Debulhando o pensamento de Dom Ricardo Carvalho Calero neste 2020

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A História clínica da nossa Língua na Galiza

mapa-gallaeciaUma das afirmações recorrentes de Carvalho, era insistir no facto de que a nossa língua mais que uma história normal, o que tinha era uma história clínica.

Para ele a passagem do reino da Galiza (e de Portugal), ou da experiência de normalidade, a recuperação da escrita da língua na Galiza no século XIX, ou a recuperação institucional no último quarto do século XX, não é inteligível, sem conhecer essa história clínica.

Como sem ela poderia alguém entender decisões, e caminhos polos que se andam.

A história clínica da Língua é a história clínica do país, ambos as doas são inseparáveis.

Quando começam? Pois quando uma certa normalidade, que no reino do norte já levava algum tempo em problemas, -perdida a Corte do reino-, esse lugar, onde segundo a primeira gramática da nossa língua, a de Fernão de Oliveira 1536, as palavras se cozinham e acham o brilho. Fernão Oliveira na gramática refere-se a situação da língua no reino do norte, e diz ele: No reino do norte perdida a corte, esmorece.

Mas como foi que se passou para passarmos de dous reinos com suas cortes e relações bem estreitas entre eles de todo tipo a essa situação?

A cousa é muito simples, Portugal é a criação indireta de Gelmirez, a melhor cousa que ele fez, pensai a Galiza sem Portugal e logo pensai num espaço para a Galiza como o do asturoleonês.

A Galiza viu ao mundo da história, com um general romano, Décimo Junio Bruto (esse do rio do esquecimento), quem viera de Cónsul a Hispania para derrotar o lusitano Viriato. Porém acabado o trabalho, como bom romano queria estender os domínios e aproveitou para ir a terras inexploradas, Ele vinha pela costa para o norte, e ao passar o rio Douro achou que lá moravam os calecosi (os calecoi que diz Estrabão) os de Cale. E deu o nome que eles se davam a si próprios a todo o noroeste peninsular. Eis como a Galiza apareceu. E o lugar onde moravam os calecos de Cale, chamou-no de Portus-Cale, que andando o tempo se converteria em Portugal (Porto dos Galegos).

Logo viria com Augusto a Província da Galiza, com cabeça em Braga. Logo o reino dos galegos (galaeciorum regnum 411), com cabeça em Braga. Logo de novo reino da Galiza etc. E a Braga cabeça civil, virou como cristã cabeça da Galiza e como tal continuou até 1495, além de se converter na cidade primaz (ainda é) de Portugal. A cousa de ela ser a cabeça da Galiza é tão simpático, que na Galiza há umas quantas aldeias que levam o apelido de galegos, e são-no por responderem os seus fundadores a bracarenses fugidos das razias muçulmanas.

A nossa língua, a nossa criação mais original e alma coletiva, foi gerada pelas gentes da Faixa ocidental peninsular entre o Ortegal e o Douro, no tempo que vai do século quinto ao nono.

Compostela é provavelmente uma idealização da Corte de Carlos-o-Magno, em Aquisgrana, como farol motivador da Hispania. A Sé do bispo não se estabeleceu em Compostela até mais de 200 anos depois. Porém vinha recém de se estabelecer e caiu nas mãos de quem era bem ambicioso e sonhava com dirigir como Sé apostólica, toda a península. Que a ambição era peninsular temo-la no facto de quando ao nené Afonso, sob a sua tutela, o proclama rei da Galiza, também o faz rei de Toledo. E Braga cabeça é com certeza o primeiro espaço para ocupar, a Braga da que dependia, logo viria Mérida, e tentaria Toledo…

As manobras, da nova sé de Compostela (Gelmirez) para ocupar a posição da sé de Braga (Paio) cabeça da Galizaii, deu lugar a um conflito que acabou na divisão do reino em dous. A divisão, não foi obstáculo para Braga conseguir manter, -desaparecido Gelmirez- a cabeça religiosa de muitas entidades, instituições e sés religiosas da Galiza até 1495.

O território ao norte usufruiu para o seu reino o nome de Galiza. O território ao sul, tomou o da velha cidade galega Portus-Cale. Todos os nossos nomes a norte e a sul venhem do mesmo sítio e são a mesma coisa.

No reino que usufruiu o nome de Galiza, Compostela era muita cousa, e ela e a sua ideologia o compostelanismo, seguiam com uma só aspiração, governar a península.

Em 1230 falece o nosso rei Afonso VIII, e frente ao seu testamento -norma legal obrigatória-, que era oposto a união com Castela, manobra Compostela e Castela (ante o papa) para que a unidade, com um rei galego, da casa dos Reimundez, se produza, um trunfo do Compostelanismo. Bem que nos fornece os dados Emílio Gonzalez Lopes de como as sés que dependiam e obedeciam Braga se opunham a trapalhada de Compostela, e eram maioria, estavam no grupo inclusas Samora e Oviedo.

