Fios ao redor de “Seique”



Assim como a consciência pessoal vela pelas condições de vinculação, equilíbrio e ordem, também existe uma consciência de grupo ou da rede familiar, uma instância que vela por este sistema, achando-se ao serviço da rede familiar e procurando que o sistema se mantenha dentro da ordem ou chegue a ela, e vingando as infrações da ordem no sistema. Esta consciência atua de um jeito totalmente diferente. Enquanto a consciência individual reage com sensações de mal-estar e bem-estar, de prazer ou desagrado, a consciência da rede familiar não se percebe sensivelmente. Por esta razão, não são tampouco os sentimentos os que ajudam a encontrar a solução, mas unicamente um conhecimento que provém do entendimento. A consciência da rede familiar permanece inconsciente para nós, da mesma maneira que, no essencial, também nos é inatingível a ordem à que serve. Onde mais possibilidade temos de conhecê-lo é pelo sofrimento que causa ignorar esta ordem, tanto para nós, como para outros, sobretudo para os filhos.

(…)Esta consciência da rede familiar toma o cargo de aquelas pessoas que nós excluímos da nossa alma e do nosso pensamento consciente, bem porque as tememos ou condenamos, bem porque queremos opor-nos à sua sorte, ou porque outros na família ou na rede familiar se fizeram culpáveis com elas sem que a culpa tenha sido nomeada, nem tampouco assumida ou reparada, ou bem que elas tiveram que pagar pelo que nós tomamos ou recebemos, sem que lhe-lo tenhamos agradecido ou as tenhamos valorado por isso.

O vínculo que esta consciência estabelece com um grupo é tão transcendental, que sentimos como reivindicação e obriga aquilo que outros neste mesmo grupo sofreram ou causaram e, em consequência, vemo-nos implicados em culpas alheias e inocência alheia, em pensamentos, preocupações e sentimentos alheios, em conflitos alheios e consequências alheias, em metas alheias e desenlaces alheios.

(Bert Hellinger)

Capa do livro, por Rosa de Cabanas

Capa do livro, por Rosa de Cabanas

Estava na Crunha de passagem, seria o mês de junho, quando recebia um whatsapp do querido amigo e poeta Mário Herrero a falar sobre uma obra literária de obrigada leitura. Dizia que tinha que ler Seique, que era algo insólito na literatura galega. Casualmente estava a passar por diante da livraria Couceiro e perguntei polo livro. Saí com ele, folheando-o, e ao pouco de abri-lo leio Portaris, Glória…Nomes que ressoavam na minha memória familiar desde a infância e compreendi que o livro que tinha nas minhas mãos fora escrito por alguém da família. Na verdade, na altura eu não tinha ideia de quem era Susana Sánchez Arins mas já tinha o seu livro, o livro de uma sobrinha-neta do meu avô Rafael. Surpreendia-me que estivesse escrito na ortografia própria e tradicional , e que tínhamos um gene lusista na família?

Não continuei a ler. Guardei, à espera de estar numa situação mais íntima. Devo confessar que houve certa agitação ao descobrir que o livro falava da família, uma mistura entre ledice e inquietação. Também de curiosidade pola autora e, o mais importante, polo conteúdo do livro. Sabia que me levaria a lembranças antigas, duras. Eu saber sabia…

Na casa da minha avó Encarna (Encarnita para o resto da família e Lala para mim) eu passei boa parte da minha infância, horas e dias a fio em que Lala contava as histórias da sua infância no Mosteiro, do seu pai a cavalo de Careto para assistir aos pacientes, das visitas durante os dias de feira de Ramom Cabanillas, dos poemas que ela sabia de cor. Aquelas histórias partilhavam também a dimensão sobrenatural da cosmogonia tradicional galega que se introduzia sempre nalgum momento chave da narração. Lala sempre tomava o chá às cinco. Imitava nisto aos ingleses mas não numas chávenas de delicada porcelana senão numas cuncas brancas mais próprias do primeiro almoço. Eu sempre pedia um pouquinho de chá. Mui bem, dizia-me, mas não contes aos teus pais que tomaste chá. Eu saboreava aquele líquido vermelho, Hornimans, que me parecia uma maravilha. Eu tinha o chá por uma espécie de beberagem de efeitos mágicos. Minha avó contava-me que quando abusava do chá ficava insone e via ao redor da sua cama os rostos e as cabeças de homens desconhecidos. Em particular havia um, careca, de rosto avermelhado, que aparecia sempre. Mas eu não fago caso, dizia-me, sei que são cousas da imaginação. Cousas do chá.

