A História clínica da nossa Língua na Galiza
Uma das afirmações recorrentes de Carvalho, era insistir no facto de que a nossa língua mais que uma história normal, o que tinha era uma história clínica.
Para ele a passagem do reino da Galiza (e de Portugal), ou da experiência de normalidade, a recuperação da escrita da língua na Galiza no século XIX, ou a recuperação institucional no último quarto do século XX, não é inteligível, sem conhecer essa história clínica.
Como sem ela poderia alguém entender decisões, e caminhos polos que se andam.
A história clínica da Língua é a história clínica do país, ambos as doas são inseparáveis.
Quando começam? Pois quando uma certa normalidade, que no reino do norte já levava algum tempo em problemas, -perdida a Corte do reino-, esse lugar, onde segundo a primeira gramática da nossa língua, a de Fernão de Oliveira 1536, as palavras se cozinham e acham o brilho. Fernão Oliveira na gramática refere-se a situação da língua no reino do norte, e diz ele: No reino do norte perdida a corte, esmorece.
Mas como foi que se passou para passarmos de dous reinos com suas cortes e relações bem estreitas entre eles de todo tipo a essa situação?
A cousa é muito simples, Portugal é a criação indireta de Gelmirez, a melhor cousa que ele fez, pensai a Galiza sem Portugal e logo pensai num espaço para a Galiza como o do asturoleonês.
A Galiza viu ao mundo da história, com um general romano, Décimo Junio Bruto (esse do rio do esquecimento), quem viera de Cónsul a Hispania para derrotar o lusitano Viriato. Porém acabado o trabalho, como bom romano queria estender os domínios e aproveitou para ir a terras inexploradas, Ele vinha pela costa para o norte, e ao passar o rio Douro achou que lá moravam os calecosi (os calecoi que diz Estrabão) os de Cale. E deu o nome que eles se davam a si próprios a todo o noroeste peninsular. Eis como a Galiza apareceu. E o lugar onde moravam os calecos de Cale, chamou-no de Portus-Cale, que andando o tempo se converteria em Portugal (Porto dos Galegos).
Logo viria com Augusto a Província da Galiza, com cabeça em Braga. Logo o reino dos galegos (galaeciorum regnum 411), com cabeça em Braga. Logo de novo reino da Galiza etc. E a Braga cabeça civil, virou como cristã cabeça da Galiza e como tal continuou até 1495, além de se converter na cidade primaz (ainda é) de Portugal. A cousa de ela ser a cabeça da Galiza é tão simpático, que na Galiza há umas quantas aldeias que levam o apelido de galegos, e são-no por responderem os seus fundadores a bracarenses fugidos das razias muçulmanas.
A nossa língua, a nossa criação mais original e alma coletiva, foi gerada pelas gentes da Faixa ocidental peninsular entre o Ortegal e o Douro, no tempo que vai do século quinto ao nono.
Compostela é provavelmente uma idealização da Corte de Carlos-o-Magno, em Aquisgrana, como farol motivador da Hispania. A Sé do bispo não se estabeleceu em Compostela até mais de 200 anos depois. Porém vinha recém de se estabelecer e caiu nas mãos de quem era bem ambicioso e sonhava com dirigir como Sé apostólica, toda a península. Que a ambição era peninsular temo-la no facto de quando ao nené Afonso, sob a sua tutela, o proclama rei da Galiza, também o faz rei de Toledo. E Braga cabeça é com certeza o primeiro espaço para ocupar, a Braga da que dependia, logo viria Mérida, e tentaria Toledo…
As manobras, da nova sé de Compostela (Gelmirez) para ocupar a posição da sé de Braga (Paio) cabeça da Galizaii, deu lugar a um conflito que acabou na divisão do reino em dous. A divisão, não foi obstáculo para Braga conseguir manter, -desaparecido Gelmirez- a cabeça religiosa de muitas entidades, instituições e sés religiosas da Galiza até 1495.
O território ao norte usufruiu para o seu reino o nome de Galiza. O território ao sul, tomou o da velha cidade galega Portus-Cale. Todos os nossos nomes a norte e a sul venhem do mesmo sítio e são a mesma coisa.
No reino que usufruiu o nome de Galiza, Compostela era muita cousa, e ela e a sua ideologia o compostelanismo, seguiam com uma só aspiração, governar a península.
