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Efigênio Moura: “O galego é como se tivesse encontrado um parente que ninguém da família tinha me apresentado”

Efigênio Moura é paraibano. Apesar de haver 6.342,48 km em linha reta até Burela, escreveu um livro com esse título, e que será editado pola Através. As conexões com o nosso país e a nossa realidade foi mercê a Bernardo Penabade. Visita-nos em finais do mês de novembro. Tem duas vontades: conhecer melhor a nossa variedade e compartilhar aquilo que vem estudando sobre a fala do Nordeste. Deixa-nos várias propostas para a sociedade brasileira conhecer a Galiza.

Efigênio Moura é do Brasil, da Paraíba. Há um oceano pelo meio mas também um laço que é a língua. Como soube da existência da realidade linguística da Galiza?

Foi por meio da minha própria identidade linguística que cheguei à Galiza.

Na minha região, o Nordeste brasileiro, existe uma fala ancestral que sempre considerei bonita, forte e fundamental para manter nossas raízes. Meu primeiro livro me levou a colocá-la em primeiro plano; depois, os outros seguiram o mesmo caminho. Mas uma pergunta começou a me acompanhar: de onde vinha essa maneira de falar?

Fui pesquisar e, em um grupo dedicado às línguas lusófonas, alguém me apresentou a Bernardo. Foi ele quem, com muita generosidade, me abriu as portas para o mundo da língua galega. Vieram então as leituras de Raquel Miragaia e Manuel Rivas e, mais tarde, meu curso de Letras, em Português e Espanhol, concluído recentemente, no qual defendi a pesquisa “A influência do galego-português no falar nordestino”, aprovada com louvor.

Passei a estudar a língua galega, sua história, sua resistência e sua luta para permanecer viva. Quando escrevi Burela, mergulhei ainda mais nos costumes, nas tradições e no imaginário da Galiza. Foi uma aproximação tão profunda que Raquel Miragaia me disse há alguns dias: “Efigênio Moura é paraibano, mas podia ser galego.”

Foi pelo reconhecimento da minha própria fala que descobri o fascínio da língua galega.

Planificou uma visita à Galiza nas próximos meses. Quais as suas expetativas?

É aprender. Ouvir a língua no cotidiano, sentir o solo, conhecer melhor sua história, sua formação e, sobretudo, sua resistência. Depois de tantos estudos sobre o galego e sua relação histórica com o português, quero agora aprender diretamente com quem vive essa língua.

Também pretendo aproveitar a viagem para apresentar uma outra realidade linguística: a fala nordestina brasileira. Quero participar de encontros e palestras em que possa falar sobre essa maneira de falar, sua força, sua identidade e sua relação com o galego-português.

Levo, portanto, duas vontades: conhecer melhor a variedade galega e compartilhar aquilo que venho estudando sobre a fala do Nordeste. Talvez o mais bonito dessa viagem seja justamente esse encontro: uma língua que sobreviveu de um lado do Atlântico encontrando uma fala que, do outro lado, também guarda muitas marcas dessa história.

Qual o conhecimento da realidade galega no Brasil? Como julga que seria a melhor forma de alargá-la?

Sinceramente, é muito pequeno. A maioria dos brasileiros nem sabe que a Galiza existe como realidade cultural e linguística própria. Quando se fala nela, muita gente pensa apenas numa região da Espanha, sem imaginar que ali está o berço da nossa própria língua. Poucos sabem que o português e o galego nasceram juntos, que as cantigas medievais que estudamos na escola foram escritas em galego-português, e que, ao ouvir um galego falar, estamos ouvindo algo muito próximo das raízes do nosso idioma. Eu mesmo, quando descobri isso de verdade, senti uma emoção difícil de explicar, como se tivesse encontrado um parente que ninguém da família tinha me apresentado.

A maioria dos brasileiros nem sabe que a Galiza existe como realidade cultural e linguística própria. Quando se fala nela, muita gente pensa apenas numa região da Espanha, sem imaginar que ali está o berço da nossa própria língua.

Há um detalhe curioso: no Nordeste, “galego” é como chamamos uma pessoa loira ou de pele clara, e na Bahia a palavra ficou ligada aos imigrantes que chegaram de lá. Ou seja, a Galiza está na nossa boca todos os dias, mas quase ninguém sabe de onde vem essa palavra.

