Aquele que dá a vida: de línguas e linguagem



O esvaziamento da linguagem, que prolifera rápido por toda parte, não corrói apenas a responsabilidade estética e moral, vigente em todo emprego da linguagem. Provém de uma ameaça à Essência do homem. Um estilo apurado, somente, ainda não demonstra termos evitado esse perigo Essencial. Ao contrário. Poderia, hoje, até, significar que não vemos o perigo ou mesmo que nem somos capazes de vê-lo, por ainda não nos havermos ex-posto à sua fisionomia. A decadência da linguagem, ultimamente muito comentada — e com bastante atraso — não é a causa, mas já uma consequência do processo no qual a linguagem, sob o domínio da moderna metafísica da subjetividade, decai quase inevitavelmente de seu elemento. A linguagem continua a recusar-nos a sua Essência, a saber, que é a casa da Verdade do Ser. Ao invés, ela se entrega, simplesmente como um instrumento para o domínio do ente, a nosso querer e às nossas atividades.
(Carta sobre o humanismo, Martin Heidegger)

 Leonor Fini

Leonor Fini

Estava no aeroporto, à espera da viagem a Fez. Chegaria no tempo do Eid al-Adha, a Festa do sacrifício em que se comemora a história de Abraão e o seu filho Ismail. No mundo muçulmano foi o primogénito Ismail, filho de Agar, quem foi oferecido para ser imolado quando o anjo providencial deteve a mão do seu pai e o sacrifício se comutou por um cordeiro. Mas não foi algo propositado que eu chegasse nessas datas.
Pode ser que nestas situações em que o acaso é tão significativo tudo tenha mais sentido para nós. Entretanto, o que fazer num aeroporto em que passamos várias horas à espera? Pode ser como uma metáfora da vida. Podemos visitar lojas, passar de um café a outro, passear observando sem muita atenção o que se passa, ler um livro, ou eventualmente, ter alguma conversa. Mas em duas ou três horas haveria tanto que fazer se fosse a nossa última viagem? Mas nunca pensamos que será a última. Que superficiais somos! Porque, na verdade, sempre será a última viagem da nossa vida.
O velho professor japonês estava sentado à espera de apanhar o voo a Istambul quando trocamos algumas palavras por causa das bagagens e se o lugar estava livre. Ele fez uma brincadeira:
– Para você está livre! E gentilmente sorriu.
Correspondi com o meu melhor sorriso também e por um momento houve silêncio.
Havia algo vivo na presença do velho homem e subitamente senti uma estranha alegria que me percorreu todo o corpo. Perguntei-lhe se viajava a Marrocos e foi quando me disse que ia passar uns dias a Istambul e depois a Kónia. Enviuvara há cinco anos e tinha os filhos espalhados por diversos lugares do mundo. Afortunadamente tinha boa saúde e aproveitava para recordar alguns lugares aos que tinha viajado com a sua mulher. Poderia ser a sua última viagem e este sentimento dava-lhe uma energia especial. Perguntei-lhe qual era a sua profissão e disse-me que durante muitos anos fora músico e ator profissional até que se dedicou a ensinar as artes do teatro Nõ, a sua adaptação a uma forma mais moderna. Melhor dito: a transmitir a essência à mentalidade moderna.
Gostaria tanto de continuar a falar com o velho mestre! De súbito os escassos dez minutos que estive a conversar com ele absorveram-me completamente. As três horas que passei no aeroporto foram horas vazias e perdidas, simplesmente esperando, com o  fim de chegar ao meu destino, que era o que considerava o meu objetivo. O resto, um trâmite.
Mas agora não queria partir. Um bocadinho mais de tempo era o que precisava mas não podia ser. Fizeram a chamada para o embarque.
Elegantemente e sem pressa ergueu-se. Despedimo-nos amavelmente e no último momento falei, como querendo apanhar algo dele. Sentia tanto perdê-lo!
– Por favor, quase gaguejei, diga-me um conselho, um provérbio tradicional japonês que possa levar no meu coração. E levei a minha mão direita ao meu lado esquerdo do peito. Realmente sentia muito deixar esse velho homem de cabelos brancos.
Apanhou-me pelas mãos e fitou-me nos olhos fixamente. Falou:
-Há uma frase que sempre repito aos meus alunos procedente da tradição popular.

“He who survives is willing to kill, he who lives is willing to die.”
“Aquele que sobrevive está disposto a matar, aquele que vive está disposto a morrer”

Sorriu com os seus olhos acesos e compassivos, e cheio de gentileza despediu-se para sempre da minha vida.