Isso foi grande sucesso do Compostelanismo, até a lírica em língua galega mandavam na Corte de Castela. Porém o jogo peninsular acaba por colocar à Galiza compostelã na periferia e pronto novas elites reais não ligadas a Galiza assenhoreariam o reino de Castela.

Agora vem a nossa experiência clínica

No primeiro de março de 1476, tem lugar em Toro, a batalha mais decisiva para o futuro da península ibérica e para a nossa história. Para o reino do norte quase mortal (ou mortal de todo se não despertamos e descobrimos com quem nos jogamos tudo), para o reino do sul, lá esteve a semente da sua ocupação por quem levava a coroa de Castela em 1580. Nessa batalha se desfez muita cousa, Ernesto Vasquez Souza diria: A desfeita do projeto ocidental, e virada da coroa de Castela para Aragão. (Os catalano-aragoneses pensavam que fizeram bom negócio… )

E após essa batalha a Galiza sofre dura guerra de castigo que se prolonga por bem anos. O país é destruído bem a fundo, Sabiades que Ourense, repetidamente atacada, só foi submetido após um cerco de 11 meses, e que Ponferrada custou-lhe também muitos meses o submetê-la aos castelhanos.

 

Era a chamada guerra de Doma e castração (nas crónicas deles): Para a Galiza foi: Destruição da sua economia, proibição das relações económicas internacionais que havia, destruição da sua nascente burguesia. Os aristocratas (classe dominante) são: Derrubados os seus castelos, e uns ajustiçadas, Pardo de Cela, Alvares Osório (Conde de Lemos),… outros fogem e instalam-se em Portugal, e os mais são tirados do reino para a Corte. Não é casual que Andaluzia e Castela estejam hoje em dia cheias de títulos de origem galega. A igreja e as ordens religiosas que ainda dependiam de velha capital da Galiza, Braga, passam a depender de Valhadolid, e os cargos religiosos (o poder conformador do consenso ideológico), passam todos para elementos castelhanos. Desaparecem os galegos do aparato da administração e da justiça na Galiza. Há galegos em postos de responsabilidade civil e religiosa, mas sempre fora do seu solar pátrio, na Galiza só nas vagas de menos categoria, contínuos; e isso durou até último quarto do século XIX.

Na Galiza reino ocupado, os cargos são reservados aos estrangeiros do reino dominador. E a Galiza reino, se lhe retira o voto e participação nas cortes da monarquia de Castela, e num processo de humilhação ao nosso povo, verdadeiramente inacreditável, os seus votos e representação nas Cortes são entregues à cidade de Samora.

A documentação toda no reino da Galiza era em galego, e se um fazia um testamento ou uma venda, era em galego, e os tabeliões tudo faziam em galego. Mas agora declaram que só vão valer as escrituras dos escrivãos da escola de Toledo.

Dizem alguns néscios ao serviço do “amo”, que a nossa língua não se proibiu. Mas quem sabia ler e escrever?. Os religiosos, os aristocratas, os burgueses. E onde iam apreender agora e com quem, e onde andavam etc.. Não sumiu a nossa língua por vontade dos galegos e galegas se não por imposição. A Galiza tornou-se agrafa, e as novas realidades lhe chegam na língua do poder, o castelhanoiii. E pouco a pouco vão apagando a nossa história dos carros e carros de documentos que existiam na nossa língua na Galiza, de que falava Sarmento, e como se fossem um sonho. Ainda que a nossa Língua, é a língua falada e vivida polo cento por cento dos galegos e galegas.

Em meados do século XIX renasce para a literatura uma língua socialmente estigmatizada, funcionalmente minorizadaiv, banida das instituições oficiais e hostilizada pelo Estado. Popular e realmente falada, a língua galega começará a ser posta ao serviço dum movimento cultural e político que irá perfilando uma vocação que (com cautela, porém) poderíamos chamar nacionalv.

E como escrevem?. Da única maneira que sabem, aliás a única forma que podiam conhecer. O agrafo galego passou a escrever-se conforme a feição gráfica da língua oficial e única língua verdadeira. Acresça-se, em ordem a perceber as intenções do programa linguístico dos primeiros promotores da língua regional, que, entre estas, de nenhum modo se encontrava a de concorrer com a língua nacional, cuja hegemonia estava fora de causa. (Não procurem em Rosalia o que não há). Correlato visual da minorização linguística, a ortografia perfilhada servia ainda para ratificar que as notabilidades escreventes do galego eram e queriam ser um subconjunto regional do conjunto espanhol. Aliás isto se passou em mais lugares, por exemplo nas Astúrias, Sardenha e Ocitânia etc.

