Por Alexandre Banhos
Estive o outro dia no SESC Pinheiros, um grande e muito bom espaço cultural público desta cidade de São Paulo, assistindo com a Margarida ao emocionante espetáculo “Galiza-Brasil travessia de Saudade”, conduzido pola Ugia Senlhe1. Acompanhada de magníficos amigos, todos eles grandes artistas brasileiros, que graças ao projeto que impulsionou a Ugia de Cantos na Maré, mais semelham agora um bom rancho a partilhar muita cousa. Como tal se deslocam aonde quer que seja com colaboração fraterna, pois já não é só o deles, de momentos pontoais, e sim algo bem fincado ao longo do tempo. São bons amigos que se ajudam e compartilham tudo, a começar polo lar e muita cousa mais. A Galiza, além do que no começo pensara alguém, se é que alguém pensou isso como projeto, vem tirando impagável benefício desta história, em que todos e todas aprendemos cousas, incluídos aqueles que estão envolvidos no projeto.
Ugia, nesta digressão, já levava várias atuações no Brasil, no Rio de Janeiro. Além da atuação, gravou um disco em que também há importantes colaborações brasileiras. Quiçá este ano de 2011 tenhamos os Cantos na Maré no Brasil, ante as crescentes dificuldades para continuar avante com esse projeto na Galiza.
Ali, no SESC-Pinheiros, achavam-se presentes muitos da Galiza, como o genial ator Carlos Blanco, que estivo a percorrer o Brasil, o nosso mais sério futuro, nas suas palavras; e outros que fomos saudando. Assistia também uma boa representação de associados da Casa Espanha de São Paulo, que se figérom notar todo o tempo ao longo do espetáculo, e que encheram por momentos a plateia de aturujos.
É complicado para a Ugia ter que dizer no Brasil que é galega: a gente não acredita. E o mesmo se passa com o de falar galego: o brasileiro não entende de que lhe falam. A sua amiga e cantora, Socorro Lira, explicou-lho sobre o cenário, de jeito muito formoso: “A seguir, Ugia, vai atuar o galego Sérgio Tannus, o único galego a atuar aqui nesta noite. Porque ser galego no Brasil é se ser louro e de pele clara”, diz a Socorro Lira. “Quando eu fui pela primeira vez à Galiza, fiquei surpreendida: na Galiza a gente é igualzinha que a que há no norte de Portugal e igualzinha às nossas populações do nordeste do Brasil, vindos todos do norte de Portugal e da Galiza. Eu não entendia, como lhe passa a todos os brasileiros, isso de falar galego. É como se alguém diz que fala louro ou fala moreno. No Brasil isso não é inteligível. Vocês têm que saber para se fazerem entender bem pela gente que há que se exprimir para que elas entendam.” Continua Socorro Lira: “Eu agora conheço bem a Galiza, gosto imenso da Galiza, tenho bons amigos na Galiza e saiba o público que na Galiza o que se fala é o português, o português da Galiza, mas o português, que é cousa que sim entendemos todos os brasileiros. Nós, que tivemos até um ministro da cultura galego, muito galego, e por galego conhecido, e que nada tinha a ver com a Galiza.”
Ainda que gravado com muita má qualidade, os leitores podem escuitar o concerto de São Paulo. Falta a primeira canção da Ugia e 80 per cento da longa apresentação que fez do espetáculo e depois a canção de encerramento. Porém, essa já é acessível no youtube. E também outra peça mais dela no CESC Pinheiros está no youtube.
No Brasil temos uma televisão galega , que se chama assim por ser de alemães e serem eles geralmente galegos (louros). Se um moreno diz no Brasil “sou galego”, olham para ele com pasmo.
Pode que no velho nordeste brasileiro, em que abundavam os pretos e toda a classe de cruzamentos e misturas com eles, o galego fosse identificado como o de pele mais clara, e daí venha a origem do termo. Porém, atualmente, e desde há bem mais dum século, isso está profundamente desligado dos moradores da Galiza. Na aula da Margarida há um garoto a que os outros chamam o galego. Pois bem, é filho de pais suecos.