Em 1230 falece o nosso rei Afonso VIII, e frente ao seu testamento -norma legal obrigatória-, que era oposto a união com Castela, manobra Compostela e Castela (ante o papa) para que a unidade, com um rei galego, da casa dos Reimundez, se produza, um trunfo do Compostelanismo. Bem que nos fornece os dados Emílio Gonzalez Lopes de como as sés que dependiam e obedeciam Braga se opunham a trapalhada de Compostela, e eram maioria, estavam no grupo inclusas Samora e Oviedo.
Isso foi grande sucesso do Compostelanismo, até a lírica em língua galega mandavam na Corte de Castela. Porém o jogo peninsular acaba por colocar à Galiza compostelã na periferia e pronto novas elites reais não ligadas a Galiza assenhoreariam o reino de Castela.
Agora vem a nossa experiência clínica
No primeiro de março de 1476, tem lugar em Toro, a batalha mais decisiva para o futuro da península ibérica e para a nossa história. Para o reino do norte quase mortal (ou mortal de todo se não despertamos e descobrimos com quem nos jogamos tudo), para o reino do sul, lá esteve a semente da sua ocupação por quem levava a coroa de Castela em 1580. Nessa batalha se desfez muita cousa, Ernesto Vasquez Souza diria: A desfeita do projeto ocidental, e virada da coroa de Castela para Aragão. (Os catalano-aragoneses pensavam que fizeram bom negócio… )
E após essa batalha a Galiza sofre dura guerra de castigo que se prolonga por bem anos. O país é destruído bem a fundo, Sabiades que Ourense, repetidamente atacada, só foi submetido após um cerco de 11 meses, e que Ponferrada custou-lhe também muitos meses o submetê-la aos castelhanos.
Era a chamada guerra de Doma e castração (nas crónicas deles): Para a Galiza foi: Destruição da sua economia, proibição das relações económicas internacionais que havia, destruição da sua nascente burguesia. Os aristocratas (classe dominante) são: Derrubados os seus castelos, e uns ajustiçadas, Pardo de Cela, Alvares Osório (Conde de Lemos),… outros fogem e instalam-se em Portugal, e os mais são tirados do reino para a Corte. Não é casual que Andaluzia e Castela estejam hoje em dia cheias de títulos de origem galega. A igreja e as ordens religiosas que ainda dependiam de velha capital da Galiza, Braga, passam a depender de Valhadolid, e os cargos religiosos (o poder conformador do consenso ideológico), passam todos para elementos castelhanos. Desaparecem os galegos do aparato da administração e da justiça na Galiza. Há galegos em postos de responsabilidade civil e religiosa, mas sempre fora do seu solar pátrio, na Galiza só nas vagas de menos categoria, contínuos; e isso durou até último quarto do século XIX.
Na Galiza reino ocupado, os cargos são reservados aos estrangeiros do reino dominador. E a Galiza reino, se lhe retira o voto e participação nas cortes da monarquia de Castela, e num processo de humilhação ao nosso povo, verdadeiramente inacreditável, os seus votos e representação nas Cortes são entregues à cidade de Samora.
A documentação toda no reino da Galiza era em galego, e se um fazia um testamento ou uma venda, era em galego, e os tabeliões tudo faziam em galego. Mas agora declaram que só vão valer as escrituras dos escrivãos da escola de Toledo.
Dizem alguns néscios ao serviço do “amo”, que a nossa língua não se proibiu. Mas quem sabia ler e escrever?. Os religiosos, os aristocratas, os burgueses. E onde iam apreender agora e com quem, e onde andavam etc.. Não sumiu a nossa língua por vontade dos galegos e galegas se não por imposição. A Galiza tornou-se agrafa, e as novas realidades lhe chegam na língua do poder, o castelhanoiii. E pouco a pouco vão apagando a nossa história dos carros e carros de documentos que existiam na nossa língua na Galiza, de que falava Sarmento, e como se fossem um sonho. Ainda que a nossa Língua, é a língua falada e vivida polo cento por cento dos galegos e galegas.
Em meados do século XIX renasce para a literatura uma língua socialmente estigmatizada, funcionalmente minorizadaiv, banida das instituições oficiais e hostilizada pelo Estado. Popular e realmente falada, a língua galega começará a ser posta ao serviço dum movimento cultural e político que irá perfilando uma vocação que (com cautela, porém) poderíamos chamar nacionalv.