Esta situação especial de compartilhar com a avó estas tardes eram momentos pontuais, eram ilhas de um vínculo especial que perduraria sempre, a pesar de que contrastavam duramente com a realidade quotidiana da casa dos meus avôs. Desde que eu lembro o meu avô Rafael já não dormia na casa familiar. Ia para o prédio que tinha onde a sua pequena fábrica de brochas de barbear. Tal e como diz Susana no Seique:

Romeu e Julieta

duas casas, iguais em dignidade, no famoso meis vos dirão, reativam antiga amizade, manchando mãos fraternas com sangue irmão. do fatal seio destes dois rivais, os portaris de uma banda, os betanços doutra, nasceu um par de amantes desgraçados, ele rafael, ela encarnita.

na sua sepultura, nunca o ódio dos pais depuseram

Foi neste clima de violência, guerra direta e indireta, que se deu a relação dos meus avós. Nela não havia momento de paz até que Lala sofreu um icto que a paralisou de meio corpo e a reduziu a uma relação dependente. Conseguiu certa melhoria, podia caminhar com bastante esforço e lentamente, tinha dificuldades para falar. Ela, uma mulher de uma verbosidade agressiva e mordaz, um vinagre eterno (expressão do meu avô), ficou reflexiva, o seu carácter mudou. Ainda lembro o seu olhar com uma luminosidade e expressividade de uma criança. Não parecia a mesma pessoa. Nesses dez ou doze anos que passaram entre o icto e a sua morte ela mostrou uma face de si mesma completamente diferente: o seu olhar dizia-o tudo. Não havia ódio, nem ressentimento. Havia escuta, aceitação e gratidão. Nesse tempo o meu avô cuidou dela tudo o que pode, até os últimos dias, lembro gestos de meiguice, alouminhando o seu rosto, que seriam impensáveis noutras épocas.20200818_091850

A memória de um neto não é a mesma que a dos filhos. Os filhos sofreram diretamente as consequências de uma origem manchada polo sangue. Sangue e atos que procediam de todas as direções. De Portaris por um lado mas também dos Betanços polo outro. A minha avó sempre sentiu como um grande peso ter desafiado ao seu pai, pensava que o tiro que o meu avô Rafael lhe deu na perna precipitara o seu infarto não muito tempo depois. Ela mesma sentia-se culpável da prematura morte do pai mas ao mesmo tempo sentia a profunda carga dos “pecados” do pai. O meu bisavô Cândido era médico no Mosteiro e teve um filho numa relação extramarital com uma rapaza muito mais nova do que ele. Isso podia estar mal mas não foi o pior. Em vez de assumir a responsabilidade paternal da maneira que fosse, pediu, de joelhos, à minha bisavó Carmem que o ajudasse a “sair da situação”. Contava-me a minha avó Lala, sendo uma nena, de um rapazinho loiro de olhos azuis, de poucos meses, a ser entregue para o torno da inclusa em Lugo. Minha avó contava como morriam todos os irmãos varões aos poucos meses do nascimento. Morriam sem chegar ao ano. Mas o único sobrevivente foi enviado ao hospício. Sempre pensou que seria de esse seu irmão, que seria dele, viveria, morreria…

Todos estes acontecimentos atormentaram a memória da minha avó. Susana escreve que o meu bisavó Cândido era republicano mas isso não é bem assim. Na verdade ele era monárquico e, portanto, não suportava os falangistas. Mesmo escondeu na sua casa um comunista que era procurado polos fascistas. Quem sabe se estaria Manuel de Portaris entre os perseguidores! E lembra Lala como foi correspondido:

– E depois este homem, quando passou um dia o meu pai por diante da sua casa, estava a se barbear e, apanhando a navalha, gesticulou ameaçando de cortar-lhe a garganta. Que baixeza!

A leitura de Seique confirmou a evidência de que alguém da família escrevia, não podia ser de outra maneira. A neta de Glória. Eu conhecera Glória provavelmente em Tremoedo, na casa da minha tia-avó Maria. Maria e Glória eram irmãs e tenho uma clara lembrança dela. Vi-a em várias ocasiões. Até lembro que uma vez a encontramos por Vilagarcia, sendo eu um rapaz de uns onze anos. Mas eu nunca tinha coincidido com Susana.

