O castelhano como blocador da normalidade do português na Galiza

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Por Alexandre Banhos (*)

(excerto da comunicação no XVIII COLÓQUIO DA LUSOFONIA, Ourense (GZ) outubro de 2012)

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A situação do Português na Galiza

Para percebermos os dados da situação presente, dispomos os dados do Atlas linguístico da Galiza -ano 2005. Dele podemos tirar as seguintes conclusões:

a) O número de pessoas que usam de forma monolíngue o português da Galiza reduziu-se para só 16% da população.

b) O uso da língua nacional é maioritário no total da população da Comunidade autónoma galega 56,4 por cento – mas isso é o resultado da peculiar pirâmide demográfica da Galiza, sem dizer nada, nem afetar o fluxo substitutivo nas novas coortes-.

Dispõe-se também dos dados de dous inquéritos à totalidade do censo que acompanharam os censos de 1991 e 2001, nos que se incorporaram perguntas sobre o uso e conhecimento da língua própria da Galiza. Os dados do último censo com estas perguntas, de 2001, figuram no quadro que se dispõe a seguir.

 

Uso real da língua nacional (Plano geral de normalização)

 

Sempre

As vezes

Nunca

TOTAL

56’84%

30’29%

12’86%

De 5 a 9 anos

37’63%

47’77%

14’50%

De 10 a 14 anos

41’46%

49’23%

9’30%

De 15 a 19 anos

44’44%

42’27%

13’28%

De 20 a 24 anos

45’82%

37’15%

17’01%

De 25 a 29 anos

45’01%

37’29%

17’69%

De 30 a 34 anos

47’06%

36’00%

16’93%

De 35 a 39 anos

50’16%

33’95%

15’88%

De 40 a 44 anos

54’43%

31’70%

13’85%

De 45 a 49 anos

57’54%

29’85%

12’59%

De 50 a 54 anos

60’67%

27’66%

11’65%

De 55 a 59 anos

65’08%

24’48%

10’43%

De 60 a 64 anos

69’94%

20’61%

9’43%

De 65 e mais anos

75’54%

15’50%

8’95%

 

Houve um inquérito a todas as famílias com filhos em idade escolar obrigatória nos 2009, sobre a língua da Galiza. Os resultados não foram feitos públicos, mas de alguns dos dados filtrados, e frente a preconceitos, resultou uma alta valoração da língua por parte da população, ainda que a perceberem muitas vezes como meramente simbólica.

A Galiza tem uma pirâmide da população a cada passo mais regressiva. A primeiro de janeiro de 2011, as pessoas de 65 e mais anos já quase duplicam os de menos de 15 anos. A pirâmide mostra que a proporção de falantes duma língua dada numa população, tem pouco valor se não for correlacionado com a estrutura demográfica e com outras varáveis do que eu chamo sustentabilidade linguística.

 

Fonte: Instituto Nacional de Estatística de Espanha

 

Não há documentos estatísticos oficiais da situação do português da Galiza no território desta fala e cultura que não faz parte da Comunidade autónoma espanhola da Galiza, e que é conhecido por Faixa-leste.

Galiza país capado

Chamo povo (país) capado, àquele a quem se lhe retiram as suas classes dirigentes, as suas elites autogeradas e as correspondentes notabilidades.

O alto nível da língua medieval corresponde a uma sociedade plena e normal nos critérios da época. Na Galiza há Corte, há reis, há nobreza, há uma continua procura por parte duma classe, de umas elites, de bens culturais. A nossa brilhante literatura era para o seu consumo.

Não é por acaso que em Compostela estejam sepultados alguns dos maiores vultos reais galegos, e que ali também foram coroados no máximo apogeu do reino da Galiza/Leão.

As elites galeguizadoras, além do que possam afirmar, não questionam o sistema de elites bem balizadas no campo de jogo do estado espanhol, que impera na Galiza. Sentem-se em certa medida membros dessa mesma elite, e reconhecem-se tais, na medida em que essas elites hispanas aceitam a sua condição galeguizadora. Para as elites galeguizadoras isto gera problemas insuportáveis, contradições entre expectativas e realidades, das que se defendem desprezando ao povo que tentam liderar/libertar com um comportamento que eu chamo a síndrome de psiquiátrico.

As elites galeguizadoras, portanto, com o povo passa-lhes o mesmo, o fracasso nas suas expectativas – isso de que vergonha de povo! (a mais das vezes)-, é o resultado do seu fracasso como notabilidades, pois resultam mais que lideres galeguizadores, representantes bem exemplares do povo galego submetido.

