Na ocasião da apresentação de seu livro de estreia, Mapas Instáveis, a escritora carioca Vivien Merciel Suarez foi entrevistada pelo radialista César Nóbrega na Rádio da Feira do Livro do Porto, uma parceria com a Rádio Nova do Porto, em Portugal.
O livro Mapas Instáveis reúne narrativas que envolvem deslocamentos, identidades em trânsito e a presença feminina no espaço público. As narrativas colocam as personagens em constante movimento, contrapondo a história de confinamento ao espaço doméstico.
César: A Vivien esteve a lançar o Mapas Instáveis cá na Feira do Livro do Porto. Conte-nos um pouco sobre o Mapas Instáveis.
Vivien: O Mapas Instáveis é o meu primeiro livro, publicado neste ano pela editora Mercador aqui em Portugal e pela editora Caravana no Brasil. Ele já tem previsão para ser publicado também na Argentina, pelo selo Caburé, traduzido para o espanhol. O Mapas foi todo escrito aqui em Portugal, a partir de alguns contos que eu já tinha previamente, e eu percebi que todos eles tinham um eixo em comum. Percebi que alguns eram no território português, mas nem todos. Entretanto, todos eram sobre deslocamentos e também sobre personagens que se sentem, de alguma maneira, deslocados, seja nos seus afetos ou nas situações que estão a passar. Eu, sendo imigrante, vim para cá, para Portugal, em 2023. E isso também atravessa a minha escrita no (jornal) Público Brasil, onde eu tenho uma coluna semanal. Mas eu percebi que é diferente. Os textos que eu utilizei para compilar o Mapas Instáveis estão mais numa linha ficcional, inclusive, são contos e algumas crônicas literárias. E eu quis colocar também as mulheres ocupando o território. Historicamente, nosso lugar foi cerceado ao espaço da casa, então eu quis colocar essas mulheres em trânsito. Tanto que o subtítulo é “sobre corpos em trânsito e outras fricções”. Porque, para mim, nós somos constituídas pelas fricções, sujeitos, ideias e territórios que nos atravessam.

César: Estas mulheres movem-se politicamente ou não há política nestas histórias? Eu acho que haverá política em tudo, é assim?
Vivien: Sim, sem dúvida. Os nossos corpos são políticos e, principalmente, quando eles começam a ocupar determinados espaços. O que eu quis colocar, se podemos dizer assim, politicamente. Eu quis trazer temas que pudessem também fazer com que as pessoas pensassem um pouco em algumas questões de gênero. Por exemplo, o Conciliabulum é um conto meu que se passa em Lisboa, mas ele fala de uma questão que de fato aconteceu aqui em Portugal. Há uns anos isso foi notícia de jornal. Inclusive, um jornalista fez mesmo um trabalho de campo para pesquisar o que estava a se passar. Houve um grupo de Telegram, criado por homens, em que cerca de 70 mil homens compartilhavam imagens íntimas de forma não consensual, expondo mulheres. E eu achei que era político e importante falar desse tema, para trazer também essa consciência de que nós estamos com os nossos corpos muito vulneráveis, até mesmo quando não estamos com eles fisicamente no espaço. As pessoas “transacionando” os nossos corpos por meio de imagens, sem o nosso consentimento e sem que saibamos o quanto isso já é violento, o quanto nós estamos expostas a vários tipos de violência. De uma maneira em que é naturalizado na cultura. Então acho que é necessário falar sobre isso, botar num texto, e queria muito levar isso para os leitores de uma forma acessível e que fosse também ficcional, para que isso pudesse ser visto com o distanciamento necessário, que não trouxesse uma culpa imediata, mas uma implicação nessa história.
César: Os outros contos vão onde? Que histórias é que lhe interessam mais contar?