Porque não há centros galegos no Brasil?
No Brasil não há nenhum centro galego, só Casas de Espanha, que na sua grande maioria são monopólio de originários da Galiza, como a de São Paulo ou da Bahia.
Primeiro, por não serem todos os galegos frequentemente louros e isso é uma chatice. Segundo, o galego, quando fala no Brasil, dependendo do cuidado e qualidade da sua língua, é considerando como sendo: de algures no Brasil, país tão imenso que sempre pode ser um sotaque diferente2; de Portugal – muito frequente, tradicionalmente era o que mais se dava –; ou falante de portunhol, o que pode ser qualquer cousa sem referência nenhuma ao Estado Espanhol, pois os falantes de portunhol mais frequentes no Brasil são os bolivianos, os uruguaios e os peruanos, e é, claro, com eles, que o identifica o brasileiro.
O galego, que assumira o desprezo ao português próprio do calado e fundo racismo espanhol, – e que no Brasil isso fazia-o coerente com o seu autonojo (resultado da menorização e opressão) –, afirmava a sua “superioridade espanhola” (bom, os contos brasileiros de portugueses – os mesminhos que há na Argentina de galegos – tampouco ajudava), pois melindrava-se com isso, e por contrariar afirmava por todo o lado ser espanhol, cousa que não se dava nos outros Estados das Américas.
Curiosamente e deste jeito foi que a imigração galega no Brasil tem sido normalmente de fervorosos espanholistas – em comparação com a de outros territórios – que andavam a atirar, não poucas vezes, pedras no seu próprio telhado.
Na Galiza não podemos fazer política séria da nossa língua internacional, sem deixarmos de ter em conta as realidades do mundo lusófono e as suas perceções. O Brasil não é nenhuma pequena cousa; é a garantia dum futuro maravilhoso e grande para a língua que nasceu na Galiza no seu território originário entre o Cantábrico e o Vouga3. Daí a inteligência linguística do nascimento da Academia Galega, daí a sabedoria de Carvalho Calero, que tal como reza no seu monumento em Compostela, afirmava “A fala da Galiza, o português de Portugal, o português de Brasil e o português dos distintos territórios lusófonos, formam um único diassistema, conhecido entre nós popularmente como galego e internacionalmente como português”.
É tão simples dizer que falas português da Galiza e, aliás, é cousa que todo o mundo entende. Além disso, tem o poder taumatúrgico de mostrar-nos que o nome galego infelizmente é inseparável do processo regionalizador e afastador da realidade da nossa língua; e portanto a coroa da moeda da substituição linguística na Galiza.
Notas:
1 Ela escreve Uxia Senlle
2 Eu neste dias já fum identificado de várias maneiras: o mais frequente, como sendo português; num caso como angolano (a mim e a Margarida juntos, duas mulheres falaram-nos do nosso belo sotaque angolano); e nos outros casos como sendo de algures no Brasil, (como se pega o sotaque do formoso português do Brasil!). Nunca ninguém pensou em mim como “espanhol”
3 A realidade nacional de Portugal (e da Galiza) nasceu no gallaeciorum regnum, proclamado em Braga, a sua capital, no ano de 411. Daí que a Fundação Meendinho esteja empenhada (e quer que essa festa de recordação seja de todos os grupos e pessoas) para que estes 1600 anos sejam devidamente comemorados e se dedique a eles o estudo e trabalho que merecem. Portugal seria ininteligível sem o nascimento do gallaeciorum regnum (assim se chamava o que a historiografia vulgar chama reino dos suevos), e a nossa língua, o português, não existiria sem ser cozinhada nesse reino. E esse reino é mais um elo a fazer inseparável a nossa radical pertença à lusofonia.
