Por Alexandre Banhos
Este ano o carnaval, ou entruido, como nós o chamamos popularmente na Galiza, vem especialmente tarde. No Brasil há várias tradições de carnaval, a do noroeste com o seu centro na Bahia, que é basicamente um carnaval de rua tal e como o conhecemos entre nós na Galiza e muito popular e participativo.
Temos depois o carnaval do Rio, muito conhecido internacionalmente, mas que é o desfile de escolas de Samba que trabalharam durante meses e mesmo durante todo o ano para prepararem o carnaval, e que desfilam ao longo de muitas horas num espaço conhecido polo Sambódromo.
Este ano, infelizmente, um fogo desatado nalguns dos locais da Cidade do Samba no Rio, onde as distintas escolas preparavam tudo, levou a que várias delas perdessem tudo o que tinham preparado para essas datas.
Em São Paulo o carnaval é como o do Rio. Também nesta cidade temos um sambódromo onde desfilam as distintas escolas.
Nestas cidades, como em todo o Brasil, coincidindo com o carnaval celebram-se festas e bailes de sociedade, bom, da boa sociedade brasileira em todo o tipo de clubes e locais; e como se chamam essas festas que em grande parte têm um forte caráter elitista e de classe?… Pois como não podia ser de outro modo: Foliões.
Bom, aqui no Brasil, se se gostar do entruido, compra-se uma entrada, que vão já muito caras, para se passarem umas dez ou onze horas no sambódromo olhando desfilar coloristas escolas com os seus músicos e dançarinas(os), as suas alegorias e o seu som que se acaba apoderando do corpo de todos, e que a ninguém deixa indiferente.
Outra opção é unir-se a uma Escola de Samba, assistir aos seus treinamentos, que normalmente são em ruas fechadas ou amplos espaços públicos (pagando, isso sim), e desfilar no sambódromo com ela, o que é um jeito muito engraçado de desfrutar do carnaval misturado com a paisagem e as pessoas locais que vivem isso com uma paixão inimaginável.
Em São Paulo existem três equipas importantes de futebol: o Corinthians, o Palmeiras e o São Paulo. Todas elas têm também escola de samba: a do Corinthians foi proclamada nos últimos anos várias vezes campeã. Portanto, o meu caminho foi unir-me à do Corinthians.
Bom, a gente chega fria ao ato e é devidamente apalpada – inspecionada – para entrar, o qual não está nada mal tendo em conta que ao longo das horas da noite bebe-se imenso e não poucas pessoas e garotos e garotas vão acabar muito bêbadas com as consequências que isso pode ter no convívio e no contacto num espaço ateigado, ainda que isso sim, o brasileiro é de suaves maneiras, pois é um português perfeitamente transferido a esta beira do oceano Atlântico, ainda que muitos brasileiros não acreditem ser assim… porém as suaves maneiras educadas lusitanas são a regra que aqui cobriu todo o tipo de comportamentos e se incutiu nas pessoas fosse qual fosse a sua origem, mesmo dum jeito mais aperfeiçoado que no próprio Portugal1.
Começa a noite com um pequeno esquentamento e pouco a pouco os músicos com os seus tambores e demais, – em que estão como em transe, do grau de concentração que neles se percebe – , vão metendo na gente um ritmo imparável. Quando nos apercebemos, estamos já bailando com todos e de quando em vez berrando lemas a prol do Corinthians. Ali estão pessoas de todas as cores e formas da bela raça brasileira, de todas as idades, e todos acabam submersas nos ritmos em que de quando em vez se faz uma paragem. Belíssimas dançarinas parecem possuídas pela música.
Eis a letra principal do samba deste ano do Grêmio Gaviões da Fiel Torcida
Enredo:
“Do Mar das Pérolas e das Areias do Deserto à Cidade do Futuro. Dubai, o Sonho do Rei Maktoum”
A luz brilhou no céu de oriente
Fez da lágrima semente
Tesouro no azul do mar
História dum reino encantado
Nessa viagem vem comigo desvendar
Um rei iluminado
Abre os caminhos de amanhã
Semeia em solo sagrado
O desejo dum novo eldorado
Dos povos herdaram culturas
Formando a nação
De carona na folia vem ver!
