As nuances do país galego



Esclarecimentos prévios, antes de entrar:

Captatio benevolentiae1:

As razões deste artigo2:

Se leram os esclarecimentos, ou não precisam de os ler, a porta já está aberta, podem passar.

As nuances do país galego

*Adro*

Ao contrário do que o castelhano, o português tem uma capacidade especial em indicar diferentes graus de concordância ou discordância com o posicionamento do interlocutor. Isto tem criado muita confusão a alguns estrangeiros mas nunca aos japoneses, que não apenas “defendem uma inteligente posição neutral”, mas antecipam o que o outro interlocutor pode querer antes de ele falar.

Reparem no seguinte, quando uma pessoa falante de português está a responder “talvez”, ela poderá eventualmente querer dizer sim, mas muito provavelmente está a nos dizer “não”, educadamente.

Assim sendo, quando dizemos por exemplo “acho que isto pode vir a acontecer” um falante de castelhano provavelmente diria “sei que isto vai acontecer”. É uma maneira de nos proteger e proteger futuras trocas de opiniões dentro das boas maneiras de nos relacionar.

Um outro elemento de “proteção” quando não aceitamos aquilo a que nos querem obrigar ou nos falam sobre assuntos desagradáveis é o silêncio. É dito que o silêncio é a melhor defesa do camponês.

E a Galiza mergulha a sua cultura na cultura camponesa3.

É também dito que um mal pacto é melhor do que pacto nenhum e quando, numa feira, dois tratantes de gado não chegam a acordo sempre há quem recomende que “partam a diferença” (deixem o preço no ponto meio entre a aposta de um e a petição do outro).

Há ainda um outro dito que se ouve, e é que não há nada pior do que as guerras.

Na Europa qualquer um sabe que as guerras contra o fascismo foram horríveis. Mas poucos sabem que ainda pode haver outra cousa pior, perdê-las e conviver com quem as ganhou.

40 anos são muitos anos para uma convivência assim.

E o primeiro que se aprende é a não “se destacar”, saber-se camuflar, não dar nas vistas.

Galegos somos peritos de maneira tripla nos silêncios e nos significados duplos:

por bebermos da cultura camponesa,

por falarmos a língua comum

e por termos perdido a guerra.

Permitam-me por isso falar hoje por uma vez “à castelhana” e sem papas na língua, afinal essa maneira de falar,

direta

e sem medo às consequências,

tem qualquer coisa de vantajosa,

sem nos importar sobre se incomodamos alguém

ou nos colocamos em perigo.

Vamos lá tentar, mas nem sempre conseguiremos, afinal dizem que somos todos virados para a poesia.4

Na Europa qualquer um sabe que as guerras contra o fascismo foram horríveis. Mas poucos sabem que ainda pode haver outra cousa pior, perdê-las e conviver com quem as ganhou. 40 anos são muitos anos para uma convivência assim. E o primeiro que se aprende é a não “se destacar”, saber-se camuflar, não dar nas vistas. Galegos somos peritos de maneira tripla nos silêncios e nos significados duplos: por bebermos da cultura camponesa, por falarmos a língua comum e por termos perdido a guerra.

* * *

Cena primeira – Nunca dar nas vistas

E esta é uma história de acordos e acordinhos, de silêncios clamorosos e silencinhos e de quem pretenderá hoje “partir a diferença” como se estivéssemos numa feira de gado entre iguais.

Quando todos lembramos, e muito bem, nunca houve igualdade de condições:

Há quem veio à força, levou a vaca e pagou com uma surra.

Fiquem por enquanto com estas palavras: pactos, silêncios e jogo sujo. Eis o nosso passado recente.

Neste mês de maio ouviram-se muitas opiniões e comentários acerca dos posicionamentos sobre a língua na Galiza por causa da pessoa que recebeu, finalmente, o direito à homenagem oficial por parte das autoridades.

Destarte passou a ser o primeiro escritor homenageado claramente contrário à ideologia linguística de quem ainda quer mandar sobre a língua de 2,7M de pessoas.

Um bom passo adiante, não apenas porque quebrou o pretenso muro de silêncio arredor dos assinalados como lusistas pelas autoridades, mas por ser um autor em que o seu discurso científico tem especial relevância.

Confiram:

Dum dos lados da Raia5 tivemos o prof. Rodrigues Lapa6 e do outro lado do oceano o prof. Guerra da Cal7 a apontarem para as soluções da questão do português na Galiza.

Mas terá sido no interior da Galiza franquista que tivemos o prof. Carvalho Calero clarificando o que é que devia ser feito (dentro das possibilidades do momento) para os utentes da língua comum recuperarmos finalmente plenos direitos no nosso pequeno país.

Muitas pessoas não acabam de perceber os condicionantes da realidade social da geração “galeguista” durante a ditadura8. Eu apenas consigo imaginar e transmitir uma aproximação a essa realidade. Baste explicar que a primeira gramática da língua nessa época foi publicada em castelhano “Gramática elemental del gallego común” por medo ao lápis azul.

Eis um primeiro, grande “Silêncio”. Poucos jovens sabem hoje, e muito pouco ouviram nas aulas, que houve um lápis azul9 a condicionar as escolhas das palavras nas canções, nos livros ou nas associações culturais.

