Linguística escreve-se com A de Teresa



Desde que Simone de Beauvoir denunciara em 1949 o submetimento cultural, de género e político das mulheres de todo o planeta, muitas são as vozes que se têm levantado para trabalhar pela nossa reintegração na História das Ideias, das Ciências, das Artes e de todo e qualquer âmbito de estudo que o género humano tenha aprendido a cultivar. Já na altura da segunda década do século XXI, por palavras da Rebecca Solnit (2014): “A maior parte das mulheres trava guerras em duas frentes: uma em nome de qualquer que seja o tema em discussão e outra simplesmente para terem o direito de falar, de acalentar ideias, para lhes ser reconhecida a capacidade de serem detentoras de factos e verdades, de terem valor, de serem um ser humano”.

Esta verdade de as mulheres sermos seres humanos, termos direito a expressar ideias, detentar verdades e factos, analisar com proveito as ações humanas e obrar em consequência, contrasta vivamente com o reiterado silenciamento da nossa atividade académica. Por isso, sempre que aparece um trabalho dedicado a nos lembrar a quantidade e qualidade de informação, estudos, ideias, teorias, práticas, demonstrações e provas que o pensamento exercido por mulheres tem fornecido à Humanidade em todas as suas áreas e épocas, refletimos sobre o quão [email protected] estamos pela ideologia machista dominante, que impõe as suas regras anti-natura.

Essa é a sensação que temos ao ler o novo ensaio da Professora Teresa Moure Pereiro, intitulado Linguística escreve-se com A (Através Editora, fevereiro 2022), que é um festival de informações centrais sobre linguistas mulheres que dedicaram as suas vidas ao estudo de uma ou várias áreas de conhecimento em que foram sistematicamente esquecidas. O subtítulo: A perspetiva de género nas ideias sobre a linguagem introduz o leitor de cabeça no âmago da questão: As mulheres que trabalharam sobre a língua e a linguagem, em que livro de Língua, Linguística ou Filologia aparecem? Em que áreas se debruçaram e dedicaram as suas vidas? Qual o peso dos seus estudos sobre o conhecimento geral da matéria? Quais e onde as análises, ponderações e mais trabalhos educativos sobre as suas conclusões? Certo que noutras áreas de conhecimento acontece exatamente o mesmo, que as mulheres dedicadas ao cultivo da matéria que for são sistematicamente silenciadas, tanto nos livros de História da especialidade quanto nos Manuais e outros materiais de História e de Língua, ainda que o contributo delas tenha sido significativo para o conhecimento.

Teresa Moure Pereiro (Monforte, 1969) é uma escritora galega que constrói os seus textos com elementos da Filosofia, da História e da Sociolinguística, sendo um piar fundamental na elaboração e ampliação dos estudos em perspetiva de género na Galiza e na Europa. Autora de magníficos romances e também poesia, dedicada à renovação dos géneros literários, a sua qualidade como escritora de ensaio atravessa fronteiras e entrega ao conhecimento universal algumas das mais virtuosas páginas. Moure exerce como professora de Linguística Geral na Universidade de Santiago de Compostela e, além de publicar vai já para trinta títulos, desenvolve um intenso ativismo social e cultural em torno dos assuntos críticos na sociedade galega que a perfilam como uma das figuras mais relevantes da Galiza atual.

Moure exerce como professora de Linguística Geral na Universidade de Santiago de Compostela e, além de publicar vai já para trinta títulos, desenvolve um intenso ativismo social e cultural em torno dos assuntos críticos na sociedade galega que a perfilam como uma das figuras mais relevantes da Galiza atual.

Desde o irónico título, vemos no texto de Teresa Moure um especial interesse por trazer as informações ocultas ao primeiro plano, para as deixar em baixo do olho leitor, permitindo que a evidência dos dados seja mais eloquente do que qualquer outra consideração. Linguística escreve-se com A, isto é, com todos os nomes, os trabalhos e as ideias das mulheres linguistas que conformaram o pensamento moderno sobre as línguas e a Linguagem. É devido sinalar o grande trabalho de investigação realizado pela autora e a sua equipa para desenterrar estes nomes, estudar os textos e recuperar as histórias perdidas que o patriarcado mata antes de elas nascerem.

