Um tempo novo



reintegracionismoVamos começar este artigo com um exercício de imaginação. Pensem na sua área profissional e imaginem-se a ocuparem um lugar central nela. São uma referência fundamental, o que lhes acarreta muito trabalho mas também prestígio e outros benefícios. No entanto, nalgum momento começam a ser conscientes dum erro global no sistema e apresentam-se duas opções: advertir dele ou tapar os olhos. A primeira opção tem um dano colateral importante, perder a centralidade e ficar na margem. Que fariam?

Numa data tão significativa como 1980, afirmava Carvalho Calero a respeito da situação da nossa língua: a resoluçom destes problemas incumbe aos políticos. Aos estudiosos da língua corresponde-nos fornecer a informaçom precisa para essa resoluçom. O nosso autor optou por advertir.

Até esse ano os debates sobre a identidade da nossa língua não se projetavam sobre um padrão linguístico que abrangesse a totalidade da população. O galego não tinha qualquer tipo de oficialidade. Ora, com a transação, após a morte do ditador, abriu-se essa possibilidade e a questão, quem fala a nossa língua?, ostentou um valor central. Sobre o palco atuavam duas estratégias, em palavras do professor: o galego ou é galego-castelhano ou galego-português.

O ponto forte da estratégia galego-castelhana era que não questionava o statu quo, não se saía do guião, da realpolitik. O ponto forte do galego-português é que se saía.

O ponto forte da estratégia galego-castelhana era que não questionava o statu quo, não se saía do guião, da realpolitik. O ponto forte do galego-português é que se saía.

Em 1979 Carvalho Calero recebe um pedido do conselheiro de Educação e Cultura para se tornar Presidente dunha Comisón Lingüística que teria que abordar os problemas relativos às formas do galego que para o uso interno, para o uso oficial da Consellaria, terian de adoptar-se.

O resultado dos trabalhos não era, a olho nu, muito diferente do que se usa na atualidade nas escolas e na administração. Ora, a tal norma linguística marcava de uma forma clara a direção a seguir:

Deixamos aberta a posibilidade de unha ortografia, pois, mais histórica, ou mais económica, ou mais solidária de outras formas do románico-hispánico ao que o galego pertence, non só como práctica usual no futuro, senón como anticipo, a título experimental, en círculos cultos, segundo, por outra parte, xa se ven, notoriamente, ensaiando (…)

Porém, os técnicos advertem mas são os políticos os que legislam e resolvem debates. Neste sentido há um contraste importante com a Catalunha e Euskadi. Nesses espaços a hegemonia política estava, e está, na posse de elites políticas que focavam o catalão e o basco como línguas nacionais. Na Galiza, nas primeiras eleições em 1981, os dois partidos mais votados são Alianza Popular e a UCD, ambos nacional-espanhóis e muito ligados ao regime anterior. Ganha assim o statu quo, também na língua. Os problemas desta ficarão connosco, em grande medida porque os problemas não são uma realidade objetiva, o que para uns grupos sociais é uma contrariedade, para outros é um triunfo.

Um dos problemas tem a ver com a forma, é a dissolução do galego no castelhano, dado que non abonda con que se fale galego, é preciso que ese galego sexa galego, é dizer, que non sexa un produto que con nome de galego nos apresente un dialecto do castellano. O grau em que as falas galegas estão castelhanizadas só é possível de ponderar em contraste com variedades hegemónicas da nossa língua, por exemplo, a portuguesa ou a brasileira, da mesma forma que o peso do inglês no porto-riquenho se desvenda sob a lupa do castelhano.

O outro problema são os usos porque os tempos som inajeitados para a pervivência de línguas minoritárias. A facilidade e rapidez das comunicaçons, a frequência dos intercâmbios internacionais, exigem veículos linguísticos de difusom geral. Isto era em 1981, quanto mais em 2020. Afinal, a forma está condicionada polos usos que fazemos da língua. Se uma parte significativa do que a sociedade galega ouve e lê, está em castelhano, os discursos gerados por ela, inevitavelmente, vão estar condicionados por essa maré. Não estamos na Idade Média.

Somamos quase quatro décadas da oficialidade do galego em que se ignorou a advertência do autor que homenageamos neste ano: umha língua tam ameaçada como o galego nom pode sobreviver senom apoiando-se nas demais formas do sistema, quer dizer, reintegrando-se no complexo luso-galaico do qual geneticamente forma parte.

Somamos quase quatro décadas da oficialidade do galego em que se ignorou a advertência do autor que homenageamos neste ano: umha língua tam ameaçada como o galego nom pode sobreviver senom apoiando-se nas demais formas do sistema, quer dizer, reintegrando-se no complexo luso-galaico do qual geneticamente forma parte.

