As palavras não fazem ao ser humano compreender, é preciso fazer-se um ser humano para compreender as palavras’
(Dito taoista)
A linguagem tem valor, mas o que tem valor na linguagem são as ideias,
e as ideias têm algo que vem depois.
E isso que vem depois das ideias não pode ser transmitido por palavras”.
Chuang Tzu

Pir-i-Lampo é alto, magro e caminha suave como um gato que, gentilmente, toca o chão. Aparece e desaparece sigiloso e quando um quer encontrá-lo é difícil que apareça mas, inesperadamente, quando já o tinhas esquecido pode sentar à tua beira como se sempre tivesse estado aí. Digo isto porque foi assim que me encontrei com ele há já muitos anos nas montanhas do Courel. Durante horas andei inquieto à sua procura até que perdi a esperança. Foi então que comecei a me perceber da paisagem, das pedras dos caminhos, das cores e os assobios dos paxaros. E a calma outonal invadiu-me. A luz do entardecer sobre as folhas de castanheiro, sobre os carvalhos, produzia um sentimento de abandono, de calma. Era como uma luz ferida que parecia sincronizar-se com o meu estado interior. E ali, no lameiro de Ferramulim, em pé, sorrindo e erguendo uma mão apareceu Pir-i-Lampo.
– Quanto tempo, amigo!
– Olá – consegui balbuciar timidamente.
Caminhamos em silêncio, a modinho, à beira do rio. Todas as perguntas que tinha para fazer-lhe pareceram dissipar-se. Era incapaz de lembrar nada. Nesse estado de torpor interior continuei até que chegamos à altura de um imenso carvalho. Pir-i-Lampo convidou-me a sentar numa grande rocha, ajeitada como um cadeirão de pedra.
– Está quente- observei
– Leva várias horas ao sol. Este é o melhor momento para sentar. Senta.
Não sentia a inquietação nem as perguntas que umas horas antes motivaram a minha busca de Pir-i- Lampo. Não tinha nada a dizer mas falei.
– Tinha um bom molho de perguntas que me preocupavam mas agora não sou quem de centrar-me e não tenho nada a dizer.
– As perguntas que che preocupavam não eram verdadeiras perguntas. Esse é o motivo de que se tenham dissipado.
– O que quer dizer com isso?
– Que não são os problemas da tua cabeça o verdadeiro problema. O problema esta aqui- E puxo a sua mão sobre o meu peito, passou-na desde o plexo solar até a garganta. É o teu corpo o que tem perguntas, a tua cabeça pensa que pode fazer perguntas mas, na verdade, é só o signo de que tens que atender ao teu corpo. O desacougo surge de perder o nosso centro.
Que não são os problemas da tua cabeça o verdadeiro problema. O problema esta aqui- E puxo a sua mão sobre o meu peito, passou-na desde o plexo solar até a garganta. É o teu corpo o que tem perguntas, a tua cabeça pensa que pode fazer perguntas mas, na verdade, é só o signo de que tens que atender ao teu corpo. O desacougo surge de perder o nosso centro.
– Um não pode deixar de pensar em certos temas que se impõem uma e outra vez.
– Que é o que che preocupava?
– Pensava como comunicar as minhas ideias filosóficas, como introduzir a filosofia sapiencial, como mostrar uma maneira pedagógica para que as pessoas podam compreender estes pensamentos tão valiosos.
Pir-i-Lampo sorriu e falou tranquilamente:
– Não percebes que justamente essa preocupação denota a falsidade das tuas intenções!
– Mas, porquê, sou sincero! É um sentimento profundo, intenso!
– Isso não vale nada- riu Pir-i-Lampo
– Não o compreendo. E que aquilo que nos interessa não deveria apaixonar-nos!
– Ao princípio da aprendizagem sim, há uma energia bruta que se necessita mas depois toda essa preocupação por transmitir, etc, evidencia a tua imaturidade. O verdadeiro conhecimento não atua assim.
– Não compreendo
– Deverias observar o arrogante que estás a ser! Não vês a tua presunção?