Vivien: A primeira parte do livro se passa em territórios distintos. Uma delas, inclusive, se passa na Serra de Peneda-Gerês, um território que me é muito caro aqui no Norte de Portugal. Eu, como imigrante, na minha vivência, os meus territórios estão muito mais aqui: Porto e Norte. Então eu quis trazer isso. Trouxe também um díptico de contos. E geralmente esse díptico é o favorito das mulheres, para falar a verdade, porque ele se passa num café portuense que não existe mais e que, inclusive, eu mesma não cheguei a conhecer. Eu soube das histórias desse café por uma amiga. Justamente na ocasião de nós estarmos ali, na Praça de Carlos Alberto, passando em frente, no momento em que o espaço dele estava em construção para ser mais um desses sítios aqui do Porto que se tornaram, enfim, lugares que não são propriamente para o convívio, mas que são instagramáveis. E que não estimulam momentos, por exemplo, como as tertúlias. Eu acho que existem coisas do patrimônio imaterial portuense que estão se perdendo. E eu quis trazer um pouco disso ali. E também outra coisa portuense que eu acho fascinante nos personagens desse território. Por exemplo, numa das histórias que acompanha esse díptico, um senhor que é um coscuvilheiro. Ele está ali, à espreita, para coscuvilhar. E eu acho interessante ver, e falar sobre isso, também nos textos.
César: Na sua vivência entre o Brasil e o Porto, o que é que estranhou mais? Colocou no livro essas estranhezas?
Vivien: Eu não sei até que ponto consegui botar as estranhezas, mas o que eu posso dizer é que eu quis ter até uma certa reverência diante do território, porque isso, inclusive, está em um dos meus contos da primeira parte. Tem uma abertura que se passa em Lisboa e é mesmo sobre esse contato entre o terreno e o sutil, o espiritual. Eu abro o livro assim e, na sequência, vem um texto que se passa no Peru, em Cusco. É uma cidade toda marcada por uma ancestralidade inca. E também falo sobre ter respeito por onde se pisa. Para mim, sendo uma mulher brasileira, escrevendo a partir deste território e falando sobre ele, colocar o Cusco logo na abertura, apesar de ele não ser em Portugal, foi uma maneira de falar sobre isso. Falar sobre onde estamos e palmilhar onde pisamos. “Palmilhar” foi uma palavra que eu “aprendi” em Portugal. A gente não usa “palmilhar” no Brasil. E esse livro tem uma particularidade. Ele passou por duas revisões. Ele teve uma revisora portuguesa e uma revisora brasileira. Justamente porque, com o meu corpo em trânsito e outras fricções neste território, hoje em dia a minha escrita é híbrida. Eu escrevo num lugar que é entre o português do Brasil e o português europeu. Para mim, é uma forma também de reverenciar. Acho que cada vez mais as estranhezas são pontos de interseção que a gente pode ter com os territórios. Essa interseção a partir da estranheza, com um estranho que se torna familiar, acho que nos conecta mais do que nos distancia. Transitando por cá, a minha interseção é essa: com as nossas culturas e também com os nossos registros linguísticos. Que cada vez mais encontrem pontos de conexão.
César: A Vivien trabalha com margens da sociedade, isso é uma missão? Por que escolheu estar assim com gente que habitualmente está fora do ciclo “normal”?
Vivien: Sim, eu cá em Portugal sou voluntária do projeto Vilarejo Social. A gente faz mediações literárias no sistema prisional português. E eu, no momento, estou em fase de conclusão do meu mestrado pela Universidade do Porto, e estou numa cooperação internacional com a Agência de Saúde Pública da Catalunha. Precisamente, na área de prescrição social, que é uma área que une os recursos do território com a saúde pública, com políticas públicas, para reduzir as inequidades sociais e a medicalização da vida. Como imigrante, tem um conto meu, em especial, o “Prestígio Não Paga as Contas”, que foi a minha forma de reverenciar a nossa comunidade, a nossa diáspora brasileira, não só em Portugal, mas em todos os territórios estrangeiros ou que são estrangeiros para nós. Eu acho que a “militância” acaba vindo a reboque, vem da minha formação na antropologia, desse olhar. Eu tenho um pai que também é imigrante, então eu cresci vendo situações em que meu pai foi discriminado. Eu não tenho como não empatizar com esses grupos. Da mesma forma, em Santa Cruz do Bispo (estabelecimento prisional), temos a nossa atuação primeira com a ala feminina. Nós, mulheres, fomos historicamente privadas do direito à literatura, ao acesso, à formação, à alfabetização, à escrita, às publicações. Hoje somos as maiores leitoras em número e, ainda assim, as menos publicadas e as menos premiadas. É isso, eu acho que a minha história de vida acaba me levando para determinadas militâncias de uma maneira não intencional e, quando eu vejo, já estou fazendo elas.
