Assi(m) morreu ũa língua



Onde cresce o perigo também surge a salvação

F. Hölderlin

 

dicionario-das-literaturas-portuguesa-galega-brasileiraNinguém pode negar que muitas das críticas realizadas por Fernando Venâncio ao reintegracionismo no seu livro Assim nasceu uma língua são certeiras. Para além de ũa crítica aos posicionamentos teóricos do reintegracionismo, sempre mais discutíveis, o autor revisa com múltiplos exemplos a interposição do espanhol no galego com ortografia portuguesa e o resultado é amargo. Trata-se, na verdade, de ũa defesa do português contra a ingerência do espanhol. É compreensível que um português faga isto. É um dever para um linguista. Mesmo que por vezes pareça duro, os seus argumentos são incontestáveis. Fica claro que a competência linguística dos reintegracionistas da-se em espanhol antes que em galego, ou em português. E o certo é que todos nós sabemos isso. Trata-se de ũa verdade incómoda. Podemos não querer vê-la. Podemos criar ũa caricatura com as suas denúncias ou deturpá-la. Podemos fechar os olhos mas a verdade continuará a existir mesmo que metamos a cabeça num buraco, ao estilo da avestruz. E deveríamos ser sinceros aqui, publicamente, como podemos sê-lo nũa conversa entre amigos. Nós sabemos as razões sociais e políticas de tal situação. Mas tal não muda os factos.

Mas não é um problema só dos reintegracionistas. O problema, reconhece Fernando Venâncio, acontece também em aqueles que utilizam o galego “institucional”. Acontece na imprensa, na televisão, nos uso oral de professores do Ensino Médio e a Universidade, nos políticos, quer dizer, em todos os âmbitos. A interposição do espanhol aqui não parece que resulte tão polémica. É compreensível que, como português, Fernando Venâncio não queira intrometer-se tanto nũa questão “galega” e, ademais, espanhola. Provavelmente aqui se dissimule esta interposição por causa de não interferir com ũa língua consolidada por diferentes estados nacionais. Para o galego autonómico certa tolerância à mistura ou castrapo sempre foi mais conforme à sociedade e não importa muito que até o presidente da Galiza ou, como tem acontecido em épocas não tão afastadas, o presidente da Academia Galega seja um inepto no uso da nossa língua.

Mas Fernando Venâncio leva a Galiza aos primórdios, às origens do português e conta-nos algo que muitos também sabíamos e que, por certo, é a razão mais básica do nosso lusismo ou reintegracionismo: o português é o nome que se dá ao galego, a única língua disponível, a norte e sul do Minho lá polo século XII. Portugal consegue que a língua seja normal a sul do Minho e a Galiza perde essa oportunidade, especialmente a partir dos Reis Católicos. Mas não sem a ajuda de boa parte da nobreza galega. Portanto, deixando questões nominalistas, a pergunta a fazer é: que seria do português atual sem o “galego”? Não seria nada. Se retirarmos o espanhol, o francês, o árabe, ainda fica a língua completa, sem grave prejuízo ou mesmo revitalizada, mas se retirarmos o galego simplesmente a língua desaparece. A questão é simples. Houvo um grupo de gentes que usavam o galego e que criaram o que hoje chamamos Portugal.

Portanto, deixando questões nominalistas, a pergunta a fazer é: que seria do português atual sem o “galego”? Não seria nada. Se retirarmos o espanhol, o francês, o árabe, ainda fica a língua completa, sem grave prejuízo ou mesmo revitalizada, mas se retirarmos o galego simplesmente a língua desaparece. A questão é simples. Houvo um grupo de gentes que usavam o galego e que criaram o que hoje chamamos Portugal.

Depois desenvolveu-se a língua no âmbito cortesã e, segundo Venâncio, a dinastia de Avis tentou afastar-se dos dialetos nortenhos mas sem chegar a completar esta intenção, quer dizer, fracassando. Depois a língua desenvolve-se seguindo as correntes renascentistas e humanistas que significaram ũa volta à cultura greco-latina e a reivindicação de essa continuidade histórica da que falarei um pouco mais adiante. Mas também ũa reintrodução de formas patrimoniais que aconteceu nesse período por causas da consciência educativa do humanismo e a ênfase no uso das “línguas vulgares” . Este é um tema longo e não é ũa questão grata aos diferentes nacionalismos porque significa compreender que existe ũa história europeia que permitia a Galileo Galilei e Tyco Brahe comunicar-se em latim (culto), ou que podamos constatar, para além do léxico, a grande importância dos estudos clássicos em países como Alemanha, o que , por certo, se nota na língua padrão. Esta reivindicação da cultura greco-latina tivo dous momentos importantes (um na Renascença e outro no Iluminismo). É depois do iluminismo que começam a aparecer rótulos como “língua nacional” ou “educação moderna”. Como é bem sabido o galego da Galiza não entrou nessa história que se desenvolveu em espanhol. O galego do norte de Portugal foi influenciado por todas essas correntes que estavam no centro dos problemas de homens como Shakespeare, Camões, Sá de Miranda, Bernardim Ribeiro ou Cervantes, problemas que iam muito alem de questões meramente linguísticas ou nacionalistas, ainda quando foram usados e violentados com intensidade para tão limitados e circunstanciais fins, especialmente nos séculos XVIII, XIX e XX. Foi Carolina Michaëlis de Vasconcelos quem nos lembrou que as fronteiras linguísticas e políticas não eram tão importantes, quando não francamente minimizadas, pola atitude cosmopolita de muitos humanistas da época. Como não ter em conta um Erasmo de Rotterdam ou um Luis Vives, um Bartolomé de las Casas, um Bernardino de Sahagún ou ao Padre António Vieira?. Como limitar essas amplas questões filosóficas, teológicas e científicas, na alvorada da cultura moderna, a ũa mera questão identitária de “eu mais…tu menos”?. Como esquecer o discurso sobre a Dignidade Humana de Pico de la Mirandolla em que se diz:

“Não te demos, ó Adão, uma morada fixa, nem feições próprias, nem dons particulares, a fim de que seja lá qual for a morada, a feição ou o dom pelos quais vieres a optar, tu, através de teus próprios juízos e decisões, os conquistes e possuas. A natureza dos outros seres, uma vez definida, é constrangida entre os limites prescritos pela nossa lei. Tu porém não és constrangido por nenhum limite, a fim de que através de teu livre arbítrio, nas mãos do qual te pus, tu mesmo o definas. Coloquei-te no centro do mundo, para que possas observar mais facilmente tudo o que existe no universo. Nem celeste nem terreno, nem mortal nem imortal te criamos, a fim de que possas, como um livre e extraordinário escultor de ti mesmo, plasmar a tua própria forma tal como a preferires. Poderás degenerar-te nas formas inferiores, que são animalescas; poderás, segundo a tua decisão, regenerar-te nas formas superiores, que são divinas”.

(Discurso sobre a Dignidade do Homem, texto tirado da rede)

É no interior de estas problemáticas que se inserem muitos dos problemas culturais que vão dando forma a ũa língua. São os problemas que preocupam a ũas minorias qualificadas de pessoas notáveis em diferentes lugares da Europa. É parte de ũa batalha polo esclarecimento, a liberdade intelectual e a abertura espiritual contra a miséria da Inquisição e a limitação do obscurantismo que afligiu a Península Ibérica, expulsando primeiro judeus e árabes, mais tarde mouriscos e continuando ũa “normalização” interna que construiu o nacional-catolicismo espanhol e português, tão vinculado ao papismo e ao império. Trata-se também da maneira em que se subverteu o espírito integrador da Escola de Tradutores de Toledo ou Montpellier definindo cada vez mais os espírito de rapina e cegueira, de desprezo pola sabedoria e a espiritualidade, do fanatismo que caraterizará a Espanha durante tantos séculos. Só lembrar que nos inícios do S.XIX o primeiro ato cultural do Bourbon Fernando VII ao chegar ao poder foi fechar a Escola de Minas de Madrid e abrir a escola taurina. E lembremos que o povo pedia o retorno da Inquisição. Uns anos mais tarde George Borrow dará conta da situação cultural e espiritual de Espanha e Portugal no seu livro The Bible in Spain, traduzida ao espanhol por Manuel Azaña oitenta anos mais tarde. Por momentos parecem as aventuras de Julio Jurenito de Ilya Ehrenburg.

Castelao

Castelao

E sempre foi necessária a cultura clássica, a compreensão de que os problemas humanos da cristandade europeia pertencem a ũa tradição grega, latina, semítica (árabe, judaica, mesopotâmica). Que a língua leva consigo as ressonâncias e as memórias, as transferências, as falas e mitologias. No caso galego também celtas. Que tudo isso é também a língua e entende-se que as vernáculas devem construir-se com respeito a esses modelos não por uma questão só de prestígio social mas porque é a maneira de manter uma conexão com uma memória histórica, uma continuidade da civilização e também a possibilidade de elevar-se a uma polissemia que ressoa com os conteúdos sapienciais da língua. Não são um Lutero ou um Fray Luis de León ou um Padre António Vieira exemplos de inépcia linguística em língua vernácula, bem polo contrário. A sua capacitação clássica forneceu instrumentos mais apurados para o uso do vernáculo, um frescor, uma viveza e ũa espontaneidade reconhecida universalmente.

Ainda lembro a época em que eu estudei o secundário. Lia-se o Conde Lucanor (S. XIV). Vejamos um pequeno fragmento do anteprólogo:

“Pero, desque vieren los libros que él fizo, por las menguas que en ellos fallaren, non pongan la culpa a la su entençión, mas pónganla a la mengua del su entendimiento, porque se atrevió a se entremeter a fablar en tales cosas. Pero Dios sabe que lo fizo por entençión que se aprovechassen de lo que él diría las gentes que non fuessen muy letrados nin muy sabidores. Et por ende, fizo todos los sus libros en romançe, et esto es señal çierto que los fizo para los legos et de non muy grand saber como lo él es. Et de aquí adelante, comiença el prólogo del Libro de los Enxiemplos del Conde Lucanor et de Patronio”

Em castelhano atual a Biblioteca Virtual Cervantes indica o seguinte:

“Cuando las hubieren visto, si encuentran en ellas ciertas faltas o incorrecciones, no las deben achacar a su voluntad sino a su cortedad de entendimiento, porque se atrevió a tratar temas tan importantes y difíciles. Aunque sabe Dios que lo hizo para enseñar a quienes no son sabios ni letrados, por lo cual escribió todos sus libros en castellano, demostrando así que fueron escritos para los más iletrados, para gente de escasa cultura, como lo es él. A partir de ahora comienza el prólogo del Libro de los cuentos del Conde Lucanor y Patronio”

A pesar da grande distância linguística com o espanhol atual era parte do curriculum do ensino. E justo é que se leiam as Novelas exemplares de Cervantes, se o Quixote resultar excessivo. Obviamente há diferenças linguísticas notáveis com respeito ao uso atual mas parece-me adequado que essa formação seja incluída e não por motivos nacionalistas mas porque é um direito e um dever da formação completa das pessoas, que conheçam a história, os problemas, as descobertas e a sabedoria dos que trabalharam duro e honestamente para dignificar a nossa humanidade, e porque é congruente com ũa continuidade da sociedade humana e a própria língua. Porquê, então, foram eliminados nos inícios dos anos oitenta temas referidos à literatura portuguesa que apareciam nos livros de texto do ensino de secundária?. E que a língua de Sá de Miranda derivou tanto do galego que não se reconhece na atualidade como tal? Eis aqui um exemplo do poeta, onde vão marcadas as palavras que já não se usam no português atual. Não marquei “lume” ainda que hoje é pouco utilizada em detrimento de “fogo”

Despois co’a melhor lei, entrou mais lume,
suspirou-se melhor, veo outra gente
de que Petrarca fez tam rico ordume.
Eu digo os Proençais, de que ao presente
inda rimas ouvimos, que entoaram
as musas delicadas altamente.

Ou António Ferreira:

Com mágoa o cuido ah com mágoa o digo
Como um povo em seu bem sempre constante
Veo assi ser da sua língua imigo?

Todos eles quinhentistas, e são citações tiradas ao chou. A questão é: desde a perspetiva linguística são mais “galegos” ou “portugueses”? E indo ao tema: porquê são estudados em Portugal e não na Galiza?. Questão de língua ou questão política? A resposta é óbvia. Se não se ensina a história, a língua, a filosofia, a religião, a política como parte de um contexto imbricado acabamos por permitir que ũa decisão política de um nacionalismo nacional-católico fechado (Santiago y cierra España) defina o que é galego e não é galego, até onde e como poda ser estudado, etc. E, curiosamente, isto é defendido a capa y espada por importantes vultos da cultura galega, nada incompatível com o seu nacionalismo galego, pois os limites linguísticos coincidem milimetrica e pasmosamente com as províncias definidas por Javier de Burgos no S.XIX . E isto ainda é mais doloroso na Universidade (mais bem haveria que chamá-la “particularidade de partículas infinitesimais”) onde o atomismo dos saberes e o positivismo colonial do XIX triunfaram, o que é tristíssimo nas ciências humanas. Para dizê-lo de um jeito singelo: são a cobertura ideológica do neoliberalismo. E não importa o tema que trate, porque não é questão disso. Pode até dedicar-se a produzir estudos críticos sobre o capitalismo neoliberal. O importante é que se trata de um discurso encadeado e retórico sem nengũa força transformadora. Spinoza sabia-o bem: “As Universidades foram criadas mais para submeter o espírito do que para cultivá-lo”.

Citei a Sá de Miranda, Camões, Bernardim Ribeiro, todos eles comprometidos no desenvolvimento de ũa sabedoria e um caminho de retorno ao próprio ser que o mestre de Pico della Mirandolla, Marcilio Ficino, conseguira aglutinar na Florência dos Medicis. Eis Camões:

Que os olhos, e a luz que atei
O fogo que cá sujeita,
Não do sol, nem da candeia,
He sombra daquella ideia,
Qu’em Deos está mais perfeita.
E os que cá me captivárão,
São poderosos affeitos
Qu’os corações tẽe sujeitos;
Sophistas, que m’ensinárão
Maos caminhos por direitos.

Destes o mando tyrano
M’obriga com desatino
A cantar ao som do dano
Cantares d’amor profano,
Por versos d’amor divino.
Mas eu, lustrado co’o santo
Raio, na terra de dor,
De confusões e d’espanto
Como hei de cantar o canto,
Que só se deve ao Senhor?
(Sôbolos rios que vão)

Como se pode ensinar El Conde Lucanor ou El Quijote como parte de ũa mesma continuidade linguística espanhola e negar-lhe ao galego outro tanto?. Suponho que aqui os nacionalismos (galego, português e espanhol) não ajudam muito. Fernando Venâncio dedicou páginas a mostrar a submissão com respeito ao espanhol por parte do português e, mesmo chega a dizer que supera ao próprio galego. Por mais que argumentos eruditos podam dar conta dos empréstimos que o espanhol deixou no português, isto não é algo novo nas línguas: pensemos nos empréstimos do francês no inglês (quase a metade da própria língua) ou no próprio espanhol (começando pola palavra “español”, que é provavelmente provençal ), a questão no galego é o da interposição do castelhano que vai muito além de ũa questão de simples léxico, porque é a interposição de um discurso nacionalizador e identitário que estabelece “o galego como objeto de estudo”, subsumível a ũa presunção de cientificidade que de facto parte de ũa orientação prévia de carácter fundamentalmente político. Pode ser que muitos de boca para fora digam ũa cousa e de boca para dentro não tenham nengum argumento autenticamente linguístico mas propriamente político, mas tentam a construção de um discurso que justifique essa decisão prévia. Mas em que sentido político? Não no sentido de ũa política ao serviço da “sociedade civil”, no sentido de ũa politeía ou cidadania mas ao serviço de ũa visão distorcida polo nacionalismo, ancorado em posicionamentos fortemente emotivos, e onde os “contrários” devem ser purgados ou diretamente eliminados do mapa. Há que pertencer à seita. Falar como um cidadão do mundo, sentindo-se movido polo destino dos que nos rodeiam, dentro de um conjunto de culturas que compõem o tapete humano dos nossos povos, tentando compreender e restaurar as ligações e os mal-entendidos históricos é para mim mais nutritivo e vital que viver desde um localismo que está ao serviço de pequenas capelas complexadas e ressentidas.

