O CARRO: O todo e as partes…

(Dedicado a todos os Desintegracionistas)



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O Carro é um universo complexo, cravado na memória dos tempos e da alma; praticamente insondável. Seria difícil, por não dizer impossível, conceber a realidade da Galiza se apagarmos a figura do carro. É provavelmente o elemento mais representativo da nossa cultura tradicional; da nossa cultura. Portanto antes de despedaçá-lo e falar das suas partes, devemos tentar entendê-lo, senti-lo, evocar o seu som… E chora-lo depois. Pois como disse eu naquele poema… Ele, o Carro, “é um ser vivo que se rende”.

Naturalmente o carro é feito de carvalho, não serve o pinheiro para isso, não; realmente o pinheiro na nossa cultura não serve para quase cousa nenhuma, apenas para botar umas tabuinhas lá no faiado para tornar os ratos, para evitar ter que gastar madeira de valor. Também não usaremos vido para construir o carro; o vidoeiro dá para fazermos o temão do arado, e a rabiça… Ligeiro, ajuda as vacas e o arador nas longas manhãs da arada…

O carro é mesa nos almoços lá no monte, o cesto de vimes brancos, como o cesto de apanhar a roupa branca, é colocado com a merenda acima do carro, a gente toda à sua volta. O carro é veículo, é no que vamos os pequeninhos e os velhos de pernas cansadas, para chegar à leira com fôlegos e ajudar no trabalho. O carro é lugar de deixar o meninho adormecer, deitado no selhado, sobre o chedeiro entre uns sacos, a salvo das serpes e outros bichos; protegido pelos ladrais, enquanto os adultos terminam de apanhar as batatas… Debaixo do carro, entre as rodas à sombra, dorme a Checa, a cadelinha mais fiel.

Após carregar o carro, de volta para casa, alguns apegarão-se aos estadulhos (os de Tosende, a aldeia daí ao lado, chamam-os de fungueiros, e também chamam o sedenho de adivalho, mas eles falam “mangheiro”) da traseira para que ajude a tirar polo corpo cansado, a caminho da aldeia. Hoje carregamos batatas e os estadulhos são pequenos, como os de acarretar o esterco; os estadulhos gigantes dormem na esquina do celeiro, como o jugo de aricar, até que venha o tempo de acarrejar o pão ou a lenha… Redondos e afiados na ponta para espetar neles os molhos da borda, quadrados no fundo, na parte que espeta e se entrega no buraco com essa mesma forma quadrangular que o manterá fixo no seu lugar na cheda; um buraco para cada um deles, nas duas chedas, pegando nos ladrais, custodiando a carga do chedeiro que hoje é boa e faz gemer as travessas. O pai carrega bem, faz o carro cantar, faz as lâmias calcarem a rodeira nas lajes da Pedrosa…

O carro é também para a festa, leva a mascarada de aldeia em aldeia nos tempos do entrudo, a juventude vai de a pé, polo caminho fora atrás do carro; os miúdos, e algum velho fantasiado de cego com uns lentes afumados, vamos sentados no carro, atrás da roda, sempre atrás da roda, nunca, jamais sentados na dianteira; Deus nos livre de cairmos e que uma roda nos passe por cima da barriguinha ou as costelas. O carro enrramado vem galhardo o dia que tracemos o ramo da carreja; os últimos molhos! Cerraremos a meda… Vimos alegres, cantando, o pai compõe suas trovas e o mundo é uma festa arredor do carro…

Chegado o verão o carro leva tudo quanto de lenço haja em casa para lavar no rio, mantas, lençóis, abrigos, camisas, casacos, manturras, sacos do grão, muradanas, sabelos de linho… tudo tudo tudo… As uchas e os armários são esvaziados no carro; e sabão e crianças para pegar o sabão nas mantas enquanto asolham nos campos das beiras do regueiro, e merenda, muita merenda, para botar o dia inteiro no rio… Volta tudo com cheiro a frescura, cheiro a Veiga, cheiro a canto de rã e rola, e grilo e paspalhã… Cansadinhos, os pés miúdos, sobem a encosta entre as roupas no carro, que molinho! é vem melhor vir acima das mantas que sobre as tábuas nuas do chedeiro.

