A Sociedade brasileira de escritoras e escritores vivos



Atenção Editoras, Livrarias e Eventos Literários lusófonos, o Espaço Brasil inicia hoje a Sociedade brasileira de escritoras e escritores vivos, uma série de entrevistas com escritoras e escritores brasileiros, com objetivo de divulgar a literatura brasileira dos nossos dias. E, certamente, todos estão preparados para convites para eventos ou lançamentos na Galiza e em toda lusofonia.

Algumas das obras de Jacques Fux.

Algumas das obras de Jacques Fux.

A literatura brasileira é rica, diversa, por vezes inclusiva ou combativa, noutras, bem humorada, irônica e sarcástica; reunindo nomes de projeção internacional, como Cecília Meirelles, Cora Coralina, Rachel de Queiróz, Guimarães Rosa, Carlos Drummond, Oswald de Andrade; isto para não falarmos de Machado de Assis, um grande ícone e objeto de estudo e leitura em vários países.
Contudo, temos Natalia Timerman, Anna Zêpa (que está recolocando Adelaide Carraro no alto patamar que esta merece), Nara Vidal, Fernanda Stramasso Rodrigues, Rafa Carvalho, Marcelino Freire, Itamar Vieira Júnior, Jeferson Tenório e tantos outros.
E por termos tantos nomes a listar, vamos começar com Jacques Fux, um escritor premiado desde o primeiro livro, graduado em Matemática, mas com pós-doutorado em Literatura, que mistura equações com Borges, Woody Allen com lendas judaicas e muito mais que sua calculada criatividade permitir.
Vamos aos principais momentos da entrevista com Jacques Fux:

Você é graduado em matemática e mestre em Ciência da Computação pela UFMG, doutor e pós-doutor em Literatura pela UFMG, pela Universidade de Lille 3 (França) e pela Unicamp, além de pesquisador visitante na Universidade de Harvard.
A pergunta que acredito ser bastante recorrente em entrevistas, mas tenho que perguntar: Como um matemático graduado em Ciência da Computação foi parar na literatura?
Encantado com Borges, que eu lia desde pequeno e sempre pensando que ele trabalhava de alguma foram com matemática, lógica e ficção, fiz uma matéria eletiva no doutorado em Letras sobre seus trabalhos e me apaixonei. Decidi então buscar outros escritores que também se utilizaram dessa área “exata” para escrever. Assim, escrevi uma tese de doutorado, que foi publicada sob o título: Literatura e Matemática. Apesar de gostar da academia, queria eu mesmo aplicar essas descobertas e constatações na minha literatura – e por isso me dediquei à ficção. A escrita ficcional é, mesmo que utilizemos regras e restrições, muito mais rica e sofisticada que a escrita acadêmica. Eu faço uso da teoria, mas constantemente a subverto e a contradigo, tudo isso como um recurso ficcional. E acho isso maravilhoso. O conhecimento diversificado me possibilitou abrir novos campos de estudo. Juntar áreas e pesquisas distintas. Assim, conhecendo um pouquinho de algumas coisas, pude propor alguns estudos e abordagens diferentes dentro da ficção e da literatura. Lugar onde me sinto feliz e quero continuar.

A escrita ficcional é, mesmo que utilizemos regras e restrições, muito mais rica e sofisticada que a escrita acadêmica. Eu faço uso da teoria, mas constantemente a subverto e a contradigo, tudo isso como um recurso ficcional.