A leitura de Seique confirmou a evidência de que alguém da família escrevia, não podia ser de outra maneira. A neta de Glória. Eu conhecera Glória provavelmente em Tremoedo, na casa da minha tia-avó Maria. Maria e Glória eram irmãs e tenho uma clara lembrança dela. Vi-a em várias ocasiões. Até lembro que uma vez a encontramos por Vilagarcia, sendo eu um rapaz de uns onze anos. Mas eu nunca tinha coincidido com Susana.

O livro contava muitas histórias que eu desconhecia mas não houve surpresa quanto a Manuel de Portaris. O que se conta sobre ele coincide basicamente com o que eu sabia. Lala se tinha encarregado de contar a ignomínia. E é surpreendente que se tenha mantido uma versão fundamentalmente unânime. O que resulta inquietante é a maneira em que muitos irmãos que tinham sido diretamente roubados e maltratados mantinham um duplo vínculo de genreira/admiração que resultava incompreensível. Eu mesmo tenho visto ao meu avô falar pestes do seu irmão, da sua barbárie, do que lhe fizera aos pais, etc. Lembro que o seu rosto se transformava, a sua expressão de dureza punha-o à beira do fanatismo com um olhar inesquecível mas noutros momentos recordava outras facetas do Manuel com uma admiração e veneração que me provocava ira e incomprensão . Alguma vez eu mesmo tenho-lhe dito:

– Manuel é um assassino!

E ele ficava calado e algo ressentido. Havia uma maneira de buscar uma expiação procurando uma história que fala-se da sua habilidade, esperteza, … Então a minha avó intervinha explodindo e soltava todas as acusações ditas e repetidas: demo, assassino. Ela punha-se fora de si. A história que Susana conta na segunda edição de Seique sobre uma mulher que se sobe ao autocarro e sussurra ao ouvido de Manuel assassino, assassino, assassino foi-lhe contada à minha avó pola sua irmã Esther, que foi testemunha da mesma. Tal e como eu a lembro não era um sussurro, era em voz alta, no autocarro, diante de todo o mundo, berrando. Manuel permaneceu impassível, com a sua frialdade e o seu sorriso sardónico característico. A mulher era a irmã do taberneiro assassinado Daniel Varela Muñiz. Era uma história conhecida: Manuel estava implicado na morte de Daniel, que foi assassinado a garrafadas e tiros. Seique dá mais detalhes que confirmam o que a memória oral contava, incluída a implicação do cura de Riba-d’úmia.

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capa da primeira ediçom do livro

O que Susana consegue é convocar um coro de vozes, de contos e retalhos de histórias que se espalham como uma arma muito mais poderosa que uma história com princípio e fim. É como uma estratégia de raiz guerrilheira, a falta de provas que o expediente penal invoca é revogada polo clamor das vozes que resgata da memória silenciada. Susana não enche baleiros, ela sim sussurra, resmunga, declara e mesmo canta em forma de copla ou estribilho com um estilo sóbrio e e sem sentimentalismos o que os documentos não chegam a completar. Há um exercício de despojamento da identidade familiar em torno a um segredo a vozes que ninguém se atrevera a enunciar em público. Mas há, ao mesmo tempo, um uso da própria qualidade familiar “dos contos”, mesmo com o humor característico, que ela recria, estiliza e aperfeiçoa com mestria. A questão, sempre ética, de não incomodar os vivos (ou mesmo aos mortos) aos que um tem afeto e aos que deve certa discrição não intrometendo-se no que são assuntos pessoais e de família choca com o dever ético de denunciar a ignomínia que vai além das fronteiras familiares. Não é, pois, um assunto de “famiglia”. E Susana rompe a “omertá” criando um estilo novo, pessoal, literário, culto mas cheio da voz do povo, que ressoa como o coro trágico do velho teatro grego. Recolhe os ecos e as experiências nas que se pode ver refletida toda uma época e uma sociedade e cria uma ponte com o presente. O jeito de fazê-lo é parte de uma vitória já cumprida. Digo vitória e jeito porque não só consegue a denúncia e a visibilidade dos feitos quanto a perfeição que leva implícito o sucesso. Num contexto cultural medíocre, numa ortografia proscrita e com um livro que não se insere em nenhuma etiqueta de género Susana vence. A vitória não é a concessão de um prémio. É o efeito que opera sobre as consciências, como se espalha por lugares e familiares e como, em definitiva, arranca uma verdade inquestionável contra todos os prognósticos. A verdade não precisa montras nem púlpitos. Só precisa ser dita, bem dita. Susana Sánchez Arins transforma um drama social e familiar através do jeito de contar, livrando uma luta polo estilo: direto, cheio de dados, com retalhos de imprensa e arquivos mas esquivo, indireto também, construído de remendos e versões controversas, ambiguidade que aburaca o positivismo cego dos saberes ao serviço do “status” da falsa consciência: falta de provas. Seique é uma roupa velha cheia de riquezas e novos sabores. É o mendigo disfarçado que na verdade é um rei. É uma inteligência poética que se faz política.