A cidade do futuro vai passar
Embala meu sonho pra realidade
O Combustível da modernidade
Com a benção do criador
O homem esmoldurou a natureza
O progresso despontou
O mundo veio ver tantas belezas
Sou mercador da alegria, investi em magia
No portal da felicidade
Em cena um festival de emoção
Cultura, do ouro a riqueza
No esporte encontrei minha paixão
O sonho não vai acabar
Meus filhos vão colher
E o meu maior tesouro é você
Corre sangue gavião na veia
Faz meu coração pulsar
Hoje dubai e alvinegra
E a fiel vai te exaltar
Coriiiiiiinthiansssss
isto repetiu-se e repetiu-se, e a gente é feliz no seu já, meu Brasil
Nota:
1 Para pôr um exemplo bem visual, isso leva a que numa cidade metrópole tão grande como o tortuoso São Paulo com seus vinte milhões de moradores e perto de nove milhões de carros, não se ache em toda a cidade um veículo que estacione em dupla fila, que engarrafe um cruzamento (eu não vi), ou que buzine (poucos vi) se o da frente não vai bem ligeiro. Eu próprio, conduzindo um veículo alugado por São Paulo em hora de ponta, tive o percalço de se me ir abaixo três vezes seguidas num percurso de não muitos quilómetros. Bom, o meu veículo, igual que o são os de mais de 60 por cento dos brasileiros, funcionava com etanol, o que o faz muito menos poluente, mas tem um pouco menos de potência e reprise que os de gasolina e mentres a gente se adata à sua condução passam-se essas cousas. Além disso, levava um sistema de segurança que para proceder de novo a acendê-lo, não era nada facilitador do assunto…. Pois bem, ninguém me buzinou… parecia-me incrível, mas era certo. Com os veículos há um sistema de rodízio de segundas a sextas e cada dia dous números finais das matrículas são proibidos de circular, o que se cumpre de jeito exato por todo o mundo. Há que apontar que na cidade há muitos lugares de parque pagando (além da zona azul). Não… não são parques públicos, são privados. Todos os grandes edifícios e mesmo os pequenos têm uma garagem onde estão os lugares dos autos, mas nenhum morador tem um lugar fixo e determinado para o seu veículo na garagem. Coloca onde puder ou, mais frequentemente, ao entrar deixa o veículo com as chaves e o empregado da garagem do prédio coloca-o e vice-versa para sair. E todas as garagens da cidade oferecem as vagas de que dispõem todo o tempo. Se os vizinhos sairem cedo com os seus carros, essas vagas ficam livre para quem quiser.
Só um pequeno apontamento mais sobre o Etanol e o biodiesel no Brasil, onde se estão fazendo plantações gigantescas de palma para obter o óleo que depois se usa como combustível. Isso não é estendível a muitos territórios do planeta, pois dispor de grandes extensões de terra agrícola de boa qualidade, que se dediquem a produzir combustíveis e não alimento, não é possível. Aqui sim, pela imensidade continental do território, pela qualidade produtiva da terra, que sendo excecional no planeta, – pois as terras tropicais costumam ser pobres –, aqui são muito férteis; porém, com uma redução continua dos matos, o que leva a que hoje o problema das necessárias reflorestações esteja na tona da atividade política. O Brasil tem um território continental e é hoje um grande exportador de alimentos, o primeiro país do mundo, pois superou os EUA e exporta calorias alimentícias para alimentar 300 milhões de pessoas, sendo o seu primeiro comprador a China. Mas de aqui sai de tudo, como por exemplo a maravilhosa carne brasileira, que é um produto barato (e tenha-se em conta que eu acho tudo caro) e da qual os brasileiros comem como pantagruéis. Na Argentina, com os seus campos invadidos só da soja, hoje a maior parte da carne que se consome é brasileira, mas exportam para todo o lado.