É dessas coisas que une brasileiros, portugueses e galegos, e não só, isto de se dizerem coisas sem dizer durante as ditaduras; no nosso caso acrescente-se usar uma língua sem usá-la por demais, ou “sem dar muito nas vistas”. Camuflagem.

Eis porque só se legalizavam nomes curtinhos ou palavras próximas ao castelhano para os grupos culturais: O Galo, O Facho, Amigos da Cultura, ou diretamente os títulos dos livros importantes em castelhano.

Para não arriscar de mais.

Poucos jovens sabem hoje, e muito pouco ouviram nas aulas, que houve um lápis azul9 a condicionar as escolhas das palavras nas canções, nos livros ou nas associações culturais. É dessas coisas que une brasileiros, portugueses e galegos, e não só, isto de se dizerem coisas sem dizer durante as ditaduras; no nosso caso acrescente-se usar uma língua sem usá-la por demais, ou “sem dar muito nas vistas”. Camuflagem. Eis porque só se legalizavam nomes curtinhos ou palavras próximas ao castelhano para os grupos culturais: O Galo, O Facho, Amigos da Cultura, ou diretamente os títulos dos livros importantes em castelhano. Para não arriscar de mais.

* * *

Cena segunda – O Reino em que nada se passava

Mas este texto que se pretende sobre língua quer falar das coisas incómodas, vamos lá a isso.

Nós não tivemos 25 de abril.

Tivemos um pacto à espanhola, em que os membros do regime franquista foram comprando novas roupas para se vestirem à moda europeia sem abandonarem o poder. E isto tem muito a ver com as línguas.

Continuemos.

Chamaram o prof. Carvalho Calero para construir um primeiro modelo de norma para a escola. Na altura era uma autoridade universitária por méritos próprios, com um labor científico inquestionável, mas logo se viu que tinha um determinado “problema” pessoal: mantinha ainda os valores republicanos e quis, antes de mais, ser honrado.

A sua ideia foi oferecer uma tímida proposta de acordo para esse momento sobre a língua. “Partamos a diferença” diriam numa feira. E Carvalho falou: vamos propor a escrita da nossa língua quer com “nh” quer com “ñ”10, mas não vamos impor ou perseguir ninguém por como decida escrever.

Não era exatamente isso que tinham em mente as pessoas que mandam.

Porque isso abria a porta ao debate. E em palavras dum desses homens pequenos11 que recordam o rei solitário do principezinho, “eu tenho o poder, quem tem o poder nada tem de debater”.

O silêncio institucional para Carvalho12 quebrou-se 40 anos depois. Hoje, em 2020.

Procuremos enxergar o ponto de situação desse momento, ali, na passagem de 70 para a década de 80: a língua da Galiza era totalmente maioritária, mas ainda proscrita na esfera pública oficial. Tal e como Portugal sob Marcello Caetano, a Galiza de Franco era oficialmente um lugar em que nunca se passava nada, e em acréscimo ao “nada acontece” oficial, aqui apenas “existia” o castelhano.

A língua inexistia apesar de ser língua geral da população. Mais um silêncio dentro do silêncio.

E isto era um clamor impossível de manter oculto ao se iniciar a transição espanhola. Era inevitável permitir a entrada da nossa língua na escola, e não apenas que se pudesse falar sem punição13, mas também escrever e (até!) estudar uma língua que até esse momento (de novo o silêncio) “não existia” oficialmente para além das multas a quem se excedesse no seu uso ou defesa pública14. A língua da Galiza, o galego, ia entrar na escola.

Galego na escola, qual galego iriam permitir na escola os gestores franquistas?

Os gestores da transição espanhola tinham um problema ideológico, motivo principal da nossa discrepância. E qual a origem da discrepância radical das posições sobre língua na Galiza? A origem parte destes dois pecados, intoleráveis a olhos do contrário, que a seguir tentarei explicar:

Por um lado o pecado de quem defendeu regenerar a língua comum usando a variedade livre da língua (o português, língua oficial noutro estado fronteiriço). Isto dentro dum Reino com as fronteiras com passagem condicionada. E em que até bem pouco tempo as fichas policiais marcavam “criminosos” com apelidos como “galheguista”, “lusista” ou “separatista” se estes se excedessem na sua defesa doutra cultura nacional diferente à castelhana.

Pelo outro lado o pecado de quem possuía o poder para governar e devia aceitar o galego na escola, mas marcando uma clara linha vermelha: a maneira em que o galego se escrever nunca poderá dificultar a aprendizagem do castelhano. A única língua culta, completa, imprescindível, obrigatória, será o castelhano.

Nesse braço de ferro já intuem quem manteve o poder para, mais uma vez, se impor.

Uma clara linha vermelha: a maneira em que o galego se escrever nunca poderá dificultar a aprendizagem do castelhano. A única língua culta, completa, imprescindível, obrigatória, será o castelhano. Nesse braço de ferro já intuem quem manteve o poder para, mais uma vez, se impor.

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Cena terceira – Chicória por café

Agora pensemos nisto: como fazer que as próprias horas destinadas à aprendizagem duma língua não interfiram em que se esteja a aprender uma outra língua?

Sei, é preciso ler de novo.

Leiam novamente se faz favor: Como fazer que as próprias horas destinadas à aprendizagem duma língua não interfiram em que se esteja a aprender uma outra língua?15

Para continuar a explicar este assunto será preciso entrar, com pés de lã, na área da sociolinguística introduzindo mais um conceito nesta nossa conversa imaginada.