E como escrevem?. Da única maneira que sabem, aliás a única forma que podiam conhecer. O agrafo galego passou a escrever-se conforme a feição gráfica da língua oficial e única língua verdadeira. Acresça-se, em ordem a perceber as intenções do programa linguístico dos primeiros promotores da língua regional, que, entre estas, de nenhum modo se encontrava a de concorrer com a língua nacional, cuja hegemonia estava fora de causa. (Não procurem em Rosalia o que não há). Correlato visual da minorização linguística, a ortografia perfilhada servia ainda para ratificar que as notabilidades escreventes do galego eram e queriam ser um subconjunto regional do conjunto espanhol. Aliás isto se passou em mais lugares, por exemplo nas Astúrias, Sardenha e Ocitânia etc.
Desde inícios do século XX, contra tudo e apesar de tudo, sectores da comunidade linguística galega transgredirão normas imemoriais, abrirão brechas em altos muros e sondarão novos caminhos, passando a fazerem servir o galego como instrumento do discurso público e da ação política.
Eis um resumo das novas posições: De um Murguia – Portugal manteve a nossa língua cuidada e protegida e além disso converteu-na na do Brasil. Antom Vilar Ponte: Quanto mais galego for o galego, mais português ele é. Leandro Carré: O português é o nosso mesmo idioma. Joham Carvalheira: A unificação ortográfica com o português é fulcral. Afonso Castelão: O galego é extenso e útil. Eu desejo que o galego se confunda com o Português. Irmandades da Fala: Temos que pôr as bases para convergirmos na ortografia com o português, ortografia que é a nossa histórica e original. Seminário de Estudos Galegos (instituição criada pelo nacionalismo e ainda não devolvida pelo estado): Galego é português são a mesma língua.
Foram três décadas animosas e febris, férteis, que enveredavam por novos caminhos, além disso temos que saber que em nenhures a ninguém lhe estavam ensinando a nossa ortografia histórica…Parecendo tão simples usar a do castelhanovi.
O levante militar fascista de 1936 cortou isso com feroz eficáciavii.
Escrever e meter a língua no traje da imposta por quem domina e aliás é a única que se conhece, é o natural, pois o imposto aparece como a forma natural. Porém se um é livre isso é um absurdo. Eis um exemplo: O galeguíssimo território do Couto Misto, em palavras de Garcia Manhãviii, foi o último naco incorporado à Galiza 1864, e após um referendo reclamado por Portugal, no que 860 pessoas votaram se unirem com Portugal e 1 com Espanha. Diz Garcia Manhã: Não entendo como ali nunca escreveram em galego sendo eles bem galegos. Sem reparar ele, que para escrever o galego, cumpre antes uma cousa, haver recebido o castelhano…e até lá não chegara.
Os remédios de Carvalho para a nossa sanação
Carvalho começava por exprimir esta sentença: Ou o galego é galego-português ou é galego-castelhano. E o galego-castelhano é muito forte na adesão da sub-comunidade linguística nossa no estado à comunidade castelhana, e é liquidador da comunidade galego-portuguesa.
Para o galego-castelhano qualquer cousa que for castelhana pode-se passar por galega, mesmo por isso, por ser castelhana, e ao ser a língua imposta ao cento por cento dos galegos e galegas, a converte em língua teito e elemento de correção dos utentes do galego-castelhano (quem dizer que não, mente).
Em 1981 Carvalho Publica na editora de Lisboa Sá da Costa, o livro “Problemas da Língua galega”. Ele exprime na sua contorna de reintegracionistas e de amigos, que ao intitular enganou-se, pois ele tinha que o haver intitulado. “Problemas do português da Galiza”. Pois para Carvalho o dobrar o nome de línguas, aliás é bastante frequente, bem perto temos castelhano/espanhol; franciano/francês; toscano/italiano, romeno/moldavo… O nome não deve ser causa de confusão, e o termo galego representa mais a nossa afirmação de formarmos parte do subconjunto Espanha, que da realidade linguística, cultural e nacional que somos.
A ele fazia graça, o problema de muitos com o jota… Custa de entender para eles, que não teriam problema os falantes de castelhano em usar na nossa língua (e topónimos…) o som jota (g+e,i), como ele é, se eles não estivessem tão inseridos no universo da norma castelhana, que chegam a adotar ao falarem na língua da Galiza, a pronuncia castelhana dessa letras, daria riso.