O português da Galiza chegou com vitalidade social à segunda metade do século XX, mas sem notabilidades e elites que projetassem um modelo de língua modelador.

A imposição do castelhano

Na Galiza a língua natural e própria é o português da Galiza. Se a situação atual do português na Galiza é profundamente distinta da do português de Portugal, todo um mesmo continuo espacial no ocidente da península Ibérica, é o fruto de políticas e práticas de imposição.

Em Portugal educa-se em português é não é imposição, que em Castela/Espanha se eduque em castelhano não é imposição; porém seria uma imposição se em Castela/Espanha se impusesse o português como língua de formação e educação. Pois isso é o que se passa e se passou na Galiza, o castelhano foi imposto.

Mas a imposição não foi cousa do tempo passado se não que está plenamente em vigor no momento presente. Na Constituição no seu artigo três, estabelece-se a obriga de todos conhecerem o castelhano. Normas disposições e sentenças judiciais todos os dias reforçam a imposição.

O castelhano das galegas e galegos

O castelhano é língua ambiental urbana da Galiza, é língua omnipresente na vida dos galegos e galegas, para eles é impossível fazerem uma vida normal no seu país e liberarem-se do permanente chapéu do castelhano. Os moradores da Galiza até os que morarem nos mais remotos lugares estão a receber de contínuo informação, notícias, relacionamento administrativo, gerenciamento de assuntos, atividade comercial e empresarial coa omnipresença da língua castelhana.

O castelhano dos galegos e galegas está inçado de giros e expressões que se correspondem à sua língua portuguesa. Porém a escola “nacional” espanhola, e muito eficaz na horizontalidade da Galiza com o espaço central do estado, e cada dia que se passa visibiliza-se mais o seu sucesso.

A maior parte dos galegos e galegas sentem-se muito mais seguros se se tem que exprimir por escrito em castelhano que se tem que fazê-lo no português da Galiza. Não só isso, o falante habitual da língua nacional galega ao tentar escrever sente um mar de dúvidas, o vocalismo da nossa língua faz que se sinta inseguro a hora de determinar como se escreve, por pôr um simples exemplo, há vogais abertas e fechadas etc: Pereira ou Pireira, pau ou pao, irmao ou irmau, hebreu ou hebreo, veu ou viu.

Com o espanhol não há problemas, além do vocalismo simplex castelhano, a escola forneceu dos elementos mais que suficientes para fazerem um uso seguro desta língua.

O português dos utentes da Galiza é uma língua com pouca expressão de pensamento abstrato, é com muita concreção sobre as cousas do seu dia-a-dia ordinário de vida. O português da Galiza é a língua da descontração no relacionamento mais informal com os parentes e amigos. É língua da intimidade.

Como diz o professor Fernando Corredoira, no seu prefácio a edição em ortografia do Acordo Ortográfico do Sempre em Galiza de Afonso Castelão: “Em meados do século XIX renasce para a literatura uma língua socialmente estigmatizada, funcionalmente minorizada, banida das instituições oficiais e hostilizada pelo Estado. Popular e realmente falada, a língua da Galiza começará a ser posta ao serviço dum movimento cultural e político que irá perfilando uma vocação que (com cautela, porém) poderíamos chamar nacional. Desde inícios do século XX, contra tudo e apesar de tudo, sectores da comunidade linguística galega transgredirão normas imemoriais, abrirão brechas em altos muros e sondarão novos caminhos, passando a fazerem servir o galego como instrumento do discurso público e da ação política.

Como previsível, o recurso ao modelo ortográfico castelhano foi inevitável. O ágrafo galego passou a escrever-se conforme a feição gráfica da língua oficial e única língua verdadeira – tal como ortografada desde finais do século XVIII. Este modelo tinha no mínimo duas vantagens invencíveis: era tecnicamente prestadio e era o único conhecido, o único aliás que podia conhecer-se. De maneira que não havia necessidade de irmos procurar alhures o que já acháramos aqui, nem de se inventar o que já estava inventado. Acresça-se, em ordem a perceber as intenções do programa linguístico dos primeiros promotores da língua regional, que, entre estas, de nenhum modo se encontrava a de concorrer com a língua nacional, cuja hegemonia estava fora de causa. Correlato visual da minorização linguística, a ortografia perfilhada servia ainda para ratificar que as notabilidades escreventes do galego eram e queriam ser um subconjunto regional do conjunto espanhol. Houve, sim, e desde cedo, quem propusesse adotar a ortografia portuguesa…A questão da ortografia tornará a ser objeto de debate nas três primeiras décadas do século passado. Jovens inquietos anunciavam novos rumos, que a desfeita de 1936 debelou”.