Lembrei esta história porque vem a conto de uma problemática que foi posta por uns amigos no contexto de uma conversa convocada pela Academia da Língua portuguesa recentemente e em que surgiu a questão do futuro da nossa língua. Que a língua galega esteja em perigo de morte é um facto que ninguém pode negar. Os falsos otimismos aqui não ajudam, mais parecem a temerosa conjura de uma íntima convicção negativa que uma ajuda real. Durante tempo demais o relacionamento entre línguas e culturas, em conivência com o darwinismo social capitalista, foi expressado em termos de concorrência de sobrevivência do mais forte.

Que a língua galega esteja em perigo de morte é um facto que ninguém pode negar. Os falsos otimismos aqui não ajudam, mais parecem a temerosa conjura de uma íntima convicção negativa que uma ajuda real. Durante tempo demais o relacionamento entre línguas e culturas, em conivência com o darwinismo social capitalista, foi expressado em termos de concorrência de sobrevivência do mais forte.

Perante esta postura os nacionalismos não conseguem sair da espiral viciosa pois a lógica põe-se em termos de concorrência de mercado. Mas o que não vem os que participam de esta visão é que já perderam de antemão. Esta perspetiva aniquila o valor essencial das línguas ao percebê-las como meros instrumentos. O problema não é a extinção de uma língua mas os meios pelos quais isso se chega a dar. Aquilo que significa a extinção das línguas sob o domínio de outras é amiúde uma extinção paralela da linguagem naqueles que participam de essa mentalidade de compreender as línguas como instrumentos. Fala-se de um instrumento de comunicação mas o que acontece é que já não há nada real a comunicar. A comunicação num sentido essencial é aquilo que nos podemos transmitir como seres humanos. E a linguagem concebida como mero instrumento tecnocrático simplesmente abdicou da sua relação essencial e reveladora do ser humano. Por isso podemos falar de uma extinção da linguagem dentro das línguas que é prévia a extinção das línguas. Ninguém nega as diferentes funções das línguas, entre elas a meramente instrumental, mas o problema é que simplesmente se tenha extinguido a sua dimensão essencial ou sapiencial. Isto pode exprimir-se como o ramo que foi seccionado da sua raiz e, por mais que pareça vivo, só é questão de dias que comece a murchar. Já está morto ao ser separado do tronco mesmo que não se veja no momento. É como a cauda de uma lagarta partida.

As eivas destes posicionamentos ideológico-políticos usurpam o lugar da cultura e da expressão de potencial que possui uma língua como memória, como estruturação da própria consciência e como dignidade da própria relação com a voz essencial do pensamento. Deste jeito a questão de fundo que se nos põe é a questão do nosso sentido como seres humanos, como comunidades e como culturas abertas ao mistério de estarmos aqui durante um breve período de tempo, seja no plano individual como no plano coletivo. O problema não é só a questão do problema da língua galega senão das línguas em geral, da comunicação humana, da cultura e o pensamento e o lugar que lhes damos ou permitimos tomar na nossa vida. Conceber a língua desde uma posição puramente instrumental ou técnica significa a negação fundamental da mesma e a extinção da capacidade de pensar livremente. É o signo filosófico da extinção da linguagem e da própria humanidade, em certo sentido, pois a palavra essencial deixa de comunicar. Volta-se muda ou incompreensível. A vida reduz-se a um sobreviver que se nega a si mesma.

Deste jeito a questão de fundo que se nos põe é a questão do nosso sentido como seres humanos, como comunidades e como culturas abertas ao mistério de estarmos aqui durante um breve período de tempo, seja no plano individual como no plano coletivo.

“Aquele que sobrevive tem que estar disposto a matar, aquele que vive tem que  estar disposto a morrer”

A dimensão política da língua é parte desta estruturação. Ao dizer “política” quero também indicar o sentido que oferece a esta palavra Aristóteles. O ser humano é um zoon polítikon não só por viver em comunidade mas por ter Logos, que é a capacidade para decidir entre o justo e o injusto. O interessante desta definição aristotélica é que aquilo que nos permite evoluir para uma dimensão propriamente humana está ligado à dimensão ética da justiça da que o Logos, quer dizer, o pensamento na sua expressão mais apurada e desenvolvida permite ver.

O ser humano é um zoon polítikon não só por viver em comunidade mas por ter Logos, que é a capacidade para decidir entre o justo e o injusto. O interessante desta definição aristotélica é que aquilo que nos permite evoluir para uma dimensão propriamente humana está ligado à dimensão ética da justiça.