Desde inícios do século XX, contra tudo e apesar de tudo, sectores da comunidade linguística galega transgredirão normas imemoriais, abrirão brechas em altos muros e sondarão novos caminhos, passando a fazerem servir o galego como instrumento do discurso público e da ação política.

Eis um resumo das novas posições: De um Murguia – Portugal manteve a nossa língua cuidada e protegida e além disso converteu-na na do Brasil. Antom Vilar Ponte: Quanto mais galego for o galego, mais português ele é. Leandro Carré: O português é o nosso mesmo idioma. Joham Carvalheira: A unificação ortográfica com o português é fulcral. Afonso Castelão: O galego é extenso e útil. Eu desejo que o galego se confunda com o Português. Irmandades da Fala: Temos que pôr as bases para convergirmos na ortografia com o português, ortografia que é a nossa histórica e original. Seminário de Estudos Galegos (instituição criada pelo nacionalismo e ainda não devolvida pelo estado): Galego é português são a mesma língua.

Foram três décadas animosas e febris, férteis, que enveredavam por novos caminhos, além disso temos que saber que em nenhures a ninguém lhe estavam ensinando a nossa ortografia histórica…Parecendo tão simples usar a do castelhanovi.

O levante militar fascista de 1936 cortou isso com feroz eficáciavii.

Escrever e meter a língua no traje da imposta por quem domina e aliás é a única que se conhece, é o natural, pois o imposto aparece como a forma natural. Porém se um é livre isso é um absurdo. Eis um exemplo: O galeguíssimo território do Couto Misto, em palavras de Garcia Manhãviii, foi o último naco incorporado à Galiza 1864, e após um referendo reclamado por Portugal, no que 860 pessoas votaram se unirem com Portugal e 1 com Espanha. Diz Garcia Manhã: Não entendo como ali nunca escreveram em galego sendo eles bem galegos. Sem reparar ele, que para escrever o galego, cumpre antes uma cousa, haver recebido o castelhano…e até lá não chegara.

 

Os remédios de Carvalho para a nossa sanação

carvalho-caleroCarvalho começava por exprimir esta sentença: Ou o galego é galego-português ou é galego-castelhano. E o galego-castelhano é muito forte na adesão da sub-comunidade linguística nossa no estado à comunidade castelhana, e é liquidador da comunidade galego-portuguesa.

Para o galego-castelhano qualquer cousa que for castelhana pode-se passar por galega, mesmo por isso, por ser castelhana, e ao ser a língua imposta ao cento por cento dos galegos e galegas, a converte em língua teito e elemento de correção dos utentes do galego-castelhano (quem dizer que não, mente).

Em 1981 Carvalho Publica na editora de Lisboa Sá da Costa, o livro “Problemas da Língua galega”. Ele exprime na sua contorna de reintegracionistas e de amigos, que ao intitular enganou-se, pois ele tinha que o haver intitulado. “Problemas do português da Galiza”. Pois para Carvalho o dobrar o nome de línguas, aliás é bastante frequente, bem perto temos castelhano/espanhol; franciano/francês; toscano/italiano, romeno/moldavo… O nome não deve ser causa de confusão, e o termo galego representa mais a nossa afirmação de formarmos parte do subconjunto Espanha, que da realidade linguística, cultural e nacional que somos.

A ele fazia graça, o problema de muitos com o jota… Custa de entender para eles, que não teriam problema os falantes de castelhano em usar na nossa língua (e topónimos…) o som jota (g+e,i), como ele é, se eles não estivessem tão inseridos no universo da norma castelhana, que chegam a adotar ao falarem na língua da Galiza, a pronuncia castelhana dessa letras, daria riso.

Carvalho sobre a Espanha pensava, Espanha não sente a Galiza, como algo que lhe é consubstancial é próprio. Se isso fosse assim: Espanha amaria a nossa língua, reconheceria o direito dos galegos e galegas a vivermos nela. Nem confundiria o conhecimento do castelhano com o direito dos castelhanos a serem atendidos na sua língua na Galiza de jeito universal, simples exercício de imposição. As relações comunicativas com Portugal meios TVs seria o normal e não impedidas como estão. As grandes datas e fatos comemorativos da nossa história, seriam festejados por todos, e formariam parte do acerbo comum da Espanhaix. Mas infelizmente são apagados, ocultados, tergiversados, como mais um caso de povo submetido e negado.