Você ganhou o Prêmio São Paulo de Literatura 2013, com seu livro de estreia “Antiterapias”, como foi escrever o segundo livro com um peso desses?
jacques_fux_programa_sempreumpapo_fotoDepois de ter ganhado o Prêmio São Paulo, quis escrever algo inédito e diferente, mesmo sabendo da dificuldade desse projeto. Falar sobre o fracasso, falha, sobre a impotência enquanto seres humanos não é um tema novo, mas talvez seja um tema recalcado, sobretudo na sociedade atual que vive das imagens do sucesso e da beleza expostas nas redes sociais. O ‘Jacques’ do Brochadas é um personagem que fracassa, que é impotente e que encara de frente (e mole) essa questão. Mas o livro é muito mais: expõe o lado machista do homem que atribui a mulher o seu fracasso sexual – e isso é discutido, já que as cartas das ex-namoradas dirigidas a esse degradado narrador-personagem dão uma apunhalada a toda estrutura falocêntrica da humanidade -; também conta as brochadas literárias de grandes figuras – Freud, Fliess, Joyce, Borges, Santo Agostinho, Platão, Pessoa, Hemingway, entre outros -; aborda a questão dos odores/essências – e como, por exemplo, alguns filósofos como Kant quiseram hierarquiza-la inferiormente para afastar o homem da sua animalidade. O livro, enfim, é uma enciclopédia-idílica das inúmeras facetas e possibilidade de uma brochada.

Antiterapias foi classificado como uma autoficção, Você concorda com essa classificação ou teria uma melhor?
O Antiterapias é mais que uma autoficção. Pode ser encarado como um romance de formação e, como um bom matemático-obsessivo-enciclopedista, tentei inserir no livro tudo que eu conhecia e que havia me tocado. A ideia ‘teórica’ do livro era fazer uso dos conceitos e estruturas oulipianas, borgeanas e matemáticas pesquisadas durante meu doutorado. Sim, inseri algumas regras. Uma delas é a das ‘citações escondidas’, o que chamo de ‘plágio literário’. Tudo que acontece com narrador tem que ter um ‘par literário’. Assim, quando ele está falando de suas memórias e de seus amores, elas vão se misturando com as de Marcel, no Em busca do tempo perdido; quando ele está no banheiro fazendo ‘ficção’, quem está ao seu lado (soa bem estranho) é o Alexander Portnoy, do Complexo de Portnoy, de Philip Roth; quando ele está declarando suas animosidades, o narrador se vê junto a Dante colocando seus parentes e colegas nos círculos do inferno. Porém, apesar dessas regras percorrerem o livro, elas não podem saltar aos olhos – estão bem disfarçadas e embaralhadas. Um leitor conhecedor de algumas obras, vai saber que há ali uma “homenagem”, uma releitura, e não um banal “plágio”.

A sua descendência judaica está presente em sua obra. Inclusive na obra Meshugá (2016 e também ganhador do Prêmio Manaus) você escreve sobre judeus famosos, como Bobby Fischer e Woody Allen, reforçando uma suposta “loucura” característica dos judeus. Isso tem alguma influência na sua formação e, consequentemente, em suas obras?
No Meshugá, como é dito logo nas primeiras linhas, trato dos mitos e crenças atribuídas (pela cultura, pela História e muitas vezes pela ciência) ao louco judeu, ou ao judeu como louco potencial. Misturando dados históricos, literários e ficcionais de célebres personagens, o narrador entra na mente de seus protagonistas buscando construir seu próprio “ensaio sobre a loucura”. Este livro surge como uma continuação natural do Brochadas. Se lá resolvi dar um foco na questão da sexualidade, aqui, em Meshugá, decidi investigar a questão da loucura. Uma das teorias mais disseminadas era a loucura estava diretamente relacionada a tara sexual judaica e também à ideia de o judeu ser um povo incestuoso. Fui atrás dessas teorias – absurdas – e pseudocientífica e encontrei personagens e biografias “reais” para corroborar insanamente com essas suposições.
O livro, portanto, decide entrar na mente dessas figuras “famosas” (Woody Allen, Bob Fischer, Ron Jeremy) e entender a loucura deles – ou nossa? O livro é delicadamente construído, e os momentos ficcionais são tão engendrados que chega a confundir o leitor levando-o a acreditar que se trata de “biografias”, o que não é verdade.
O narrador de Meshugá é tragado, numa espécie de efeito Zelig, por esses personagens que acabam sustentando ou ilustrando mitos que pretendia derrubar. Esta é a beleza da ficção. Você pode se apropriar de fatos reais, biográficos e mentirosos, e misturar tudo, criar um grande amálgama que ninguém – nem o próprio autor – sabe ao certo o que é citação, intertexto, verdade ou ilusão. Dentro do domínio do texto, do livro, do pacto, tudo tem sua razão e sua autenticidade, mas não é necessário haver uma “comprovação”.
E, o que aconteceu de fato, foi que o narrador Jacques Fux, que aparece no primeiro e no último capítulo, acaba introjetando todas as histórias de seus personagens e enlouquecendo.