Tendo isto em conta, qual é lugar do Logos na linguagem atual? A Inteligência e o Logos não são um ato procedente da simples subjetividade humana mas aquilo presente na realidade mesma. De aí a necessidade de estar à escuita e de seguir as pautas que não surgem dum arbítrio ou dum mero convencionalismo mas duma necessidade da própria essência do ser das cousas.

“Antes de falar, o homem terá que deixar-se apelar pelo Ser mesmo com o risco de, sob um tal apelo, ter pouco ou ter raramente algo a dizer. Somente assim, se restituirá à palavra a preciosidade de sua Essência e ao homem, a habitação para morar na Verdade do Ser.” (Carta sobre o humanismo)

um quipu peruano: um instrumento de escritura e contabilidade.

um quipu peruano: um instrumento de escritura e contabilidade.

A constituição do Estado Moderno e o seu nacionalismo é um dos elementos da trama que revela a minorização da cultura como elemento coesivo e formativo do ser humano. A estatalização da cultura supõe uma usurpação dos valores essenciais da humanidade, convertendo a “cultura” numa disposição de fetiches e a educação num processo de condicionamento e ideologização onde o estado se converte num critério absoluto de verdade. Assim substitui as velhas formas religiosas e os seus credos por uma credulidade patriótica que leva dentro a semente do fanatismo e cuja ativação mais ou menos explícita revelará em situações de crise. Esta subjetivação que usurpa as criações e atos que unem à humanidade com o ser e consigo própria tem um limite que não se pode transpor e cujas leis não são estabelecidas por estes entes convencionais (os estados). Em todo o caso a responsabilidade recai na própria humanidade e as consequências dramáticas de dita realidade devem ser “pagas” por ela nas suas diversas formas. Normalmente isto significa sofrimento e a sensação de perda ou absurdo. Também conhece-se com o nome de niilismo, o que se transpõe na forma moral do cinismo, o fanatismo, a queixa destrutiva, a vitimização ou a desesperança e o ressentimento. Isto impregna todas as ideologias que se apresentam como solução ou quando menos como aquilo de que é melhor fazer algo que nada. Só que sem saber e sem sabedoria essencial que significa “fazer” e “não fazer”?

Uma mudança significativa seria valorar as línguas, todas, na sua dignidade. Transmitir a própria dignidade através do uso das línguas e resgatar o valor da linguagem para habitar no seio da palavra. O património da nossa humanidade esta aí, ainda que não só aí. Deixarmos a um lado a luta entre línguas (luta realmente ilusória que encobre o mal-entendido entre pessoas e comunidades humanas) e trabalhar polo entendimento dos seres humanos. Para isso necessitamos algo mais que palavras: necessitamos a nossa convicção, o nosso amor e a nossa vontade. Sobretudo necessitamos aclarar que significa ser humano. Pode que seja essa a primeira questão a desvelar.

José António Lozano Garcia

José António Lozano Garcia

Nasceu na cidade da Corunha em 1967. É professor de Filosofia no ensino secundário. Foi finalista em 1988 do Prémio de poesia Nacional O Facho. Em 1989 publicou no livro coletivo Fogo Cruzado (AGAL) o relato O pêndulo sob o pseudónimo Jorge Mário Novais. Em 1993 foi prémio ex-aequo junto a Xavier Alcalá no certame de narrações breves Manuel Murguia de Arteijo pelo seu relato Retrato antigo:pinturas e superfícies. No mesmo certame recebeu em 2016 o 3º prémio pelo relato A Aranha de Sidney . Publicou em 2002 no livro comemorativo dos 10 anos do prémio Manuel Murguia o relato Porco Transgénico.
Em 1995 publicou Nocturnos indígenas na obra coletiva 7 Poetas com o grupo Hedral, do que formou parte.
Em Fevereiro de 2020 publicou Obscura Anatólia na editora Urutau, o seu primeiro poemário a título individual.
No âmbito da filosofia tem várias publicações em Portugal e na Galiza sobre o filósofo portuense José Marinho. Especialmente interessado pelas vias iniciáticas da Tradição primordial está a dirigir a sua criação atual na interação de filosofia, poesia, teatro e música para resgatar a conexão originária e viva da arte na sua função espiritual e sapiencial. Tenta ligar-se a um pensamento libertário que integre as sabedorias ancestrais e originárias da raça humana.
É colaborador da revista digital Palavra Comum onde tem publicado ensaio, poesia e narrativa.
José António Lozano Garcia

Latest posts by José António Lozano Garcia (see all)


PUBLICIDADE