Dividido em três partes, o texto começa por explicar como as mulheres linguistas e os seus trabalhos ficaram sempre de fora da elaboração do discurso da Linguística. O medo a perder a relevância dos homólogos masculinos, ou outros motivos de índole pessoal, levaram à discriminação dos trabalhos das colegas mulheres, e não só isso, mas também, como se explica no final do livro, nalguns casos chegaram ao ataque e destruição das suas vidas pessoais. Esta primeira parte acaba propondo novas focagens para superar esta situação, como a visão do trabalho coletivo frente à criação das “grandes mulheres”, ou leituras para refletir sobre “o modo como as ciências praticaram uma segregação sexual e de outros tipos” (p. 48).

A segunda parte do texto debruça-se sobre a relevância das mulheres na Tradução de textos, e como a sua interpretação pode trazer novos horizontes para o conceito de tradução, introduzindo elementos chave e subtilezas fulcrais para o conhecimento. Por palavras da autora (p. 89):

A tradutora deixa de estar submetida ao Autor; tem autonomia gnosiológica como agente de transformação social; no processo de traduzir não pretende reproduzir, mas produzir ativamente e assim a diferença pode tornar-se num conceito positivo, de maneira que a tradutora passa a ser considerada participante ativa na criação do significado textual.

Por isso (p. 94):

O pensamento contemporâneo não é uma realidade erudita, com um conjunto de vultos a teorizarem num foro especializado: impregna as mentalidades e tem consequências nos saberes. A inovação concetual de que o significado não está fixado anteriormente, negociando no ato de comunicação, modificou a perspetiva de quem traduz.

A autora continua a se ocupar das Primatologistas, Criptografistas e Antropologistas, um numeroso coletivo de mulheres científicas que só em poucos casos como os da Jane Goodall ou a Dian Fossey têm sido conhecidos e divulgados. O caso das Criptografistas, mulheres especializadas em desencriptar códigos em tempos de guerra, foi de absoluta importância nas decisões políticas e militares do seu tempo. As descobertas das Antropologistas ajudam a entender “o modo como a mudança de procedimentos transforma o aparato concetual” […] “Passa-se de um foco baseado na luta pelo poder – que permeia o olhar androcêntrico tradicional – para uma visão plural, atenta à quantidade de ações diversas que constituem o que, numa determinada comunidade, podemos chamar de cultura” (p. 109). A autora narra a guerra contra os gramáticos (sic) que já tinha estudado em ensaios anteriores, e o trabalho de limpeza e organização do estado atual das cousas por parte de Judith Butler, que estabelece a relação direta e estreita entre a fala e o corpo que fala, a “escandalosa relação entre a linguagem e o corpo”, definindo a fala não só como um ato linguístico, mas um ato carregado de sentido que entra em diálogo com o próprio eu e o modifica de imediato.

Assim, dentro desse novo e amplo campo de estudo estão os trabalhos que evitam o vocabulário e discurso do âmbito eurocêntrico, na linha de Said, como o do escritor iraniano Hamid Dabashi, que se pergunta porquê um espirro do Mozart é “música”, porém as ragas indianas, que é música clássica da Índia, são objeto de “etnomusicologia”? (p. 243). Esta crítica à construção da História da Música, na Galiza tem o seu paralelo na construção da História da Música espanhola, onde deveremos perguntar-nos porquê a guitarra, ou viola, não é um instrumento galego, mas espanhol, apesar de todos os dados históricos em contrário que conhecemos desde o século XII até à atualidade.

