José Carlos Silva – Passados Vinte anos do lançamento do Trapo (Ed. Brasiliense), livro que o tornou conhecido nacionalmente, o escritor Cristovão Tezza conquista a sexta edição do Prêmio Portugal Telecom 2008 com a obra Filho Eterno, competindo com grandes nomes como Antonio Lobo (Portugal), Beatriz Bracher, Bernardo Carvalho, Ondjaki (Angola), entre outros.
Cristovão Tezza é catarinense de Lages e mora atualmente em Curitiba,capital paranaense. Em 2008, numa comparação com o circuito de tênis, já conquistou o grand slam dos prêmios literários no Brasil.
O PGL conversou com o escritor, que também é Professor de Língua Portuguesa, na Universidade Federal do Paraná, sobre sua trajetória literária, Reforma Ortográfica, novos autores entre outros temas.
Confira abaixo os principais momentos.
– Cristovão Tezza, em nome do Portal Galego da Língua, gostaria de parabenizá-lo pelos prêmios conquistados em 2008 por sua obra O Filho Eterno, entre eles o Portugal Telecom e o Prêmio Jabuti e Prêmio Associação Paulista dos Críticos de Arte (2007). E peço que explique como foi o processo de criação da obra, tratando de um tema tão delicado para a sociedade.
CRISTOVÃO TEZZA. Passei anos fugindo do tema, que eu entendia como estritamente pessoal. Problemas pessoais não são literatura – e eu não conseguia o necessário distanciamento. Só de uns anos para cá comecei a pensar neste livro. Primeiro imaginei um ensaio, depois um depoimento, e finalmente encontrei a forma da ficção. O momento-chave para mim foi perceber que eu tinha de narrar em terceira pessoa, e transformar aquele pai em personagem. Quando me afastei completamente dele, o livro foi adiante. Consegui o necessário olhar «de fora».
– Sua carreira literária inclui romance, crônica, crítica literária, conto, teatro e muitos prêmios. Como ocorreu a sua estréia literária? Foi «descoberto» por alguém (escritor ou editor)?
C. T. Tenho a sensação de que tive muitas «estréias». A primeira foi publicar um conto numa revista de circulação nacional, em 1978 – era Os telhados de Coimbra, uma ficção que tinha por fundo os tempos em que vivi em Portugal. Depois, publiquei um livro de contos por uma cooperativa de escritores – o primeiro livro, isso em 1980. Mas não teve a menor repercussão. Em 1988, saiu Trapo, por uma grande editora, e de certa forma fui lançado nacionalmente. Foi outra «estréia». E acho que agora, com O filho eterno sendo traduzido e publicado em vários países, minha carreira de escritor recomeça em outro patamar. Fui «descoberto» nos anos 1980 por Caio Graco Prado, da editora Brasiliense, de São Paulo – ele pedia que eu sempre lhe mandasse meus originais. E graças a ele entrei no circuito das grandes editoras.
– O senhor esteve em Portugal em 1974, onde pretendia cursar a Universidade De Coimbra. Com a Revolução dos Cravos e a Universidade fechada, você «perambulou» pela Europa. O que fez nesse período? Esteve ligado de alguma maneira a literatura ou então, essa estadia na Europa influenciou em suas letras?
C. T. Fiquei um bom tempo em Coimbra, lendo e estudando muito por conta própria – foi um período muito rico da minha vida. E viajei bastante – a principal viagem foi à Alemanha, onde trabalhei como imigrante ilegal. Alguns detalhes deste período se transformam em ficção no meu livro. Foi um ano muito importante também por eu ver o Brasil de longe.
– O senhor é Professor de Língua Portuguesa na Universidade Federal do Paraná. Como conciliar a vida acadêmica, repleta de alunos, avaliações, preparação de aulas; com a veia literária?
C. T. Consegui por um bom tempo, mas agora está muito difícil. Esse ano, por exemplo, não consegui escrever praticamente nada. Meu projeto é largar a universidade no ano que vem, em julho, e me dedicar apenas à literatura. Felizmente O filho eterno está me dando essa oportunidade.

– Como Professor de Português, qual a sua opinião sobre a reforma ortográfica e mais, a unificação ortográfica dos países lusófonos? É válida e progressista ou acanhada?
C. T. Entendo a unificação ortográfica mais como um gesto político do que como uma reforma técnica. E, nesse sentido, é um acordo importante – mantém politicamente os laços entre os países lusófonos. Com certeza haverá vantagens para todos. Quanto ao aspecto técnico, sinceramente penso que mexeu com alguns detalhes irrelevantes que não vão causar nenhum problema aos usuários da língua escrita.
– Como participante do Portal Galego da Língua, consideramos o galego como uma variante da Língua Portuguesa. Como o senhor analisa essa reintegração da Galiza no mundo lusófono?
C. T. É uma bela volta às origens. Mas sei que as questões linguísticas são sempre, fundamentalmente, questões de natureza político-institucional. Eu precisava conhecer melhor as variáveis dessa reintegração para dizer algo a respeito com mais propriedade.
– Se a Galiza aderisse à Reforma Ortográfica poderia acontecer mais projetos de cooperação técnica e acadêmica entre Galiza-Brasil-Portugal? Como nas áreas de literatura e ensino do idioma, computação, desenvolvimento científico etc.
C. T. Sinceramente, não sei dizer – em tese, certamente que sim. Mas, como eu disse, não conheço o suficiente as variáveis envolvidas para ter uma opinião fechada a respeito.
– Com a aquisição do Premio Portugal Telecom, haverá algum intercâmbio cultural maior e o senhor terá suas obras lançadas em Portugal? (caso já tenha obras lançadas, cite algumas)
C. T. Antes mesmo do prêmio O filho eterno já estava contratado pela Editora Gradiva, que vai lançá-lo dia 20 de novembro. É meu primeiro livro em Portugal, mas desejo muito que essa estréia abra caminho para outras edições e outros títulos. E, certamente, o prêmio ajuda bastante na divulgação da minha obra.

Capa do livro O Filho Eterno
– E com os demais países lusófonos?
C. T. Seria ótimo, mas ainda não há nada contratado.
– Como você analisa os novos rumos da literatura contemporânea brasileira?
C. T. A literatura brasileira está vivendo um momento muito bom, com o surgimento de um bom número de escritores novos.
– Ainda a respeito dos novos autores brasileiros, você os lê? Você os indica em suas aulas? Quais?
C. T. Não sou professor de Literatura – dou aula de Língua Portuguesa –, mas é claro que procuro acompanhar a produção brasileira. Acabei de ler, por exemplo, o ótimo A chave da casa, de Tatiana Salem Levy, que saiu em Portugal, pela Cotovia. Li também Restos, de Mário Araujo, e Antonio, de Beatriz Bracher, que são ótimos. E dos autores já consagrados, Dois Irmãos, de Milton Hatoum, e Nove noites, de Bernardo Carvalho, são obras maravilhosas. Cito referências avulsas, mas há muita gente nova produzindo no Brasil. É difícil acompanhar tudo.
– A internet trouxe à tona uma gama de autores de blogs e páginas literárias. Como o senhor analisa a importância da internet para a literatura e a Língua Portuguesa?
C. T. A internet está sendo uma revolução fantástica na vida do mundo inteiro. A gente ainda não consegue ter uma noção clara de todas as suas consequências, mas de qualquer forma sou otimista – o computador trouxe a palavra escrita de novo à ribalta. Ela andava eclipsada pela televisão, que é um meio ágrafo, de pura oralidade.
O PGL agradece a gentileza e disponibilidade de Cristóvão Tezza para atender esta entrevista.