O que Susana consegue é convocar um coro de vozes, de contos e retalhos de histórias que se espalham como uma arma muito mais poderosa que uma história com princípio e fim. É como uma estratégia de raiz guerrilheira, a falta de provas que o expediente penal invoca é revogada polo clamor das vozes que resgata da memória silenciada. Susana não enche baleiros, ela sim sussurra, resmunga, declara e mesmo canta em forma de copla ou estribilho com um estilo sóbrio e e sem sentimentalismos o que os documentos não chegam a completar.

Vivemos numa época que que se convulsiona baixo os estertores de uma intoxicação agónica, cheia de anomalias graves e tendências destrutivas. A desesperança e o medo está por debaixo da consciência mais imediata dos seres humanos em todo o planeta. E isto está a produzir o ressurgir de toda uma nova psicopatia política convertida em sentido comum. Ou só a fazer mais visível os derradeiros momentos de uma civilização esgotada. Porque, sejamos sinceros, novo não é.

Trata-se de uma repetição que vai desde o coração das famílias até o centro da civilização. Por detrás do silêncio disfarçado de positividade new age com estrutura neo-liberal (faça-se a sim mesmo, tudo depende de você, etc) insere-se a marca de uma comunidade desunida, comandada pola máfia e os sicários de uma não-política ao serviço do latrocínio e a hybris mais enlouquecida que jamais existiu, e não porque não houvesse desmesura e tirania noutros tempos mas porque ainda não tinha os meios tecnológicos e os álibis de uma ciência comprada polas multinacionais. Entretanto uma massa cúmplice projeta em quimeras ou bodes expiatórios a sua culpável inconsciência. E não me vou do tema porque continuamos ao redor de Seique. Não se trata, como uma forma simplista poderia arguir, de questões ideológicas ao estilo da confrontação bipolar que o século XX nos ofereceu e que agora parece querer ser redivivo numa segunda parte nada boa. É algo muito mais enraizado na condição humana e a sua triste compulsão para matar e fazer calar. Ou para arruinar as possibilidades da criação e da vida. Participar de uma história familiar que viveu no seu seio dita violência significa compreender como toda uma rede está ferida e danada, em parte pola resignação, em parte polo que eu chamaria o fascinum do mal e o poder que é, literalmente, um feitiço e um embruxo que a sociedade compartilha e alimenta mesmo através de um discurso que parece dizer o contrário. Também polo esquecimento dos excluídos e danados: os que enlouquecem, os que desaparecem, os que se matam lentamente em suicídios anunciados, os que são negados na sua dignidade, toda a rede feminina, os que são levados à inclusa. Mas já sabemos de que valem os sermões ditos nos púlpitos e nas igrejas, nos lugares mais ritualizados: permitem matar em nome de Deus contra Deus mesmo. Também sabemos o que significam as mais pomposas ideologias da libertação humana: permitem eliminar ao adversário por milhões sem remorsos. A esquerda e a direita. E também sabemos o que significa a palavra democracia: era-se uma vez nos países nórdicos. Um mito desmentido polos feitos dia a dia mas que alguns se empenham em manter como dogma de fé contra toda evidência. E continuo ao redor de Seique, são os arredores de Seique. Sim, Seique fala-nos de esta batalha liberada no coração humano e de esse fascinum (palavra vinculada com fascio, por certo) polo que se produz um duplo vínculo de ódio/veneração em que seres insignificantes se convertem no núcleo de referência e atores de males incontáveis. Estranha ironia e também motivo de reflexão que pessoalmente me levou a pensar profundamente sobre as bases da cultura e a civilização (ainda que duvido que mereça tal nome) na que vivemos. Observar múltiplas tipologias humanas, e a curiosidade própria, rapidamente me levaram a ter uma certa sensibilidade para distinguir o que há por detrás das fachendosas fachadas. Dadas as circunstâncias foi um processo adaptativo e uma necessidade de sobrevivência do próprio coração perante a ignomínia e o manicómio particular que por momentos foi a vida familiar. E digo, por momentos, porque também há a doce e maravilhosa experiência da vida e as lembranças mais puras e amorosas, a pesar dos pesares. E esse foi o meu sustento durante muitos anos, contra vento e maré.

