Há algum tempo o panorama literário brasileiro vive o paradoxo de ter um grande número de obras publicadas e, ao mesmo tempo, grande parte dessa produção permanecer invisível.
Foi a partir dessa constatação que o pesquisador, biólogo e historiador Humberto Conzo Junior decidiu criar o GLBC – Guia da Literatura Brasileira Contemporânea, uma plataforma digital que se propõe a mapear, organizar e dar visibilidade à literatura viva do Brasil.
Radicado em São Paulo, Conzo Junior não é um nome estranho ao ecossistema literário. Com mais de uma década de atuação, ele é fundador do canal Primeira Prateleira e do Clube de Literatura Brasileira Contemporânea, iniciativas que o levaram a ser finalista do Prêmio Jabuti 2021, na categoria Fomento à Leitura.
Agora, com o GLBC, dá um passo além: constrói uma espécie de cartografia da produção literária atual.
Um mapa contra o apagão
Segundo o criador do Guia, a motivação central nasce de uma percepção concreta: há um “apagão de visibilidade” que atinge autores brasileiros vivos. Em um ambiente dominado por algoritmos que privilegiam obras já consagradas ou com forte apelo comercial, novos nomes enfrentam dificuldades para alcançar leitores.
O GLBC surge, assim, como uma infraestrutura de descoberta. Mais do que um catálogo, a plataforma se posiciona como um sistema de curadoria que busca retirar o autor contemporâneo da margem e colocá-lo no centro da experiência literária. Trata-se de reorganizar o acesso — e, por consequência, o próprio campo de leitura.
Curadoria e diversidade como eixo
Atualmente, o Guia reúne 435 autores e mais de 4 mil obras catalogadas, com foco prioritário na ficção — romances, contos, crônicas e poesia. No entanto, o projeto não se limita a esses gêneros: obras infantojuvenis e de não ficção também passam a integrar o acervo, desde que vinculadas a autores contemporâneos selecionados.
Os critérios de inclusão são claros e revelam uma preocupação editorial consistente:
- Vozes ativas: apenas autores vivos e em plena produção;
- Consistência de trajetória: ainda que haja abertura para estreantes com reconhecimento crítico;
- Diversidade: representação das múltiplas regiões do Brasil e de sua complexa identidade étnico-racial, de gênero e orientação sexual.
Esse último ponto é particularmente relevante para leitores galegos e de toda a lusofonia, pois amplia a compreensão do Brasil para além de estereótipos históricos, revelando uma literatura plural, contemporânea e em constante transformação.
Abertura sem mercantilização
Um dos diferenciais do GLBC é a sua política de acesso. Escritores podem sugerir sua participação diretamente pelo site, em um canal aberto de diálogo. No entanto, a inclusão passa por análise criteriosa, baseada nos critérios já citados, para garantir a qualidade do conjunto.
Outro aspecto importante: não há cobrança para participação. Em um cenário em que a visibilidade muitas vezes depende de investimento financeiro, o Guia aposta em um modelo que preserva o critério literário acima do poder econômico. A sustentabilidade do projeto, segundo Conzo Junior, será buscada por meio de patrocínios e apoios culturais.
Projeção internacional e lusofonia
Se, em um primeiro momento, o GLBC se apresenta como um mapa interno da literatura brasileira, seus desdobramentos apontam para uma ambição mais ampla: a internacionalização.
Entre os próximos passos, estão:
- Tradução da plataforma para outros idiomas;
- Expansão para obras de outros países lusófonos e da América Latina;
- Parcerias com festivais literários, atuando como base curatorial;
- Desenvolvimento de projetos editoriais e bibliotecas especializadas.
O Espaço Brasil já conversou ou publicou notícias sobre algumas personalidades que participam do GLBC, como Micheliny Verunschk, Fernanda Ribeiro, Alex Andrade, Cristovão Tezza, Nara Vidal , Jacques Fux, parte delas para a série A Sociedade brasileira de escritoras e escritores vivos.
entre outras.
Para o público galego, o projeto abre uma possibilidade concreta de aproximação com a literatura brasileira contemporânea — não apenas como leitores, mas como participantes de um espaço cultural partilhado pela língua.
Uma ponte necessária
O GLBC, disponível em glbc.com.br, é muito mais que um repositório de autores e obras, buscando reorganizar o fluxo de atenção no campo literário, para criar uma ponte entre quem escreve e quem lê, entre o Brasil, a lusofonia e o mundo.
Para a Galiza e para todos os territórios de língua portuguesa, trata-se de uma oportunidade rara de acompanhar — em tempo real — a literatura que está sendo escrita.