Mas há ũa diferença substancial das atitudes individuais, privadas ou pessoais, e aquelas que se incarnam nas instituições. Porque é com dinheiro público que se fomenta ũa cultura subvencionada com verbas substanciais para os que promovem correntes ideológicas, muitas vezes com mentiras e manipulações ou meias verdades. Desde as instituições definem os currículos escolares, organizam os cursos universitários, controlam jornais onde se eliminam debates de público interesse e reproduzem-se os tópicos ũa e outra vez e onde, enfim, se pratica falaciosamente ũa democracia sem democratas. Porque, finalmente, que importa “o galego”, se não compreendemos o lugar das pessoas e a necessidade de um sentido justo e equilibrado para os debates e para que a própria sociedade poda aceder a um conhecimento que lhe é, literalmente, roubado. Memória tão curta que em quarenta anos (desde princípios dos oitenta) conseguiu ũa demolidora “normalização” que obriga a ter que traduzir para “o galego”, segundo palavras de Fernando Venâncio, o seu próprio livro para que os mais jovens podam lê-lo. Este sentido orwelliano da neolíngua foi feito polas instituições, não polos lusistas ou reintegracionistas. O próprio Venâncio dá por bom esse galego como “o galego em si” quando foi realmente construído nos últimos vinte anos do século XX mas perseguindo ao mesmo tempo a todos os reintegracionistas de máximos e de mínimos, muitos deles professores. Não foi um debate honesto e livre. Foi ũa clara “caça de bruxas”. Os argumentos linguísticos que Fernando Venâncio parece ver com simpatia no reintegracionismo mais ponderado foram perseguidos sem misericórdia.

Memória tão curta que em quarenta anos (desde princípios dos oitenta) conseguiu ũa demolidora “normalização” que obriga a ter que traduzir para “o galego”, segundo palavras de Fernando Venâncio, o seu próprio livro para que os mais jovens podam lê-lo. Este sentido orwelliano da neolíngua foi feito polas instituições, não polos lusistas ou reintegracionistas. O próprio Venâncio dá por bom esse galego como “o galego em si” quando foi realmente construído nos últimos vinte anos do século XX mas perseguindo ao mesmo tempo a todos os reintegracionistas de máximos e de mínimos, muitos deles professores. Não foi um debate honesto e livre. Foi ũa clara “caça de bruxas”.

E foi com dinheiro público que se fomentou ũa cultura subvencionada, submissa e medíocre ao serviço de ũa norma, independentemente do conteúdo ou de outros méritos. Só para promover essa norma(lização). Mais nada, sem outro critério. E também a política de tradução ao galego de obras de língua e literatura portuguesa ou brasileira foi parte de esse projeto, pequeno negócio de alguns. Pode ser referido como um feito social pois responde a ũa necessidade comercial, e a como estão as cousas, mas justamente dá conta do que aqui tento defender num sentido inverso. É demagógico falar da ignorância, da incapacidade e das limitações dos galegos para ler e compreender o português quando foi justamente o que se andou a promover todos estes anos. É ũa profecia autocumprida que atinge não só aos novos mas até aos seus professores, que foram educados para admitir como dogmas de fé os ensinamentos linguísticos produzidos por ũa Universidade feita com o propósito de “cubrir el expediente” “y no dar problemas ni quebraderos de cabeza” como tantas instituições atuais. E ainda assim não é verdade, não resulta difícil ler em português para um rapaz. Ofereçam-lhe o livro. Hoje só se trata de produzir e levar adiante protocolos, nem mais nem menos. A realidade é simplesmente vista como um problema. É isto cordura? É melhor construir ũa à medida e impó-la. Que nome recebe isso? Que os linguistas indaguem que substantivo abstrato ou concreto pode definir esses feitos.

A política de feitos consumados consistirá em mostrar como finalmente o galego não é para nada galego porque, simplesmente, já desapareceu e, obviamente, todos somos competentes em castelhano sem problema algum, independentemente de subtilezas linguísticas de última hora. Quem conhece a dialetologia do castelhano fora de um reduzido grupo de investigadores absolutamente desconhecidos, quem a do português, quem a do inglês e o alemão, quem a do francês: na Galiza poderemos ficar sem língua mas seremos o país com mais estudos dialetológicos produzidos na História Contemporânea. Sempre, claro, em detrimento de algo. Que será esse algo, tão indefinível?

Na Galiza poderemos ficar sem língua mas seremos o país com mais estudos dialetológicos produzidos na História Contemporânea. Sempre, claro, em detrimento de algo. Que será esse algo, tão indefinível?

Sinto que não vou tentar definir o indefinível, pois como bom galego ficarei na escada a subir ou a baixar, depende. Mas quero mostrar a minha gratidão a Fernando Venâncio porque me forçou a escrever, não tanto para responder ao seu livro como linguista pois não o sou, tampouco como ativista da língua ou nacionalista porque tampouco o sou mas por um sentimento de humanidade compartilhada. Primeiro porque sendo português tomou-se o incomodo de pensar intensamente a questão galega (e portuguesa). Porque realiza críticas que compartilho a certo extremismo imitador e formalista e porque põe argumentos que favorecem ũa visão integradora para o galego dentro de um sistema aberto às diferenças. Fernando Venâncio toca ũa fibra sensível em alguns de nós, algo muito mais fundo que um problema académico. Eu tentei mostrar que envolve muitos fios da nossa maneira de estar e ser no mundo. A humanidade atual caminha à beira de um perigo imenso, sem precedentes na história: a possibilidade da autodestruição da própria espécie ou a impossibilidade de realizar plenamente a própria humanidade. E a questão linguística parece um luxo. Trata-se de um fio de um tapete múltiplo, de ũa urdidura que se tece nos destinos da modernidade e o seu final. As velhas ideologia não servem, são eivas e fardos dos que nos temos que desprender o antes possível.

Este ano comecei escrevendo um texto dedicado a Fernando Venâncio e publicado na Revista Palavra Comum, Monólgo, em silêncio, da língua e a fala. Já quase no final do ano, este ano tão estranho, quero lembrá-lo porque diz muito melhor o que, provavelmente, não consegui dizer em todas as páginas anteriores.

José António Lozano Garcia

José António Lozano Garcia

Nasceu na cidade da Corunha em 1967. É professor de Filosofia no ensino secundário. Foi finalista em 1988 do Prémio de poesia Nacional O Facho. Em 1989 publicou no livro coletivo Fogo Cruzado (AGAL) o relato O pêndulo sob o pseudónimo Jorge Mário Novais. Em 1993 foi prémio ex-aequo junto a Xavier Alcalá no certame de narrações breves Manuel Murguia de Arteijo pelo seu relato Retrato antigo:pinturas e superfícies. No mesmo certame recebeu em 2016 o 3º prémio pelo relato A Aranha de Sidney . Publicou em 2002 no livro comemorativo dos 10 anos do prémio Manuel Murguia o relato Porco Transgénico.
Em 1995 publicou Nocturnos indígenas na obra coletiva 7 Poetas com o grupo Hedral, do que formou parte.
Em Fevereiro de 2020 publicou Obscura Anatólia na editora Urutau, o seu primeiro poemário a título individual.
No âmbito da filosofia tem várias publicações em Portugal e na Galiza sobre o filósofo portuense José Marinho. Especialmente interessado pelas vias iniciáticas da Tradição primordial está a dirigir a sua criação atual na interação de filosofia, poesia, teatro e música para resgatar a conexão originária e viva da arte na sua função espiritual e sapiencial. Tenta ligar-se a um pensamento libertário que integre as sabedorias ancestrais e originárias da raça humana.
É colaborador da revista digital Palavra Comum onde tem publicado ensaio, poesia e narrativa.
José António Lozano Garcia

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  • Joám Lopes Facal

    Um imenso prazer ler este magnífico discurso, redigido em prosa sábia, enfiado em contundentes argumentos e atemperado em discreta contençom filosófica.
    E o vigor polemista nascido da exigência ética: “Falar como um cidadão do mundo (…) é para mim mais nutritivo e vital que viver (…)pequenas capelas acomplexadas e ressentidas”. “E foi com dinheiro público que se fomentou(…) Que nome recebe isso? Que os linguistas indaguem (…) na Galiza poderemos ficar sem língua mas…
    Justa, honesta e mais que merecida a cálida defesa de Fernando Venâncio, mestre do quase inexistente galeguismo linguístico português, e atinada a crítica deslizada à desmedida querença do professor luso neerlandês polo “galego em si”, amassado diante os nossos olhos no albor deste século e objecto de copyright.
    Um abraço fraternal pola brilhante apologia, amigo

    • José António Lozano

      Obrigado, Joám. Útilizas duas palavras fundamentais: ética e amizade. Isso deveria estar por cima de muitas cousas e daria sentido e feliz cumprimento a muitos projetos que ainda estão no ar. Um forte abraço.

  • Ernesto Vazquez Souza

    Muito bom texto, meu… há ideias, sugestões e propostas pairando aí e está no ambiente… vêm tempos…

    … Que atrás dos tempos vêm tempos
    E outros tempos hão-de vir…

    https://youtu.be/wzyTNcZF4qk

    • José António Lozano

      Obrigado, Ernesto. Um forte abraço. Fausto é uma maravilha!

      Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
      muda-se o ser, muda-se a confiança;
      todo o Mundo é composto de mudança,
      tomando sempre novas qualidades.

      Continuamente vemos novidades,
      diferentes em tudo da esperança;
      do mal ficam as mágoas na lembrança,
      e do bem (se algum houve), as saudades.

      O tempo cobre o chão de verde manto,
      que já coberto foi de neve fria,
      e, enfim, converte em choro o doce canto.

      E, afora este mudar-se cada dia,
      outra mudança faz de mor espanto,
      que não se muda já como soía.

  • http://www.madeiradeuz.org madeiradeuz

    Sem concordar ao completo com o artigo, como tampouco concordo ao completo com o livro a que responde, ambos os dous suscitam um necessário exercício intelectual e de reflexão. Eu ainda estou a refletir sobre o livro do professor Venâncio e, se fosse escrever um artigo de resposta, com certeza seria muito coincidente com o que aqui nos traz o Lozano (mas muito mais breve e pior redigido). Continuarei, nos meses (e anos) próximos a refletir, porque é na reflexão que nos encontraremos. Mas não pode ser uma reflexão estática, porque o reintegracionismo é um movimento (muito) vivo, polo que deverá ir acompanhada de trabalho diário.

    • José António Lozano

      Obrigado, amigo. Refletimos juntos e espero que venham novos tempos em que podamos partilhar conjuntamente o trabalho e as reflexões. Forte abraço

  • Venâncio

    Caro José António,

    Necessitarei provavelmente de mais do que um comentário para te felicitar pelo teu artigo. E começarei por dois pontos menos centrais, mas ambos de possível interesse.

    1.
    A ilustração que acompanha o artigo, do Dicionário das literaturas portuguesa, galega e brasileira, agrada-me particularmente, pois foi o Prémio Jacinto do Prado Coelho, seu coordenador, que me foi concedido há semanas pelo livro. O grande professor foi o último da sua geração (com Rodrigues Lapa e Lindley Cintra) a integrar a actual produção literária em galego num contexto ensaístico português. As boas relações de Prado Coelho (m, 1984) com o âmbito intelectual galego tornaram habitual a atenção a temas galegos na mais importante revista cultural portuguesa, a Colóquio Letras, de que foi director.

    2.
    Francisco Sá de Miranda (1481-1558) foi o último dos poetas ‘galegos’ em Portugal. Depois dele, avançou valentemente a castelhanização (ou, como lhe chamo, o “programa de iberização”) da literatura portuguesa. Isso torna ainda mais estranho (estas coisas são complexas) ter-se ele dirigido ao rei português, João III, num poema em… castelhano. «Ínclito rey, que de este al otro Polo», etc.

    [continua]

  • Mário J. Herrero Valeiro

    Bom artigo, meu caro amigo. Bom nas luzes, e bom nas sombras. Que tenhas boa sorte na leira em que te metes.

    • José António Lozano

      Obrigado, Mário. Para mim há ũa verdade mais funda que a relativa aos saberes convencionais, até certo ponto sempre relativos. Um forte abraço. Terei que pôr um dia o Edito de Famalicão que levei para o Raias poético há três anos, isto é com brincadeira!. Agora Afonso X é suficiente. Forte abraço.

      Nom me posso pagar tanto

      do canto

      das aves nem de seu som

      nem d’amor nem de missom

      nem d’armas – ca hei espanto

      por quanto

      mui perigo[o]sas som

      – come d’um bom galeom

      que mi alongue muit’aginha

      deste demo da campinha,

      u os alacrães som;

      ca dentro, no coraçom,

      senti deles a espinha.

      E juro par Deus lo santo

      que manto

      nom tragerei, nem granhom,

      nem terrei d’amor razom,

      nem d’armas, porque quebranto

      e chanto

      vem delas tod’a sazom;

      mais tragerei um dormom,

      e irei pela marinha

      vendend’azeite e farinha,

      e fugirei do poçom

      do alacrã, ca eu nom

      lhi sei outra meezinha.

      Nem de lançar a tavolado

      pagado

      nom sõo, se Deus m’ampar,

      adés, nem de bafordar;

      e andar de noute armado,

      sem grado

      o faço, e a roldar;

      ca mais me pago do mar

      que de seer cavaleiro;

      ca eu foi já marinheiro

      e quero-m’oimais guardar

      do alacrã, e tornar

      ao que me foi primeiro.

      E direi-vos um recado:

      pecado

      já me nom pod’enganar

      que me faça já falar

      em armas, ca nom m’é dado

      – doado

      m’é de as eu razõar,

      poilas nom hei a provar;

      ante quer’andar sinlheiro

      e ir come mercadeiro

      algũa terra buscar

      u me nom possam culpar

      alacrã negro nem veiro.

      • Venâncio

        Caro José António,

        Não sou medievalista, mas percebo alguma coisa de edições.

        O texto das Cantigas de Santa Maria que transcreves levou um “aportuguesamento” ortográfico (procedimento habitual em edições posteriores de textos medievais).

        Para evitar suspeitas de filo-castelhanismo, aqui te envio uma edição do filólogo português José Leon Machado, da universidade de Trás-os-Montes, cujo cuidado editorial conheço bem. Mas há outras, também portuguesas.

        http://alfarrabio.di.uminho.pt/vercial/afonsox.htm

        • Ernesto Vazquez Souza

          Eu, in illo tempore, ia para Medievalista… sempre que é possível o melhor é apanhar umas quantas versões, e tratar de ler diretamente nos papéis antigos…

          Por vezes podemos chegar a leituras (e a significados) outros dos propostos e fixados pela tradição edótica…

          Acho que foi em 4º de carreira do que mais desfrutei nas Aulas do Carlos Paulo M. Pereiro, que nos obrigava a ler sempre os “originais”.

          Algum dos meus livros favoritos foram por anos os fac-símiles das cantigas… e cá há, não sei se conhecem um recurso bastante interessante, apresenta edição com notas e na esquerda facsimiles digitais :

          https://cantigas.fcsh.unl.pt/cantiga.asp?cdcant=484&tr=4&pv=sim

          • Venâncio

            A edição de Rodrigues Lapa (Vigo, 1965) e a de Walter Mettmann (Coimbra, 1972) não deixam margem a dúvida. Coincidem inteiramente com a de Leon Machado.

          • Ernesto Vazquez Souza

            Não ia por aí… nem pretendia indicar que a versão que recomenda – excelente e desconhecida para mim, o que lhe agradeço – era errada.

            De feito, estava a lhe dar a razão… 😉

            O único que pretendia é colocar mais um outro recurso.

            O amigo Lozano apanharia a primeira que teria a mão… ou na rede. É evidente isso.

            De feito uma das cousas nas que levo anos insistindo (e acho que nisto coincidimos plenamente) é justamente em que as leituras portuguesas, as edições, regularizam e transcrevem cousas que podem não estar realmente aí… e que não apenas afetam à compreensão das cantigas quanto à crença de que algumas formas portuguesas posteriores estavam já aí…

          • Venâncio

            Exactamente, Ernesto. Bastantes editores portugueses permitiram-se liberdades indevidas.

            E posso estar a ser injusto com o Lozano, atribuindo-lhe uma intenção que não foi a dele. Se for este o caso, as minhas desculpas.

          • Ernesto Vazquez Souza

            Pois… para mim que ele queria indicar apenas o sentido ou a melancolia desenganada que tem essa maravilhosa cantiga…

          • José António Lozano

            Caro Ernesto, apanhei exatamente da ligação que puseste. E foi como pensaste, procurava a cantiga polo seu conteúdo, não por questões ortográficas.

          • Joám Lopes Facal

            Obrigado polo suntuoso repositório da selva poética medieval, Ernesto.

        • José António Lozano

          Obrigado, Caro Fernando. Não estava a pensar para nada na ortografia neste caso. Era no conteúdo da cantiga como comenta Ernesto mais abaixo. Não sou linguista e os meus conhecimentos no campo linguistico medieval são zero. Apanhei na rede. Mas não me senti atacado, não é preciso pedir desculpas. Eu agradeço os comentários e concordo em que se deveria respeitar os originais.

          • Venâncio

            Caro José António,

            O respeito dos originais não é um dogma. As hodiernas edições d’Os Lusíadas conservam bastantes elementos quinhentistas como “decer”, “apousento”, “avorrecido”, “sutil”, “lũa”, mas actualizam outros, sobretudo na ortografia. Também textos medievais são actualizados ortograficamente, tornando-os menos hirsutos para o leitor comum.