No entanto, o alicerce das políticas linguísticas oficiais foi, e é, estrangeirar as outras formas do sistema, renunciar às suas produções, o que obriga a construir a partir de zero, uma tarefa inabordável: ensaio, traduções, apps, software, tutoriais, informação, sites, audiovisual, jogos online, mass media, legendagem, filmes… A este respeito há uma ideia fixa entre parte do galeguismo: a responsabilidade é da Junta por não investir mais no galego. Isto acarreta uma visão do galego como sendo a locomotiva dos irmãos Marx: o que precisamos é de mais madeira. Ora, a chave não é o combustível, mas os carris e a direção. Todas sabemos que se não houver qualquer mudança estratégica vamos em direção a uma via morta. Isto é fácil de constatar conversando com docentes de educação primária em vilas ou concelhos rurais ou passeando polos seus parques infantis.

O alicerce das políticas linguísticas oficiais foi, e é, estrangeirar as outras formas do sistema, renunciar às suas produções, o que obriga a construir a partir de zero, uma tarefa inabordável: ensaio, traduções, apps, software, tutoriais, informação, sites, audiovisual, jogos online, mass media, legendagem, filmes… A este respeito há uma ideia fixa entre parte do galeguismo: a responsabilidade é da Junta por não investir mais no galego. Isto acarreta uma visão do galego como sendo a locomotiva dos irmãos Marx: o que precisamos é de mais madeira. Ora, a chave não é o combustível, mas os carris e a direção.

Se primasse uma perspetiva científica, era tão simples como seguir um esquema de ensaio-erro, descartar táticas falidas e experimentar outras novas ou usadas noutras latitudes. Ora, as línguas não são bactérias nem um software, envolvem identidades e portanto emoções e são sociais e portanto políticas.

Na Galiza há um grande número de pessoas que sente como próprio o galego com que foram sociabilizadas. Também é enorme a percentagem que acha que deveríamos aproveitar a nossa vantagem competitiva a respeito do português. Ambos os grupos partilham quase todas as suas unidades, e este é um facto a partir do qual é possível construir um tempo novo.

Para o conseguir, há perguntas que resolver agora, de vez: seremos capazes de fazer algo diferente ou teimaremos na derrota em câmara lenta? Seremos capazes de somar o melhor de cada estratégia? Integraremos as pessoas que vivem o galego como sendo uma língua internacional e as suas experiências, sobretudo a das crianças? Será que todas as estudantes do ensino obrigatório terão acesso e formação no galego internacional? Passaremos dos lemas vazios aos factos que transformam?

Não temos muito tempo. A boa notícia é que nom estamos isolados, depende de nós não estarmos sós.

[Este artigo foi publicado originariamente em Tempos Novos]

Valentim Fagim

Valentim Fagim

Nasceu em Vigo (1971). Professor de Escola Oficial de Idiomas, licenciado em Filologia Galego-portuguesa pola Universidade de Santiago de Compostela e diplomado em História. Trabalhou e trabalha em diversos âmbitos para a divulgaçom do ideário reintegracionista, nomeadamente através de artigos em diversas publicações, livros como O Galego (im)possível, Do Ñ para o NH (2009) ou O galego é uma oportunidade (2012). Realizou trabalho associativo na AR Bonaval, Assembleia da Língua de Compostela, no local social A Esmorga e na AGAL, onde foi presidente (2009-12) e vice-presidente (2012-15). Co-diretor da Através Editora e coordenador da área de formação. Académico da AGLP.
Valentim Fagim


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  • Miguel-Anxo Varela

    Caro Valentim. É exactamente como dis. Após estes 40 anos de esgotamento da estratégia do “galego pequeno” a realidade é a inversa: o que daquela parecia utópico, a abertura lusófona, hoje é mais realpolitik que nunca. E continuarmos com essa antiga política (daquela tão “realista”) e esperar que dê frutos no futuro semelha totalmente utópico. Mesmo suicida.

  • José Luís Maceira

    Magnífico e clarividente artigo, como nos tem habituados o autor.

  • Ernesto Vazquez Souza

    A primeira parte do artigo achei redonda. Nunca melhor dito.

    A segunda… provavelmente… estejamos às portas de um ciclo novo no reintegracionismo.

    Aperta

  • Arturo Novo

    Na minha inocência, eu o que não entendo é que depois de quarenta anos sem mover uma palha polo galego, continuemos aguardando não sei bem que das instituições oficialistas. O reintegracionismo tem que fazer-se à ideia; Estamos sozinhos!