Para quem trabalhamos na área da língua existe um conceito que explica muito bem um determinado uso linguístico de aplicação entre castelhano e português.

É o conceito de Interlíngua.

Uma interlíngua é em origem um falar fruto duma necessidade prática. É usada por falantes fronteiriços entre dois países de línguas próximas. A interlíngua é um elemento útil nas transações de fronteira por exemplo entre a Argentina e o Brasil, chamada ali de portunhol16.

Porém, se se pretender usar essa língua momentânea como modelo para a codificação duma suposta nova língua terá um problema de prestígio social.

Ninguém numa sociedade de classes à europeia vai querer manter esse falar além do estritamente necessário. E vai sim querer aprender corretamente a língua do estado ao qual pertence (e aquela que as classes altas dos respetivos países utilizam).

O uso de línguas tem uma relação complexa com as estruturas de poder que transcende este texto e desviaria o foco do seu assunto principal, que é olhar por baixo do tapete. Por causa disso, fiquemos por enquanto com a ideia de que uma interlíngua desse teor poderá durar 50 ou no máximo até aos 100 anos úteis na era digital mas acabará por desaparecer, fora de usos ritualizados, para evitar duplicidades inúteis.17

As pessoas não são parvas, mas essencialmente práticas no uso das línguas, e ninguém, se puder escolher, vai preferir um sucedâneo mas irá antes diretamente usufruir do original, como acontece com a chicória frente ao café.

No caso da escola galega, o café é claramente castelhano.

Em contraste, uma língua europeia como a nossa anda hoje pelos 1200 anos e continuará a vigorar no futuro. Por isso, se nos permitirem livremente oferecer cafés para todas, também na escola (e quem já experimentou sabe disto), melhor é sempre o café português.

Uma interlíngua é estudada, aliás, como uma armadilha para os utentes que quiserem dominar as duas línguas. Parece que avançam muito rápido ou mesmo acharão que dominam com certo grau de competência as duas línguas, mas a língua ambiental dominante impregna todo o modelo18. No melhor dos casos dominarão apenas uma das línguas: a língua do estado. No pior, nenhuma. Evitarmos essas interferências e decalques sem existirem limites claros entre as duas línguas é complexo e esgotador.

A proposta de escrita inaugurada em 1980 parece-se muito com uma “interlíngua” galega, ou luso-espanhola. É aquilo que podemos chamar de “pão para hoje e fome para amanhã” a respeito das competências reais dos escolares galegos: meia língua (galego) versus língua e meia (castelhano) ou, se quiserem, uma das línguas de pé coxinho e a outra, a língua a sério, com duas pernas e meia.

E sim, no tema da língua houve quem pretendeu conscientemente vender fome como ideia de futuro e uma modelo literário de perna e meia.

Há também quem prefere falar nessa grafia escolar à castelhana como um autêntico Cavalo de Troia19, uma outra imagem esclarecedora.

A proposta de escrita inaugurada em 1980 parece-se muito com uma “interlíngua” galega, ou luso-espanhola. É aquilo que podemos chamar de “pão para hoje e fome para amanhã” a respeito das competências reais dos escolares galegos: meia língua (galego) versus língua e meia (castelhano) ou, se quiserem, uma das línguas de pé coxinho e a outra, a língua a sério, com duas pernas e meia.

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Cena quarta – Despolitizar a língua? Um passo em frente, dois passos atrás.20

Assim sendo os nosso pecados originais, cada um os seus, são irreconciliáveis porque partem também de posicionamentos políticos, de maneiras de entender a vida e a sociedade.

Sim, essa palavra que escorrega da boca porque ninguém quer pronunciar. Mas, se até a vida íntima é política (como demonstraram as feministas) como a língua pública não iria ser um assunto da política?

E para falar em política há que falar das origens ou de “quem vem sendo21 cada uma das partes:

Quem possuía o poder do franquismo após Franco, ou quem mantém a chama da memória do que estes “fizeram” e ainda hoje querem que não se saiba.

Galegos não temos um verdadeiro Museu Nacional Resistência e Liberdade22. As nossas Torres do Tombo23 dispersas e mal localizadas têm às portas fechadas aos investigadores dos excessos da PIDE24. A nossa memória continua resistente e não institucional. O silêncio é clamoroso. Nisso temos uma grande dívida pendente, permanente.

Baste lembrar que o primeiro presidente democrático da Galiza, Afonso R. Castelão (o nosso Teófilo Braga) é lembrado hoje socialmente como um grande pintor, cartoonista e escritor ou até um grande pensador25, mas nunca oficialmente como presidente do governo galego no exílio.26 Passados 80 anos. Presidente inexistente dum governo inexistente.

Mas para darmos mais dados e voltarmos só à língua – Década de 1980:

Uma série de manobras políticas possibilitam o chamado “Decreto de Normalización”, uma lei que em 1983 impõe a grafia exclusiva do castelhano e proíbe os usos do português na Galiza.

Este decreto foi elevado a lei pelas manobras de muitos homens, sim sempre homens,27 do regime político saído do franquismo; citaremos apenas Filgueira Valverde, por nomear uma dessas autoridades públicas do regime franquista que condicionarão o modelo de “oficialidade” do galego28.

Até hoje foram bem pagos por isso. Honras para os franquistas29, silêncios para os democratas republicanos.