            No teu caso, e porque nestas paragens a ortografia da língua é um ponto extremamente sensível, julguei tratar-se duma tomada de posição, dum ‘pronunciamento’. Afinal, também eu acabo apanhado na demência ortográfica. Obrigado pela tua compreensão.

        • José Rios

          Qual “aportuguesamento”?
          A fonte original:
          Non me posso pagar tanto

          Do tanto das aues nē desseu ssom

          Nē damor nē damicō

          Nē dar mas ca ey espanto

          Por qʷnto muy per igosas ssom

          Come dū brō galeon

          q̄ mha lōgue muytagȳa

          Deste demoda canpynha

          Huos alatraes ssom

          Ca dentro no coraçō

          Senty delꝉs a espinha

          E iuro par deus lo santo

          q̄ manto nōt̃gerey nē granhō

          Nē terrey damoʳ rrazō

          Nē darmas por q̄ q̄brāto

          E chanto nē delas tōda sazō

          Mais tragerey huū dormō

          E hirey pela marinha

          Vendenda zeite effarinha

          Effugirey dopocō

          Do alacrar ca eu nō

          Lhy ssey outra meezinha

          Nen de lançar atauolado pagado

          Nō sscō se ds̄ mā par adeo nē deba fordar

          Eandar de noide armado ssen grado

          Offaco ra Rolda

          Camais me pago domar

          q̄ de sseer caualrō

          Ca eu foy ia marinheyro

          Eq̄ro moy mais gʷrdar

          Do alacra ꞇ toʳnar ao q̄ me ffoy pⁱ m̄o

          E direyuos huū Recado

          Pecado iaia mei podēganar

          q̄ me faca ia ffalar

          En armas ca nō me dado

          Do ado me deas eu rrazc̄ar

          pois las nō ay aꝓuar ante q̄randir

          Sinlheyro ehir com̅ mer cadeyto

          algūa terra buscar

          Hu me nō possam culpaʳ

          Alacra negro nē ueiro

          • Venâncio

            Sr. José Rios,

            O “aportuguesamento” deu-se no texto transcrito por José António Lozano.

            Se não reparou, faça favor de verificar. Tá?

          • José Rios

            E qual é o “aportuguesamento” no texto transcrito por José António Lozano? Pode concretar?

            É um texto regularizado, como a edição que liga você. Mas não “aportuguesado”.

          • Venâncio

            Ouça, caro senhor. Compare V. S. os dois textos e verificará por si mesmo. Eu tenho, infelizmente, mais que fazer.

          • José Rios

            Verifiquei. Não está aportuguesado. Descanse

          • Venâncio

            Achou, então, a grafia dos dois textos a mesma? E, se não, vê que uma delas é mais conforme à grafia portuguesa?

            Mas não se preocupe. Isto é corrente em edições portuguesas de textos medievais.

          • José Rios

            Porque não é uma edição fac-similar nem diplomática. Ambas (também a de José Leon Machado) são edições modernizadas, mas uma não é mais “portuguesa” do que a outra.

          • Venâncio

            Faça favor de compulsar a edição de “Cantigas d’Escarnho e de Maldizer”, de Rodrigues Lapa (Vigo, 1965). Não tem -M finais, o que se vê em dezenas de casos. Pequeníssimas comparações:

            come dun bon galeon vs. come d’um bom galeom

            alacran vs. alacrã
            coraçon vs. coraçõ

            Está a ver? Só faz perder tempo a quem tão pouco tem.

          • José Rios

            o ÚNICO traço diferente em ambas as edições é o -m ou -n finais. EXATAMENTE. Esse é o tal maligno aportuguesamento. kkkkkkkkk.
            Como pode observar na fonte original, o Colocci-Brancuti, utilizam-se três grafias para representar a nasalidade – n final, m final e til -, sendo o til a solução maioritária (nõ, coraçõ, sazõ, etc.). Infelizmente, a edição de Machado está castelanizada.

          • Venâncio

            Sr. José Rios,

            Não percebo por que se mete nestas trapalhadas, sem conhecer o a-b-c da questão.

            A ed. de Colocci-Brancuti é uma cópia de Quinhentos, isto é, de 300 anos depois da escrita original. E dos copistas de Quinhentos sabe-se que “actualizavam” muitas grafias, isto é, aportuguesavam-nas.

            Mas olhe: se nem sequer a versão de Lapa o convence, aconselho-o a que vá fazer alguma coisa de útil.

          • José Rios

            E uma cópia de Quinhentos feita por ITALIANOS dum exemplar mais antigo. Os ITALIANOS a aportuguesarem as cantigas.
            hahahahahaha

          • Venâncio

            Oh, alma santa! Por o manuscrito quinhentista se ter achado em Itália, tinha de ter sido feito por italianos.

            José, a sério. Vá dar uma voltinha. É capaz de estar um tempo ameno onde quer que viva. Eu não me ocupo mais de si.

          • José Rios

            As duas cópias italianas (Colocci-Brancuti e Vaticana) forom achadas e feitas na Itália. No escritório de Angelo Colocci.
            O antecedente das cópias era uma compilação provavelmente feita no Reino de Portugal na época dos trovadores.

            Não há “aportuguesamento” posterior. Os textos são os mesmos. Simplesmente as compilações da época dos trovadores feitas no Reino de Portugal utilizavam algumas convenções gráficas diferentes das utilizadas nas compilações feitas nos Reinos de Leão e Castela (representação gráfica das palatais e da nasalidade, e outras).

          • Venâncio

            Se as cópias anteriores se perderam, será sempre impossível saber se houve “aportuguesamento” ou não.

            Além disso, cópias feitas por italianos deveriam ter deixado, aqui e ali, “marcas italianas” em manuscritos tão volumosos. E não nas há.

            Mas mais. O “aportuguesamento” que referi aqui foi o duma versão oferecida por Lozano, comparada com a edição de Lapa.

            Este senhor Rios não sabe do que fala,

          • José Rios

            Está a brincar? As cópias forom feitas na Itália, no escritório do Angelo Colocci. É há notas manuscritas em italiano do próprio Colocci por toda a parte.

            A versão oferecida por Lozano regulariza graficamente com -m final e a versão de Lapa regulariza graficamente com -n final. São duas opções editoriais arbitrárias. Se uma é aportuguesamento a outra é castelanização. Poderiam regularizar com til ou manter a diversidade dos manuscritos. Percebeu?

          • Venâncio

            O que eu disse foi que um copista italiano teria deixado no texto copiado marcas italianas.

            Mas o mais importante: finalmente concorda comigo em que o texto transcrito por Lozano foi objecto dum “aportuguesamento”. Aleluia!

            Faltaria saber porque é que o texto transcrito por Lapa seria uma “castelhanização”.

            Mas consigo é inútil apelar à lógica.

          • José Rios

            – Colocci é um dos copistas.
            – Lapa não transcreve o original. Representa sempre a nasalidade final com -n, como no castelhano atual. Eu não o considero uma castelanização, só aplico a sua (de você) lógica.

          • Venâncio

            Olha, pazinho. Uma coisa não percebi. Sabendo tu tanta coisa, escapam-te outras importantes.

            Tudo o que eu afirmei desde o primeiro momento foi isto: que são muito frequentes (frequentes de mais) os “aporteguesamentos” das Cantigas em edições mais recentes.

  • Venâncio

    3.
    Fundamental na apreciação de toda esta matéria é o seguinte: no momento em que surgem os primeiros textos escritos no idioma do Noroeste ibérico (a partir de 1174, segundo José António Souto Cabo), esse idioma surge adulto, após séculos de circulação oral. Recomendo a leitura de A lingua das cantigas, de Pär Larson (2019). Isto contradiz a leitura tradicional portuguesa, de que o desenvolvimento da língua teria sido obra de portugueses. De modo nenhum. Para chegar-se a tamanha complexidade e tamanha consistência, foram necessários séculos de uso, e ele deu-se em âmbito ainda estritamente galego. Importa assinalar isso perante os galegos de hoje e não escondê-lo aos falantes de português.

    3.
    O inglês adoptou milhares de palavras do francês (ou mais exactamente do francês normando). É verdade. Mas, enquanto esse é um facto histórico desde sempre conhecido e aceite, a entrada no português de milhares de criações castelhanas e de outros milhares de latinismos através do castelhano é um facto histórico desconhecido da linguística portuguesa, quando não negado. Importa acrescentar que um número significativo dos poucos “lusismos” do castelhano são na realidade (como também mostrei) galeguismos. Contas feitas, por cada lusismo/galeguismo no castelhano, há 80 castelhanismos activos no português.

  • Venâncio

    5.
    A ideia duma edição galega de Assim nasceu uma língua não teve a minha imediata adesão… até dar-me conta de que nenhum público jovem galego, sem qualquer hábito de leitura em português, nunca se meteria a um livro técnico de 300 páginas. Esse público teria de ser primeiro aliciado à leitura de textos mais amenos, mostrando-lhe a acessibilidade do português a um utente de galego. Mas atenção, José António. Querer que se privasse esse público duma obra que pode ser para eles reveladora (como o está a ser para portugueses) por represália contra uma “caça às bruxas” é dum preciosismo que me abstenho de caracterizar.

    6.
    António Vieira é decerto um exemplo acabado de domínio da retórica e de técnicas de encantamento do leitor (digo “leitor” e não ouvinte, pois a forma final dos seus Sermões é produto de elaboração muito posterior, em vista da edição em livro). Mas Vieira não só castelhanizou em barra o seu português (e, por consequência, o nosso português), como aprendeu essas técnicas com pregadores espanhóis, que os havia muitos em Portugal (ele tem um sermão contra eles…), assim como na leitura de sermonários castelhanos. Frei Luís de Granada era de estudo obrigatório nos colégios jesuíticos portugueses. De Vieira sabemos também que se auto-traduziu para castelhano nos cinco sermões de Las cinco piedras de David. Sim, a fortíssima presença do castelhano na leitura e na audição (formal e informal) em Portugal entre 1500 e 1730 já foi objecto de várias obras, e eu próprio me proponho uma visão de conjunto a esse respeito.

    • José António Lozano

      Obrigado polas ricas informações, tão interessantes, Fernando. Quanto ao tema de traduzir as obras da literatura portuguesa e brasileira sempre fui partidário de fazer edições com notas e pode que algum glossário ou introdução. A minha crítica vai dirigida a uma política cultural, do meu ponto de vista errada.

      • Ernesto Vazquez Souza

        Um diálogo fantástico, os meus parabéns, acho que esse é mesmo o mood… entre blues e jazz… 😉 apertas…

  • Saleta Gil

    (Desculpem o teclado ingles)

    Sempre interessante ler os textos do Chiqui.

    E clara a conclusao sobre a presenca do castelhano na expressao oral e escrita das reintegracionistas. Seguramente todas, sem excepcao, terao sido alfabetizadas e formadas em castelhano, nao fai falta ser Einstein para constatar o evidente…

    Mas, ha duas questoes que nao acabo de entender neste sainete :

    1. Como podem ser compativeis as duas teses recolhidas por Chiqui no seu artigo e, pelo que tenho lido sobre “o livro”, talvez sejam as teses centrais do autor?

    “Para além de ũa crítica aos posicionamentos teóricos do reintegracionismo, sempre mais discutíveis, o autor revisa com múltiplos exemplos a interposição do espanhol no galego com ortografia portuguesa e o resultado é amargo. Trata-se, na verdade, de ũa defesa do português contra a ingerência do espanhol.”

    “Fernando Venâncio dedicou páginas a mostrar a submissão com respeito ao espanhol por parte do português e, mesmo chega a dizer que supera ao próprio galego.”

    Isto e, se a submissao do portugues ao espanhol, do ponto de vista linguistico entendo, e superior a do galego, entao o devastador balanco nao deveria ser mais esmagador para o portugues? E se o portugues e mais submisso, como e que entao ao autor lhe causa arrepios a ingerencia galega? Nao e que o galego reintegrado poderia ajudar o portugues a se descastelhanizar seguindo a mesma logica?

    2. Por que a gente responde a um senhor que, quando lhe parece, insulta sem filtro, as vezes acompanhado pelo seu acolito a quem lhe atribue uma identidade falsa com
    quem sabe que fins?

    • Saleta Gil

      Qualquer galego sabe que o apendice final da sua segunda tese e inverosimil.

      Mas, nao sera que ao final o seu posicionamento a respeito da questao galega e simplesmente politico, ainda que assim tenha que sacrificar em parte a coerencia na sua analise academica? E nao seremos todos um pouco ativistas da lingua?

      • Venâncio

        1.
        Aquilo que Saleta Gil denomina “as teses centrais do autor”, as minhas portanto, são aqui expressas por palavras do dr. Lozano, e não recobrem necessariamennte os meus pontos de vista.

        Por exemplo, eu não creio ter jamais dado pé para afirmar-se a meu respeito: «Trata-se, na verdade, de ũa defesa do português contra a ingerência do espanhol».

        O português está já tão profundamente castelhanizado que aquele extra que lhe chegasse por via reintegracionista seria de desvalorizar. A esse respeito, não alimento receios nenhuns.

        2.
        A “submissão” do português ao castelhano continua a cada mês que passa (julgo que em média entram anualmente no português umas 10 ou 12 criações castelhanas). Mas centrou-se sobretudo no período de 1500 a 1730 (no livro explico porquê este último ano).

        Tudo indica que, por 1850, o galego oral, e mesmo o pouco que havia de escrito, se conservava mais genuino (isto é, menos castelhanizado) do que o português então. A intensa castelhanização do galego irrompe por essa altura, com a escolarização em castelhano.

        Importa, pois, não sobrepor dois processos que, historicamente, não se sobrepuseram.

        Consegui esclarecê-la, Saleta Gil?

        • Ernesto Vazquez Souza

          “Tudo indica que, por 1850, o galego oral, e mesmo o pouco que havia de
          escrito, se conservava mais genuino (isto é, menos castelhanizado) do
          que o português então. A intensa castelhanização do galego irrompe por
          essa altura, com a escolarização em castelhano.”

          Simples e rotundamente: FAKE. Tudo quanto se conserva escrito (a oralidade não se conserva senão na fantasia) entre 1500 e antes de 1850 está barrenado de castelhano e comido de antiportuguesismo…

          • Ernesto Vazquez Souza

            * pouco falamos, do antiportuguesismo, omnipresente na cultura galega e nas suas manifestações literárias, forte a partir da derrota das dinastias Borgonha, e muito intensa a partir de 1648… e em relacionamento com as guerras de fronteira, os conflitos e as alarmas de invasão…

            Há porém fases antes de relacionamento e comunicação, e uma interessantíssima entre 1580 e 1640…

            E também cumpre dizer que a re-elaboração do Galego, como língua nacional e a sua definição e imagem que perdura ái nestes tópicos…. acontece justo após e durante uma fase de hostilidade contra Portugal e os Portugueses… da Paz de Westfalia até depois do tratado de Utrech… e durante a guerra com Inglaterra 1796-1808…

          • Venâncio

            Ernesto, uma coisa é a ideologia política, outra as afinidades culturais.

            Em 1400, os portuguesinhos faziam um manguito a Castela, mas as senhorinhas iam vestir-se a Toledo.

            Em 1550 ou 1700, qualquer português te demonstraria o seu anti-castelhanismo político. Entretanto, a língua portuguesa estava a castelhanizar-se em modo “turbo”.

            A história dos idiomas e dos costumes não coincide com os pronunciamentos políticos, não raro ditados pela correcção política.

            *

            Mais alguma informação em

            Fernando Venâncio, «Atitudes portuguesas face ao castelhano», in Eva Guggenberger / Henrique Monteagudo / Gabriel Rei-Doval (eds.), Contacto de linguas, hibrididade, cambio: contextos, procesos e consecuencias, Santiago de Compostela, Consello da Cultura Galega / Instituto da Lingua Galega, 2013, págs. 315-326

          • Ernesto Vazquez Souza

            nada… não há jeito de nos entender…

            Tanto tem… você continue a sua e que eu também continuarei na minha… enfim…

            saúde…

          • Venâncio

            Ernesto, tipicamente um não-linguista a tentar desacreditar um linguista.

            Do galego entre 1500 e 1850 foram conservados suficientes TEXTOS para verificarmos que mantiveram, até ao início da alfabetização, um galego geralmente muito genuíno.

            Pensa nos refraneiros, nos romanceiros, na preciosíssima informação fornecida por Martín Sarmiento, nos “Vocabulos gallegos” do Bachiller Olea. Dou só alguns exemplos. Vê a página do TILGa que recua até ao século XVIII com textos de grande genuinidade galega.

            Claro, eu sei: a imensamente selectiva doxa, ou cartilha, reintegracionista tem de esconder essa realidade, para manter a sua narrativa, uma narrativa aliás contraditória, pois uma “identidade” de galego e português não pode ter sido importada…

            Ernesto: os reintegracionistas estão geralmente muito pouco informados sobre a História da Língua, terreno em que praticamente não existe um só estudo da área reintegracionista.

            Portanto, amigo, antes de berrares FAKE, tema a humildade de te informares. Ou de perguntares a alguém porque é que fez esta ou aquela afirmação.