A fachendosa fachada era a que apresentava Manuel na comida familiar que teve lugar em Vilagarcia lá polo ano 1979 ou 1980. Era na sua casa. Eu teria então onze ou doze anos. Sabia já suficiente sobre Manuel para estar observando todos os seus gestos, os seus movimentos. Também a lembrança da sua mulher Carmen, triste e derrotada. Para mim era como assistir a um circo em que ia aparecer o gigante de duas cabeças. Pode haver maior expetação para um rapazinho? E apareceu, com a sua imensa barriga, corpulento e satisfeito de si mesmo. Com o seu riso sardónico. Era uma “impostura natural” que tive a oportunidade de observar ao longo dos meus anos em diferentes personagens da vida pública e cultural (neste último caso sempre com mais subtileza, evidentemente). Personagens que tinham o mesmo efeito fascinante nos seus seguidores, mesmo nos seus opositores. Boa escola porque realmente foi toda uma experiência de sabedoria ver ao monstro das duas cabeças. Não havia nada aí. Não houve nenhum detalhe que ganhasse para a minha lembrança perene. Exceto uma história que se contava sobre como tinha caído na rua meses atrás. Abrira-se a barriga, essa barriga imensa, por onde fugiram as tripas. Apanhando-as com as mãos meteu-nas para dentro do abdómen e subiu para casa à espera de que chegasse uma ambulância. Polo demais essa reunião não deixou vestígios nem pegada. Compreendi muito bem anos depois o que Hannah Arendt queria dizer com a banalidade do mal, não aplicável no seu sentido próprio a este caso, mas que também me leva a lembrar a Spinoza quem compreendia o mal como impotência e superstição. Mas visto na comida familiar uns dez anos antes da sua morte Manuel de Portaris era um ser terrivelmente banal. O monstro de duas cabeças finalmente resultou dececionante mesmo como espetáculo de circo. A comida acabou e eu respirei aliviado. Que chato tudo aquilo!.

E agora vêm à memória os versos da Eunomia de Sólon de Atenas, desculpai a mudança súbita mas preciso recitá-los:

Não poupando os bens sagrados nem os públicos
eles roubam por rapinagem, um aqui outro acolá…
E não preservam os veneráveis alicerces da Justiça que,
em silêncio, conhece o presente e o passado
e com o tempo sempre vem para punir.
Essa ferida inevitável já alcança a cidade inteira
que depressa chegou à dolorosa servidão:
esta desperta a revolta civil e a guerra adormecida,
que de muitos destrói a amável juventude;
por obra de inimigos, depressa a amorável cidade
se consome em reuniões de que os injustos são amigos.
São esses os males que grassam entre o povo; dos pobres,
muitos chegam à terra estranha, vendidos
e agrilhoados com inadequados grilhões.

Como contrapartida a essa lembrança está a figura de António. Ia dizer António de Portaris porque realmente o era mas por algum motivo não me calhava. Era o maior dos irmãos, maior portanto que Manuel. Nunca me tinham falado dele, nunca era mencionado. Tinha 89 anos, comíamos baixo umas vides um dia de verão na sua casa familiar. Ele estava na cabeceira da mesa. Sorria e tinha essas cores avermelhadas nas façulas tão típicas dos Portaris. Parecia um homem feliz. Um filho, ou um neto, não lembro, comentou que esse dia erguera bem cedo e enchera setenta e nove capachos de patacas. Olhei assombrado. Aquele homem pequeno, velhinho, rodeado da sua família, sorridente e que também contava contos, que bebia o Barrantes com prazer, que compartilhava com bom humor a reunião não passou à história familiar, pelo menos à minha. Se não fosse por esse dia nem teria sabido dele porque nunca mais o vi.

Falei para a minha avó Lala de António e ela disse-me, em castelhano:

– Antonio es realmente un hombre bueno.