Isto traz um outro assunto à tona: um amigo comentava o outro dia como era possível não existirem praticamente biografias a falar criticamente da vida de certos autores galegos colaboracionistas do franquismo, e mais uma vez o silêncio é uma palavra dolorosa na Galiza.

Parece que os membros do fascismo não só fizeram barbaridades, não apenas governaram e roubaram todo o que eles quiseram, não só ocultaram a história dos democratas, mas tiveram bem tempo para apagarem as suas pegadas e até tentar passar por cordeiros na terra dos lobos.

Nesse sentido, livros de atualidade editorial que se debruçam sobre esses silêncios que nos trespassam, como o “Seique” da profª. Susana Sanchez Aríns (disponível em português original30), falam mais de língua e do que “acontece(u) com a Galiza” que qualquer outro artigo que possam ler em revistas especializadas. Justiça, reparação, verdade… Matéria pendente.

Por estes silêncios na Galiza há cordeiros que mostramos os dentes e lobos que aparentam cordialidade. Nomeadamente quando se reduz a questão da língua a um simples debate técnico entre iguais, como sim poderia acontecer noutros países livres entre defensores ou detratores do Novo Acordo, por colocar uma evidência.

No caso dos galegos, em 189431 ou em 2020, só há dois posicionamentos extremos a marcarem o futuro. Posicionamentos que quando levados à pratica moldam-se à mistura, justificam-se ou suavizam-se, sim; com todas as nuances que quiserem e por todo o tipo de razões (laborais, falta de formação, erro de análise, negativa a aceitar a realidade, interesses espúrios ou mesquinhos).

Mas são estes:

Ou defendermos a sério a continuidade e o ensino da língua nacional protegendo e promovendo para isso a sua unidade essencial32; ou continuar a vender chicória e fogos de artifício33que são inoperantes e favorecem o avanço do castelhano.

Ou dito em palavras do prof. Carvalho Calero, só dispomos de duas alternativas: “o galego, ou é galego-português, ou é galego-castelhano, não há outra alternativa”.

Ao que qualquer conhecedor da permanência das interlínguas na era digital permite-nos trocar, sem meias tintas, a ordem dos fatores: “o galego, ou é português-galego ou é castelhano-galego”. O resto em termos históricos tem a data de validade dum iogurte.

Uma série de manobras políticas possibilitam o chamado “Decreto de Normalización”, uma lei que em 1983 impõe a grafia exclusiva do castelhano e proíbe os usos do português na Galiza. Este decreto foi elevado a lei pelas manobras de muitos homens, sim sempre homens,27 do regime político saído do franquismo; citaremos apenas Filgueira Valverde, por nomear uma dessas autoridades públicas do regime franquista que condicionarão o modelo de “oficialidade” do galego28.

* * *

Cena quinta – A vitória das perdedoras, na terra em que ninguém se demite

Se até aqui chegaram, faltam ainda mais uns temas para tratar.

Muito bem, imaginemos que esta foi a situação. Mas o passado, passou, e lá foi e já era…

Mas, e agora, agora quê?

Isto tudo tem as suas consequências no presente, não tem?

Há uma boa notícia: Não há becos sem saída.

Agora toca é gerirmos a derrota entre todas, mas para isso faz falta primeiro recuperar memórias como estas e abrir debates como os atuais. Aceitar que muito aquém de continuar súbditos caladinhos desejamos antes ser cidadãos que falam.

Nisso andamos, e bem encaminhados ao que parece.

O debate é a nossa vitória.

Porque os debates por muito que se pretendam apagar sempre acabam por vir à tona.

E na Galiza, a língua é um debate que arrasta consigo outros debates.

Todos saudáveis, todos possíveis, num país normal.

O debate da língua é também a defesa do direito a existir do povo que a fala. É também um assunto de soberania política, de valores republicanos, de direitos civis, de igualdade social, de desobediência civil, de respeito pelas identidades diversas e pelas comunidades nacionais e sim, até de livre-determinação ou direito a decidir futuros possíveis. E nada disto é ilegal.

Qual debate técnico entre iguais?

2020 foi um bom primeiro passo para limpar o pus das feridas.

Repita-se em 2021.

Haja debates, e eliminem-se os impedimentos no uso da grafia portuguesa.

Mas não nos utilizem nem hoje nem nunca apenas para limpar as suas vergonhas.

Bem sabemos que este é o país onde nunca ninguém se demite. Os responsáveis continuarão a viver do público e a tirar os seus lucros. Não assumirão as suas responsabilidades.34 E contudo poderão aproveitar livremente do espaço que foi criado aos poucos para manter uma língua culta e universal35. A porta está aberta, também para eles, essa é também outra cara da nossa vitória. Aqui não há língua privativa. É assim, português, para todos, para todas.

O português na Galiza nunca será o condomínio privado de ninguém36. É de todas.

Elimine-se pois a discriminação37.

Comecemos pelo princípio mais básico: A palavra lusistas tem de deixar de ser associada a sermos criminosos por delitos de lesa-pátria38 e significar aquilo que é: pessoas preocupadas com o presente e o futuro da língua, aqui, onde nasceu.

Franco acabou, Filgueira acabou. Fraga? Acabou.

Podemos dizer, sim, que a Galiza dos três F já morreu.39

Morreu o demo, acabou-se a peseta40.