Fiquei confuso. Ainda que falava com amabilidade e calmamente, as suas palavras caíram como um balde de água gelada. Durante um bom pedaço de tempo ficamos em silêncio. À diferença do desacougo que experimentara horas antes a sensação agora era como um adormecimento, como se uma brétema cobrisse a minha visão, um sentimento de peso enchia todo o meu corpo. Começou a falar com suavidade, a modo, num tom amável mas profundo.
– O desacougo é o ego luitando com as suas projecções, com a imagem que tens de ti mesmo, da imagem que queres dar aos outros e de como pensas que te podem ver. A própria ideia de que “tens algo a transmitir” surge de aí. É totalmente ilusória. Estas a converter-te num propagandista. Ser um vendedor causa muito desacougo, muita ansiedade – alçou as sobrancelhas e botou uma olhada ao redor cheia de ânsia, calculadora, cobiçosa.
Como ator não tinha preço, pensei, e comecei a rir. Ele riu comigo.
– Esta bem. Que rias significa que não é tão grave!
– Mas é sempre assim? Parece-me uma perspetiva pouco compreensiva. É deprimente.
Pir-i-lampo estalou numa gargalhada. Tinha que agarrar-se as costas, parecia asfixiar-se.
– Que engraçado es – dizia-me. Não, não, é a mais compreensiva de todas. Pensa bem. O teu desacougo existe porque estás a luitar contra uma parte de ti mesmo que não quer saber nada dos teus projetos, planos e megalomanias mais ou menos subtis. É a parte de ti que “sabe”. E o burro que há em ti está a coucear à rapariga, forçando-a, explorando-a com as suas fantasias. Imperdoável.
– Mas, porquê fantasias? Não é uma preocupação legitima tentar transmitir da melhor maneira o próprio saber para ajudar aos outros?
– Se o saber fosse uma mercadoria poderia ser assim. Nesse caso terias os problemas típicos de um mercador- E voltou a pôr a olhada ladina, ansiosa. Voltei a rir. Era um palhaço autêntico.
– Como transmitir a filosofia sapiencial? É esse o problema?
– Sim – respondi.
– Transmite-se realizando-a num. Se tivesses essa realização não estarias “preocupado” mas como não a tens, “preocupas-te”. É assim de simples. Compreendes a tua imaturidade?
– Não podo fazer nada, então?
– A juventude sempre tão extremista! Podes fazer muito se abandonas a presunção, os planos, e tudo isso. Em realidade é como o nosso encontro.
– O nosso encontro?
– Quando querias encontrar-me não havia maneira mas quando perdeste a esperança e começaste a contemplar a beleza do que che rodeava apareci.
– Como sabe isso?
– Que pergunta? É como se me dizes: porquê dous e dous são quatro? Simplesmente as cousas são assim. O que me foi atraindo até chegar a ti foi a tua calma interna. Por alguma razão o meu corpo ia noutra direção quando estavas agitado, quando acougaste senti que algo puxava para onde estamos. Por outro lado o teu corpo não é parvo, soubo levar-te numa direção adequada- e Pir-i-Lampo voltou a rir como um meninho.
– Custa-me aceitar a sua explicação, sinceramente.
– Claro, para ti tudo é mais complicado. Mas observa esta pedra- e apanhou uma pedra e lançou-na ao longe sobre o rio. Olhas o que aconteceu? Primeiro vai para acima e depois cai. Como se chama a isso?
– É a lei da gravidade. Há uma força numa direção que a impulsa e depois a força da gravidade que a atrai para o centro da terra e cai. Isso é uma lei física.
– Exatamente. É uma lei. O nosso ser essencial está governado por leis. O que para ti é uma coincidência ou uma questão de sorte, algo inexplicável, na verdade está governado por leis. Ainda que não gosto muito da palavra “lei”, pode dar lugar a uma compreensão errada, mas polo momento chega como explicação.
O nosso ser essencial está governado por leis. O que para ti é uma coincidência ou uma questão de sorte, algo inexplicável, na verdade está governado por leis. Ainda que não gosto muito da palavra “lei”, pode dar lugar a uma compreensão errada, mas polo momento chega como explicação.