O narrador de Meshugá é tragado, numa espécie de efeito Zelig, por esses personagens que acabam sustentando ou ilustrando mitos que pretendia derrubar. Esta é a beleza da ficção. Você pode se apropriar de fatos reais, biográficos e mentirosos, e misturar tudo.

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Algumas das obras de Jacques Fux.

O livro “Brochadas: confissões sexuais de um jovem escritor” (Rocco, 2015), chamou a atenção do público, críticos e imprensa em geral, até pela coragem de relatar suas aventuras e falhas.
Como você pode explicar para galegos e galegas, que ainda não leram seu livro, o que é uma “brochada”?
Pergunta difícil! Como eu digo no Brochadas, esse termo é exclusivamente brasileiro. Acho que só os brasileiros brocham! Brochar é se desencantar em todos os aspectos, inclusive no sexual. É não ter tesão – seja o homem ou a mulher. É não ficar excitado, animado – seja na política, nas relações amorosas. E é não ficar ereto! Deixo um texto que escrevi sobre Santo Agostinho para nos ajudar: “Para santo Agostinho a “doença da luxúria” foi resultado direto da “grande queda”. Segundo o filósofo cristão, Adão tinha ereções racionalmente controladas quando vivia no Éden. Após ter desobedecido a Deus, o próprio corpo passaria a contrariar as ordens do homem. Este, agora fraco e amaldiçoado, estaria atado aos desejos sexuais e teria que controlar as suas “partes vergonhosas”, que não se levantariam mais em momentos cruciais. “Às vezes, o desejo nos controla sem ser convidado. Já em outros momentos ele abandona o amante e, embora você arda de desejo, o corpo se torna frígido.” Agostinho não acreditava que o sexo era ruim, mas a “autonomia do pênis” era uma desgraça que a humanidade teria que aceitar e controlar. Assim, para conter a luxúria que se espalhava pecaminosamente por todo o mundo, os sábios católicos recomendavam a charitas conjugalis, a união por amizade, caridade e fidelidade. O amor e a paixão, deixados de lado, eram subversivos, destrutivos e pervertidos.”

Brochadas ganhou o Prêmio Nacional Cidade de Belo Horizonte, Antiterapias levou o Prêmio São Paulo 2013, Meshugá ganhou o Prêmio Manaus e o livro Nobel (2018) é a história de um escritor premiado.
Jacques Fux será o primeiro escritor brasileiro a ganhar o Prêmio Nobel?
O Nobel é o fechamento de um projeto literário que se iniciou com o Antiterapias – em que anuncia um narrador em primeira com aspirações de ganhar o Nobel – passa pelo Brochadas – e a exposição e a ironia nua, crua e impotente de um jovem escritor – e chega em Meshugá – com exposição da loucura e do autoerotismo do narrador e de seus comparsas literários. Nesse projeto, alguns temas se repetem: a desconstrução do herói (ou a criação do anti-herói), a brincadeira com a autoficção e as suas inúmeras possibilidades e questionamentos, a loucura e a sexualidade exacerbada judaica (seus mitos e suas imposturas) e a cadeia intertextual de citações e autores. Em Antiterapias o narrador diz, ainda no primeiro capítulo: “A ideia do Nobel seria a visão que me desestabilizaria emocionalmente, como uma doce náusea, ainda bastante jovem. Deveria estar com tudo pronto para receber meu prêmio aos 33 anos. Mas a vida é cheia de obstáculos”. A questão é que essa ideia acabou sendo criada – e os livros conversam bastante. Eu tinha que ganhar o Nobel no Antiterapias e, de fato, o ganhei em 2018. O Nobel é o meu discurso de recebimento!