Só após a existência de pessoas preparadas na Universidade sob o magistério do professor Carvalho Calero, vai vir à tona a necessidade e prática do português da Galiza como mais um português.

Um elemento chave do processo de substituição

É um elemento fulcral para o sucesso da política estupefaciente da língua, o reconhecimento que se faz dela como variedade regional espanhola, e como tal encerrada nessas fronteiras e afastada do espaço português e lusófono internacional, e a correspondente perseguição e punição das políticas e práticas linguísticas que reclamarem e afirmarem a unidade da língua, o que não é contrário a existência de variantes locais (diatópicas) como é próprio de todas as línguas que tem caráter internacional e estendido.

A barreira da escrita, regionaliza as falas do português da Galiza e afasta-as das cultas e institucionalizadas da própria língua e da sua própria história, quando havia normalidade institucional na Galiza, e subliminalmente converte ao castelhano na língua per se, a verdadeira língua nacional dos galegos e galegas e elemento de correção das dúvidas na própria escrita -e na fala- dos falantes.

Na Galiza dize-se aguentar, cair etc verbos exatamente como no resto da lusofonia, o contato com o castelhano produz forte erosão na língua da Galiza espanhola e converte-os em aguantar, caer. Seriam inesgotáveis os exemplos pois há por todo lado, mas o castelhano na sua imparável erosão, está a dialectalizar todos os dias o português da Galiza.

Discursos exculpadores

Há um discurso muito curioso e frequente na Galiza, que se emite desde duas instâncias distintas porém ainda sendo discursos aparentemente distintos são no fundo a mesma música. Um procede do âmbito acadêmico e de personagens a ele ligado, o outro desde o âmbito político de organizações que pretendem umas condições o mais normais para a Galiza a semelhança das de qualquer outro povo.

EIS: -Não se pode desconsiderar o grande trabalho a prol da língua da Galiza realizada por estas gentes e instituições como o ILG. É preciso estar conscientes de que eles, a esse galego, incorporaram-lhe inúmeros vocábulos portugueses (linguagem abstrata), hoje por tanto, o galego, -(incluído o galego regional)- já é mais próximo do português do que ele alguma vez foi, pois em realidade o português nunca foi alheio a estas pessoas e ao seu trabalho-.

Na Galiza, impulsionado pelas autoridades espanholas, construíram um modelo de língua absolutamente paralelo do castelhano, o qual é a morte como tal língua, quando pretensamente a querem defender; e a pouco inteligentes que forem os falantes, e os galegos e galegas somos muito inteligentes, rapidamente se é consciente de que é uma língua ritual e desnecessária.

E bom exemplo desse modelo de língua paralelo o DOG, o jornal oficial do governo autonómico, e que marca o modelo de língua jurídica e mais do que isso na Galiza.

Essa língua, todavia incluindo todos esses termos lusos incorporados, é muito mais afastada do português padrão do que ela foi nunca, para essa língua todos os falsos irmãos entre o português e o castelhano, convertem-se em falsos irmãos entre o português e as falas da Galiza, exatamente paralelas do castelhano.

A erosão afeta a todos. Se escutarmos uma gravação do professor e político Xosé Manuel Beiras Torrado de há 25 anos e de hoje, a sua língua piorou. Se escutarmos uma gravação do professor Henrique Monteagudo de há 25 anos e de hoje, percebe-se que a sua língua piorou. Se isto se está a passar com líderes e notáveis da Galiza, que pretendem transmitir ideias modelares ao seu povo, que não se passará para quem essa “preocupação não existe”

Apontamento Final

De modo resumido direi: que para a Galiza, é fulcral o permanente contato com as variantes do português existentes no mundo, a recepção dos meios lusófonos a começar pelos de Portugal, e que o português se incorpore ao currículo do ensino, para terem assim os moradores da Galiza as ferramentas para poderem travar a erosão do português da Galiza e dispor dos elementos chave para integrarem com sucesso a nativizados em castelhano, oferecendo um uso normal e de sucesso da sua língua.

O afastamento do português, e a permanente erosão e efeito blocador na língua, do castelhano, é dizer, -da normalidade do português da Galiza-, impossibilitam um futuro certo para a língua, nesta parte do seu solar originário.

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(*) Alexandre Banhos, Presidente da Fundaçom Meendinho