– Lembro que uma vez me falara do centrífugo e o centrípeto. Tem a ver com isso?
– Parcialmente sim. É a questão entre o interno e o externo. O nosso centro, o nosso ser essencial é a força centrípeta e atrai tudo para ser digerido e modelado conforme a uma predisposição originária e a força centrífuga é a nossa tendência a identificarmo-nos com o mundo e girar ao seu som. É nesta duplo jogo que nos realizamos. A maioria nos convertemos em satélites de algo externo. Deixamos que o nosso polo interior seja a comparsa de algo alheio a nós. De aí vem o desacougo.
– A vida é a arte do encontro embora haja nela tanto desencontro, dizia Vinicius.
– Encontro e desencontro obedecem a uma mesma lei. O que chamamos de mundo externo tem uma face para cada um de nós. Depende do que desenvolvamos e compreendamos de nós mesmos. E depende da nossa própria configuração originária. Não é certo que o ambiente seja tudo. O nosso nome vem connosco e isso é que temos que saber. Saber qual é o nosso nome. Aquilo que negas e do que queres fugir no externo é algo que está a indicar-te algo importante de ti. Algo que estás negando em ti. Tens que observá-lo tu mesmo.
– A que se está a referir? Pode explicar melhor?
– A sombra tem a forma do objeto real, mesmo que deformado, não é assim?. O mesmo acontece com os rasgos do que chamamos a nossa personalidade. A nossa personalidade é como uma imagem deformada da nosso ser real, como a sombra com a que nos identificamos como se fôssemos isso. Como lhe chamam os filósofos a isso?
A sombra tem a forma do objeto real, mesmo que deformado, não é assim?. O mesmo acontece com os rasgos do que chamamos a nossa personalidade. A nossa personalidade é como uma imagem deformada da nosso ser real, como a sombra com a que nos identificamos como se fôssemos isso. Como lhe chamam os filósofos a isso?
– Alienação?
– Sim , isso. Literalmente “estar alterado”. Fazer-se alheio a um mesmo. Somos os títeres de uma projeção- E riu, novamente, como um neno.
Eu estava algo rígido. Estava a contrair-me um pouco. Ele notou-no e voltou a falar.
– Uma vez um homem perdeu a sua chave e começou a procura-la baixo um farol que alumiava intensamente. Busca e busca e busca – E Pir-i-Lampo imitava teatralmente ao homem a procurar por debaixo do carvalho, por um lado, polo outro. Parecia realmente desacougado pola perda. Punha o seu rosto com um ar de preocupação inusitada. Era tão cómico que comecei a descontrair automaticamente.
– Foi então que se achegou um amigo e começou a ajudá-lo. Busca e busca e busca. Nada. A chave não aparecia. Exatamente onde foi que caiu?, perguntou o amigo. Caiu na casa, dixo o homem. Polo amor de Deus, porque estás a procurar aqui se caiu na casa?. Porque aqui hai-che mais luz, respondeu o homem.
Eu conhecia a história e esbocei um sorriso, mais por cortesia que por outra cousa. Pir-i-Lampo olhou para mim, fixamente.
– Tens que brincar um pouco mais. Tudo isto é uma brincadeira de uma criança. Joga, rapaz, como um cãozinho, como um gatinho. Não sejas tão sério. Não carregues com tanta importância.
– Sinto que tem razão, mas que podo fazer? É agora que sinto tantas perguntas dentro de mim!
– São como os gases do carro que leva parado um tempo. Isso tem que sair, tem que circular. Mas é hora de nos despedir. Amanhã podemos ir apanhar castanhas. Que che parece?
– Parece-me bem- respondi, algo desiludido de nos despedir quando pensava que a conversa começava a ser de interesse para mim.
– Pareces algo desiludido. Vou-te deixar algo para que rumines. Pensa nesta frase:
“Instrumento correto na pessoa incorreta: resultado incorreto
mas instrumento incorreto na pessoa correta: resultado correto”
Pir-i- Lampo caminhou suavemente, saltou um pequeno riacho e desapareceu por entre os carvalhos.