O debate da língua é também a defesa do direito a existir do povo que a fala. É também um assunto de soberania política, de valores republicanos, de direitos civis, de igualdade social, de desobediência civil, de respeito pelas identidades diversas e pelas comunidades nacionais e sim, até de livre-determinação ou direito a decidir futuros possíveis. E nada disto é ilegal.

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Epígona –Chega de poesia.

Na canção dum grupo de rock galego de 90 ouvia-se: Não temos medo, temos é fome!41. Fome de normalizar a nossa relação com o português e cansaço ao vermos a sua presença oficial permanentemente na corda bamba. Queremos café já, e queremos café já de manhã.

Quarenta anos de autogoverno galego42 são já muitos anos à espera do português, por isso, agora, se faz favor, já sem mais chicória nem mais palavras ao vento: Rádios nas ondas, televisões gratuitas em aberto, oferta de português em todos os centos de ensino, livros nas bibliotecas, opção em informações institucionais43 e nas campanhas oficiais de promoção das línguas.

Lancemos as bases dum futuro melhor. Talvez assim, só talvez, com todos os apoios e ferramentas disponíveis consigamos recuperar a língua e inverter a tendência atual44.

Está tudo pronto nas leis europeias, espanholas e galegas45. E também na prática está tudo por desenvolver a sério. Repito as prioridades: Receção de rádios e televisões portuguesas, paridade legal para quem edita em português, compras de livros e imprensa em português nas bibliotecas,… com destaque para o português no ensino público46 (em que o número de especialistas contratados é ínfimo, claramente ridículo). Acabem já com os fogos de artifício. Urge democratizar e generalizar o livre acesso à língua portuguesa, acesso que por enquanto continua individualizado e condicionado através do castelhano47. Ou dito “à moderna”, passarmos à fase 348 de desconfinamento da língua. Livre trânsito. Sem trânsito condicionado por margens estreitas.

Somos cidadãos da união europeia. Não está escrito em lado nenhum que galegos que vivemos em português tenhamos que ser cidadãos europeus de segunda categoria. Por isso será preciso atender sem mais delongas este assunto num outro patamar. Três são os cenários possíveis: Governo galego pode ratificar o Novo Acordo Ortográfico49; em alternativa pode tornar oficial o português; no mínimo pode considerar verdadeiramente prioritária essa “língua estrangeira” ao lado do atual galego institucional, o que pode ser feito com vontade política como temos visto com o inglês50.

Qualquer um destes três cenários assegura uma igualdade real entre quem quiser continuar a grafar à castelhana e quem contra vento e maré estivemos a tentar viver com normalidade o facto de usarmos a grafia comum. E não só assegurará os direitos dos utentes de português na Galiza, mas maiores e melhores condições de língua ambiental para quem usar a atual norma institucional.

Dará aliás um acesso a esta riqueza também aos castelhano-falantes, muitas vezes grandes esquecidos destes debates e para quem este património comum é língua de herança que podem reclamar e aproveitar para si. Ouvimos dizer que a língua é a única herança que quanto mais partilharmos mais valor nos devolve a todos. Na Galiza, o português é também a única língua promovida por unanimidade em que se uniram as vontades e identidades diversas do nosso país51. Aproveitemos esta vantagem para construirmos uma sociedade coesa.

Binormativismo52 ou cooficialidade, o nome não interessa. Equiparação. É a solução mais simples na atual situação. Já agora, lembra, e muito, à solução proposta pelo prof. Carvalho na década de 80. Agora adaptada ao século XXI: sem impor nada a ninguém permitamos oficialmente ambas as grafias. Partamos a diferença, falemos de igual para igual, haja aceitação e acordo.

Porque ou comemos todos ou há moralidade53.

Binormativismo52 ou cooficialidade, o nome não interessa. Equiparação. É a solução mais simples na atual situação. Já agora, lembra, e muito, à solução proposta pelo prof. Carvalho na década de 80. Agora adaptada ao século XXI: sem impor nada a ninguém permitamos oficialmente ambas as grafias. Partamos a diferença, falemos de igual para igual, haja aceitação e acordo.

 

1PT_GL→Muitas pessoas na Galiza escrevem com grafia portuguesa e procuram viver o seu dia a dia com normalidade. Este texto não é para dar voz a essas pessoas, pois já existem muitos textos magníficos como por exemplo estes que recomendo ler e em que se poderão sentir representadas neste assunto, que é de todos:1 Uma Galiza onde Carvalho pudesse ser, 2 Utopia da língua, 3 O haver e o existir, 4 A necessidade de uma biconcordia, 5 Na pag. 3, I+U + i, 6 Língua literária do meu povo

ES_GLMuchas personas en Galicia utilizan el castellano para vivir en su día a día e incluso tal vez se sientan poco interesadas en debates tal y como el que aquí se trata. Este texto no es para dar voz a esas personas, pues otros textos como este o estos, que les recomiendo leer, podrán ser más útiles para oir una voz que hable por y para ellas en este asunto, que también les afecta, porque es de todos.

GL_ES→Muitas persoas na Galiza utilizan a grafia do castellano para grafaren a nosa língua común e séntense suficientemente representadas no actual galego escolar. Este texto non é para dar voz a esas persoas pois outros textos e opinións serán máis adecuadas para ouviren a súa voz neste asunto que é de todos; por exemplo este ou este último, que recomendo ler e de quen apañei e adaptei dúas ideias que gostaria de destacar:

“Carvalho devia ter sido ser uma escusa para falar das potências e diversidades que a história nos deixou, e também para ouvir os outros e as suas razões.” (…) “Como em muitos outros debates de identidades, a destruição completa e incondicional do rival, acompanhada da manipulação da sua história, continuava a ser o único modelo”.

