UM PAÍS TROPICAL

De sincretismos, conversões e circum-navegações



Os que já imos indo para velhos aprendemos, na igreja e na escola, o mito de que o cristianismo se espalhou de abaixo para cima, por virtude do trabalho heroico de missionários, os quais teriam frequentemente padecido o tão desejado martírio das carnes como infame pagamento pela sua paixão.

A realidade não deixa, pelo mero facto de ser um quase nada menos trágica, ou épica, de ser fascinante. A conversão maciça dos súbditos do Império Romano à cristandade produziu-se, não poderia ser doutro jeito, de acima para abaixo. Na casca duma noz, se me desculpam o anglicismo, foi assim: o imperador concede privilégios ao clero cristão e, ao se espalharem as novas, tudo quanto sacerdote havia no império declara-se cristão. Assim, da noite para a manhã. Não ficava outra, pois, se eles não se adaptavam ao novos tempos e alinhavam as suas crenças declaradas com as do poder, outros, mais espilidos, chegariam para ocupar o seu posto.

Mas, é claro, não é que os antigos druidas, agora já sacerdotes ou até bispos, se erguessem um bom dia e confessassem para a sua paróquia: “Olhai, todos os ensinamentos que fornecemos até hoje, todas as nossas crenças, eram parvadas. A verdade revelada é, désormais, muito outra” (NOTA: falavam assim afrancesado pela influência de Panoramix). Não, sendo como eram pessoas muito subtis e cientes do seu conhecimento do cristianismo ser, sendo generosos, superficial, o que fizeram foi adaptar progressivamente as suas doutrinas para í-las fazendo convergir com o que sabiam do novo dogma romano. Os concílios ajudaram muito.

Assim, aquela versão imperial do cristianismo, já de seu ultra-sincrética, foi ficando enriquecida com inúmeros elementos do paganismo indo-europeu, nomeadamente celta, como a trindade, até virar mesmo uma religião politeísta por virtude da exacerbada proliferação de santos, virgens e demos (antigos deuses dos panteões pagãos agora reciclados para novos usos).

Não podemos evitar perguntar-nos se aqueles druidas de antigo teriam começado por referirem-se ao cristianismo como “a religião irmã”. Até pode ser.

Já na Galiza de hoje, com isto da globalização e o advento da Internet, os druidas do nosso pátrio terrunho andam com dificuldades para continuarem a ocultar as vantagens práticas que se derivariam da adoção do catecismo lusista neste paisinho nosso. Peregrinam de concílio em concílio, nomeadamente além dos mares, onde o clima é mais propício e as suas argalhadas menos conspícuas, em desesperada procura de litanias e encantamentos mágicos que lhes permitam achar aquele harmonioso sincretismo, aquela angelical música sacra, aquele arrecendente pote da cachaça-queimada, que conjugue as velhas e novas doutrinas. The times they are a-changin’ e, se eles não ocuparem esses espaços, alguém mais o fará.

De facto, já o estavam a fazer. Embora desde as margens. Sim, porque humildes missionários lusistas, que havê-los há-os, já levavam décadas a espalhar a boa e ecuménica nova (e a sofrer o correspondente martirológio). Alguns deles andam agora zangados pelas, tão heréticas quanto erráticas, incongruências e miscigenações dos druidas pagãos (e o seu imerecido protagonismo!) . Mas tem de ser, amigos, tem de ser. É sempre de acima para abaixo que as circunstâncias mudam. Top-down. Ainda que os mitos sugiram outra cousa. Circum-naveguemos pois.

Edelmiro Momám

Edelmiro Momám

Miro Moman nasceu em Ferrol (Galiza). Morou na Galiza, EUA, Itália, Irlanda, França, Alemanha, Catalunha, Eslováquia, Luxemburgo e Rússia, país no que reside desde 2018. Para além de uma desmesurada paixão pela ciência, tem o vício de se interessar por tudo.
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  • Ernesto V. Souza

    XD XD XD… talmente… em cem anos a carão dos retratos de Carré, Lapa, Guerra da Cal e Carvalho teremos os de Filgueira, Pinheiro, Casares, Freixanes…

    apertas,

    • Miro Moman

      Nao em cem anos. Isto tem de ser hoje. Para representar a Galiza na lusofonia de forma eficiente sem esbanjar o investimento fazem falta perfis com uma visao clara da economia global e das relacoes e o comercio internacionais, nao provicialistas e dialetologos. E o modelo de lingua deve ser coerente com essa visao global. E o momento das caravelas (bom, ja era ha trinta anos). Isto ja nao e uma questao linguistica ou politica. E de sentido comum e sobrevivencia.

      • Ernesto V. Souza

        Sentido comum e sobrevivência… são palavras que não estão no léxico dos idiotas que mandam, e menos dos subalternos de espinhaço encorvado e lingua longa de lambe cus e sapatos que circulam pelas academias, universidades e gabinetes culturais…