O Eneagrama e as Ideias Santas I



Ao curvar fica-se inteiro;
Ao torcer fica-se reto;
Ao esvaziar-se fica-se cheio;
Ao envelhecer fica-se novo.

Quando se tem pouco, obtêm-se;
Quando se tem demais perturba-se.

Desta forma:

O homem santo abraça à unidade
E torna-se modelo debaixo do céu.

Não se exibindo, brilha;
Não se afirmando, aparece;
Não se gloriando, obra;
Não se enaltecendo, perdura.

Não disputa;
Logo ninguém sob o céu pode com ele disputar.

A palavra antiga: ao curvar fica-se inteiro
Não é uma palavra vazia:
Em verdade, está nela a unidade.

(Lao Tse, Tao Te King, XXVI)

10-eneagrama_souUma das ilusões mais persistentes do nosso ego é a de dirigir e controlar a nossa vida ou polo menos o de ter a obriga de o fazer. A ideia de um sujeito autónomo e independente é uma das bases da ideologia moderna. Mas se pudermos dar uma explicação convincente baseada em feitos veríamos que o 99% das nossas ações e desenvolvimentos da nossa vida não dependem realmente de um ego ou personalidade que a dirija. Isto não quer dizer que não tenhamos a ilusão contrária mas é verdadeiramente assim? Desde os processos da nossa digestão, o lugar onde nascemos, os pais que tivemos, as circunstâncias vitais que deram lugar aos nossos primeiros anos, os sonhos que temos etc, tão importantes para tantos aspetos da nossa vida não foram, em absoluto, decididos por aquilo que denominámos “a nossa personalidade”. Isto não significa negar a consciência moral ou cair num determinismo cego mas é um facto sobre o que devemos refletir. Em palavras de Spinoza:

“Os homens erram, ao pensarem-se livres; e esta opinião só consiste em que são conscientes de suas ações e ignorantes das causas polas que são determinados”.

A imagem do marinheiro que conduz a sua pequena embarcação no mar da existência é mais acorde com a realidade. A habilidade para transitar com sucesso a viagem não consiste em tentar modificar as características do mar, tarefa quimérica, mas em sermos capazes de compreender as leis e elementos que regem a arte da navegação aceitando estes tal e como são. Pode que alguns confiem em que o desenvolvimento tecnológico poderá modificar o mar e até o clima mas deixemos aos psicopatas a um lado, polo momento.

eneagrama-fixacoesO Eneagrama mostra nove patrões básicos de fixações de carácter cognitivo e passional, que possuem esta caraterística básica do eu-separado. À sua vez estes patrões de conduta da personalidade afundam as suas raízes numa perda de confiança básica na vida e na existência, de conexão com a essência, que se produz, habitualmente, nos primeiros anos da nossa experiência vital. Esta desconexão à sua vez esta regida pola perda de contacto com os nove arquétipos ou Ideias Santas que desenvolvem a totalidade da gramática do nosso ser essencial. Estes nove arquétipos são interdependentes e funcionam num processo integrado, quer dizer, só se podem compreender no interior de uma dinâmica regida por três leis:

Lei da Unidade, que implica a unidade de todos os elementos do ser humano numa totalidade cósmica, onde o interior e o exterior simbolizam e onde a energia flui conectando todos os elementos do eneagrama como o fio que une as contas de um colar. Mas sem fio. Isto significa que o número nove não é mais que um despregue da própria unidade. Unicidade implica também a realidade específica de cada ser num contexto de totalidade no que se insere. É representado polo círculo que engloba tudo.

Lei do Três, que desenvolve a explicação das três forças fundamentais que regem cada fenómeno do universo: afirmação, negação e mediação (neutralização). A terceira força é a que pode superar o impasse da ação das outras duas mas esta força tem duas possibilidades: neutralizar desde abaixo ou desde acima. Se o realiza desde abaixo simplesmente bloqueia o processo. Desde acima consegue uma integração num nível superior. É a força habitualmente atribuída ao Espírito ou à Graça. Corresponde-se com o triângulo e expressa-se na dinâmica do Amor Santo (9), Santa Harmonia, Santa Lei, Santa Esperança (3) e Santa Força, Santa Fé (6)

Lei do sete, que desenvolve a relação dinâmica entre o resto das ideias santas e também os movimentos de integração ou desintegração dos eneatipos. Implica a mudança e a distribuição do movimento da essência, da energia e o feito de não ser um processo linear mas cheio de impasses.

eneagrama-paixoesAs sete notas musicais, a lei da oitava, simboliza este processo. E o essencial é que não pode ser mecánico. A mecanicidade está fora da ideia fundamental do eneagrama, de aí que se conceba como um conjunto de leis que se compreendem como uma arte de ser. É um trabalho de consciência, alheio a qualquer tentativa de condicionamento. Se for utilizado sem este fator de consciência desenvolvida simplesmente não permitirá a compreensão e a libertação da pessoa. Infelizmente muitas pessoas estão a utilizar o eneagrama desde esta perspetiva condicionante, baseando-se tão só nas descrições psicológicas dos eneatipos. Isto só é brincar e não conduz a nenhuma transformação real. São tretas do próprio ego. As Ideias santas ligadas à lei do sete são: Verdade Santa (8), Santa Omnisciência, Santa Transparência (5), Santa Vontade, Santa Liberdade (2), Santa Perfeição (1), Sabedoria Santa, Plano Santo, Trabalho Santo (7), Origem Santa (4).