          • Venâncio

            Acrescentei uma obra acima.

            Sabes, Ernesto, o que é a porra disto tudo? É que tenha de ser um português a tentar pôr-vos debaixo dos olhos toda esta, e outra, informação.

            Isto é deprimente.

            Nunca nenhum dos vossos sociolinguistas vos falou nesta importante face da realidade galega: a da conservação do idioma até à escolarização. Na realidade, Gil, Cáccamo e Herrero são uns tendenciosos charlatães.

            O único de vós que poderia guiar-vos nestas matérias, o dr. Fernando Vázquez Corredoira, mantém-se silencioso, ignoro a razão, mas lamento-o. Tu o saberás.

          • Ernesto Vazquez Souza

            “Meu Carballo, tu estás cego,…”

            Deixe a Corredoira em paz, que avondo fez e faz…

            O Entremês famoso, o diálogo dos 24 gallegos rústicos, os poemas do Cura de Fruime,… leu e mais entendeu?

            Mariño Paz e todos esses linguístas nem entendem que Martim Sarmiento põe em vozes de rústicos a mais brutal sátira contra un rei que se escreveu na espanha… mais isso nao miram andam a de Procurar léxico e formas e items de Galeguidade, nos textos de Benito Fandinho ou de Añón, como Ferreiro em Pondal… mas nao sabem nem o contexto, nem por que estão escritos os textos em Gallego e nessas formas de galego…

            Ficam sempre nos detalhes linguísticos… e procuram detalhes linguístcios que muitas vezes estão aí fazendo “vozes”… mas que ocultam – por sátira e dissimulação leituras políticas que nem cheiram…

            Tomam por textos planos e testemunhas o que não são e neles é que procuram e em base a essas procuras deduciram o que o Galego era… e devia ser…

          • Venâncio

            Farruquiño, se te fores,
            deixame a tua navalla;
            a quen me falar d’amores
            para lle raxar a cara.

            Imagino que te interessa um c*ralho (pra falar coma vós) este texto do século XVIII, carregadinho de informação linguística, já que provavelmente não é sátira nem dissimula leituras políticas…

            Ernesto, fica-te com a tua impressionante ciência histórica, e não venhas tentar desacreditar gente doutra rama.

            E quanto ao Corredoira, devo-lhe muito. Se não no sabes, cala-te.

          • Ernesto Vazquez Souza

            Aí coincidimos… eu, sem dúvida, a Corredoira devo-lhe muito e mais…

            Enfim… terei eu também que escrever um put* livro…

            Deixo… total… até o entremês famoso termina bem… e com baila:

            Aqui está tudo: cantemos,
            alegria haja i os mortos enterremos.

      • Arturo Novo

        De tudo quanto aqui se tem manifestado, o mais importante o acabas de resumir ti na tua última pergunta: “E não seremos todos um pouco ativistas da lingua?”. Mais não podo concordar! Afinal, todo é puro e duro ativismo. Ora bem, enquanto alguns fazemos ativismo abertamente, sem subterfúgios, outros, como o senhor Fernando Venâncio, o fazem envolvidos e disfarçados nas suas roupagens de linguístas. Pois ao final, que defende este senhor? Pois exatamente as mesmas teses que os isolacionistas! Nem uma mais nem uma menos! O seu ativismo a prol do isolacionismo é tão diáfano, que só um parvo necessitaria da leitura do seu livro para comprovar o que a priori resulta bem claro e evidente. Claro e evidente para os avisados, para os não avisados, igual não tanto. Sendo isto óbvio, o único interessante do seu livro para mim pode estar em conhecer as tretas utilizadas por um linguísta para a sua última finalidade, que é fundamentalmente política. Certo, muito legítima, mas política. Tão política, tão política, que todos os ISOLATAS brincam e não vivem em si do gozo e do contentes que estão com o livro do mencionado autor! Agora sim, acham eles, agora já têm a prova documentada que necessitavam para legitimar-se perante o mundo que por um acaso podia duvidar deles. Segundo da a ententer o próprio autor: A VERDADE REVELADA! Como não vão a estar contentes todos os isolatas com tamanho serviço prestado à sua causa? E como estão muito contentes, lá vão eles, com grande pesar e sacrifício do seu autor, e lhe vão traduzir (claro, pois, segundo eles, como galego e português são duas línguas distintas, pois necessariamente há que traduzir) a essa outra língua que inventou o dianho: O CASTRAPO! Devemos compreender, não se lhe pode ocultar à nossa mocidade galega uma verdade tão “reveladora” (em palavras do próprio autor).
        Quando um linguísta exerce o seu ofício de forma independente, se quere ser valorado única e exclusivamene polo seu trabalho, põe distância com as partes implicadas, mas este não é o caso. Em definitiva, que tens razão, amiga Saleta. Entre ativistas andamos, e aqui já todos nos igualamos.

    • José António Lozano

      Obrigado,Saleta polo teu comentário. Para mim a questão “técnica” de se há mais palavras castelhanas no português ou no galego (eu não creio para nada que o galego esteja menos castelhanizado que o português em 1850) é menos relevante que a questão humana de as pessoas sentirem-se “menos pessoas, com menos dignidade” ao usar o galego que o castelhano. Esse problema não o tinham os portugueses em todo Portugal. Essa é a questão fundamental. Por isso o meu artigo aponta noutra direcção que a meramente quantitativa da linguística de dialectólogos (nº de castelhanismos, etc). A questão da dignidade, a ética, etc. Disso tentei falar.
      Forte abraço

      • Venâncio

        Caro José António, não abraces a fé.

        Antes de escrever «Eu não creio para nada que o galego esteja menos castelhanizado que o português em 1850», poderias ter pensado em que eu ando com esta matéria na mão há bem 20 anos, que conheço a escrita galega até àquela altura, e que até dou, no livro, até exemplos de palavras nossas que apareceram primeiro em galego.

        Um pouco mais de respeito por quem trabalha nisto, e um pouco menos de sobranceria (no sentido português). Não me obrigue a ser indelicado consigo.

      • Saleta Gil

        Obrigada Chiqui. Que bom presente para Lua! E tambem, um pouquinho, para a mae 🙂

    • Venâncio

      Estupidamente, Senhora Dona Saleta, esqueci o seu amável parágrafo 2, que rezava:

      «2. Por que a gente responde a um senhor que, quando lhe parece, insulta sem filtro, as vezes acompanhado pelo seu acolito a quem lhe atribue uma identidade falsa com quem sabe que fins?»

      Não tenho a honra, nem o possível prazer, de conhecer Vossa Senhoria. Por mim, ando aqui no PGL, quase ininterruptamente, desde 2004, aprendendo muito, perguntando muito, estimulando quanto posso.

      Nitidamente, não é essa a imagem que consegui inculcar no espírito da Senhora. Lamento-o amargamente.

      Vejo que, pelo contrário, e muito curiosamente, embarca em teorias de mínimo contacto com a realidade, enquanto esse meu “acólito” foi por mim aqui identificado como o reintegracionista galego sr. Xavier André, habitando a Grã-Bretanha e publicando livros na normativa AGAL no seu avatar primitivo.

      Isso escapou-lhe. O que não pôde evitar que a Senhora desenvolvesse uma leitura conspirativa a meu respeito.

      Volto a perguntar: consegui esclarecê-la?

  • https://pglingua.org/index.php abanhos

    Muito bom artigo. Cumpre lé-lo bem duas vezes

  • Arturo Novo

    Tive que ler duas vezes o artigo para poder compreender o artigo em toda a sua amplitude.
    Finalmente, o autor concorda com a minha teoria. Desde as Instituições oficiais galegas levamos quarenta anos trabalhando para separar o galego do português. E quarenta anos é muito tempo de Deus Nosso Senhor! E se a cousa fosse ao invés? Onde estariamos agora? O senhor Fernando Venâncio sempre afirma que na atualidade galego e português são duas línguas distintas, e o diz como se as diferenças existentes o fossem como consequência dum processo natural e não dum processo político claramente intencionado dos poderes estabelecidos de rematar com o galego até dilui-lo no castelhano. Segundo as distintas leituras neste foro comentadas, todo o mundo aceita como certas as premissas históricas do linguísta português narradas no seu livro, mas também se lhe discute a conclusão final de que galego e português sejam duas línguas distintas seja consequência dum processo natural, não forçado. Mas a única verdade, a real, é a política. E a política hoje é uma e amanhã pode ser outra. E fica bem claro que as teses do senhor Venâncio beneficam as políticas dos atuais detentores do poder na Galiza. Se as suas teses fossem outras, o seu livro ficaria completamente apagado na Galiza. Alguém tem a mais mínima dúvida?

    • Joám Lopes Facal

      As incessantes interpelaçons a Fernando Venâncio, se algo mostram, é o irresistível fascínio que levanta o solitário amigo de Mértola na aguerrida audiência reintegracionista.
      O mais incompreensível para mim é a raíz última da desafeiçom do professor pola perspectiva –plural– do reintegracionismo depois de dezasseis anos de esforçada singradura.
      Respeito a sua couraça cheia de mossas mas, nada haverá em tanta briga algo digno de cordial aprovaçom? Será por acaso o reintegracionismo sintoma de doença terminal ou signo talvez de esperançosa recuperaçom?

      • Ernesto Vazquez Souza

        A desafeição pode ter um par de explicações:

        a. é um romântico desses que sempre têm de ir com os que vão perdendo…

        b. é alguém que sabendo muito português não entende nada da Galiza e dos galegos…

        talvez as duas cousas…

        • Venâncio

          😉

      • Venâncio

        Caro Joám,

        Existe uma coisa por que nunca nos entenderemos: não tendes o mínimo interesse pela História da Língua (poderei dizer que tendes até por ela uma profunda desconfiança?).

        Tudo se vos passa num indefinível presente. Caramba, pá! Conseguistes eliminar a quarta dimensão. Prémio Nobel da Física para o reintegracionismo, já!.

        • Venâncio

          Joám, há uma outra razão por que não nos entendermos.

          O meu livro é, do princípio ao fim, um desafio a toda a auto-imagem linguística, cultural e histórica, profundamente anti-galega, dos portugueses.

          Acontece que o reintegracionismo aderiu sempre a essa auto-imagem portuguesa anti-galega, e até veio, no avatar da AGLP, defendê-la em Lisboa.

          Moral desta história: não sou entendido, nem pelo grosso do ‘establishment’ linguístico português, nem pelo grosso do reintegracionismo galego.

          Sabendo-se que o ‘establishment’ linguístico português e o reintegracionismo galego mutuamente se detestam, explica-me tu, que és físico, que embrulhada quântica é esta em que eu me meti.

          Entretanto o livro vai, comercialmente, de vento em popa (como os portugueses dizem, tu sabes porquê).

          Abraços.

          • Ernesto Vazquez Souza

            Parece bastante doado de entender.

            O senhor em Portugal desafia o establishment português (linguístico e histórico) com um discurso abertamente pro-galego que mergulha na raiz do tempo e da nação.

            Mas esse discurso pro-galego seu não coincide – quem cuidava – com o discurso do “galego-português” e da “língua internacional” que boa parte do reintegracionismo propõe.

            O establishment português representa umas estruturas e um poder contrário em ideologia e classes ao que a maior parte dos reintegracionistas galegos (que militam em diversas faixas na esquerda) aspira. É lógico sejam incompatíveis mesmo que possam compartilhar aparental ou circunstancialmente discurso a respeito desse conto do galego-português ou da Língua internacional globalizada de milhões…

            Lógico o livro venda…

            Saúde,

          • Venâncio

            Ernesto,

            O livro vende porque o público português adora conflitos. Sim, o meu livro é uma linda telenovela. Tem um excelente ‘script’, com imenso ‘suspense’, e os actores nem se saem assim tão mal. Não sou eu que o digo, é a crítica. Tive já umas 15 entrevistas: imprensa, rádio, tv. Ah, e um prémio importante, embora monetariamente modesto.

            O livro põe a Galiza e o galego no centro das atenções em Portugal, como desde Mestre Lapa não acontecia.

            A sério: o reintegracionismo está enfronhado na teima da “IDENTIDADE” de galego e português, num mundo que nem sequer conhece a PROXIMIDADE dos dois. Está, pois, a operar num universo paralelo.

            Eu estou com os pés na terra, e é provável que tenha conseguido uns centímetros de ganho. Já não é mau. O Marco Neves, e os que vierem depois do Marco Neves, vão ainda ter muito trabalho. Neste universo.

            Abraços.

          • Ernesto Vazquez Souza

            Sem dúvida… eu nunca lhe neguei nada disso… nem também questionei jamais a sua perícia nem como escritor, nem como linguista e historiador da língua…

            Quanto às suas opiniões sobre o reintegracionismo e palavras fortes contra reintegracionistas… aí não me meto… cada quem é livre de escolher gentes, gostos e companheiros de viagem… e cada quem que terme das suas palavras, das suas apostas e posicionamentos…

            O reintegracionismo, efetivamente, está a protagonizar uma rotura grande, fortíssima, e não evidente, pelo momento mais que para algumas mentes lúcidas e conhecedoras da história da língua… Um rotura que atinge a ideia do que é foi e será o galego e portanto à identidade e o valor e sentido da tradição literária escrita.

            O que começou como crítica de partes a um modelo (mal feito e errado) foi construindo um modelo de mais em mais completo e a cada vez mais no português e com ele um discurso que rompe com a tradição do galego desde 1750-1800.

            (Nós os dous somos conscientes e testemunhas deste processo realmente extraordinário e histórico. Agora, eu acho positivo, o senhor negativo).

            Chegados a este ponto convém a dizer que para compreender isto tudo seria necessário escrever três histórias, três campos de estudo, complementares:

            – A história da Construção do Português com as suas origens como Galego e a sua refação posterior (aí o Corredoira abriu o campo e tem bons continuadores, entre eles em destaque o senhor, que sendo vulto em Portugal e Português de nação é um vozeiro sem igual e campeão da causa galega).

            – A história da destruição do Galego no reino da Espanha (que tem mais e diversas achegas as mais delas de historiadores e linguísticas galegos).

            Falta agora, do meu ponto de vista, uma terceira via, (nessa linha de questionar o establishmentinho galego e também português e brasileiro amigo) que seria do meu ponto de vista fundamental para entendermos algumas cousas e fechar o círculo com proveito…

            – Uma história crítica da invenção do galego moderno como língua nacional a partir de 1700, com o descarrilamento patriótico e virada que lhe imprimiu o Martim Sarmiento, esse erudito genial e fenómeno que perfeitamente podia ser o nosso Benjamin Franklin…

            Saúde,

          • Venâncio

            Ernesto,

            O sector mais sonoro e mais influente do reintegracionismo já se passou, de armas e bagagens, ao português. Isto, sem assegurar-se, por palavras e actos, de que toda a bagagem que. durante 1400 anos fez do galego o galego, estava a salvo do bulldozer português. Esta falta de preservação do idioma é gravíssima, e ninguém, galegos, portugueses, brasileiros, espanhóis, vo-la perdoará.

            É isto, caríssimo, que nunca perdoarei, eu também, ao novo reintegracionismo, esse que saúdas tão epicamente.

            E não a perdoarei como português, herdeiro duma riqueza criada por galegos, que os portugueses só in extremis, e muito parcialmente, puderam conservar. Como escreveu Corredoira, a continuação da situação de duplo reino (1580-1640) iria ser, no médio prazo, fatal para o português.

            Por tudo isso, tenho sérias reservas ante o rumo que o reintegracionismo tomou. Eu não vos apoio nesse novo rumo, mas ponho as cartas na mesa. Mais ainda: confronto-vos com as perversões que um uso social do português em ambiente espanhol está já a ter, uma advertência que o José António Lozano foi, neste artigo, e ao cabo de 12 meses, o primeiro, na área reintegracionista, a levar a sério.

            Digamo-lo assim: ou o reintegracionismo galego se conserva um projecto linguístico, amparado por linguistas, galegos e outros, ou deve transformar-se em projecto político que não faça do idioma, como faz hoje, um pretexto com que não sabe, nem quer, haver-se.

            Por fim: eu muito gostaria que na Galiza se aprendesse o português, e em Portugal e no Brasil o galego. Isto é, que se iniciasse, contra a História de nós todos, uma reaproximação, mesmo que se limitasse a um conhecimento mútuo cultural e linguístico.

            A experiência de descoberta que se deu, na infância da internet pública, e que descrevi num congresso em Santiago em 2005, dá motivos para esperarmos o melhor.

            Abraços.

          • Venâncio

            Veja-se

            Fernando Venâncio, «A questão galega e o público português. Uma experiência na Internet (1998-2001)», Elias Torres (org.), Actas do VIII Congresso da Associação Internacional de Lusitanistas (Santiago, 2005), vol. I, 2008, págs. 557-570

          • Ernesto Vazquez Souza

            Evidentemente, Fernando… eu entendo perfeitamente as suas reservas, críticas e até o sentido do seu posicionamento.

            E não deixo de ver nelas uma lógica e um carinho. E agradeço essa sinceridade e também essa postura de cartas cara arriba na mesa.

