Resposta à professora da UDC María Pilar García Negro, que me interpelou.
A interpelação direta em artigos de opinião, ainda que pode servir para louvar as qualidades de alguém, é um recurso normalmente empregado para criticar, contestar e mesmo acusar dalguma cousa a pessoa nomeada. Eu tenho a estranha honra de ter conseguido a interpelação direta da professora da UDC, María Pilar García Negro, ex-deputada do BNG e especialista em literatura galega. Mas antes dela já Glória Lago, dirigente do grupo extremista Galicia Bilingüe, tinha feito o mesmo como parte duma estratégia para impedir o avanço do Galego internacional no meu lugar de trabalho. Devo reconhecer, contudo, que as intenções duma e doutra distam bastante entre si. Se bem os motivos da Lago eram diáfanos, custa-me mais entender os da professora universitária, que contesta deste jeito um meu comentário informal duma linha de extensão. Vou aventurar que a sua atenção encerra uma curiosidade real pela argumentação que subjaz no meu comentário. Por esse motivo decidi escrever este artigo, para esclarecer à professora, dentro do possível, as dúvidas que ela expressou no seu.
Desde a década de 70 do século XX foram-se conformando duas linhas de interpretação da língua da Galiza. Uma dessas linhas recebeu, já naquele momento e depois nas décadas a seguir, todo o apoio da oficialidade espanhola e galega. A outra linha foi reprimida com perseguição e violência, e depois com o silêncio e a indiferença das instituições. A tomada de posições institucionais foi realizada por pessoas que representavam bem a linha de interpretação favorecida. Tudo o que aconteceu no âmbito oficial da normalización linguística teve e tem diretamente a ver com essas pessoas com nomes e apelidos que produziram ao longo das últimas décadas textos e contextos a justificarem a escolha linguística do poder.
Era imenso o trabalho que tinham, pois a escolha linguística do poder, sendo coerente com a unidade espanhola, era contra a razão filológica. Assim, as pessoas que serviam bem os interesses oficiais assumiram a difícil tarefa de justificar a sua fratura com a linha académica que traçava a filologia românica, a qual afirma que ‘galego’ e ‘português’ são duas variantes do mesmo idioma. A linha oficialista, pelo contrário, tinha de elaborar-se sob outros critérios. Um deles era a fronteira política do Reino tomada como barreira linguística, outro era o que se conhece como double bind ou duplo ligame: Relação de poder em que o servidor ou servidora se vê comprometida com dous pressupostos contraditórios entre si. O primeiro pressuposto era que as falas galegas deviam formalizar-se, e o segundo, que essa formalização tinha de fazer-se contra o português. Hoje sofremos as consequências desta contradição, pois o galego contra o português, isto é, contra si mesmo não consegue sobreviver.
O isolacionismo recebeu os favores do centralismo espanhol e entre todos puseram em andamento a maquinária: O esbanjamento de dinheiro público em medidas normalizadoras e normativizadoras cujo resultado, após quase quarenta anos, é um completo fracasso. Fracasso que algumas vozes da linha oficialista reconhecem agora, mas sem assumir a sua parte de responsabilidade. O modelo de língua elaborado pelo isolacionismo criou um estado sociolinguístico nefasto, incapaz de estabelecer a necessária concorrência com o castelhano, espalhando o que denomino a síndrome da Transição, doença provocada por uma série de falsas ideias-força que distorsionaram o senso linguístico comum. Apesar de tudo, o galego “admitido” oficialmente não foi admitido pelo povo. Ao longo dos anos vimos que a ferramenta que construíam com entusiasmo não prendia na gente. Atualmente, a precariedade da situação não só está ligada às atuações institucionais das últimas décadas, mas é produto direto destas e da aplicação da política linguística isolacionista num contexto em que o castelhano conta com todas as atenções. É por isso que os produtores do pensamento oficial não podem, agora que lhes chegou a crise, pular fora do navio e desligar-se das suas responsabilidades nos resultados. Aproxima-se o momento das explicações tanto do modelo escolhido quanto do dinheiro público empregado durante tanto tempo numa normalização inexistente.
Agora que as posições institucionais parecem virar a políticas mais favoráveis ao reintegracionismo, num Parlamento com jornadas em que todas parecem lusistas, um certo medo ou incomodidade surge nalguns miolos que sabem o que fizeram nos últimos quarenta anos e procuram escudar-se na tentação da inocência, como se não tiveram nada a ver na questão. Outros preferem carregar a destra e sinistra contra nacionalistas e reintegracionistas a um tempo, mesmo levantando casposas acusações de portuguesismo nos tempos da Lei Paz-Andrade e da Compostela capital de língua portuguesa. Com certeza, o quadro legal imposto desde a Constituição espanhola de 1978 é desfavorável ao normal desenvolvimento das línguas diferentes do castelhano, mas o exemplo catalão indica-nos que ainda dentro da marginação bourbónica as cousas podem ser de outro modo. Atualmente a academia valenciana reconhece a unidade da língua e as diferenças ortográficas são mínimas entre os territórios catalanófonos. Na Galiza contávamos e, afortunadamente, ainda contamos com o galego de Portugal, um modelo espetacular tanto de poder simbólico quanto real, com implementação mundial e consolidado nas suas bases gramaticais. Um modelo que serve para representar todas as falas galegas. Um modelo aberto que permite a adição da variante galega como enriquecedora da língua comum. Em definitivo, um modelo que significa um passo à frente para a nossa formação, a nossa literatura e a nossa dignidade. Mas esse não foi o caminho escolhido pelo oficialismo galego e as suas colaboradoras. Como seria o nosso presente se hoje levássemos quase quarenta anos de português como língua oficial na Galiza?
Tempo atrás quis saber o que tinha acontecido historicamente com as mulheres no âmbito reintegracionista. Essa aparente carência feminina parecia-me semelhante à falta de coerência linguística do galeguismo oficialista e perguntava-me eu: “Onde é que estamos que não nos vemos?”. Busquei as mulheres nalguns textos disponíveis e, por honrá-las, escrevi um breve artigo com os seus nomes. Um artigo em cujo terceiro parágrafo aparecia uma “Pilar Garcia” que participava na revista Agália e, ademais, defendia o isolacionismo. Já não é possível continuar a dar uma no cravo e outra na ferradura. As posições estão a cada dia mais claras. Comprovo agora que a síndrome da Transição, criada pela má política contra a razão filológica, também nos afetou às mulheres ao aceitarmos, como outros homens, o engano de defender a língua desde falsos pressupostos pensando que tudo resultaria mais fácil do lado do poder. Tod@s cometemos erros. Contudo, não são os erros que nos definem, mas a nossa capacidade de os transformar em fecunda aprendizagem.

