O haver e o existir



Há livros que podem ser comprados, lidos com proveito, comentados, discutidos e, contudo, não existem. Poderá alguém julgar que há aqui uma incoerência. Mas não há tal, pois o haver faz referência a uma operação física, enquanto o existir remete para uma operação filosófica”.

Aproximadamente com estas palavras pretendia o sociólogo Lluís V. Aracil, em 1988, chamar a atenção do público. Foi num seminário organizado pola AGAL, em Ourense, em 1988, sob o título “Introdução à história social das línguas europeias”. Vinte e seis anos mais tarde, em 2014, a Associação de Amizade Galiza-Portugal publicou um livro com o conteúdo desse seminário, sob a minha responsabilidade, que presentemente distribui a editora Através. Um livro que ajuda a entender como e por que a nossa língua, no atual território da Galiza, passou da próspera situação na etapa medieval à preocupante realidade atual. Um livro que pode ser comprado. Porém, não existe. Como não existem, a teor dos cômputos e páginas de informação “oficial”, os 150 títulos publicados pola AGAL sobre diversos temas, ou os 12 títulos que a editora Através tirou do prelo nos últimos no último ano.

O mês passado, o abaixo-assinado “O fim do Apartheid” ultrapassava o milhar de assinaturas. Lançado publicamente o 3 de novembro na Livraria Pedreira de Santiago de Compostela, com sucesso de público, por Teresa Moure, Suso de Toro e Verónica Martínez, registou a segunda apresentação na Crunha o dia 17, na Livraria Sisargas, da mão de Xosé Ramón Freixeiro Mato e Eli Rios, pretendendo denunciar essa situação de “invisibilidade”, de exclusão institucionalizada, de censura prévia nos concursos literários e mesmo da impossibilildade de citação das suas obras. É esse apartheid cultural a que é submetida uma parte da cidadania, a que escreve conforme às normas do galego internacional. A que tem promovido a Iniciativa Legislativa Popular que se converteu na Lei “Paz-Andrade”. Essa parte da sociedade que também cria cultura galega, que também paga impostos e contribui a enriquecer o País.

Nas últimas décadas temos visto como se desfaziam muros e divisões persistentes na Europa. Conflitos políticos que ganharam protagonismo durante décadas estão agora atenuados ou encaminhados numa solução de entendimento entre as partes implicadas. Na Galiza, porém, continua vigente a sistemática exclusão do que chamam “heterodoxia lusista”. Por isso resulta chocante que as mesmas instituições e pessoas que em Santiago de Compostela, com orçamento público, continuam a fazer como se não existissem as instituições lusófonas galegas, pretendam representar em Lisboa, e em regime de exclusividade, a cultura da Galiza. A conclusão é clara e evidente para qualquer pessoa que conheça minimamente o assunto: dificilmente vai funcionar.

Muito por cima de teorias linguísticas ou razoamentos filológicos, a questão é de justiça, de essencial democracia e direitos civis, individuais e coletivos.

* Texto publicado originalmente em Sermos Galiza.

Ângelo Cristóvão

Ângelo Cristóvão

José Ângelo Cristóvão Angueira (Santiago de Compostela, 1965), licenciado em Psicologia pela Universidade de Santiago, especializou-se em Psicologia Social. Empresário. Vice-Presidente da Academia Galega da Língua Portuguesa e membro da sua Comissão de Relações Internacionais. Sócio Correspondente da Academia das Ciências de Lisboa; Sócio da AGAL desde 1983 e Sócio fundador da Associação Internacional dos Colóquios da Lusofonia.
Ângelo Cristóvão

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  • Celso Alvarez Cáccamo

    Pois. Mais claro não pode ser. A questão é que, neste universo possível, só o que existe “realmente” existe. Talvez seja isso (essa lógica) o que tenhamos que questionar, não o existir(mos). E é que nós não estamos “apartadxs” de nada, isto é, de nada que realmente mereça a pena. Por isso, estamos nas melhores condições de construirmos uma outra lógica, póscapitalista (sim) também no relativo aos valores da língua. Quem queira entender, que entenda.

    • Ângelo Cristóvão

      Justamente, Celso. Não estamos apartados nem afastados do que realmente merece a pena. A observação da realidade depende, em parte, do ponto de referência. E daqui, com estes vímbios, pode construir-se algo diferente. Quem pensar que os reintegracionistas desejam simplesmente substituir os do outro lado, mantendo o sistema cultural galego funcionando da mesma maneira, está enganado. De facto estamos a tecer outras redes, de outra forma mais independente e mais perdurável, sem dúvida.
      Ultimamente chegam-me notícias de algumas mudanças, talvez pequenas, mas significativas. Como o facto de a editora Urco abrir uma coleção em português. No Culturgal encontrei um livro de Carlos Quiroga, “Peixe Babel”.