César: E como é que a Vivien vê este momento? Parece-me que a sociedade já esteve no caminho mais certo do que agora está, e eu não falo só do Brasil, falo do nível mundial.
Vivien: Sim, sim. Eu acho que a nossa sociedade se organiza muito em momentos de fluxo e contrafluxo. E aqui na Europa eu sinto muito forte esse movimento da extrema-direita, que coloca em xeque alguns direitos sociais. A gente tem que pensar também sobre isso, sobre direitos. Direitos sempre podem ser perdidos, dependendo do governo que você tem. No nosso país, a gente se aproxima do período de defeso eleitoral, para a próxima eleição presidencial, e isso também é um tema delicado para nós. Pensar cada vez mais em como nascem e como morrem as democracias, eu acho que é algo que a gente não pode esquecer. E agora é o que se passa nos Estados Unidos também. Uma das minhas melhores amigas, que inclusive deve ser a tradutora do Mapas Instáveis para o inglês, é editora, e trabalha com edição de livros de história, precisamente. Ela estava a falar sobre esse declínio do pensamento (em geral) à medida que você tem o pensamento crítico abafado por alguns governos, no caso de lá, com o Trump. É uma coisa que a gente precisa cuidar na nossa sociedade para não deixar se perder: não perder a memória, não perder a criticidade sobre o que a gente vive e também sobre o que a gente escreve.

César: Voltando aos Mapas Instáveis, para quem é a leitura? Quem é que deve ler este documento?
Vivien: Quando eu pensei no Mapas, aqui na minha experiência de imigração, eu confesso que pensei muito nas pessoas que estão privadas do acesso à leitura e à literatura. Eu vim para cá, para Portugal, e eu não sou menos imigrante do que outras pessoas da diáspora pelo fato de estar na universidade e de estar aqui, de certa forma, fazendo um “sabático”. Eu saí de uma empresa que é grande no Brasil, que é a TV Globo. Trabalhei lá por quase sete anos. Então eu vim com um certo recurso financeiro para poder fazer essa escolha, de fazer o mestrado cá. Isso é um privilégio, eu reconheço, mas a minha posição de imigrante não era muito diferente, à medida que eu percebia certas discriminações acontecendo. E eu me aproximei muito de pessoas que talvez não fossem a minha comunidade imediata no meu país, mas a gente era par simplesmente pelo fato de também sermos imigrantes brasileiros em Portugal. E aí, a gente conversando e eles sempre me olhavam com uma certa “reverência”, um respeito pelo fato de eu estar cá numa posição de “pensadora”, digamos assim, por estar na universidade, por ter uma oportunidade de estudar. Na altura eu trabalhava. Trabalhei na Casa da Música e tinha um trabalho a part-time. Então eu tinha tempo para a leitura, para a escrita. Comecei a escrever em Portugal, na verdade, a partir da experiência da imigração. E eles falavam: “Pô, que legal que você escreve”; “Poxa, eu te confesso que eu nunca li um livro inteiro”; “Ah, ler não é muito para mim, eu sou uma pessoa mais da ação”; “Ah, porque eu não quero usar meu tempo livre para fazer uma coisa que eu me sinta burro…”. E eu vi que são pessoas super inteligentes, pessoas curiosas. E eu pensava que era mesmo uma lástima que, ao longo da história de vida deles, a literatura não tivesse cruzado o caminho de uma maneira positiva, para deixar um registro bom, para que isso se tornasse um hábito. Então, quando eu pensei no Mapas, eu queria que fosse uma leitura acessível, agradável, que fosse uma experiência de contato com a literatura, que fosse uma experiência positiva para ter na história dessas pessoas e também que a minha comunidade, os que eu sou próxima e também os que estão precarizados cá no Porto, pudessem ler um livro inteiro até o final e tivessem orgulho disso.