            Entendo também as causas de que rejeite essa deriva do reintegracionismo e, em boa lógica confronte com boa parte dos reintegracionistas, e até que termine escapando dos reintegracionistas e do reintegracionismo.

            Dito isto… eu acho que o reintegracionismo tem também as cartas sobre a mesa… vai com tudo… numa aposta de muito risco… veremos que mão leva… pelo momento o interessante é provar noutra mesa e com novo baralho…

          • Joám Lopes Facal

            Caro e respeitado professor, para aquele que mora longe da quinta da AGLP / mantém que Madrid e Lisboa som cidades contíguas / classifica o “português da Galiza” com olni (objecto linguístico nom identificado) / e aspira a cultivar o galego tal qual é –“ele mesmo”, dizia Pessoa –, as objecçons genéricas ao reintegracionismo simplesmente nom fam sentido, erram o alvo.

            Os motivos da antipatia interesseira do establishment linguístico galego ao reintegracionismo som óbvios, mas, o receio ou malquerença procedente de além-Minho – que nom transatlântica, segundo creio – seguem sendo para mim um mistério.

            Terám algo a ver com a hiperidentidade portuguesa diagnosticada polo grande Eduardo Lourenço?

          • Venâncio

            Caríssimo Joám,

            Na sua “História da Língua” (2006, 2a ed. ampliada), Ivo Castro, que sabes ser o mais importante linguista português, escreve, e eu destaco:

            «Quanto à Galiza, regista-se o fracasso da proposta reintegracionista, que defendia a adopção de soluções portuguesas na normativa ortográfica galega.»

            Em “Dois lados de um rio. Nacionalismo e Etnografias na Galiza e em Portugal” (de 2006), o conhecido antropólogo António Medeiros afirma que não entrou em contacto com reintegracionistas devido aos seus, deles, posicionamentos.

            Que acho eu? Que os reintegracionistas galegos deveriam perguntar-se a que se devem estas tomadas de posição. A “hiperidentidade” portuguesa, que é real, é demasiado abstracta para explicar esse desafecto.

            Existe, de facto, uma patente auto-suficiência no vosso âmbito. Já alhures lembrei a pouquíssima curiosidade acerca do Portugal real que em vós constato. Tenho a impressão de que, no fundo (e exceptuando Elias Torres, Carlos Quiroga e poucos mais), Portugal vos interessa exclusivamente como suposto “aliado” contra Madrid. Mas Portugal não no é, nem dá aspecto de jamais vir a sê-lo.

            Não sei se estas modestas anotações respondem à tua perplexidade.

            Abraços.

          • Joám Lopes Facal

            Meu caro professor, o alegado fracasso da proposta reintegracionista alude a um processo em curso de incerto prognóstico; similar aliás, ao fracasso (reversível) do nacionalismo. Um e outro com histórias desventuradas mas corrigíveis e ambos com sintomas esperançosos de ter apreendido algo no caminho.

            Qualquer que seja a validez que lhe conceda às fontes de autoridade citadas, atreveria-me a asseverar que o seu conhecimento do processo é incomparavelmente superior ao deles pola sua condiçom de observador assíduo e atento, sem que neste assunto valham apreciaçons apresadas e circunstanciais. Falta-lhes perspectiva diacrónica e taxonómica que o professor Venâncio possui em abundáncia.

            Como quer que seja, caro amigo mertolense, o reintegracionismo, como o nacionalismo antes aludido, nom é flor de um dia e, na minha opiniom, nom escreveu ainda as páginas definitivas. Nisso andamos.

            Esta naçom-cultura, como a denomina Ramón Villares, é, como a portuguesa, resistente e teimuda e nom deixará de seguir explorando caminhos que apontem à plenitude.
            Utopia ou premoniçom? E quem sabe… como gostamos de dizer aqui. Pura filosofia Zen de quem foi treinado na espera e na esperança.

          • Venâncio

            Meu caro Joám,

            Eu sou um simples observador, que sistematiza a observação e sobre isso informa outros.

            No comentário anterior. só quis informar-te do pouco crédito de que o reintegracionismo galego goza entre a intelectualidade portuguesa. Com isso, eu ouso esperar que uma réstia de auto-crítica reintegracionista pare e se pergunte se não têm algum tanto a ver com essa recusa.

            Não sei se isso te esclarece, mas, uma vez em ambiente português, os reintegracionistas mais responsáveis escondem essa condição (ou essa glória). Na extensa apresentação que de vós fez na Academia das Ciências de Lisboa, o anterior presidente da AGLP não utilizou uma única vez o termo “reintegracionismo” ou derivados.

            E, se bem percebi, alguns senhores e senhoras do âmbito da AGLP já não se consideram “reintegracionistas”.

            Saberás tu o que isto significa? Se sabes, diz-mo. Eu só consigo conjecturas, e nenhuma é bonita.

            Abraços.

          • Joám Lopes Facal

            Meu caro Fernando, caso de serem exactas as referências, e-el nom será devido a que o falso fulgor do português-da-Galiza obnubila nalgumhas mentes a correcta percepçom do inextinguível rescaldo do galego-da-Galiza?

            Seria bom admitir, caro Fernando, que o reintegracionismo é um movimento complexo e plural e que é aí onde reside precisamente a sua notável de resistência. Eu próprio, engenheiro e economista, sou absolutamente alheio às épicas batalhas linguísticas que alicerçárom os primórdios académicos do movimento.

            Em todo caso será bom admitir que nom se trata de um epifenómeno passageiro como confirmam alguns significativos factos madurados portas afora do oficialismo institucional como som o denodado desenvolvimento das escolas Semente ou a aprovaçom parlamentar da Lei Paz Andrade por iniciativa popular.

            Os amantes da cultura portuguesa fazemos votos para que a intelectualidade do país irmao nom seja a última em inteirar-se da substáncia de um autêntico movimento tectónico na cultura galega, chamado a permanecer.

            O meu abraço mais cordial ao melhor correspondente do movimento em Portugal, por tenacidade e conhecimento acreditado.

          • Elias Torres

            Caro Fernando,
            Não achas a frase de Ivo Castro ambígua, podendo dar a entender que havia umha normativa ortográfica genuína que uns quantos quigerom aportuguesar? Explica Ivo Castro o fracasso? Foi, por exemplo, resultado dum referendo popular? Foi um fracasso? Qual a causa do fracasso, empiricamente falando? De resto, poderemos afirmar que Ivo Castro mantivo sempre a mesma posição a respeito da questão galega ou que ela mudou com a passagem, digamos, do tempo?
            O que afirmas do amigo António Medeiros, com todo o respeito para o seu trabalho (amigo, reitero); não achas próximo do sectarismo se ele afirmou isso no seu livro (que lim)? Conheço quem forom os seus interlocutores privilegiados. No caso, poderemos aplicar a frase de Abraham Maslow: para quem só tem martelo todo o problema é prego?

          • Ernesto Vazquez Souza

            Ostras… o Medeiros tem (no que lhe li) uma má baba, uma atitude raiana na ingratidão e a soberba de um xenófobo…

          • Venâncio

            Meu caro Elias,

            A tua reflexão vem exactamente confirmar o meu diagnóstico.

            Em momento nenhum tu pressupões (tu e qualquer de vós) que essas sistemáticas (sim, eu só dei exemplos…) atitudes portuguesas de recusa do reintegracionismo poderiam ter alguma coisa a ver convosco.

          • Elias Torres

            Desculpa, eu não nego que tenha a ver conosco. Mas não respondes às minhas perguntas

          • Elias Torres

            Ah, e agradeço que concretizes o que tem a ver comigo/conosco

          • Venâncio

            Elias,

            Quem tem de perguntar-se se a SISTEMÁTICA recusa dos linguistas portugueses a dar atenção ao reintegracionismo galego poderá ter a ver convosco sois vós mesmos.

            Mas eu dou-te uma dica. O vosso também sistemático desinteresse científico pelo idioma e a sua história não é propriamente convidativo.

            Isto já te diz alguma coisa?

          • Venâncio

            Claro, não negas. O que é um nítido eufemismo.

            Não, Ivo Castro não diz mais nada, além daquilo que transcrevi. E repara que ele se refere ao reintegracionismo já no passado.

            Caramba, Elias. Que o maior linguista português não tenha o mínimo contacto com o reintegracionismo galego, nem lhe faça qualquer outra alusão, ele que tem tanto interesse na Galiza, isso deveria dizer-te alguma coisa.

            Tu estiveste com ele numa mesa redonda organizada pelo Consello da Cultura Galega. Deves ter visto que a adesão dele ao projecto reintegracionista é zero.

          • Elias Torres

            Vê, Fernando; devo dizê-lo, ainda que acompanhem este texto meu algumhas impudicícias e sabor a imodéstia, que não quero: tenho biografia e muita nisto; conheço bastante; também do mundo lusófono; em alguns meios mais conhecimento do que tu podas ter. Conheço as pessoas de que falas; mas, eu, devo recorrer a Wittgenstein, e não por pedantaria: “Sobre aquilo de que não se pode falar, deve-se calar”; e eu calo, Fernando.
            Tu pensas que o que está sempre sobre a mesa e nas decisões das pessoas é reflexão linguística ou científica exclusivamente. Deves saber que a Norma ILG_RAG alicerçou-se, segundo os seus elaboradores, sobre a vontade da diferença. Deixa-me recomendar-che este meu artigo, com algum pudor, de há muitos anos: https://www.academia.edu/2555208/Norma_ling%C3%BC%C3%ADstica_e_%C3%ADntersistema_cultural_o_caso_galego.

            E vou ser categórico, sumário: se achares que as normas são e forom resultado dum debate científico, enganas-te redondamente.
            Claro, por outro lado, que estivem naquela mesa e muitos anos atrás noutras e noutros encontros, mesmo alguns que iam ser e não forom, para não incomodar outros, etc.; e não chovia como depois choveu.

            Mas, com franqueza, sugiro que analises as cousas sobre as bases dos diversos capitais em jogo. Não será difícil chegares a alguma conclusão e um melhor entendimento deste processo todo. Estatisticamente, deves revisar se sempre tens 100% de acertos nos debates e o que isso poda implicar.

            Eu penso que o reintegracionismo cometeu erros e comete, naturalmente. É um movimento obrigado a procurar historicamente alianças e parte dumha situação fraca, em muitos níveis. O principal erro é de miragem; pensar que, do outro lado, estavam de braços abertos à espera do (re)encontro, quando a educação sentimental da freguesia do outro lado do Minho foi feita absolutamente a contrário; e pensar, consequentemente, que estariam perfeitamente [email protected] com a reintegração.
            O segundo erro, é fruto da desesperação, da impotência, da incredulidade: de ficar atrapado, numha incompreensão que é sentimental e íntima também.
            De resto, e sem ligá-lo diretamente a isso, convém pensar que, para uns e outros, neste caso, é mais fácil e dá mais réditos pensar as cousas em termos da afirmação das diferenças do que das proximidades; sei muito disto e das imposturas. Falar à portuguesa (afirmando conhecimento e distância) resulta mais reconhecido e gera menos ruído que falar à galega afirmando a comunidade linguística, por exemplo (e refiro-me a contextos sociais de elites ou académicos). E é mais cómodo e rentável fazê-lo desde a distância de duas línguas: o outro nunca calcula nem pode entrar nos teus erros ou ruídos, porque desconhece.
            É mais fácil funcionar e luzir sobre diferenças que sobre proximidades. Conheço mui bem isso. Conheço o outro lado e este. Conheço as lindas benesses que daquele lado são usufurídas e distribuídas. Nem sempre legítimas. Mas não penses que isto é vitimismo; não perciso; confesso-me umha pessoa feliz; simplesmente, tento escolher, com todas as dúvidas, no lado certo da história, como bem diz um amigo meu português, destacado académico e dirigente político que sim nutre apreço polo reintegracionismo.

          • Venâncio

            Elias, estou em viagem. Depois comentarei mais detidamente.

            Mas não posso deixar de sublinhar, e de festejar, que finalmente alguém de vós enuncie, e explicite, erros de percurso.

            You made my day.

          • Joám Lopes Facal

            “O principal erro é de miragem; pensar que, do outro lado, estavam de braços abertos à espera do (re)encontro, quando a educação sentimental da freguesia do outro lado do Minho foi feita absolutamente a contrário”
            E nom só a educaçom sentimental, Elias, a grandeza dos lusíadas mal pode aceitar o diálogo com um inquietante alter ego provincial espanhol…

          • Ernesto Vazquez Souza

            Bom… o que não se pode é ser soberbo com os fracos e meigo com os fortes…

            Mas também é verdade que há classes… e francamente não imagino o Sr. Ivo Castro no balcão da Gentalha do Pichel departindo sobre reintegracionismo e tomando copos com a penha arredor… imagino-o sim de sobremesa, noutros ambientes, mais distendido… XD

            Enfim… a vontade…

            (A mim o que mais me surpreende – e agradeço – é que sendo vós quem sodes faledes com gente cá na margem coma os mais de nós…)

          • Elias Torres

            O que indicas ao início, Ernesto, é assim e é um dos elementos fundamentais com que o pessoal se move, em muitos lugares e campos, na Galiza gritantemente: pessoas à procura de considerações (não de reconhecimentos, que poderosos só dão para manter a dependência) de fortes, sectárias com as próprias, miséria; muito disso há, mesmo nos corações que parecem mais generosos, porque também a impostura tem muito espaço.

            Já quanto ao segundo, eu, ao menos, formulo e debato aqui porque entendo que nestes coletivos pode construir-se ideias valiosas e, no meu caso, aprendo. Agradeço simpatias e elogios (na casa sempre mais difíceis), agradeço-os sinceramente, e fico ao dispor para o que puder. Só lamento não ter mais tempo para poder atender como é merecido.

          • Ernesto Vazquez Souza

            Sem dúvida… é terrível esse pequeno mundo nosso… Mas por outras partes não é melhor…

            Eu ultimamente ando otimista. 🙂

            Apertas,

          • Joám Lopes Facal

            Ernesto, Elias; na margem estamos todos, o único que nos convoca é umha escolha –ética ou estética– que a nada mais aspira que a manter umha conversa circunstancial com amigos digitais com que partilhar humores e desamores.

            E contodo, como interpretar o ressonante silêncio dos doutores do galego consagrado que só se comunicam já agora mediante cerimoniosas epístolas? Desinteresse ou insegurança?

            Ainda bem que aí temos o nosso fiel amigo Fernando Venâncio, destemperado às vezes, sempre atento, galeguista linguístico de raiz, para lembrar-nos que toda tese tem a sua antítese e que há muita mais cera da que arde no remol oficial.
            Saúde ao mestre alentejano!

          • Elias Torres

            Joám: isso é precisamente o cerne da sua educação sentimental: da elaboração dos seus sentimentos identitários e relacionais (de que tenho falado)…

          • Venâncio

            Joám,

            Seria bom que evitásseis o vitimismo (ah, “a grandeza dos lusíadas”), e, pelo contrário, olhásseis para dentro.

            A persistente opção do reintegracionismo galego por contactos com pessoas e instâncias da Direita portuguesa (mesmo se “educada”) impede que sectores mais lúcidos da nossa malta cultural se interessem por vós.

            O sempre presente, e potencial, interesse dos portugueses pela Galiza terá de vencer esta imagem, e esta distância, que criastes. Isto não tem – exactamente não tem – a ver com Espanha, outro ensaio de vitimismo.

            Não, Joám. Nada do que de difícil vos acontece tem jamais a ver convosco…

          • Ernesto Vazquez Souza

            assistiu alguma vez a uma subasta de peixe numa lota, Fernando?

            É todo um espetáculo.

            Pois cá acontece igual.

            XD

          • Venâncio

            Ernesto,

            O teu ‘pep talk’, conversa para animar as hostes, é inesgotável e, vê-se, tremendamente inventivo. A lota e o peixe, My gosh!

            Isto cria uma aura, mas também uma responsabilidade. Corres o risco de, um dia, se te perguntar: Por que nos enganaste?

            Um discurso mais próximo da realidade, de que também és capaz, contornará esse risco.

          • Ernesto Vazquez Souza

            E eu diria daquela? e por que se deixaram enganar? XD XD

            Não, sou mais do conto aberto, com algum conselho aí no meio para a gente aproveitar se encontra.

            Saúde

          • Venâncio

            Meu caro Elias,

            Começarei por uma queixa universal.

            Fiz bastante trabalho, publicado, que deveria ter tido proveito para todos os galegos empenhados no idioma. Pois bem, foram brados no deserto.

            Na realidade, não tenho “interlocutores” na Galiza. De ambos os lados da barricada, recebo cumprimentos, ambos os lados me publicam. Mas apanharem o isco, oh!

            Concluo que tens razão quando sublinhas que a Normativa RAG foi inspirada por marcar a diferença. Do português. Mas também do castelhano. Eu sei que te vais rir. Mas olha: o dicionário da RAG desacredita, e mesmo explicitamente repele, muito material castelhano que, imagina tu, é correntíssimo no português.