PT_PT→ Aos leitores portugueses. Muitas pessoas na Galiza escrevem em português e procuram viver o seu dia a dia com normalidade. Muitas mais ainda falam uma sorte de português peculiar (se tivesse de ser definido em poucas palavras, um português à moda antiga ou arcaizante). Neste texto, e em todas as outras notas e esclarecimentos encontrará informação que poderá ajudar a ter uma visão de conjunto sobre esta problemática que, de relance, também lhes afeta. Afinal estamos a falar, no quadro da UE, de uma língua partilhada, que é de todos.

2As razões para escrever este texto nada têm a ver com as associações relacionadas com a língua portuguesa de que faço parte. Estas são formadas por pessoas com opiniões diversas e têm posicionamentos públicos que podem ser pesquisados nos seus respetivo órgãos de comunicação. Também nada tem a ver com o meu labor docente para o que guardo com zelo profissional uma imparcialidade e cordialidade fundamentais na minha profissão.

→É antes a encomenda de um bom amigo a quem lhe devo ter aprendido a importância de abrir debates silenciados: Xico Paradelo. Também aqui poderão ler as suas respostas numa boa entrevista sobre Carvalho Calero que todos deveriam ler. Agradeço também as outras pessoas que leram o texto previamente, partilhando as suas impressões, Maria, Valentim, Ãngelo, obrigado!

3O carro por Concha Rousia, da AGLP

4 Diz o provérbio: “De poetas e de loucos todos nós temos um pouco”.

5Nome dado pelos seus habitantes mais próximos à fronteira luso-espanhola entre a Galiza e Portugal.

6Imprescindível o seu “Estudos galego-portugueses”.

7Incontornável a sua colaboração com a Comissão Galega do Acordo Ortográfico, mas isso faz parte doutros silêncios que não o de hoje. Há um volume da AGLP com trabalhos dedicados a Ernesto Guerra da Cal

8 Carvalho Calero, Reticências... (1986-1989) (1990). editora Sotelo Blanco : Como puidemos viver?...Na escola, os nossos filhos aprendendo/
 a condenar-nos,/ a desprezar-nos, a/ denunciar-nos, a falarem na língua/ com que insultados fomos e julgados/  réprobos, e na qual foi estendida/
 a acta que nos levou/ ao paredom, ao cárcere, ao desterro;

10 Com: nh – ñ→ a minha casinha – a miña casiña, ou com lh – ll → filho – fillo

14Livro:Os Borbóns:unha monarquía escandalosa:A herdanza do franquismo pag. 131.Também publicação A repressão franquista na língua

15As regras gráficas e de acentuação são as castelhanas para o castelhano e para a língua da Galiza. O galego é em múltiplas ocasiões comummente explicado desde o castelhano.

16 Vide: O portunhol: língua, interlíngua ou dialeto. Na Galiza existiu uma interlingua usada nas feiras e nas relações com os falantes de castelhano. Chamada de “castrapo” ou “língua de trapo”, posteriormente serviu para fazer burla de quem pretendia, sem saber, falar castelhano. Foi um nome usado também para criticar o galego escolar por razões óbvias

17 So, in 2080’s galego with “n til” will be burned out.

18O que nos transportaria a falar de “input” e “output” na aprendizagem de línguas, poderá descortinar algo sobre isto aqui e aqui.

20“Quando se trava uma luta prolongada, tenaz e apaixonada começam a delinear-se, geralmente ao fim de certo tempo, os pontos de divergência centrais, essenciais, de cuja solução depende o resultado definitivo da campanha, e em comparação com os quais os episódios menores e insignificantes da luta passam cada vez mais para segundo plano.”Prefácio. De quem roubo a cita: 1904 Lenin

21É a maneira em que na Galiza tradicional se perguntava a que família ou casa pertences “e tu de quem vens sendo?”

22Justiça,verdade e reparação da memória antifascista em Portugal bem de longa data. O Museu.

23Arquivo Nacional de Portugal, integra toda da documentação da repressão policial do salazarismo. Consulta é aberta a investigadores e familiares.

24Em Espanha Brigada Político-Social e Guarda Civil franquistas.

25 Carvalho Calero: “eu professo a respeito da língua as ideias de Castelão” de novo na entrevista R. Reimunde.

26Na Galiza só é contabilizado como primeiro presidente galego um homem do regime franquista que ninguém votou em urna: Antonio Rosón, https://www.xunta.gal/os-anteriores-presidentes.Ao contrário do que governos basco e catalão, por exemplo, que registam publicamente os seus presidentes republicanos no exílio como presidentes oficiais,. A.D.R.Castelão foi Presidente do Governo galego no exílio no período 1945-1950.

27Sobre hegemonia masculina na construção do sistema cultural fala-se neste artigo.

28Presidente franquista da C. Municipal de Pontevedra (1959-1968), membro das Cortes franquistas até 1971, desde 1982 foi o (Ministro-)Conselheiro de Cultura da Galiza. O decreto com a imposição da grafia castelhana na nossa língua foi conhecido como “Decreto Filgueira”. Existe um documentário com esse nome.