Sobre o carro dentro da corte, o dia da matança, as mulheres estremam as tripas, antes de ir com elas no cesto lavá-las ao regueiro. Tu és pequeninha ainda não podes ajudar a apartar as tripas, não lhe chegas ao carro. O carro era a medida do meu ser mulher nesse dia, ainda não posso, talvez para o ano… Só mulheres estremam as tripas, poderei botar água no regueiro para ajudar. Depois à noite, e no carro que se bota a erva seca, o penso, para o gado. E ainda polo dia será o banco onde deitamos as ovelhas, os maçadoiros do linho não chegam, para rapá-las, o carro é melhor, bem melhor, sempre o carro.

É quando o carro vem muito carregado temos que pegar nele naqueles sítios tortos do caminho, ali onde pode emborcar; sempre se pega agarrando o sedenho ou a travadoira, com que se atou a carga; pega-se carregando o peso do corpo puxando pra baixo. Importante jamais pegar, nem com galha, nem com ombro, nem com nada, polo lado de baixo, para onde o carro pode emborcar. Posso eu ripar o carro da erva seca? As crianças sempre adoram pentear a relva com o engaço, ou a galha, que caia a que vai solta e não fique presa depois pelos caminhos nas ramagens das beiras envergonhando-nos. Um só não consegue roussar o carro, melhor dous na dianteira pegando pola chavelha do pinho e os outros atrás das rodas ou por onde caiba a mão, é bom fazer juntos, e bom sempre tudo juntos… Crianças ajudam e o carro roussa, entra de ceacu para guardar-se na corte.

Guardar o carro é especialmente aconselhável na noite do São João, quando a mocidade anda toda de ramboia e vão vir por aí à procura de carros para atrancar os caminhos. O carro é festa, corre que vamos pinhar o carro do tio Domingos que o deixou na aira e não há ninguém por ali agora… Todos subidos na traseira do chedeiro, alguns sentados no selhado, outros de pé apegados aos estadulhos, até que o pinho (pinalho) se erguia bem no ar, e então nos sermos sacudidos com o golpe, fazemos que salte até quase se sair do eixo… Conseguíamos endireita-lo de todo; movendo-nos depois para que se abaixe o cabeçalho, numa dança de chegar a conseguir manter o carro em movimento constante… O carro, hoje ocorre-se-me que era o nosso parque de atrações, a nossa montanha-russa.

O carro, a vida

O carro, o calor no inverno

O carro, o pão

A palha o grão…

O carro canta! carregado como vai, entre o eixo e as treitoira sente-se ameaça de incêndio, até mesmo estalarem as apeladoiras que apertam as treitoras contra o eixo, e o cloucom a estourar de calor; e lá escondido sob a cheda está essa conchinha de madeira, com forma de sapatinho, ou colher de rabo cortado, como este velho que guardo comigo, feito pelas mãos do pai, que agora nem que me matem sou capaz de lembrar como se chama; para guardar o unto, uma miga cortada do pão-de-unto curado no galheiro sob o caniço, procurando que não leve sal, para untar o eixo. Derrete e cheira a rixado, faz a fame vir mais depressa…

A minha irmã quando casou, com o de Fontarcada que é agora é-lhe o homem, queria ir no carro até o adro da igreja, e tirando do carro a Marquesa e a Toura, eram as que ainda viviam connosco, que vacas! Que seres sagrados, que nos criaram, nos deram o seu calor e levaram o carro pela nossa vida adiante: ao Castelar, a Santadraus, à Veiga, à Pedrosa, ao Aguiar, a Rei de Moinhos, a Guriz, Chão de Lamas, Agra, Fonte-cova, às Milharas, à Corujeira, ao Seixal, à Laborada, aos Marqueses, ao Raxado, Balsique, O Carvalho, à Besada, à Portelinha, à Lama do Santo, ao Prado Novo, A Alobada…

