afonso Henriques, e criando umas diferenciações entre os moradores a norte e a sul de Minho, que em realidade carecem de qualquer base histórica.
Neste momento, já aceite universalmente, salvo pela ideologia espanholista, que galego e português são nomes históricos de uma mesma realidade. Não deveria ter nenhum problema a filologia lusófona de chamar de português às formas da língua que se deram em qualquer momento da sua história.
Hoje a Academia Galega (AGLP) recomenda que à língua, que se fala na atual Galiza -a que usufrui o nome histórico- se lhe chame português da Galiza em paralelo com o português do Brasil, o português da Angola, o português do Moçambique, o português de Portugal etc etc. Pois a língua portuguesa, como toda língua internacional, estendida por todos os continentes, é única como tal língua, mas com a diversidade interna da sua cor local, o mesmo que se passa com todas as línguas de grande extensão geográfica. Ainda que isso é certo que faz conflito a Castela/espanha, já que para eles o português é língua estrangeira e o galego “modalidade espanhola”, com tudo o que isso significa
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