29Último parágrafo deste artigo “com ñ de Galaxia”. Convém referir que Franco foi membro honra da RAG até 2009.

31El regional Diario de lugo 9 janeiro 1894 na capa do jornal, também acessível aqui. Podem ainda ler para uma aproximação no campo político-cultural, Portugal nas velas do galeguismo do prof. Elias T. Feijoo.

32Como exemplo a campanha ao PE de 2006 Texto, reportagem

33Mostra de fogos de artifício a que a classe política nos tem habituados com muitas boas palavras e boas vontades a respeito de promover a língua própria e do português mas que ficam em águas de bacalhau dia sim e dia também.

34Neste artigo abordam essa questão

35De novo a referência: Língua literária do meu povo

36Lei ILP Paz Andrade é exemplo de acolhimento de todas as sensibilidades.

372016 -Manifesto fim do apartheid – Nós televisión

3817-06- 2019: operação lusista Nós diário, Diário de Notícias.

39Tal e como o Portugal dos três F: Fado, Fátima, Futebol.

40Dito popularizado durante a ditadura pelo teatro de fantoches “Barriga Verde” para acabar as suas encenações.

41Canção: “Ghaiteiro” – Os diplomáticos de Monte Alto

42 + – 1980-2020

43Em todas, e não unicamente no DOG, como referido no artigo do prof. Gonzalo Constenla em Nós diario

44Dados da queda de uso da língua com a atual política linguística

464 vagas, fruto não de políticas públicas mas duma luta constante do movimento social, leia-se Alcançar a utopia.

47Passaremos dos lemas vazios aos factos que transformam?” No fim deste recente artigo: Um tempo novo

48Passarmos do lusismo platónico às políticas concretas e efetivas. A respeito disto, de leitura obrigada, nomeadamente o resumo final deste artigo Galiza e o Espaço Lusófono. Também, como base consensual, conclusões do Congresso do IGADI de 2019.

49Talvez poderá ser aprovado o Acordo num início de maneira mais tímida como “ortografia internacional do galego” para o seu uso em política exterior mantendo paridade legal no território com a atual “ortografia interna”.

51Mais uma vez ILP Paz andrade, como exemplo de acolhimento de todas as sensibilidades. Para saber mais vídeo

52Conceito que se refere a legalizar (ao lado das hodiernas), ou estas normas ou as do Acordo.+Info: Binormativismo:

Luís F. Figueiroa

Luís F. Figueiroa

Licenciado em Filologia Portuguesa (Estudos portugueses), professor e ativista da língua. Atualmente é membro da diretiva da AGAL e da DPG-Docentes de Português na Galiza.
Luís F. Figueiroa

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  • Ernesto Vazquez Souza

    Belo esforço, mas falar para xordos é falar para o vento.

    Verdade que há entre isolos radicais (e caraduras profissionais assimilados) e as mil tribos reintegratas um espaço indefinido de pessoal que seguindo a corrente institucional por causa diversa (e mesmo por pão) é sensível ao reintegracionismo, reintegratas utópicos, ex-reintegratas realistas e gente que até acha que teoria reintegracionista é mais ajustada… porém falta prática, constância e decisão… falta aprender a escrever e anos de hábito…

    Compensa tanto esforço, a uma e outra parte? e interessa desentender outras vias já empreendidas para que essa gente já convencida movimente um passo que não pode/quer dar por causa do rendimento que perde ou do esforço que supõe?

    mal negocio, amigos…

    • luiz

      Bom dia caro, acho não era esse o ponto do meu texto. Nunca falaria para os surdos, eu nada tenho a lhes dizer nem eles a mim, o meu “target” e intenções são outros. Peço para leres de novo.

      Grato pelos comentários

      • Ernesto Vazquez Souza

        Daquela é que não entendi nada… lamento… desculpa ter comentado.

    • Miguel-Anxo Varela

      Bom dia, caro Ernesto. Desculpe as confianças.

      É certo que entre os reintegracionistas não existe uma total coerência normativa. Não há unidade. Mesmo se eu reviso os meus textos tenho certas incoerências e defeitos inconfessáveis numa reunião formal.

      Mas como poderia ser doutro jeito? Os galegos temos uma língua minorizada e reduzida nos ambientes urbanos a uma pequena câmara de amigos e familiares. Vivemos isolados em pequenas células galegofalantes num mundo hostil, no que mesmo os supermercados galegos chamam “moña” ao molete de pão galego.

      A posição actual da AGAL é a de recomendar mas não obrigar a fazer certas escolhas. Anteriormente havia lutas entre coração-istas e coraçom-istas mas hoje essa rivalidade sumiu. Já não temos dous ou três bandos no reintegracionismo senão uma família diversa que abrange desde quem escreve em português até quem continua a escrever como fazia Dom Ricardo. Acho que é uma posição inteligente e sobre todo necessária na que a realidade do galego é que não temos uma unidade real.

      E poderíamos pensar que na outra beira, a da oficialidade ou oficiosalidade RAG como a norma é mais restrita sim temos unidade. Mas… Onde vai essa unidade? Os textos raguianos, mesmo os oficiais estão inçados de castelhanismos, de incorrecções que a sua própria norma não aceita. Mesmo sendo uma norma permissiva com a castelhanização, semelha que as concessões não chegam. E isso falando só dos textos revisados, que tentam ser algo normativos. Mas a grande maioria dos textos que as estatísticas recolhem como normativos nem seguem norma nenhuma. Na maioria são textos que seguem uma oralidade pouco cuidada tentando transcrevê-la com ortografia… Do espanhol. E como o resultado é algo semelhante à grafia RAG pois… isso é normativo também.

