Alexandre Banhos
Quando na Galiza se tenta alicerçar qualquer proposta partindo da nossa história desbalizada da Espanha, rapidamente se escutam vozes a predicar: A história é uma trapalhada, o que se passou passou, que importa a nossa história para o que andarmos a fazer no presente. Temos que construir as alternativas partindo da vontade das pessoas nos movimentos sociais, na sua consciência do dia a dia…
É justamente o contrário o que se passa, a história importa e importa muito, pois é uma das mais poderosas bases e ferramenta de legitimação de princípios e ideias políticas, especialmente nos âmbitos que se conhecem como coletividade nacional.
Sim, com certeza que há muita razão em que com a história não imos entender tudo o que forma e conforma a nossa contorna no presente, porém com a sua ausência, as cousas que se vão poder entender, iam ser muito poucas e bem parciais…
Se não conhecermos a nossa própria história, não nos vai ser possível pensarmos com certezas a política como coletividade nacional, e que essa política tenha o sentido de projeto coletivo, que vem de longe para continuar.
Quando agimos no nosso dia a dia, ele está muito condicionado pelo universo comunicativo em que nos movemos, polo balizamento que esses espaços comunicacionais fazem da nossa realidade, e por qual foi o nosso processo de socialização. E isso não vai poder ser superado sem partirmos de uns bons e firmes alicerces.
No estado espanhol está-se neste momento desenhando (estamos assistindo) a um verdadeiro programa de recentralização em que não se dá pontada sem fio, e em que se tenta apagar qualquer sinal de identidade que colidir com a de uma Espanha castelhana.
Não há nenhuma vontade de que se possa construir um estado de povos iguais, nem penso que houvesse em nenhuma ocasião, além de miragens mais ou menos passageiras.
Os instrumentos de que dispõe esse estado para esmagar e banir a nossa identidade não tem comparança na história, nem é fácil construir espaços de normalidade que possam ficar alheios ao mundo do poder e da comunicação descarnada desde um primitivismo espanholista. E isso resulta ainda mais esmagador se renunciarmos a conhecer a nossa história devidamente desbalizada, e sem alicerçarmos o futuro nela.
Nesse livro de Sun Tzu “A Arte da Guerra“, aponta que quando não se sabe qual é a melhor estratégia, é bom saber qual é a do nosso inimigo. Eis o que representa a HISTÓRIA enquanto preocupação para o poder centralizador e banidor, eis o programa de História da lei Wert.
O ministério da cultura e educação do estado espanholi está a realizar o rascunho do que em breve será o programa da matéria de história nos nossos estabelecimentos de ensino na Galiza.
A história da Galiza desaparece, não vai estar nem sequer desse jeito apoucado e regional em que estava agora – seguindo o modelo apoucado e regional da faculdade compostelãii, para quem a “radicalidade”iii na achega à nossa história não vai além de um neocompostelanismo atualizado, que tão bem é representado por alguns historiadores nacionalistasiv.
A Galiza não vai ter nenhum espaço nessa matéria nas escolas e liceus. A nova lei define cem por cento dos conteúdos das matérias chamadas troncais, e a história é fulcral para a Lei Wertv e o projeto centralizador e de construção da Espanha uniforme e castelhana.
Eles sabem muito bem que a pessoas educadas e socializadas nessa visão do mundo vai ser-lhes muito difícil pensarem diferente.
http://www.abc.es/espana/20140116/rc-wert-defiende-historia-espana-201401161205.html
Notas:
i Que continua imenso, e isso que teoricamente e segundo o sistema autonómico, as competências nesse âmbito foram transferidos na sua totalidade às comunidades autónomas. A extrema direita UPyD e outros pedem diretamente que as competências nestas matérias não sejam geridas pelas autonomias. Os meios de comunicação, nomeadamente o mundo das TVs e rádios privadas todas, projetam um espanholismo descarnado e aplaudem e difundem estas ideias.
ii Porém, há que sempre ter em conta uma cousa, quando os dados forem tratados de jeito honesto, até das cousas apoucadas se pode tirar proveito.
iii Radicalidade de ir às raízes, aos alicerces.
iv Quiçá o paradigma mais radical de neocompostelanismo esteja representado pelo historiador nacionalista Anselmo López Carrera, quem sem deixar de ter feito achegas muito interessantes, e ser ameno e com interesse em muitas facetas, tem um discurso que responde preto no branco a uma visão da Galiza que eu chamo de neocompostelanista. Para o neocompostelanismo, a figura mais mediática do compostelanismo medieval Diogo Gelmires, resulta um protonacionalista galego.
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