  • Venâncio

    Ângelo:

    Aracil deu uma série de conferências «num seminário organizado pola AGAL, em Ourense, em 1988, sob o título “Introdução à história social das línguas europeias”».

    Não tenho o livro aqui comigo, porque estou em mudanças. Mas poderias tu dizer-nos quantas vezes Aracil, que falava sobre línguas na Galiza, a convite duma organização galega, fala a respeito do Galego, ou diz sequer a palavra «Galego»? Não recordo, até, se a palavra «Português» aparece no livro, relacionada, ou não, com a Galiza.

    Agradeço. Mas começo a acreditar em Universos Paralelos.

    • Venâncio

      P.S.

      Isto não diminui, Ângelo, o teu mérito de teres convertido as palestras em livro e de o teres cuidadosamente editado.

      • Ângelo Cristóvão

        Respondo por cortesia e por referência explícita a um aspecto do livro que, como é consultável, é verificável. No índice analítico, página 137, figura “Galego” citado nas seguintes páginas: 25, 29, 33-35, 47, 55, 85, 92-93. A palavra “Galiza” nas páginas 31, 34-38, 42, 85. “Corunha” nas pp. 40, 62. Para completar o quadro, “Português” aparece nas seguintes: 13, 37, 60, 74.
        Aracil não veio à cidade de Ourense em 1988 para falar em especial do galego, do reintegracionismo ou de línguas na Galiza. Só como um caso entre outros, na Europa ou no Ocidente. A escolha do público não foi casual. Escolheu essa cidade e esses destinatários porque julgava que a “semente” poderia dar algum fruto. Não é interpretação minha, são palavras suas que, como algumas outras, não fazem parte do texto.

        • Venâncio

          Eu perguntei quantas vezes ARACIL ele próprio falou da Galiza ou do Galego. Julgo que tinha sido clara a pergunta. Agradeço resposta.

          • Ângelo Cristóvão

            Está respondido. Julgo que a resposta foi clara e concreta. Obrigado pelo interesse.

          • Venâncio

            Que falta de frontalidade, pá! Sabes perfeitamente que Aracil, falando na Galiza a galegos, não mostrou, de motu proprio, o mínimo interesse pelo Galego… Mas tentas escondê-lo. Com isso, revelas alguma vergonha. Já não se perde tudo.

          • Ângelo Cristóvão

            O senhor demonstra não ter lido o livro e não saber muito do Aracil como autor. Ao escrever dessa forma mostra, mais uma vez, a sua frivolidade em relação aos assuntos galegos. E essa reiteração de frivolidade no pgl já é uma falta de respeito ou, por outras palavras, uma deslealdade.
            Acabou-se a conversa.

          • Venâncio

            Ângelo, Ângelo:

            Deixa de falar de mim, e diz aqui o que Aracil, no livro, terá dito (por inciativa própria!) acerca do Galego e da Galiza. Cita (se as houver) duas ou três frases.

            E então, sim, pode acabar a conversa.

  • Venâncio

    A questão é esta, Ângelo. Para alguns de vós, a negação da Galiza e do Galego tornou-se tão natural que já não a vedes. Ou ela já não vos preocupa. Interiorizastes tão bem o secular desprezo espanholista que as defesas acabaram por falhar-vos.

    Isso ainda se compreenderia. O que se compreende muito menos é que vós mesmos tomastes como missão no estrangeiro ao secundar essa negação . Inventastes essa bandeira absurda e exibicionista do «Português da Galiza», em que, fora do vosso círculo, ninguém felizmente acredita. Criastes uma agremiação «galega» «da língua portuguesa», mero decalque do modelo espanhol, e que ninguém entende de que se ocupe ou para que sirva.

    Não gostais de ouvi-lo? Acredito que não. Mas, como não o ouvis daqueles que assim pensam, é bom que o ouçais por mim. Mas é ao mensageiro, a esse que verdadeiramente se preocupa por este estado de coisas, que acusais de “deslealdade”.

    Sim, o Mundo é velhaco e é insuportável. Por isso criastes colectivamente uma realidade protectora e aconchegante. É de dentro dela que passastes a ler o que vos rodeia. A vossa imagem do idioma, como a de Portugal ou da “Lusofonia” (outra invenção, mas essa de portugueses saudosistas), essas imagens estão longe de coincidir com a realidade exterior à vossa mente. Mas agarrais-vos a elas, pois são a única defesa contra uma Espanha que vos despreza e espezinha.

    A culpa não é toda vossa, pois? Talvez não haja, nisso, ‘culpa’ sequer? Quero admiti-lo. Mas a Galiza e o Galego não mereciam isto.