O labor das mulheres linguistas no campo da Linguística Geral, especialmente no estudo das línguas africanas que se translada ao resto de línguas do planeta, é assinalado por Moure como fundamental no trabalho da Professora Tove Skutnabb-Kangas, para entendermos que o conflito entre as línguas em contato é tudo menos inocente e que as políticas educativas são decisivas para a perda de línguas. Deste modo, a autora anuncia uma mudança nas regras do jogo, e coloca os nomes de sociolinguistas como Susan Romaine e Deborah Cameron, de autoras orientadas para a pedagogia como Angela Goddard e Lindsey Paterson, e outras que apenas partilham ideias em núcleos especializados, como as reunidas no compêndio de Alice Davison e Penelope Eckert (p. 252):

Em todos os casos ressalta uma evidência: nos últimos tempos muitas académicas consideraram que a sua sensibilidade política no que diz respeito a determinados temas não estava afastada da sua atividade profissional. Estas especialistas cultivam os seus campos com o rigor esperável, não exclusivamente no púlpito da academia, mas permitem-nos observar a impressão dos movimentos sociais onde também estão presentes.

O labor das mulheres linguistas no campo da Linguística Geral, especialmente no estudo das línguas africanas que se translada ao resto de línguas do planeta, é assinalado por Moure como fundamental no trabalho da Professora Tove Skutnabb-Kangas, para entendermos que o conflito entre as línguas em contato é tudo menos inocente e que as políticas educativas são decisivas para a perda de línguas.

A própria autora, Teresa Moure, é um exemplo desse ativismo social das mulheres académicas que já não separam as ideias profissionais da defesa dos Direitos Humanos, dos Direitos das Mulheres e das Crianças, e do compromisso social e condenação de todo o tipo de privilégios e discriminações.

A terceira e última parte deste intenso e frutífero ensaio traz à tona histórias pessoais que normalmente são afastadas dos livros académicos, mas que explicam de modo muito académico porquê é que as cousas são como são. Os lamentáveis casos de Franz Boas e Edward Sapir, mais o resto de colegas que vieram a referendar as posições deles, cobraram várias vítimas femininas, mulheres que foram rebaixadas e agredidas intelectualmente por estes senhores da Linguística, como foram as professoras Ruth Benedict e Margaret Mead, duas das mais prestigiosas investigadoras do relativismo em Linguística. Moure fala também dos trabalhos de Robin Tolmach [Lakoff], María Amalia Goyri [Menéndez Pidal], Carol Doris Schatz [Chomsky] e Shirley Orlinoff [Hockett], todas interessantes linguistas que ficaram excluídas ou foram relegadas a um segundo plano nos trabalhos realizados em conjunto com os seus próprios maridos. A autora analisa também o curioso caso de María Moliner e acaba lançando uma mensagem de esperança (p. 300):

A Linguística escrita com a [...] revela, uma e outra vez, a existência de ambientes, círculos ou figuras particularmente atraentes que construíram críticas potentes, das quais com frequência sabemos pouco. Igualmente observa-se a vigência de pontos de vista ou métodos alternativos na investigação e a possibilidade do conhecimento se expandir em múltiplas direções, por vezes imprevisíveis. [...] A perspetiva de género é um modo de pôr à prova a solidez que o conhecimento humano atingiu em cada uma das suas divisões e proporciona a vantagem da pluralidade: está aberta à incorporação de saber por parte de agentes diferentes que, ao longo da história, foram marginalizados e que no século XXI podem fazer ouvir a sua voz”.

Todos os capítulos acabam com uma proposta bibliográfica para aprofundar nos temas tratados. O ensaio também fornece uma ampla listagem dos principais nomes de mulheres linguistas e das mencionadas no texto. Uma leitura imprescindível para linguistas profissionais, divertida e absolutamente formativa para todas as pessoas desejosas de desativar os mecanismos do patriarcado no referente aos discursos estabelecidos na História, na Ciência e na Sociolinguística.

Linguística escreve-se com A. A perspetiva de género nas ideias sobre a linguagem de Teresa Moure Pereiro. Através Editora, fevereiro 2022, 331 páginas.

Isabel Rei Samartim
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