      Aparte é possível mesmo sermos bastante “lusistas” usando norma RAG. Maragoto mesmo tem escrito um livro sobre o tema.

      Em resumo: não há unidade de tipo nenhum entre os galego-falantes ou galego-ortografantes. E nem a existência duma norma “oficial” ajuda nisso. Mas sobre todo, como poderia haver tal unidade? Os reintegracionistas além de isolados entre nós, não tivemos escolarização em galego reintegracionista nem português. E o ensino do galego, utilizando uma norma que tem como objectivo invisivilizar a língua galega perante o castelhano pois… Conseguiu o tal objectivo. Ficou invisível, fixo da escrita do galego apenas um anexo da escritura da RAE e por isso a auto-exigência na norma não é assumida pola maioria. Os galegos em geral temos muita mais competência em castelhano do que em galego e da norma quase ninguém lembra a diferença da norma RAG com a norma RAE. Eu não poderia culpar nem a professores nem a alunos por isso. A própria norma está mal pensada, porque é muito mais difícil lembrar nuances do que diferenças grandes.

      • Ernesto Vazquez Souza

        não te preocupes, ando muito despistado ultimamente… nem entendo nada do que acontece no reintegracionismo, nem no mundo galego em geral… e também não me dou explicado bem…

        tudo de acordo…

        Saúde

      • Ângelo Cristóvão

        Comentário interessante.
        Seria interessante descrever a situação galega, com toda a variabilidade oral e escrita, com um método contrastivo, o das comunidades linguísticas que construiram uma língua nacional na Europa. Vale a pena o esforço de olhar para o que acontece noutros países, o que nos levará a perceber onde estão as carências locais.
        O problema não é só a esmagadora superioridade social e política do castelhano, é que na raiz do assunto está a ideia mesma de língua galega e a relação entre o sujeito (utente) e o objeto (língua oral e língua escrita). Uns artigos de António Gil sobre o conceito de Diglossia na obra de Ferguson advertiam da necessidade de convivência entre a variabilidade oral e regional, para uns usos e espaços determinados, à par da norma culta, talvez só para outros âmbitos de uso. Ele denominava ‘Correlacionamento Diglóssico’ a esse fenómeno existente, por exemplo, no alemão ou no árabe. A ideia de Língua nacional está associada intimamente à ideia de correção, de uso correto, e de níveis de uso diferenciados. Toda a gente sabe que este esquema não cabe na ideia de galego que nos venderam as entidades assim chamadas “oficiais”. Parece que mesmo sociolinguistas destacados do nacionalismo galego, como Francisco Rodriguez e Pilar Garcia Negro, não chegaram a incorporar este esquema de diglossia interna, e desses erros se alimentam os nossos problemas.

    • Ângelo Cristóvão

      Penso que o texto de Luís tem como eixo o silêncio e os tratos voluntários ou forçados entre partes desiguais, nas suas diversas formas e causas. Silêncio voluntário, silêncio dos mortos, silêncio dos vencidos, silêncio dos vendedores de fumo e de fume…
      Aludindo ao que foi escrito: Silêncio Ajoelhado.

      • Ernesto Vazquez Souza

        mas a quem se dirige? quem é o destinatário? isso é que não compreendo…

        Ao reintegracionismo, reintegracionistas não, porque estamos de acordo… aos isolacionistas também não porque são propositadamente surdos…

        É como toda a mensagem da AGAL hoje… com quem falam? ou mais bem para quem falam?

      • Ernesto Vazquez Souza

        Não sei caros… é possível que seja eu que ando perdido ultimamente… mas não situo quem é o destinatário de tamanho, cuidado e profundo texto…

        E acontece-me ultimamente com a mensagem de boa parte do reintegracionismo (nomeadamente o pessoal de AEG, AGAL e plataformas e jornais reintegratas). Não compreendo para quem se está a falar nestes momentos, a quem se dirige a mensagem… ?

        Mas também é verdade que os leitores do PGL não são os de há 10, 15 anos, e que com o eco das redes sociais a mensagem chega a mais partes que eu não deteto.

        Talvez estamos noutra fase. E eu extraviei-me nalguma bifurcação anterior.

        Por outra banda… há não muito pensava nas teses do Gil a respeito das leituras de Ferguson e a diglossia, sim… sem dúvida – acho – haveria que retomar esse discurso… talvez republicar anotadas…

        saúde a ambos e obrigado pelas tantas dicas, esforços e exemplos

        • luiz

          ” pensava nas teses do Gil a respeito das leituras de Ferguson eFerguson e a diglossia, sim… sem dúvida – acho – haveria que retomar esse discurso.”

          Concordo, ao 100% .

  • Miguel-Anxo Varela

    Obrigado por recomendares o meu textinho.

    Gostei muito deste artigo. Acho que explica mui bem a realidade da língua hoje e fai-no achegando, mas também sem deixar de atender as verdadeiras causas e a história.

  • Ranieri Araujo

    Ao estudar latim deparei-me com a língua galega , próxima da minha língua portuguesa e passei a pesquisar e eu como brasileiro estou ao lado de vocês.