Castelao no cinema. Um homem que, também, rezava

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Fui ver nada mais estrear-se “Antes de Nós”, o primeiro filme não documental sobre Castelao. Ia com expectativa, em atitude acolhedora mas também crítica. Considero-me bom conhecedor da vida e da obra de Castelao e podia temer o que adoita fazer o cinema, salvata distantiae, quando afronta a figura de Jesus de Nazaré, muitas vezes com resultados frustrantes.

Mas não aconteceu assim; a minha dona e mais eu saímos satisfeitos da sala. Não sei se tanto coma Andrés Castro no Nós Diario, que conclui: “Non é o filme sobre Castelao que todos esperabamos. É mellor”; mas contentes com o resultado, como a gente coa que falamos ao remate. Um filme formoso e muito digno, tanto no guião de Pepe Coira, como na realização de Angeles Huerta –que conhecíamos por “Esquece Monelos” e “O corpo aberto”– e a magnifica fotografia de Lucia Catoira.

Sabíamos que era um filme parcial sobre Daniel. Está centrado só em dois momentos da sua vida, e não os mais salientáveis: o trabalho de médico em Rianxo na gripe espanhola de 1918; e a viagem a Bretanha com Virginia Pereira, trás a morte do filho, para recolher as cruzes de pedra no país irmão, que veria a luz no ensaio As cruces de pedra na Bretaña (1930): “As terras bretonas están estradas de cruceiros idénticos os nosos… Non se podería falar dos nosos cruceiros sen ter visitado primeiramente a Bretaña, e alá fun”. A trama desenvolve-se entre a Bretanha e Rianxo, manifestando a grande humanidade de Castelao, a sua sensibilidade e saber fazer como artista e a personalidade política que todos conhecemos.

Muito boa a escolha de atores. No físico, e ainda melhor na interpretação: o Castelao de Xoán Forneas e a Virginia de Cristina Iglesias; conhecemos a Virgina um pouco mais pela obra de Montse Fajardo A vida incerta. Biografia de Virginia Pereira.

Evidentemente, sentimos a pouca presença do político radicalmente comprometido com a Galiza, ainda que se aponta já com a sua relação coas Irmandades da Fala; mas uma narração cinematográfica não pode ser um documentário biográfico completo. Em troca, aparece muito bem o artista plástico, com detalhes dos que não vou deter-me aqui.

Sim queria fazê-lo no aspeto religioso de Castelao, que não adoita ser tratado, e mesmo é negado, salvo por uns poucos nos nossos escritos. O que isto escreve, fijo-o em mais duma dúzia de artigos antigos e recentes; mas sobre tudo nos livros A xeración “Nós”. Galeguismo e relixión (Galaxia 1988) e Galegos e cristiáns (SEPT 1995). O Castelao crente religioso aparece no filme de maneira singela, mais muito clara; coisa que quero agradecer desde aqui à sensibilidade da realizadora. Daniel é um homem que, com uma religiosidade popular, aparece no filme santigando-se repetidamente e rezando com devoção. Ainda que não deixa de refletir também a critica religiosa; sobre todo nas palavras do canteiro Sobral, muito bem interpretado por Nacho Novo: “Eu tenho-lhe mais perguntas que certezas”, responde-lhe a Daniel, quando este o topa sentado num banco da igreja após a morte da sua filha, e lhe pergunta se é crente. Ou a imagem dos pobres à porta da igreja, que no álbum Nos tem o epigrafe “A verdade”.

Uma das sequências mais formosas do filme é a do passo do viático ao carom do pinheiro que acende as suas velinhas. Como faz com outras obras plásticas de Castelao, esta reflete a imagem dum formoso quadro que recolhe o relato de Cousas no capítulo “A carón da natureza”: “Perto do pino acertou a pasa-lo Viático aldeán (o crego, dous rapaces, catro mulleriñas que van rezando) e, ¡ouh miragre!, o irmán pino, sentindo o momento relixioso e en homenaxe á sagrada Forma, alcendeu as súas velas, que estiveron acesas namentras o Viático non se perdeu na revolta do camiño”.

Mas também são muito formosas as sequências do artista desenhando, com arte e fervor a um tempo, cruzeiros perto de Rianxo e logo na Bretanha. “Cada cruceiro é unha oración de pedra –diz noutro relato de Cousas- que fixo baixar un perdón do Ceo… Reparade nos cruceiros e descubriredes moitos tesouros”. Como se recolhe em nota na sua Obra completa, vários desenhos no diário Galicia de Vigo levam o epígrafe de “Oración” ou “Rezo”. E em As cruces de pedra na Bretaña recolhe Castelao a metáfora “oración de pedra” tomada desta “cousa”. Magnifico o debuxo do labrego orando ante um cruzeiro no álbum Nos: “¡Non me fan xusticia, Señor!”.

Um homem que escreve e pinta isto só pode ser autenticamente religioso. E mesmo esta fé pode impulsar o seu compromisso político, como aconteceu logo com Moncho Valcarce.

Máis de Victorino Pérez Prieto