Havia outro homem bom, Ramom Cabanillas, que trabalhou como secretário do “alcalde” de Riba d’úmia Ramón da Veiga da Vila, o falangista bom de Seique. Era habitual nas suas visitas ao Mosteiro. Era o padrinho da mia tia-avó Esther, a irmã de Lala. Lala lembrava muitos dos seus poemas que Ramom sempre lhe pedia que recitasse. Um deles foi o que formou parte do lembrete da primeira comunhão dos meus tios Rafael e Gabriel e também do meu junto ao meu irmão Sergio. O poema não figura nas obras completas de Ramom Cabanillas de modo que se trata de algo inédito transmitido oralmente pola minha avó. Com ele gostaria acabar por hoje esta lembrança de fios soltos ao redor de Seique.

Pinquim paxarinho novo

feito de raios de sol

tende azas e abre o bico

para louvar a El-Senhor

e cando ao longo da vida

te bique amor ou delor

lembra-te que dende hoje

levas no teu peito a Dios.

Seique pode ter um princípio. O fim está ainda cozinhando-se.

José António Lozano Garcia

José António Lozano Garcia

Nasceu na cidade da Corunha em 1967. É professor de Filosofia no ensino secundário. Foi finalista em 1988 do Prémio de poesia Nacional O Facho. Em 1989 publicou no livro coletivo Fogo Cruzado (AGAL) o relato O pêndulo sob o pseudónimo Jorge Mário Novais. Em 1993 foi prémio ex-aequo junto a Xavier Alcalá no certame de narrações breves Manuel Murguia de Arteijo pelo seu relato Retrato antigo:pinturas e superfícies. No mesmo certame recebeu em 2016 o 3º prémio pelo relato A Aranha de Sidney . Publicou em 2002 no livro comemorativo dos 10 anos do prémio Manuel Murguia o relato Porco Transgénico.
Em 1995 publicou Nocturnos indígenas na obra coletiva 7 Poetas com o grupo Hedral, do que formou parte.
Em Fevereiro de 2020 publicou Obscura Anatólia na editora Urutau, o seu primeiro poemário a título individual.
No âmbito da filosofia tem várias publicações em Portugal e na Galiza sobre o filósofo portuense José Marinho. Especialmente interessado pelas vias iniciáticas da Tradição primordial está a dirigir a sua criação atual na interação de filosofia, poesia, teatro e música para resgatar a conexão originária e viva da arte na sua função espiritual e sapiencial. Tenta ligar-se a um pensamento libertário que integre as sabedorias ancestrais e originárias da raça humana.
É colaborador da revista digital Palavra Comum onde tem publicado ensaio, poesia e narrativa.
José António Lozano Garcia

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  • http://www.isabelrei.com Isabel Rei Samartim

    Adorei. A Susana merece. O livro dela fica aberto. É um desafio e um projeto coletivo que aguarda mais dedos como vermes a continuar a tarefa.

  • Ernesto Vazquez Souza

    uff… Impressionante texto… a respeito de um livro impressionante.

    O silêncio é a marca, a cifra, o rasto do terror.

    Onde há silêncio insistente há um fio brilhante, e onde há um fio uma mina com as suas traves de outro e alcatrão.

    Saúde,

  • Mário J. Herrero Valeiro

    Magnífico texto. A história calada é a que precisa das vozes mais altas.

  • Luis Mazás López

    Magnífico texto!!! Muitos parabéns para Chíqui e, como não, para a Susana.

  • José António Lozano

    Obrigado, amigos. Chega um momento em que a voz sai. Espero dar conta de muitas mais cousas não só referidas aos temas familiares. Para mim houve um tempo de silêncio que tinha a ver com a frase de Nietzsche:”Não pagues uma dívida até que não tenhas acunhado a tua própria moeda” Andei a acunhar a minha própria moeda durante muitos anos. E nunca imaginei que voltaria da mão da família. Susana escreveu um grande livro e deu-me um pulo mui ajeitado para voltar. E tudo tem o seu tempo e a sua hora. Forte abraço e saúde!

  • Regina de Toledo

    Parabéns Jose Antonio. Um texto belíssimo, encantador que se funde com o romance. Que venham outros.
    Sobre a cura da família, Bert Hellingher é um mago e a sua Constelação Familiar excepcional.

    • José António Lozano

      Obrigado, Regina. Um abraço

  • Joám Lopes Facal

    Um relato fascinante que esconde crueldade e dor; umha obra prima.