Nesse projeto, alguns temas se repetem: a desconstrução do herói (ou a criação do anti-herói), a brincadeira com a autoficção e as suas inúmeras possibilidades e questionamentos, a loucura e a sexualidade exacerbada judaica (seus mitos e suas imposturas) e a cadeia intertextual de citações e autores.

Todos nós somos humanos, mesmos aqueles detentores de grande saber e de grandes honrarias, como é o caso do Nobel. O ser humano é esse misto de belezas e crueldades, de atos honrosos e outros vis e mesquinhos. O narrador do livro expos e escancara esse lado literário e humano dos escritores (e dele próprio).
Há essa vontade de mostrar que a loucura social é exatamente esse mundo raso de aparências e idolatrias. E que é um fenômeno humano, mas que está elevado à décima potência nesse mundo de redes sociais e demonstrações públicas de alegria.

Você tem algum projeto literário novo em mente ou em andamento?
Meu novo romance se chama Herança e perpassa a vida, os traumas e a resistência de três gerações de mulheres: Sarah, Clara e Lola. Sarah nasceu em Lódz, em 1926, e aos quinze anos de idade foi obrigada a viver no Gueto, sendo lentamente privada de sua juventude e de seus amores e desejos. Mas ela resiste, escrevendo seu delicado e sensível “Diário”. Anos mais tarde, sua filha Clara – e toda a sua geração dos filhos de sobreviventes – enfrenta traumas herdados de um outro tempo, mas que insistem em eclodir. Clara luta – como mostrado nas suas “sessões” de análise – contra a dor intergeracional do Holocausto, e a distância e frieza imposta pela mãe, atada em silêncios. Lola, filha de Clara, também recebe esse legado, elaborando a era da catástrofe e da barbárie de forma poética e crítica em suas “notas”. Herança é uma autêntica história de três mulheres, de três vozes combatendo o sofrimento, o apagamento das narrativas e a violação da própria humanidade.
Além, tenho alguns livros infantis que também serão lançados em 2022!

Sua obra já foi lançada em quantos países? Alguma previsão em lançar na Galiza?  
Antiterapias foi traduzido para o espanhol e hebraico e o Meshugá para o italiano. O Nobel já foi traduzido para o hebraico, o meu novo romance Herança foi traduzido para o italiano e o O enigma do infinito para o espanhol, todos esses serão lançados em 2022. Queria muito ter algum dos meus livros publicados na Galiza.

 

Sobre o autor

Jacques Fux (Belo Horizonte, 1977) é formado em matemática, mestre em computação, doutor e pós-doutor em literatura. Sua tese Literatura e matemática: Jorge Luis Borges, Georges Perec e o Oulipo, foi premiada em 2011. Estreou na literatura com Antiterapias (2012), que obteve o Prêmio São Paulo de 2013. Brochadas: confissões sexuais de um jovem escritor” é o lançamento de 2015. O romance Meshugá (2016), reinventa a vida e a obra de nomes como a filósofa Sarah Kofman e o cineasta Woody Allen para explorar temas como a loucura, a identidade judaica e os limites da ficção. Foi pesquisador visitante na Universidade de Harvard e também publica ensaios, entre eles, Literatura e matemática (2016), finalista do Prêmio APCA. Em 2018, lançou Nobel e está preparando o livro “Heranças” e uma obra infantil, para 2022.


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