Carvalho Calero e Otero Pedrayo tiveram uma grande amizade que transcendeu a sua existência pelos escritos de ambos e, particularmente pela intensa relação epistolar que mantiveram ao longo de mais de quarenta anos, até pouco antes do passamento de D. Ramón, “príncipe de Aquitania”, como o qualificaria D. Ricardo num dos seus ensaios. Desde há uns meses dispomos de 25 anos da sua correspondência (1949-1974) no portal do Conselho da Cultura Galega. Achegar-nos-emos noutra ocasião a esse tesouro, que manifesta a grande amizade e mútuo respeito que havia entre os dois.
Hoje quero trazer aqui uma queixa de Carvalho relativamente à miopia do galeguismo contemporâneo de direitas e esquerdas a respeito de Otero Pedrayo e a sua visão da Galiza. Num magnífico e longo artigo publicado por D. Ricardo em Grial a pouco do cabo de ano de D. Ramón (“Otero Pedrayo. Uma visão da Galiza”, 56, 1977), Carvalho lamentava que Outeiro “levava muitos anos na reserva… reduzido à função simbólica de tesoureiro honorário das essências galegas”.
Para Carvalho Calero, Otero representa “uma conceção e um sentimento do que foi e deve ser” o destino da Galiza; ainda mais, “não há versão da Galiza mais completa” que a sua. No entanto, sem chegarmos às duras palavras do hino –“… os féridos e duros não nos entendem”–, diz que “os ignorantes não podem entender” Otero; e “também não os sectários”, porque o seu humanismo é a negação do sectarismo. Não o entendem tanto pela carga cultural da sua escrita –“a cultura popular non pode digerir um produto tão carregado de especiarias requintadas”, “Otero não se pode ler como Asterix”– como pela sua perspetiva aberta, dialogal e transcendente. Destarte, nas décadas de 70 e 80 “os escritos de Otero pareceram pouco beligerantes… no seu pangaleguismo conciliador”. Mesmo chegou a dar-se o caso de que “um escritor a quem toda a obra foi um serviço à sua terra, deixou de interessar aos que falavam constantemente de compromisso” com ela.
Ainda lembro as lágrimas de emoção duma amiga professora de galego, ao ouvir a minha defesa apaixonada de D. Ramón na apresentação do meu libro sobre a geração Nós em Viveiro em 1988. Contudo, “não se pode fazer uma Galiza de costas a Otero Pedrayo”, conclui D. Ricardo.
[Este artigo foi publicado originariamente no Nós Diario]