Para Carvalho, a nossa língua, como língua internacional extensa e útil, tem a diversidade interna que é comum a qualquer uma das línguas internacionais que há no mundo, que formam o que a linguística chama um diassistema. Todas as línguas tem diversidades segundo utentes, segundo ambientes, é segundo territórios e os modos que essas línguas tem de modelox.

Carvalho tendo em conta a “história clínica da língua”. Ele, como Presidente da Comissão oficial de elaboração das normas da Língua galega (1980 Boletim Oficial de Galicia -pre-autonómica- núm 6), propõe na altura umas normas de mínimos de reintegração no modelo histórico, e nas que todos se pudessem sentir bem cómodos e ir avançando segundo as necessidades e a sua consolidação a começar pelas universidades etc. Mas foram por Espanha e as suas políticas banidasxi. Como se viu, havia neles o assalto aos nossos muros da subalternização espanhola, e havia medo do sucesso.

Que diria hoje Carvalho do sucesso da normalização: Pois que sob a pretensa normalização da língua da Galiza, sempre inacabada, as autoridades espanholas apresentam a língua nacional carente de qualquer sentido de utilidade e expurgada da sua dignidade e da sua condição de ser uma das línguas europeias de maior difusão internacional, usada em todos os continentes, que com a variedade própria das línguas internacionais é falada por centos de milhões de pessoas no mundo. Que enquanto se reforça continuamente o fator da utilidade e a correspondente necessidade da língua castelhana; para a língua da Galiza, as políticas reduzem-na, a um sentimento carente de utilidade e necessidade, o que a faz perceber como uma escolha na intimidade privada e sentimental, despida do que é a realidade das línguas: Uma criação coletiva que se vive socialmente e como tal é necessária e útil.

Como se percebe ainda não conseguimos sair da nossa história clínica.

 

 

i Segundo Higinio Martins, galego é uma palavra celta que significa DA TERRA.

ii Capital da Galiza romana, capital do galaeciorum regnum, Da Igreja da Galiza, e logo de Portugal, e após a divisão do reino seguiu de cabeça de grande número de entidades religiosas da Galiza até 1495.
iii Ainda que o intenso é tradicional comércio e emigração de todo tipo com o reino de Portugal, vai permitir que novos termos incorporados ao galego de Portugal voltem ao território ao norte do Minho perfeitamente integrados.

iv As consequências da minorização linguística eram também patentes no plano lexical e na estrutura morfo-sintáctica. Como resumem e categorizam em relação ao primeiro Carlos Garrido e Carles Riera (Manual de Galego Científico). “O confinamento social do galego nos usos coloquiais e rústicos, a língua, por um lado, perdeu recursos expressivos e o léxico culto, especializado e de carácter abstrato que desenvolvera e, por outro, viu-se submetido a um processo de corrupção, que se traduziu na generalização de alterações vulgarizantes (plebeísmos) de algumas unidades lexicais; desprovido de registo e de centro normador, o léxico galego padeceu uma diversificação e atomização em variantes geográficas; o processo de substituição lexical atuou fazendo desaparecer unidades lexicais em benefício das correspondentes castelhanas; a estagnação da língua, decorrente da falta de usos formais, impediu que o galego habilitasse novas unidades lexicais para designar novos conceitos; no entanto, as lacunas expressivas foram preenchidas […] por unidades lexicais da língua de cultura, que não era outra que o castelhano (suplência lexical)…”

v Este parágrafo e os seguintes bebem sem dissimulo em Fernando Corredoira

vi Mas no ano 1935 o PG edita um dicionário já etimológico.

vii As escolhas adotadas após o franquismo e recuperação da autonomia vão ser feitas ao serviço do projeto dos dominadores. Da Identidade a Norma (laiovento), de Vítor Vaqueiro e Nicolás Xamardo, apresentam muito bem a política de Espanha com a língua da Gz: Como dizia Lluis Aracil, na Gz há quem trabalha bem firme a prol da língua, vive disso, e garante o seu futuro, o mesmo que o do analfabetismo, desaparecer.

ix No ano de 2011 foi o 1600 aniversário do nascimento do reino da Galiza. Nada se fez desde as autoridades espanholas pelo seu estudo e festejo, o que contrastou com o milenário de Granada. O segundo sentem-no do seu acerbo, o primeiro não, e por tanto é problemático.

x Por isso temos na internet códigos de língua, por exemplo na nossa temos pt-gz, pt-br, pt-pt, pt-an etc.
xi. O poder espanhol na Galiza pode ate encorajar a trabalhar sobre a língua, a viver dela, mas isso sempre de jeito pejado, e sem pôr em questão a dominação e imposição do castelhano, e para fomentar o apagamento da identidade nacional dos galegos e galegas de jeito que resulte estupefaciente e incompreensível por quem o sofre. Se não for assim a cousa, o seu comportamento pode ser terrível.