… O carro um amigo, um aliado, o carro, o carro, o carro…

* * *

Convidaram-no a ir à festa da casa grande, onde vivia o dono de tudo que ele trabalhava e muito mais… E ele, é claro, foi não podia negar-se. Ao entrar tirou a boina da cabeça enrolo-na e pegou nela na mão, como fazemos todos; ele era humilde, como eu –acrescenta o pai a cada vez que conta aquela historia, e ri com toda a dignidade que cabe na gargalhada pura…- Mandaram para passar adentro e ele, como não podia ser doutro jeito, passou; já na sala, reparou com a discrição que sabemos mostrar os do campo, admirando sem espreitar demais. Mas, é claro, como não ia o Manoel reparar no carro de bois que fazia da mesa, onde estava, um campo sonhado… Brilhantes bois, os olhos do Manoel obrigaram-no a deter-se mais do que a sua educação lhe permitia… ficou como menino na feira, olhando o chupa que lambem os outros.

– HMMMMMMM vejo que sabes reparar nas cousas que valem –disse uma voz que vinha cara ele pelo lado direito- O Manoel virou a cabeça e disse:

– OMMM, caralho…!

– E olha –continuou o senhor a dizer olhando o Manoel, são feitos, tanto o carro quanto os bois, em ouro maciço! –fez uma pausa e continuou- O que calculas que valerá mais: os bois ou o carro ? –O Manoel olhou para o homem, mediu a intenção das palavras que acabara e ouvir; reparou na gente que havia já por ali a espreita da sua resposta; pareciam todos prontos pra rir à sua conta.

O Manoel olhou à sua volta, mesurou bem o que ia dizer, depois olhou ao que o interpelara e disse:

Janeiro: geadeiro

Fevereiro: cada suco seu regueiro

Março: quanto a zorra molhe o rabo

Abril: aguas mil

Maio: louro (porque maio me molha e maio me enxuga: uma raça de sol e outra de chuva) e

São João: claro. VALEM MAIS QUE OS BOIS E O CARRO !!

Todos emudeceram, calados, ficaram danados, e o Manoel passeou-se com a cabeça bem alta entre os senhores. Que sábio jeito de fazer que aprendêssemos o verdadeiro, de que absorvêssemos tudo sem ter que ser “ensinado”, que mestres os nossos pais, que mesmo agora, neste futuro no que eles já não estão, nós ainda nos resgatamos com os saberes tantos que eles nos deixaram…

Sim, o carro tem partes, e tem memoria ancestral, não é preciso despedaça-lo para honra-lo… O carro, meu primeiro salão de baile, meu mundo em movimento, ele me fez sonhar com uma casa de rodas, antes de eu saber que existiam as caravanas.

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* * *

P.S.: Incomodada pela lacuna na memória perguntei os meus irmãos mais velhos se lembravam como era que se chamava o caixotinho esse com forma de colher ou concha, de guardar o unto para untar o eixo; e aí começou um grande debate no grupo de “Covas City” do Wasap… Eu sei que cuchara, e nem cochara, era a palavra que dantes se usava, mas já andamos tão castelhanizados… Terei que perguntar ao Estraviz, porque se perguntar aos desintegracionistas arrisco-me a que me informem de que cuchara é, como bueno, também já galego…

 

Concha Rousia

Concha Rousia

É vice-secretária da Comissão Executiva da Academia Galega da Língua Portuguesa, do Conselho de Redação e Administração do Boletim da Academia Galega da Língua Portuguesa (AGLP). Publicou poemas e outros textos nas revistas e jornais: Agália, A Folha da Fouce, Novas da Galiza, Galicia Hoxe, A Nosa Terra, Portal Galego da Língua, Vieiros, Momento Lítero Cultural. Prémio de Narrativa (2004), do Concelho de Marim, Galiza; Prémio de poesia (2005), do Concelho Ames, Galiza; Certame Literário Feminista do Condado (2006), Galiza, com o romance A Língua de Joana C.
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