            E pegando logo nisto. À parte algumas reflexões esparsas, nunca nenhum estudo aturado foi, por ambos os lados do tumulto galego, dedicado à relação histórica e actual com o castelhano. Também em Portugal não, mas a esse deixamo-lo aqui fora do barulho. Ele nem saberia de que estamos a falar.

            E, contudo, essa grande reflexão, que poderia ter juntado à volta duma mesa galega reintegracionistas e autonomistas, teria clareado o ar. Muita da vossa imparável disputa vem da geral fuga a essa magna questão:

            Que fazer com o castelhano? Que facer con o castelán?

            Mas, enfim, cá estou eu, Elias, a pensar que consigo alguma coisa com as minhas sugestões. Sim, eu sempre convencido de que o vosso empenho está no idioma, quando está nos históricos ressentimentos e em sempre vivos ajustes de contas.

            Abraços, e desculpa estas lérias.

          • Venâncio

            P.S.

            Pode parecer-te que exagero. Não creio. As minhas queixas do reintegracionismo são antigas e julgo que justas.

            1.
            Nunca o reintegracionismo disse, preto no branco, qual o seu objectivo linguístico para a Galiza, e quais os meios para alcançá-lo. Ficais sempre nas alusões, nas meias-tintas, em adivinhações.

            2.
            Sempre que se vos faz algum reparo, vem o reflexo condicionado: Ah! Mas não vês o que “os outros” fazem. Como se isso resolvesse alguma coisa.

            3.
            Insistis sempre em que a adopção duma normativa reintegracionista teria estancado a perda de falantes. Talvez sim, talvez não. Mas afirmá-lo com essa presunção é demagógico.

            4.
            A patente cumplicidade, já antiga, entre representantes do reintegracionismo e a Direita portuguesa (mesmo a “educada”) não ajuda a uma adesão, ou sequer a uma simpatia, por parte dum sector mais lúcido da sociedade portuguesa a vosso respeito.

          • Venâncio

            Elias,

            Acredito que tenhas maior conhecimento “em alguns meios” do que eu possa ter. Vivi exilado e depois expatriado 47 longos anos, enquanto tu estavas constantemente a 3 horas do Porto.

            Mas louvo-to, sem reservas. Tu e o Carlos Q. não alimentais de Portugal um olhar mítico, o desses para quem não se bate em Portugal nem com uma flor.

            Vindes ver, observar, estudar, e isso distingue-vos dos lusópatas pé-de-salsa, todos perliquitetes sobre Portugal… até a realidade lhes cair em cima e a recusarem.

            Sim estou a pensar em gente muito concreta.

          • Elias Torres

            Obrigado, Fernando. Acho que há espaço para o diálogo veemente mas orientado polo respeito e o contraste franco de posições: falta contato humano para entender(mo-)(nos)

          • Elias Torres

            Esse trabalho interessou e interessa, Fernando.; prova disso é que publicaste mesmo em meios por mim coordenados.
            As tuas reflexões interessam; falo por mim mas com certeza por outras pessoas; como as de tantas pessoas que deixam as suas reflexões e ideias por aqui. No teu caso, usufruímos muito dos teus trabalhos e conhecimentos, que acompanho, no que podo, desde há muito tempo. Sem perguntar bilhetes de identidade nem etiqueta, convidei-te para dares conferências na USC. E, aliás, gosto muito da tua prosa, quando ela se contém e evita a ofensa, ou atitudes que bem podem ser interpretadas como soberbas; quando ela aponta para os meus Camilo, Alves Redol ou Aquilino, mestres.
            Eu, “cá por mim”, apanho o isco; por exemplo, na maior proteção da nossa expressividade linguístico-cultural (ainda que nem sempre seja fácil separar o trigo do joio). Ou aquelas conversas sobre Saramago, ou o que significa a introdução de castelhanismos no português e as suas reações, que mostram bem realidades culturais cujos efeitos chegam até hoje.
            No sossego das palavras escritas, sugiro pensares três cousas que talvez elucidem alguns pormenores que são decisivos (por favor, não as leias como moralistas):
            a) Que é no reintegracionismo onde tens audiência e interesse não interessado; ainda que, por exemplo, procures para lançar os teus livros pessoas dum pensamento e posição de poder diferentes, o debate só se produz conosco, com essas almas generosas que por aqui andam, devo dizê-lo, que debatem e discutem sem nisso tirar lucro. Com as outras, não. Outras, só se no horizonte virem brasas para a sua sardinha, chamam, convidam, fazem. Não tenho muita esperança de que isso mude e consigamos avançar mais e melhor; até recentemente, houvo crises internas nesse mundo que evidenciam que, quando não há água para [email protected] no estanque, não se reparte. Mas convém continuar navegando (ainda que o galego, como língua comunitária hegemónica galega, seja caso perdido). Aqui tens “interlocutores”, tens; talvez com um debate sereno, mais; a tua ira contra o que consideras aportuguesamento, posicionamento legítimo, quando convertido em arma de arremesso, apenas nisso, desvirtua-se e incomoda; sem olhares, por exemplo, os avanços que algumhas entidades tenhem feito no terreno diplomático de língua portuguesa, sem dúvida com efeitos benéficos para o nosso objetivo comum: o desfrute da diversidade que nos une (já agora, é o s que temos maciços contatos com a esquerda portuguesa, contamos? Disto também pode falar-se muito)
            b) Estás frustrado porque os teus textos não são lidos. Olha, eu sou mais lido e “reconhecido” fora que dentro da Galiza, e cá andamos… Muito mais convidado ou requerido fora que dentro: é-che o que há. Garanto-che que escrevem comentários aqui pessoas que tenhem feito textos verdadeiramente notáveis e úteis e só encontrarom a ignorância ou a indiferença; nestes meios, o sectarismo alastra com muita força; e a sobranceria também: num caso tão heterónomo como o da cultura galega, muitas pessoas estão ao seu medre, não a incorporar saberes úteis ou alternativas valiosas, se isso prejudicar minimamente a sua posição. Podo contar tantos casos…! Desde artigos a teses de doutoramento valiosíssimas que não se tenhem em conta porque introduzem conhecimento que preferem ser ignorados por quem no poder cultural está. Muitíssimos! Sei muito disso e até tu, com os teus 76 anos, pasmarias; houvo mesmo a quem, num processo seletivo para umha bolsa numha instituição pública dixerom que não lho davam porque com o CV que tinha devia aspirar a cousas mais relevantes; ou a quem humilharom num concurso para professor /a efetivo/a por ser reintegracionista indicando o membro do júri que, enquanto ele puder, não acederia a posto nengum na universidade por melhor CV que outros que tivesse.
            c) Que certas atitudes que transluzem os teus comentários resultam ofensivas; não porque o pessoal não queira assumir as críticas (sempre algo disso pode haver) mas por serem recebidos como ataques sumários e injustificados; isto tem a ver com a perceção de falta de cumplicidade (entendida esta não como atitude conspirativa nem mesmo como acordo em tudo mas como entender que estamos progredindo [email protected]).

            Penso que não ofendo se digo, frente a esta tua afirmação, “a Normativa RAG foi inspirada por marcar a diferença. Do português. Mas também do castelhano”, que isso não é verdade: defendeu-se a mantenta a aproximação do espanhol e assim foi publicamente invocado em algum caso; mas, sobretudo, acho não ofender se digo que, quando aquela norma foi feita, os seus autores pouco conheciam do português (fiquemos por aqui). Como achas que deve ser dito o português “surto” em galego? Brote, gromo ou surto? Carro ou coche?

            Sobre isto, tens todaa razão: “À parte algumas reflexões esparsas, nunca nenhum estudo aturado foi, por ambos os lados do tumulto galego, dedicado à relação histórica e actual com o castelhano. Também em Portugal não, mas a esse deixamo-lo aqui fora do barulho. Ele nem saberia de que estamos a falar.
            E, contudo, essa grande reflexão, que poderia ter juntado à volta duma mesa galega reintegracionistas e autonomistas, teria clareado o ar. Muita da vossa imparável disputa vem da geral fuga a essa magna questão:
            Que fazer com o castelhano? Que facer con o castelán?

            Tu podias coordenar essa mesa e eu garanto-che [email protected] @s reintegracionistas, de conhecimento sólido sobre o assunto como membros se queiram juntar dum lado dessa mesa; agora, pergunta “no outro lado” se tenhem e estão [email protected] a isso. Será fantástico! Mesmo tenhem umha seção de léxico na RAG; podem convidar bons lexicógrafos rientegracionistas para serem membros…! Magnífico.
            “Sim, eu sempre convencido de que o vosso empenho está no idioma, quando está nos históricos ressentimentos e em sempre vivos ajustes de contas”; e nisto, não tens razão. O nosso empenho está no idioma, sem negar o empenho ferido polo ressentimento gerado pola repressão; mas tentamos sobrepor-nos, pôr a melhor face e continuar; polo povo/idioma. Milhares e milhares de euros, tempo, energia gastos desde muitos anos atrás desde este lado; desde este lado, convém repetir; só revisa o associativismo linguístico dos últimos quarenta anos e terás respostas simples, garanto.
            Venham sempre as lérias assim dadas
            Um abraço

          • Venâncio

            Meu caro Elias,

            Permita-se-me que regresse aos meus “quase 76 anos”. Tenho um grato paradoxo para anunciar à juventude como a tua. Com menos idade, já escrevia Jacinto do Prado Coelho (aliás, conhecido amigo da Galiza e do galego) isto: «Dentro, tenho 20 anos, e ninguém sabe». Posso subscrever.

            Acerca do castelhano. Naquilo que escrevi nos últimos 15 anos, há um tema recorrente: as relações do português com o castelhano, no plano das atitudes e no dos materiais linguísticos. Quando vejo o que se fez em Portugal durante três séculos, sinto uma anacrónica, e portanto frustrada, revolta. Como foi possível tanta submissão, tanta cegueira, num povo que se dizia senhor de si! Como foram possíveis tanta ignorância e tanto desprezo pelas suas reais origens!

            Estou falar no passado. Mas Saramago morreu há dez anos, e, tivesse ele vivido mais, também mais continuaria castelhanizando a sua prosa de ficção, perante a indiferença do establishment linguístico português.

            De tudo isto, supunha eu, poderia o galego tirar proveito, identificando as cadeias de contaminação ;-), que não são as exactas galegas, mas forçosamente as iluminariam.

            Isso, mais o proveito que o português poderia oferecer imediatamente ao galego (e que há 10 anos expus), prontinho para usar, por tão ‘galego’ ainda. Mas estais todos de mãos atadas, uns porque a doxa autonomista não no quer, por serem línguas diferentes, outros porque a doxa reintegracionista também o rejeita, por serem a mesma língua, e o português dever ser enfiado em bloco pelas gargantas galegas.

            Para completar a frustração: de Portugal nada há a esperar. Como escreveu Ivo Castro: “não são contas nossas”.

            Por mim, não vou, nem posso, intervir mais. Tenho dois livros, pelo menos dois, que quero escrever: um deles a história da nossa castelhanização e do nosso (também importantíssimo!) francesismo, e outro que já tem título, História do Esquecimento da Galiza. Tenho a casa a abarrotar de materiais para isso, e a mente em estado de urgência para fazê-lo. É questão de acabar outro livro, encomenda do editor.

            Uma última anotação. Como é de praxe aqui no PGL, também tu achas que tudo quanto os autonomistas fazem é movidos pela ganância e pelo assegurar do próprio conforto… Sei de linguistas portugueses, colaboradores de edições periódicas e monográficas galegas, que é essa monótona avaliação o que os afasta de qualquer contacto, ou interesse, pelo reintegracionismo. Eles sabem, e eu concordo, que é uma avaliação redutora, demagógica e preguiçosa. Imperdoável, portanto.

            O que o autonomismo fez e faz na investigação do galego (e que vai muito além da dialectologia) deveria merecer mais reconhecimento. Sim, como linguista, acho que se justifica uma grande reserva acerca dos vossos propósitos. Ele existem também uma ganância e uma comodidade mentais, E elas podem ser imensamente perversas.

            Abraços.
            Fernando

          • Elias Torres

            Fernando, de onde tiras, nas minhas palavras, motivos certos para afirmar isto: “Como é de praxe aqui no PGL, também tu achas que tudo quanto os autonomistas fazem é o fazem movidos pela ganância e pelo assegurar do próprio conforto… Sei de linguistas portugueses, colaboradores de edições periódicas e monográficas galegas, que é essa monótona avaliação o que os afasta de qualquer contacto, ou interesse, pelo reintegracionismo”. Por exemplo, a minha alusão ao estanque não é minha, é dum membro da Rag. Eu (como outros!) que apesar de muitas contas que podem reclamar ser acertadas, tenho escrito e até recentemente, que devemos tentar compreender a lógica do outro! Enganas-te. Estás instalado numha lógica que não te deixa ouvir, Fernando. Francamente. E, assim, não dá. .. Abraço

          • Venâncio

            Caro Elias,

            Dizes: «defendeu-se a mantenta a aproximação do espanhol», Falas nestes termos: «sem negar o empenho ferido polo ressentimento gerado pola repressão».

            É a imagem que traças do lado oposto, onde não há a sombra dum qualquer reconhecimento de algo louvável. Neste e em comentários teus recentes.

            Acredito que vos sintais “feridos”, e com razões para isso. Mas vejo que não vos permitis nem um selectivo reconhecimento, pelo que o outro lado é desprezado em bloco. Com isso estais não só a ser objectivamente injustos, como perdeis uma defensável oportunidade de abrir uma brecha no bastião oposto.

            Não compreendo como o sector lúcido do reintegracionismo não tem um gesto valente de felicitação, se não de apoio, por quanto os autonomistas produziram em prol do galego.

            Abraços,

          • Elias Torres

            Fff

          • Venâncio

            Elias, voltamos ao mesmo, caramba.

            Antes de proclamares dramaticamente «Pouco sabemos da nossa expressividade patrimonial», etc., que achas de primeiro compulsar

            o Dicionario fraseolóxico galego, de Ramón Anxo Martínez Seixo

            os Cadernos de Fraseoloxía Galega, por exemplo os artigos «Locucións e fórmulas comparativas ou elativas galegas», de Xesús Ferro Ruibal (85 págs.), e «Os rexistros e os niveis de lingua na fraseoloxía», de Xosé María Gómez Clemente (30 págs.)

            Os vilancicos. O vilancico galego nos séculos XVII e XVIII, de Rodrigues Lap, ed. autor, 1930.

            Isto para começares, pois existe na Galiza gente bem mais informada que eu em matéria de “linguística-cultural” e que estudou sentenças e provérbios. Mas tens aqui à mão o

            http://refraneirogalego.com/

            Elias, essas exclamações fin-de-siècle (“Nada sabemos de”, “Ninguém estudou nunca”, e semelhantes) são recorrentes no vosso âmbito. Pois se até um pobre linguista estrangeiro o conhece…

          • Elias Torres

            Na verdade, Venâncio, não consigo explicar-me e devo, pois, claudicar: nunca respondes ao que se pergunta e, quando afirmas cousas que logo são desmentidas, em vez de reconhecer o teu erro, vais para outra cousa. Por exemplo, isto que tu escreveste: ” Existe no autonomismo um sector que quer o afastamento do espanhol com pelo menos tantas ganas como vós. Mas parece que vos custa reconhecê-lo”.

            “Mas vejo que não vos permitis nem um selectivo reconhecimento, pelo que o outro lado é desprezado em bloco. Com isso estais não só a ser objectivamente injustos, como perdeis uma defensável oportunidade de abrir uma brecha no bastião oposto”

            “Não compreendo como o sector lúcido do reintegracionismo não tem um gesto valente de felicitação, se não de apoio, por quanto os autonomistas produziram em prol do galego”,

            é logo desmentido por mim com umha citação do último artigo meu nesta página publicado.
            E, então, saltas para «Pouco sabemos da nossa expressividade patrimonial», e lês como queres. A frase ocml,eta é: que é umha das minhas teimas pessoais: pouco sabemos muitas pessoas da nossa expressividade patrimonial, neste caso a linguística-cultural (de cantigas a sentenças, de contos a provérbios) e há reintegracionistas que tendem a ver com desconfiança determinadas formas sob suspeita de castelhanização ou popularismo dialetalista, enfim…”: há aí um plural inclusivo que alude a todo um conjunto do comum a que não quero fugir. Estou referindo-me, obviamente, ao comum da gente (muitas pessoas) não aos estudo e estudiosas/os sobre o assunto, o que é mais do que evidente! (Na verdade, pensas que não conheço esses trabalhos? Por que pensas que digo que é “umha das minhas teimas pessoais!” Essestrabalhos e os centros que constam na Biblioteca da USC? Achas que não acompanhei, mesmo, os Cadernos de fraseoloxía galega e teses e trabalhos sobre o assunto, mesmo que incluam na fraseologia galega “toma-lo pelo”?). De que ambiente intelectual vens?
            Chega, Fernando, mais umha vez, chega! Eu assim não continuo: quando che dão umha prova em contrário, saltas para outro assunto, por não dizer outra cousa; e, se não for ao teu sabor, dás-lhe a volta. Vou parar aqui, porque não quero dizer cousas grossas mas essa atitude de querer ter sempre a razão, mesmo perante a evidência, é causa de bastantes dos problemas que pairam por aqui.