Para alargar esse conhecimento, acredito que o caminho passa, antes de tudo, pela língua. Se os brasileiros ouvissem mais o galego, em músicas, filmes, podcasts e redes sociais, perceberiam na hora a proximidade, e isso desperta curiosidade de forma natural. As universidades também têm um papel importante: os cursos de Letras poderiam dar mais espaço à Galiza, não só como passado medieval, mas como cultura viva, com sua literatura contemporânea, de Rosalía de Castro até os autores de hoje. E o intercâmbio entre artistas, músicos e escritores dos dois lados do Atlântico faria muito mais do que qualquer discurso oficial. Quando as pessoas se conhecem, a admiração vem sozinha. Em julho passado próximo. Defendi meu TCC: A Influência do Galego-Português no Falar Nordestino, que teve uma repercussão muito boa por ser o novo, o não dito, o não comentado. Confesso que esbarrei muito também, na ajuda de filólogos galegos. Mas Bernardo me deu um mão imensa. Então, assim: acho que a Galiza podia se propagar mais.

Há quem diga que o Brasil é grande demais e é tanta a sua produção artística que, por vezes, não dá para as suas gentes olharem para fora. Concorda?

Concordo em parte. O Brasil é realmente um país-continente, com uma diversidade cultural tão grande que dá para passar a vida inteira descobrindo a música, a literatura e as tradições de cada região sem sair daqui. Isso cria uma certa autossuficiência, e às vezes um certo olhar para dentro.

Mas acho que o problema não é exatamente não olhar para fora. O brasileiro olha, sim, e muito, só que costuma olhar para os mesmos lugares: os Estados Unidos e alguns países da Europa. O que nos falta é olhar para os lados, para quem compartilha conosco a mesma raiz. Conhecemos pouco de Angola, Moçambique, Cabo Verde, e menos ainda da Galiza. É uma pena, porque justamente ali, onde a língua nos aproxima, haveria uma troca muito mais natural e rica.

Por isso, mais do que uma questão de tamanho, vejo uma questão de direção do olhar. E acredito que isso pode mudar. Quando um brasileiro descobre a Galiza e escuta sua fala, dificilmente fica indiferente. Foi assim comigo, e é por isso que tenho tanta admiração e respeito por essa terra.

Que peso tem a literatura na vida das pessoas do Brasil? Segundo retratos do Brasil, 47% da população é leitora, aliás, leu pelo menos um livro, de qualquer género, nos últimos 3 meses.

É um peso significativo, embora nem sempre seja percebida como algo essencial.  Temos grandes nomes e outros oceanos de autores que são desconhecidos. Para boa parte do Brasil, o eixo Rio-São Paulo é quem determina quem é bom e ruim. Por isso quando Carolino foi finalista de um prêmio lusófono, da forma que foi escrito, para mim foi um salto imenso. É como se um livro em galego fosse finalista de um prêmio castelhano.

No Brasil, a literatura também tem uma forte relação com a identidade cultural, especialmente por meio das diferentes formas de falar, contar histórias e representar o país.

47%. Esse número precisa ser lido com cuidado. Pela primeira vez, menos da metade dos brasileiros se declara leitora, e isso é um alerta. Mas ele também mostra que quase metade do país continua lendo, apesar de o livro ainda ser caro e de muitos municípios não terem uma biblioteca de verdade.

Sim, leio bastante e sempre. Li há pouco A FARRA DO MEU CADÁVER, de Tarcísio Pereiora e estou lendo no momento SODADE, de Ana da Cunha.

Fale-nos agora dessa obra, Burela. Como nasceu e porquê? Quais foram os grandes desafios?

Burela nasceu de uma participação que tive em evento on line, com a professora Valeria Vila-verde e alunos do Instituto Perdouro, na cidade. Já conversava com Bernardo e pensei: que nome bacana, quero saber mais da cidade. E pesquisei e disse:  quero criar algo em que Burela esteja metida. Então surgiu uma paixão platônica e inquietações se encontraram. A primeira era a doença de Huntington e que ninguém a mostrava na literatura. Quis essa luta.