Carvalho sobre a Espanha pensava, Espanha não sente a Galiza, como algo que lhe é consubstancial é próprio. Se isso fosse assim: Espanha amaria a nossa língua, reconheceria o direito dos galegos e galegas a vivermos nela. Nem confundiria o conhecimento do castelhano com o direito dos castelhanos a serem atendidos na sua língua na Galiza de jeito universal, simples exercício de imposição. As relações comunicativas com Portugal meios TVs seria o normal e não impedidas como estão. As grandes datas e fatos comemorativos da nossa história, seriam festejados por todos, e formariam parte do acerbo comum da Espanhaix. Mas infelizmente são apagados, ocultados, tergiversados, como mais um caso de povo submetido e negado.
Para Carvalho, a nossa língua, como língua internacional extensa e útil, tem a diversidade interna que é comum a qualquer uma das línguas internacionais que há no mundo, que formam o que a linguística chama um diassistema. Todas as línguas tem diversidades segundo utentes, segundo ambientes, é segundo territórios e os modos que essas línguas tem de modelox.
Carvalho tendo em conta a “história clínica da língua”. Ele, como Presidente da Comissão oficial de elaboração das normas da Língua galega (1980 Boletim Oficial de Galicia -pre-autonómica- núm 6), propõe na altura umas normas de mínimos de reintegração no modelo histórico, e nas que todos se pudessem sentir bem cómodos e ir avançando segundo as necessidades e a sua consolidação a começar pelas universidades etc. Mas foram por Espanha e as suas políticas banidasxi. Como se viu, havia neles o assalto aos nossos muros da subalternização espanhola, e havia medo do sucesso.
Que diria hoje Carvalho do sucesso da normalização: Pois que sob a pretensa normalização da língua da Galiza, sempre inacabada, as autoridades espanholas apresentam a língua nacional carente de qualquer sentido de utilidade e expurgada da sua dignidade e da sua condição de ser uma das línguas europeias de maior difusão internacional, usada em todos os continentes, que com a variedade própria das línguas internacionais é falada por centos de milhões de pessoas no mundo. Que enquanto se reforça continuamente o fator da utilidade e a correspondente necessidade da língua castelhana; para a língua da Galiza, as políticas reduzem-na, a um sentimento carente de utilidade e necessidade, o que a faz perceber como uma escolha na intimidade privada e sentimental, despida do que é a realidade das línguas: Uma criação coletiva que se vive socialmente e como tal é necessária e útil.
Como se percebe ainda não conseguimos sair da nossa história clínica.
i Segundo Higinio Martins, galego é uma palavra celta que significa DA TERRA.
iv As consequências da minorização linguística eram também patentes no plano lexical e na estrutura morfo-sintáctica. Como resumem e categorizam em relação ao primeiro Carlos Garrido e Carles Riera (Manual de Galego Científico). “O confinamento social do galego nos usos coloquiais e rústicos, a língua, por um lado, perdeu recursos expressivos e o léxico culto, especializado e de carácter abstrato que desenvolvera e, por outro, viu-se submetido a um processo de corrupção, que se traduziu na generalização de alterações vulgarizantes (plebeísmos) de algumas unidades lexicais; desprovido de registo e de centro normador, o léxico galego padeceu uma diversificação e atomização em variantes geográficas; o processo de substituição lexical atuou fazendo desaparecer unidades lexicais em benefício das correspondentes castelhanas; a estagnação da língua, decorrente da falta de usos formais, impediu que o galego habilitasse novas unidades lexicais para designar novos conceitos; no entanto, as lacunas expressivas foram preenchidas […] por unidades lexicais da língua de cultura, que não era outra que o castelhano (suplência lexical)…”
v Este parágrafo e os seguintes bebem sem dissimulo em Fernando Corredoira
vi Mas no ano 1935 o PG edita um dicionário já etimológico.
vii As escolhas adotadas após o franquismo e recuperação da autonomia vão ser feitas ao serviço do projeto dos dominadores. Da Identidade a Norma (laiovento), de Vítor Vaqueiro e Nicolás Xamardo, apresentam muito bem a política de Espanha com a língua da Gz: Como dizia Lluis Aracil, na Gz há quem trabalha bem firme a prol da língua, vive disso, e garante o seu futuro, o mesmo que o do analfabetismo, desaparecer.
viii https://www.iberlibro.com/buscar-libro/titulo/couto-mixto-unha-rep%FAblica-esquecida/autor/lu%EDs-manuel-garc%EDa-ma%F1%E1/
ix No ano de 2011 foi o 1600 aniversário do nascimento do reino da Galiza. Nada se fez desde as autoridades espanholas pelo seu estudo e festejo, o que contrastou com o milenário de Granada. O segundo sentem-no do seu acerbo, o primeiro não, e por tanto é problemático.