A perda de contacto com estas Ideias Santas tal e como vimos no Hino da Pérola está ligado a um estado de amnésia, a um esquecimento tal e como se manifesta na doutrina platónica e neoplatónica. A perda do contacto com estas Ideias Santas produz uma perda de confiança básica no próprio devir da nossa existência e na nossa vida. Surge de aí a necessidade de “manipular” com a “nossa” intervenção este processo. Como cada um de nós está mais ligado ou tem mais relação com um determinado arquétipo o seu sentimento de perda dá lugar a um determinado eneatipo. A confiança e gracilidade com a que se desenvolvem espontaneamente certos estados de ser dentro de nós fica afetado e experimentamos um estado doloroso, limitante, deficitário ou perturbador que se conhece como dificuldade específica de cada eneatipo. Esta dificuldade está enterrada em nós pola produção de uma ilusão específica, um ponto de vista não-objetivo da realidade, distorcido, constituindo o nosso jeito enviesado particular. Esta ilusão é a origem do modo em que cada eneatipo responde à sua dificuldade específica através da reação específica que é o jeito de responder tentando encher esse sentimento de perda, essa dificuldade específica que o condiciona. Vejamos um exemplo baseado no eneatipo oito, que se corresponde com a Santa Verdade e que tem como característica positiva um estado de inocência e unidade com todo o existente, um estado assimilável ao Éden representado em tantas tradições e mitos de todas as culturas. A queda, a expulsão de esse estado de consciência é vivido por este eneatipo como um estado de culpa. Há uma forma de auto-punição, de ódio de si que se manifesta de um jeito agressivo e castigador para com o mundo. Surge uma atitude de vingança em que tenta compensar esse sentimento de perda de unidade causando dano ao mundo, de algum jeito sente que de essa maneira eludirá a sua própria dor. Dá lugar ao dualismo e tentará restaurar o sentido da unidade com violência e uma exigência de controle e mando sobre o que os rodeia, impondo a sua vontade sem respeitar para nada os desejos e as necessidades do outro. Esta atitude está ligada a um jeito interno de sentir-se mau e reivindicá-lo. Tende a uma insensibilidade perante os seus próprios sentimentos, outra forma de auto-punir-se, e ocultará baixo uma profunda capa de “comportamentos fortes” o sentimento de culpabilidade. Terá uma tendência a ser cruel com o que considera fraco. Aqui a dificuldade específica é a sensação de maldade, culpa fundamental que vai aparelhada com a ilusão específica da dualidade e separatividade do mundo mui intensa, de aí a necessidade de dominar-lo. A reação específica é a tentativa de manejar a dificuldade específica. Neste caso baseia-se na sensação de auto-culpa que tende a projetar-se sobre o mundo em forma de desprezo, merecedor do seu castigo. A grande dificuldade aqui é contactar com este sentimento desagradável, doloroso de culpabilidade, pois cada eneatipo foge de esse sentir baixo, doloroso e frustrante com todo um programa de ações ilusórias que o levem a manter a inconsciência. As situações da vida que levem à pessoa a ser capaz de tomar consciência do “motor” doloroso e oculto dos seu arranjos é uma bênção mas só pode vir de uma certa inocência e graça, fora de toda deliberação demasiado forçada. Nalgum momento vemo-nos metidos em caminho e não sabemos muito bem como foi que isso aconteceu. Acabo com uma citação de A.H. Almaas a propósito do eneatipo oito e a Santa verdade no seu livro “Facetas da Unidade. O eneagrama das Ideias santas”

“A Santa Verdade inclui tudo – até a culpa e auto-culpa. Abarca-o tudo, do contrário não seria santa. A crença de que algumas manifestações são santas e outras não, ou de que algumas pessoas são eleitas de Deus e outras não, não constitui a Santa Verdade. A Santa Verdade elege a todas as pessoas: são a sua vida. Por isso diz: “O buscado converte-se no buscador”. A Santa Verdade em si mesma manifesta-se em forma de buscador em prol da Santa Verdade. Polo tanto, a viagem é um assunto do buscador encontrando o que buscava. Quando sabemos isto, percebemos que não há necessidade de buscar.”

José António Lozano Garcia

José António Lozano Garcia

Nasceu na cidade da Corunha em 1967. É professor de Filosofia no ensino secundário. Foi finalista em 1988 do Prémio de poesia Nacional O Facho. Em 1989 publicou no livro coletivo Fogo Cruzado (AGAL) o relato O pêndulo sob o pseudónimo Jorge Mário Novais. Em 1993 foi prémio ex-aequo junto a Xavier Alcalá no certame de narrações breves Manuel Murguia de Arteijo pelo seu relato Retrato antigo:pinturas e superfícies. No mesmo certame recebeu em 2016 o 3º prémio pelo relato A Aranha de Sidney . Publicou em 2002 no livro comemorativo dos 10 anos do prémio Manuel Murguia o relato Porco Transgénico.
Em 1995 publicou Nocturnos indígenas na obra coletiva 7 Poetas com o grupo Hedral, do que formou parte.
Em Fevereiro de 2020 publicou Obscura Anatólia na editora Urutau, o seu primeiro poemário a título individual.
No âmbito da filosofia tem várias publicações em Portugal e na Galiza sobre o filósofo portuense José Marinho. Especialmente interessado pelas vias iniciáticas da Tradição primordial está a dirigir a sua criação atual na interação de filosofia, poesia, teatro e música para resgatar a conexão originária e viva da arte na sua função espiritual e sapiencial. Tenta ligar-se a um pensamento libertário que integre as sabedorias ancestrais e originárias da raça humana.
É colaborador da revista digital Palavra Comum onde tem publicado ensaio, poesia e narrativa.
José António Lozano Garcia

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