Outra era o silêncio de um amor igual em um lugar marinheiro, um amor que desafiava conceitos, num lugar onde todo mundo sabe de todos. Depois os dogmas, e o principal, a fala. Sempre via a Espanha como um pedacinho de cada canto, e o galego exerce um fascínio sobre mim. Então, eu tinha que entrar nessa arenga contra a invisibilidade, contra o tal do preconceito – como acontece conosco, nordestinos. Veja quão forte é a língua: o Huntington leva tudo, mas não conseguiu calar a boca genuína de Sabela e Xoana.

Os desafios foram muitos. O primeiro foi a geografia. Eu no Brasil, 6.342,48 km em linha reta de Burela. Como conseguir os detalhes, as ruas, o jeito, o gosto, o sabor de peixe (que eu não como peixe), como encontrar as ruas e cantos, tradições, povo, costumes, em uma Burela do começo os anos 1990?

Recorri a pesquisas, leituras, e incomodei muito Bernardo (sempre muito gentil). Às vezes provocava áudio dele somente para entrar na cadência da fala galega. Um dia ele me fez uma tour on line de vídeo por toda Burela. Do Cabo ao Cruzeiro, os hórreos, o Porto, a Marosa… foram muitas pesquisas em buscas da verossimilhança. Foi um desafio., depois foi o sentimento galego. Li e me apaixonei diversas vezes por Diário Comboio, tentei ler a fundo Manoel Rivas, mas como é galego oficial, me atrapalhei. Retrincos, de Castelão, Memorias Dun Neno Labrego de Xosé Neiras, foi pela internet, mas incompleto; Conheci Xico de Cariño em um show em Joao Pessoa e soube que era amigo de Bernardo, conversei muito com Rosa, brasileira, esposa do Chico, que levou meu livro Carolino e dele fez uma leitura dramatizada em Cangas de Morazo. Depois pesquisei palavras locais como: dixomedíxome, o rugerruge, xurelo, sardinha, xouba. Vi e sigo muitas páginas de Instagram sobre a Galiza. Tentei escrever num português que caminhasse em direção à Galiza, sem deixar de ser meu, com o gerúndio que é meu.

Tive a felicidade de ser avisado por Bernardo sobre um pronunciamento da câmara de Compostela, sobre o Huntington. O aviso me fez sentir que o livro não me faria passar mal.

Que o motivou a tornar-se sócio da Agal e que espera do trabalho da associação?

Vejo na associação um espaço de defesa, estudo e valorização da língua galega. Como escritor brasileiro e pesquisador da fala nordestina, tenho especial interesse pelas relações históricas entre o galego e o português e por tudo o que a língua carrega de memória, identidade e cultura.

Espero que essa aproximação me permita aprender mais sobre o galego, trocar experiências com escritores e estudiosos e, também, contribuir com o olhar de quem vem de outro lugar onde a língua portuguesa ganhou formas próprias de falar e de contar histórias. Gostaria que a AGAL fosse também um espaço de diálogo entre a Galiza e o Brasil.

Como gostaria que fosse a “fotografia linguística” das relações entre o Brasil e a Galiza em 2050?

Duas terras conscientes de suas raízes comuns, mas também orgulhosas das formas próprias que suas línguas assumiram. Imagino uma relação mais próxima, com intercâmbio entre escritores, pesquisadores, professores e leitores, em que o galego e o português brasileiro sejam reconhecidos como expressões vivas de uma história compartilhada. Mais cursos de galego em universidade brasileira nordestinas e mais professores nordestinos pela Galiza.

Gostaria, sobretudo, que a fala nordestina fosse compreendida como parte dessa riqueza linguística, sem preconceitos ou caricaturas. Que crianças e jovens da Galiza e do Brasil pudessem conhecer suas diferenças, reconhecer suas aproximações e entender que uma língua não é apenas um instrumento de comunicação. 

Conhecendo Efigênio Moura:

Um sítio web: ICL

Um invento: GPS

Uma música:  Temporal, Bráulio Tavares.

Um livro: Diário Comboio, Raquel Miragaia

Um facto histórico:  08 de janeiro 2023.

Um prato na mesa:  Cuscuz.

Um desporto: (2?) Tênis e futebol.

Um filme: Lisbela e o Prisioneiro ( Guel Arraes)

Uma maravilha: O Cariri paraibano.

Além de brasileiro: um galego de coração.

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