          • Venâncio

            Caro Elias,

            Eu não digo que não conheças estas coisas. Digo, sim, que não encontro por aqui o reconhecimento do magnífico e utilíssimo labor linguístico autonomista, porque sim!, e não porque um triste linguista estrangeiro vo-lo venha lembrar.

            Também eu estou cansado destes despiques, que embatem sempre na auto-suficiência reintegracionista. Não és só tu, nem és principalmente tu. É este estar de perito aberto às frustrações de gente ressentida, que vaza em mim, o único estrangeiro que aqui vos acompanhou durante tantos anos, os ódios (alguns justos, mas não comigo) de que essa vossa convivência galega é tecida.

            Não é justo que estejas sempre a dizer que não respondo a isto ou àquilo, Eu estou aqui sozinho, tentando não perder uma malha aqui, outra acolá. Não é tarefa para um homem só.

            Sabes que sempre admirei o teu trabalho. Espero que o continues por muitos anos.

            Mas incomodam-me estas factuais e sistemáticas reservas mentais destinadas ao outro lado. Se não por acção, sim por omissão. E desde Pascoaes se sabe quanto é complicado para um português mover-se em ambientes galegos, certamente quando falho de apoios.

            Vou deixar-vos. Também eu digo: agora basta! Tenho coisas mais interessantes, também para a Galiza e o galego, do que estas conversas de moucos.

            Continuarei a fazer o que posso, arredando-me de tricas ideológicas, sempre suspeito por não escolher um dos vossos enredadíssimos campos.

            Os amigos saberão sempre onde encontar-me.

            Fica bem.
            Fernando

          • Elias Torres

            Proclamo: não tenho reservas mentais a esse respeito! Reitero, Fernando, que reconheço, proclamo, digo, ouço, tento aprender do tal setor autonomista, como tu dizes, mesmo que dele, tenha recebido, além de algum reconhecimento, silêncios, rejeitamentos ou até plágios (por exemplo, das minhas teorias sistémicas, até o delírio); isto dito sem vitimismo; já che dixem que me sinto bastante feliz. Vê só, como exemplo, esta, aliás, mui generosa referência do Prof. Martínez Pereiro a um trabalho meu num congresso convocado pola RAG sobre Paz Andrade (nengumha instituição me convidou para nada, of course!):
            Neste sentido, nas esclarecedoras e intelixentes páxinas que lle dedica ao li-bro de Don Valentín, no correspondente subcapítulo (1997: 321-328 [321]) do seu abranxente, pioneiro e ambicioso artigo “Cultura, cultura galega e mundo lusófono em Valentin Paz-Andrade. Alguns contributos”, o maior estudoso do que agora nos ocupa, o profesor Elias Torres Feijó –cuxa desexábel achega a este congreso, inevitábel e infelizmente, non podemos deixar de botar de menos (e moito)–, ben afirmou que” ETC (http://publicacionsperiodicas.academia.gal/index.php/BRAG/article/view/411/425).
            Falo de mim, mas podo falar de muitas/os outras/os, que, reitero, escrevem e participam neste PGL.

            É preciso, reitero também, entenderes os capitais em jogo que há no campo galego, para comprender certas dinâmicas, que não se sintetizam em vastas prateleiras com trabalhos ao dispor. Verás o sectarismo de quem tem poder até onde chegou e pode chegar.
            Está bem trazido o assunto do Pascoaes. De Pascoaes e da minha especulação de por que nunca visitou a Galiza já tenho falado; e escrito muito (por exemplo no meu recente Galeguismo Precário e Portugal, 2019), de como a ambiguidade regionalista e a complexidade do caso galego construiu um quadro de situação que impedia ou dificultava muito a agentes portugueses os contatos, os entendimentos e os desenvolvimentos galego-portugueses. Já isso acontecera com Teófilo ou Leite, quando estes acabavam por ser mais arredistas que os que se proclamavam arredistas galegos e estes calavam… (o mesmo Pascoaes: não esqueçamos aquela de “a Galiza é um bocado de Portugal sob as patas do leão de Castela”).
            Compreendo que justifiques esses saltos que eu denuncio porque não podes estar a tudo; compreendo e satisfaz-me porque me custa escrever cousas duras (pois sei que a minha língua pode chegar longe demais). Mas, por isso mesmo, Fernando, com o carinho de longa data e o agradecimento sincero pola admiração e atenção que sempre prestaste ao meu trabalho e polo que eu aprendo do tue, mesm oque discrepe em casos: tenta ouvir outras razões e refletir sobre elas, fora das denúncias das atitudes ou das alegadas ignorâncias. Nada de suspeita, diálogo franco para construir e avançaremos mais e farás maior serviço ainda à causa galega.
            Fica bem
            Elias

          • Joám Lopes Facal

            Posiçom exemplar e nobreza discursiva, Elias, onde o argumento nunca desborda as boas formas nem consente que as feridas históricas degenerem em ressentimento. Digno do inspirador texto de J.A. Lozano.
            Em ambos, serena confiança nas próprias conviçons. Obrigado.

          • Elias Torres

            Obrigado, Joám; vale a pena o esforço da temperança, ainda que haja que compensá-lo com algum espirituoso…! Além disso, a formulação de ideias perde o “efectismo” mas conduz a apresentá-las com maior ponderação e informação…; algumha cousa se ganha… nem sempre…

          • Elias Torres

            “Todas as opções..: nem faz falta, ainda que bem seria, compreender a lógica do outro, (também de quem usa de regra o espanhol; de novo não enveredo por aqui para não complicar mais). Simplesmente, saber que existem, e nutrir-se do que elas podem fornecer, sem medo à contaminação, que esta até pode ser boa. Por pôr um exemplo, que é umha das minhas teimas pessoais: pouco sabemos muitas pessoas da nossa expressividade patrimonial, neste caso a linguística-cultural (de cantigas a sentenças, de contos a provérbios) e há reintegracionistas que tendem a ver com desconfiança determinadas formas sob suspeita de castelhanização ou popularismo dialetalista, enfim…” Do meu último texto aqui publicado

    • Venâncio

      O sr. Novo escreve:

      «O senhor Fernando Venâncio sempre afirma que na atualidade galego e português são duas línguas distintas, e o diz como se as diferenças existentes o fossem como consequência dum processo natural e não dum processo político claramente intencionado dos poderes estabelecidos de rematar com o galego até dilui-lo no castelhano.»

      Mas como pode ele saber isto se, como afirmou no Facebook, não leu o meu livro?

      P.S.
      O sr. Novo não sabe, porque não leu o meu livro, que os portugueses passaram séculos afastando-se voluntariamente do galego (o chamado processo de desgaleguização do português), sim, eliminando centenas de palavras, porque o galego (e os portugueses nortenhos) se serviam delas.

      Se o sr. Novo não quer informar-se, e continua a atribuir-me isto, mais isto, e mais aquilo, acabou achando uma nova profissão: a de charlatão. Proveito lhe faça.

      • Arturo Novo

        Certo, de momento ainda não li o seu livro. Ando a ver onde procurá-lo. Mas essa conclusão foi aqui comentada por outros que sim o leram. De qualquer jeito, essa afirmação já lha tenho escutado a você em varias ocasiões. Até diria que li-o em algum dos seus últimos comentários no facebook. Por um acaso, agora vai dizer o contrário? E se não se desdiz, então haverá que concluir que aqui o único charlatão é você. Mais uma vez fico muito surprendido polas suas grandes dotes para a diplomacia.
        Ah, claro que sei que os poderes portugueses desgaleguizaram a sua língua quanto poderam. O que não poderam fazer os poderes portugueses foi inventar outra língua, Os que sim estão a inventar outra língua são os poderes galego-espanhóis da Galiza. Outra língua cada vez mais próxima ao castelhano e mais afastada do português. Por isso estão muito contentes com o seu livro. Os que não o estamos somos os reintegracionistas. Embora o livro tenha cousas interessantes e dignas de ter em consideração.

        • Venâncio

          Sr. Novo,

          Faça-me o favor de acabar e depressa, com esse joguinho de insinuações.

          Fala numa “afirmação” minha, mas não diz qual. Refere-se a certa “conclusão” minha, mas ficamos sem saber de que se trata. Diz que terá lido coisas minhas nesse sentido no Facebook ou noutros âmbitos, mas poupa caracteres à Internet, não explicitando sobre o quê. Afirma que o charlatão serei eu se não desdisser o que terei dito: mas o que disse eu então exactamente, caro senhor?

          Chega, sr. Novo. Chega de insinuações. Assim é fácil pôr alguém sob suspeita. Eu disse que o sr., continuando como ia, acabaria em “charlatão”. Pois bem: optou decididamente pela charlatanice.

          Não sei qual a sua profissão. Mas sobre questões do idioma não é seguramente. Tudo quanto lhe ouço dizer é sobre conflitos com esta instância ou com aquela. Sim, em matéria de conflitos, de intenções, de planos maléficos, sobre isso, sim, o sr. Novo é barra.

          E olhe, caro senhor. Deixe lá o meu livro. Esqueça-o. O sr. iria lê-lo à cata de falhas, de reservas mentais, de contradições, de confirmações do seu tortuoso entendimento do mundo.

          A sério: não no leia, sou eu agora a pedir-lho. Só iria fazer-lhe mal, e eu ficaria com mais esse peso na consciência. Conserve-se aí onde está, no aconchego das suas suposições, dos seus fantasmas, dos diabólicos planos de obscuras forças.

          Não lhe quero mal, acredite. O sr. é capaz de ter um fundo bom. Só não no quero perto de mim. Nem por escrito.

          • Arturo Novo

            Resposta do senhor Fernando Venàncio há quatro semanas ao senhor José Antonio Lozano García no muro do Facebook do senhor Xavier Alcalá:
            “Eu também gosto, nos meus accesos líricos, de dizer que falo no nosso “Galego”.
            Na realidade, a questão “a mesma língua / línguas diferentes” é sensível e exige exame. Eu faço esse exame no meu livro, e concluo que o Português já de tal modo se afastou do Galego que é mais consentâneo com a realidade linguística tratá-los como dois idiomas.
            Repare que um fenomeno semelhante se está a dar no próprio Português, com a norma brasileira (a Norma Urbana Culta) estando, e estando desde há muito, a afastar-se da nossa… e a nossa a afastar-se dela.
            Há processos linguísticos inelutáveis”.

  • José António Lozano

    Caros amigos,

    Não podemos subsumir umas realidades noutras. O político no linguístico, o linguístico no político. São realidades co-implicadas, co-relacionadas. Trata-se de integrar. Para um reintegracionista dita integração deve realizar-se dentro de um eixo galego-português, não galego-castelhano. Mas isto implica muitas mais cousas que uma normativa, é uma questão de cultura e de conhecimento mútuo, tanto diacrónico como sincrónico.
    Obviamente muita gente que defende a normativa oficial não o fai por um motivo manipulador ou outro. Basicamente pensam que é o melhor para o galego, polos motivos que seja. Isto deve ser compreendido e respeitado, de verdade, não de boca para fora.
    O galego não é um problema só dos lusistas ou reintegracionistas. Eu creio que o caminho que se realizou, negando todo o trabalho de um Carvalho Calero (para concretar nele) foi um erro. Erro polo que implicava como ponto de partida e erro polos métodos utilizados. Também penso que muitos lusistas e reintegracionistas fomos demasiado “políticos” e polarizamos demais certos debates e situações. Tampouco creio que a língua deva ser um mero instrumento político (recalco “mero instrumento político”). Isso é um grave erro (e aqui por todos os bandos).
    Por mais que nos esforcemos não podemos negar uma verdade, ela reaparecerá ante nós como um pesadelo, como aquilo que nos tira fora de nós. Só podemos aceitá-la. Tampouco podemos eliminá-la pola força. Ressurgirá de um jeito ou outro como os fantasmas de Hamlet. (E isto também para todos os bandos)
    Há uma dignidade e um valor da verdade do outro que não pode ser aniquilada. Dizia Amadou Hampaté Bâ: “Está a minha a verdade e está a tua verdade: no meio está a Verdade” Todos temos que ceder.
    As ideologias permitem-nos curtar a realidade sem sentimentos de culpa. Mas o preço é alto.
    Na Galiza há muitas pessoas que usam o espanhol, a maioria. Não podemos esquecer isso. Não podemos esquecer que somos uma minoria, e também uma minoria dentro de uma minoria. Penso num arquipélago de ilhas separadas, numa constelação e numa cultura que se desenvolve aceitando um ponto comum de aproximação mas sem deixar de respeitar o lugar do outro. Essa dialética, tal como a entendia Heráclito, é constitutiva do nosso ser. E é no “fraterno adversário” também onde temos o nosso espelho. Caminhar, integrando (gosto de esta metáfora da matemática Leibniziana), às vezes derivando, podemos conseguir algo que nos supere a todos e que nos permita um reconhecimento mútuo e real, com dignidade. E já para fazer contraponto com o título deste artigo lembro que ntigamente havia um refrão que dizia: “algum dia levarás uma camisa que não leva mangas” . Pode que os mais novos não o compreendam mas os que somos um pouco mais velhos ainda sabemos a que se está a referir. Não deveríamos deixar uma desfeita aos que vêm depois de nós. Não consegui transmitir nem a metade do que o meu coração sentia. Paciência uns com os outros. É um dever para connosco..

    • Ernesto Vazquez Souza

      pois, paciência, tolerância, esforço… apertas

    • Arturo Novo

      José António, não esqueças que aqui os excluídos somos nós, os reintegracionistas. E sendo certo que os reintegracionistas somos minoria dentro da minoria, o somos principalmente por uma razão: a nossa marginalização. Como também o galego é minoritário a base de ser minorizado como consequência da sumpremacia

      • Ernesto Vazquez Souza

        Já, Arturo, a nós tocou-nos o pior papel, levar os paus e mais ter de ser generosos…

        Como dizia o meu avó… a ver quanta gente lhes vai ao enterro e leva flores depois…

        Para mim o caso com Carvalho é emblemático… em 2022, 23, 25… 50… ainda estaremos a celebrar…

        de Filgueira, Piñeiro, Constantino Garcia, ou Carlos Casares, já pouco se fala… apenas lembra a gente para cuspir…

    • Joám Lopes Facal

      Ajustada metáfora, amigo Lozano: cálculo de diferenças, cálculo de agregaçons; cálculo diferencial, cálculo integral, operaçons recíprocas e complementares. Lástima que o discurso humano nom poda ser reduzido a lemas racionais como tentou Wittgenstein para acabar reconhecendo que o principal se lhe escapava.

  • Arturo Novo

    Ivo Castro será o melhor linguísta português do momento. Mas se foi convidado polo Consello da Cultura Galega a participar numa mesa redonda organizada por eles e aguardar que fizesse alguma menção positiva do reintegracionismo galego, simplesmente seria de parvos. O CCG nunca vai convidar a esta ou aquela pessoa para falar bem do inimigo. Mas como seriam as cousas se os marginalizados fossem os isolacionistas? A atidude do senhor Ivo Castro seria a mesma? Eu digo que não!

    • Venâncio

      O sr. Novo escreve:

      «O CCG nunca vai convidar a esta ou aquela pessoa para falar bem do inimigo».

      Esqueceu que, como informei, estava na mesma mesa redonda o dr. Elias Torres Feijó.

      O sr. Novo, além de continuar a raciocinar por insinuações (eu já o adverti a esse respeito), não lê com atenção aquilo a que reage.

      • Arturo Novo

        Na Galiza, em particular os reintegracionistas, todos sabemos bem a quem serve o CCG, a RAG, o ILGA e demais ervas de namorar semelhantes. E todas essas ilustres personagens portuguesas que hoje nos viram as costas aos reintegracionistas, amanhã caminhariam de mãos dadas connosco se situação fosse ao invês e os marginalizados fossem os isolacionistas. O poder, o dinheiro, move vontades que em princípio nos pareceriam insuspeitadas. Exemplos há dabondo no mundo. Até você dubido muito que fosse um colaborador tão ativo e complacente com o isolacionismo se este estivesse marginalizado. O reintegracionismo, todo o galeguismo em geral, é cousa de pobres, por isso suscita tão poucos apoios. Não tem outro defeito do que esse.

        • Venâncio

          Eu fiz ver a este cavalheiro que não sabia fazer mais do que insinuar.A insinuação coo sistema é o recurso dos fracos e dos cobardes.

          Só que, agora, esta alma penada passou os limites a meu respeito, ao escrever”

          «Até você dubido muito que fosse um colaborador tão ativo e complacente com o isolacionismo se este estivesse marginalizado.»

          • Arturo Novo

            Há pessoas que cada vez que se pronunciam retratam-se como o que são. Assim que eu não tenho nada que dizer sobre o seu retrato, pois é o seu retrato.

          • Venâncio

            O estado de negação é o normal nestas patologias.

            Era esta, também, a linguagem que o sr. Novo me reservava no Facebook. Está agora bloqueado.

  • Arturo Novo

    Antes de bloquear-me e dedicar-me um bom feixe de insultos (nada extraordinário, se temos em conta a personalidade do indivíduo), comenta o senhor Fernando Venâncio: “… nas melhores causas (e o Reintegracionismo genuíno é uma óptima causa)…”.
    “Reintegracionismo genuíno”? Alguém por aqui, aparte dele, saberia distinguir o que é Reintegracionismo genuíno do que não é genuíno? O meu, bem seguro, para ele não é genuíno. É o vosso? Será genuíno o vosso Reintegracionismo? Não tendes curiosidade por sabê-lo? Só ele vo-lo pode aclarar. E ele tem muita autoridade para fazê-lo. Ou deve ter, pois sempre presume do muito que o adorais por estes lares. Segundo ele, mais de quinze anos mostrando-lhe a vossa grande veneração! E claro, sendo tão venerado, o ilustrado homem não aturou que um anónimo ninguém coma mim intenta-se fazer-lhe cóxegas.
    Óptima causa o Reintegracionismo para este senhor? A sério? Onde estarão as bondades do Reintegracionismo para este homem? Reconhecerá como boas algumas das suas históricas reinvidicaçãoes? Do reintegracionismo não sei, mas do isolacionismo consta-me que as reconhece todas! O galego ISOLATA é um bom galego, um galego de qualidade, dize constantemente ele! E assim, com estas tretas, tem a todo o mundo obnuvilado, aos dum bando e aos do outro. Sinceramente, sou incapaz de compreender como pode haver reintegracionistas que sintam a mais mínima devoção por um personagem destas caraterísticas, tão egocéntrico, narcisista e de tão mal carácter, por muito interessante que possa resultar desde o ponto de vista intelectual inicialmente. Entendo, como não, que devemos sermos amáveis, abertos e educados em princípio com todo o mundo, e não excluirmos a ninguém. Entendo isso, mas só até certo ponto! Há exercícios de cinismo que deveriam sobardar a paciência de qualquer ser humano. E acho que este é um desses casos. Sinceramente, tão ingénuos somos que não somos capazes de perceber as suas tretas de linguísta prestigiador? Quanto dano lhe estão a fazer ao Reintegracionismo alguns dos seus supostos amigos e nos a aplaudir-lhes com as orelhas. Caros, o Reintegracionismo é um compromisso, uma luta. Ou polo menos assim o entendo eu. E quando há que lutar por algo, dificilmente se pode estar a bem com todo o mundo. Em caso contrário é que não faria falta essa luta.

    • Ernesto Vazquez Souza

      Pois é, meu…

      Mas o reintegracionismo não é apenas o espaço de guerra de guerrilhas na casa, há guerras de submarinos e corsários, contrabandos, alianças, um alambicado jogo de relacionamentos institucionais, de batalhas diplomáticas internacionais, redes de espionagem, agentes duplos… e muita propaganda e contra-propaganda…

      Língua há pouca, cabrões muitos… XD

      • Venâncio

        Ernesto,

        Esse sujeito a que respondes continua o seu chorrilho (lindo castelhanismo nosso, não achas?) de insinuações.

        Ele teria resposta para todas essas “perguntas retóricas” (assim se lhes chama) se lesse o meu livro, em que exponho por que o Reintegracionismo galego me é tão caro.

        Enfim, um interessante exercício mental. Vou-o seguindo, que remédio.

        • Ernesto Vazquez Souza

          São planos diferentes de uma mesma realidade… não sei, por vezes tenho a sensação que devo ser o único que vê a realidade e o jogo como um poliedro irregular multifacetado…

          • Venâncio

            Ernesto,

            Proceder por insinuações, e não com as cartas na mesa, é sempre actuar a partir doutra relidade.

            Não pode dar-se cobertura a quem não é frontal, e só se vale de habilidades retóricas.

          • Venâncio

            Sou um velho de quase 76 anos. Tenho as minhas contas em dia. Não preciso do aplauso de ninguém, nem na Galiza nem em parte nenhuma deste mundo.

          • Ernesto Vazquez Souza

            Não todos estamos na mesma realidade… para muita gente na Gz, já lho diz bem o Elias, não se trata de filosofias, de debates científicos, de escolhas pautadas… é apenas uma questão de política e de ambições pessoais… e como em toda guerra há feridos, deslocados, prissioneiros, colaboracionistas…

            Isto não é um Clube oxoniense – quem nos dera – onde debatermos com paixão incendiada, em comfortáveis poltronas- as palavras que imos meter ou quitar do dicionário e onde e como se documentam…

          • Venâncio

            Se calhar tens razão, Ernesto, e quem está longe de entender-vos sou eu.

            Mas tudo indica que sois devastadoramente especiais. E que, provavelmente, não existe maneira de alguém vos entender.

          • Ernesto Vazquez Souza

            pois… fazemos perder a paciência…temos muito de cães, criados para a guerra, em diferentes alcateias… maus para os nossos e piores para os outros…

            Por seguir com o das cantigas de D. Afonso

            https://cantigas.fcsh.unl.pt/cantiga.asp?cdcant=474&tr=4&pv=sim

            Sempre pensei que seguramente há aí alhures uma velha cantiga árabe que diga:

            klb aljalikia,
            klb ‘iisbania…

            (Perro Galego,
            Perro de hespanha…)

            apertas

          • Venâncio

            Eu mesmo escrevi no Face que ele poderia ter “um fundo bom”.

            Mas uma coisa é isso, e outra é massacrar uma pessoa só porque tem de vazar em alguém as suas infelicidades.

      • Arturo Novo

        Sei, sei. Melhor dito, vou aprendendo a perceber. E na minha aprendizagem percebo que não sempre resulta fácil navegar por este oceano de confrontados interesses. A marginalização é muito dura. Muito dura para todos, mas tampouco ignoro que para uns pode ser mais dura que para os outros. E precisamente por isso, podo compreender e tolerar a fraqueza ou incoerência pontoal (nesta vida o que esteja livre de pecado, que tire a primeira pedra). Quando nos retorcem o braço a todos nos doe. Ora bem, o que me indigna é a impostura a tempo completo. Isso não! E há muita impostura de Deus Nosso Senhor!

  • Mário J. Herrero Valeiro

    Neste debate tão rico, devo dizer apenas uma cousa: This user is blocked. Desculpem a não-piada, é por higiene mental e intelectual.

    • Arturo Novo

      Bloqueado por quem? Polo Fernando Venâncio?

      • Mário J. Herrero Valeiro

        Antes ao contrário… Há anos que descobri a índole do indivíduo. Divide et impera. O pior é a péssima educação, essa infinita soberba…

        • Venâncio

          Tanta retórica gasta, ó Mário, com tão ruim defunto. 😉

  • Luís Gonçales Blasco

    Gostei muito do teu artigo que provocou uma certa polémica pelos excessivos louvores ao indesejável FV; muitos não souberam ver neles a ironia que neles há. Além disso, o FV como linguista deixa muito a desejar, e digo isto como linguista eu próprio. Um abraço do velho amigo, Foz

    • Arturo Novo

      Foz, desculpa o incomodo. Fico muito surpreendio com o teu comentário. Poderias abondar um bocadinho mais sobre o FV. Por que “como linguísta deixa muito que desejar”?

      • Luís Gonçales Blasco

        Eu próprio sou linguista de formação e conheço as coisas de FV, por isso o digo. O que diz do nascimento de uma língua é uma parvada, quando nascem os romances, ninguém falava de galego, português, etc. dizia-se apenas romance, língua vulgar ou mesmo “roman paladino” como Berceo

  • Arturo Novo

    Esteve a repasar todos os comentários, especialmente a conversa entre o senhor Fernando Venâncio e o professor Elias Torres. E acho que algumas cousas sobre o Reintegracionismo não lhe ficaram o suficientemente aclaradas ou contestadas ao linguísta português. E como este é um espaço aberto para o debate e a opinião, considero pertinente dar-lhe o meu parecer sobre as queixas ao Reintegracionismo por ele invocadas. Manifesta:
    “As minhas queixas do reintegracionismo são antigas e julgo que justas”.

    “1- Nunca o reintegracionismo disse, preto no branco, qual o seu objetivo linguístico para a Galiza, e quais os meios para alcançá-lo. Ficais sempre nas meias-tintas, em insinuações.”

    O senhor Venâncio quer claridade, pois claridade vai ter. E digo eu, qual pode ser o primeiro e único objetivo dum preso que foi injustamente encarcerado? Escapar! Escapar da vida miserável à que foi submetido. Então, qual pode ser o objetivo dos marginados polo poder constituído? Pois escapar da sua marginalização! Para a sua informação, senhor Venâncio, o Reintegracionismo não pretende aniquilar o Isolacionismo. Tudo o contrário, o que queremos é conviver em liberdade com ele. Queremos o mesmo status jurídico para todos. Queremos o mesmo reconhecimento e, também, concorrer em liberdade. Só desde a liberdade que nos proporciona o conhecimento poderemos saber qual é a verdadeira opção de escolha dos ão interessados. E para podermos exercer essa liberdade de escolha o Reintegracionismo ofecere à sociedade uma proposta Binormativista de convivência. Proposta nada original, pois em questões sociolinguísticas todo está inventado. O Binormativismo já existe noutros países. O Binormativismo é uma proposta do mais justo e razoável para as nossas atuais circunstâncias. E que fazem os seus amigos autonomistas? Rejeitá-la! Por que? O porque é o tiroliroliro e o tirolirolailo! Simplesmente, não a querem porque isso significaria, utilizando uma expressão muito galega, mover-lhes os marcos.
    Você sempre se está a queixa disso que você sempre chama de nossas “insinuações”. Ai, meu senhor! Que outra cousa lhe está permitida aos marginados mais que queixar-se e formular hipóteses? Dê-me você os recursos do poder e todos nós deixaremos de queixar-nos e começaremos a fazer cousas de mais proveito.

  • Arturo Novo

    “2-Sempre que se vos faz algum reparo, vem o reflexo condicionado: Ah! Mas não vês o que “os outros” fazem. Como se isso resolvesse alguma coisa”.

    Os outros, os autonomistas, senhor Venâncio, são os que têm todos os recursos do mundo para intentar fazer algo. E que fazem para salvar a nossa língua ademais de constantemente castelhanizá-la dum jeito aberrante? Nas nossas circunstâncias, aos reintegracionistas o único que nos está permitido é reisistir. Sim, RESISTIR! Parece-lhe pouco? Que outra cousa poderiamos fazer? Se está diposto, agradeceremos qualquer tipo de ajuda.
    Os seus “reparos”, são algo mais que reparos. Os seus reparos negam todas as nossas históricas reivindicações. Se lhe negamos ao Reintegracionismo, como faz você, que o galego e o português são duas variantes da mesma língua, qual é a razão de ser do Reintegracionismo? Os seus “reparos” unicamente servem para negar a nossa existência. Por isso você é recebido com os braços abertos polo Isolacionismo. Para eles você é um heroe! Porém, para muitos de nós você é percebido como uma espécie de Cavalo de Troia. Se estamos equivocados, aguardamos que nolo demonstre com algo mais que palavras nas que não acreditamos.

  • Arturo Novo

    “3- Insistis sempre em que a adopção duma normativa reintegracionista teria estancado a perda de falantes. Tal vez sim, talvez não. Mas afirmá-lo com essa presunção é demagógica”.

    Numa cousa sim que tem razão você, uma língua é muito mais do que a sua ortografia. Isso sabemo-lo todos. Mas para o caso galego a ortografia é algo fulcral. É fulcral porque só com a ortografia do português poderemos algum dia sermos reconhecidos polo resto dos paises galaicófonos (ou lusófonos) como um dos seus. A ortografia é algo convencional, mas também o principal signo de identidade.
    Você sabe melhor do que eu, ou polo menos deveria saber, que nenhuma língua pode sobreviver sem o amparo e proteção dum Estado. E os galegos carecemos desse Estado. Por carecer, até carecemos do apoio do poder autonó

  • Arturo Novo

    “4- A patente cumplicidade de, já antiga, entre representantes do reintegracionismo e a direita portuguesa (mesmo a “educada”) não ajuda a uma adesão, ou sequer a uma simpatia, por parte dum sector mais lúcido da sociedade portuguesa a vosso respeito”.

    Senhor Venâncio, você que tanto se queixa das “suposições” dos demais. De onde tira tal afirmação? Não entro em que esta ou aquela pessoa, num momento dado, pudesse falar com esta ou aquela pessoa duma determinada ideologia. Mas daí estabelecer com categoria de “patente cumplicidade” há um abismo. Se insiste na sua afirmação, também nos poderá comentar quais foram os frutos dessa cumplicidade. Ou todo são rejoubas de taberna? Por desgraça para nós, o Reintegracionismo carece de tudo tipo de cumplicidades externas. Já gostariamos que tal coisa fosse certa. Mas não! Os Reintegracionistas estamos mais sozinhos que a árvore do Natal.
    Mas postos a falarmos de ideologias, falemos pois da ideologia do Isolacionismo. Quem foi o impulsor de tão infame normativa para o galego? Uns galeguistas? Não! Uns esquerdosos? Tampouco! Então, quem foi? Foi a estrema direita espanhola na sua versão galega! Ou agora resulta que o Partido Popular (PP), a organização política impulsora do Isolacionismo, vai ser uma organização política galeguista ou progressista?
    Senhor Venãncio, que em Portugal não queiram saber nada do Reintegracionismo só tem uma explicação possível: a sua marginalização! Primeiro porque o que está marginalizado não se visualiza o suficiente. Como apoiar o que não se vê? Depois, precisamente pola sua marginalização, apoiar algo que está marginalizado pode ser motivo de conflito diplomático. Em resumidas contas, o que está marginalizado não lhe interessa a ninguém. Simplesmente, porque não produze réditos e sim pode ser causa de problemas. Ou que outro motivo vão ter todas essas pessoas às que você faz referência para não falar com o Reintegracionismo. Você diz que devemos ser nós os que nos perguntemos polas causas. Pois respondo-lhe que com claridade não o sabemos. E como não o sabemos só podemos imaginar. Você que é português, poderia aventurar quais são essas causas?
    Portugal não se atreve nem a reivindicar perante o Estado Espanhol algo sobradamente legítimo, como é o território de Olivença, como para pôr-se a reivindicar o Reintegracionismo galego. Não, com certeza, o Reintegracionismo galego não está nas contas de ningum português. E nas suas tampouco, meu senhor. Nem o está agora, nem o esteve antes, nem o vai a estar nunca. As suas contas, senhor Venâncio, estão no bando dos Isolacionistas. Só um cego veria outra cousa.

  • Venâncio

    Pessoa amiga alertou-me para o aparecimento, aqui, de um linguista, Luís Gonçales Blasco, que teria afirmado a meu respeito, e transcrevo:

    «Eu próprio sou linguista de formação e conheço as coisas de FV, por isso o digo. O que diz do nascimento de uma língua é uma parvada, quando nascem os romances, ninguém falava de galego, português, etc. dizia-se apenas romance, língua vulgar ou mesmo “roman paladino” como Berceo».

    *

    Pois acontece que, no meu livro a que este texto de Lozano se refere, pode ler-se desde há um ano o seguinte:

    «Vem então o problema maior: o de identificar esses autores da inovação, que, com tamanha eficiência, levaram a cabo uma operação com esta envergadura e esta complexidade, acabando por gerar uma nova língua, uma nova expressão ‘romance’ (assim se designa cada sistema linguístico derivado do latim)». [pág. 62]

    Quando é que, então, aparecem as designações “galego” e “português”? Respectivamente em 1290 e 1430. A esse respeito, escrevi o seguinte:

    «Essa nossa patente necessidade de reivindicar uma língua própria, incomparável e exclusiva está em forte contraste com a lentidão com que, historicamente, este nome de «português» se fez esperar. Como vimos na Introdução, só nos anos de 1430 encontramos um uso absoluto de «o português» para o idioma pátrio.

    «O galego, esse, já era como tal designado. Numas Regles de trobar, de 1290, redigidas em occitano, dizia o catalão Jofre de Foixà: «Se quiseres fazer um cantar em francês, não deves misturar nele provençal, nem siciliano, nem galego, nem outra linguagem» (destaque meu). Era um primeiro reconhecimento internacional desse idioma do noroeste ibérico em que se produziam excelentes líricas de amigo, de amor e maldizer.» [págs. 85-86]

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    Eu não queria voltar a esta forja de ignorância e maledicência. Mas achei que há limites para a pesporrência “linguística” dos Gonçales desta vida.

    • Venâncio

      É bom saber que o reconhecimento dum erro, duma objectiva injustiça, não é o forte desta malta aqui. Sim, a cobardia sempre fez boa companhia à ignorância.