A noite de Irene: os ouriços



II

Os ouriços

via-lactea-3-pglOs ouriços cacho vinham aos milhares à praia perdida. As nuvens avermelhadas contemplavam a congregação fascinante. Era como uma cita oculta dos inumeráveis sonhos da aldeia. Cada ouriço era a expressão de um secreto anelo. Irene gostava de contemplar aquele espetáculo noturno. Quando havia lua cheia, a luz refletia-se nos seus espinhos a refulgir, um cintilar envolvente sobre a praia. Irene passeava-se descalça entre eles sem medo de que a pudessem mancar. Aqueles dias especiais eram uma estranha maneira de meditar. Ao chegarem á aldeia sabia no dia seguinte o que se podia encontrar. Saber seria muito dizer. Mais bem era uma maneira de não se deixar surpreender pelas novas que aconteciam. Uma parte dela já sabia e podia tomar as decisões mais ajeitadas.

Era essencial poder perder o tempo em nada. Poder passear-se, deixar divagar a mente sem rumo fixo, deixar que o murmúrio das ondas penetra-se suavemente no ser. Fechar os olhos e respirar o cheiro dos pinheiros próximos, da brisa. Irene alcançava um momento de silêncio profundo, sem pensamentos, respirando a vida que a rodeava. A palavra amor seria a mais indicada, senão tivesse sido reduzida a um arcaísmo na nova era.

Foi a partir do ano 2020 que se acelerou o processo, naquele momento chamado de “evolução humana programada”. As condições das crises económicas dos anos anteriores junto a ascensão ao poder de regimes cada vez mais totalitários permitiram introduzir medidas de alteração e controle das sociedades que já estavam preparadas para admitir um sucedâneo de redenção. Que esta redenção fosse da mão do desenvolvimento técnico-cientista substituindo as velhas religiões foi uma conclusão esperada embora muitos tivessem dúvidas ao seu respeito. Em qualquer caso o modo em que os acontecimentos se desenvolveram foram demasiado rápidos como para que houvesse uma paragem que permitisse reorganizar o pensamento. As consequências de vários séculos de investimentos unidirecionais no domínio e mecanização da natureza levaram às últimas consequências de tal modelo de pensamento. A planificação e robotização absoluta da vida sobre a terra. A planificação biotecnológica era como a última escada do mecanicismo cartesiano levado à última potência. Vários elementos confluíram em semelhante convergência: a robótica ligada à computação quântica e a manipulação genética que fora capaz de romper as fronteiras entre a vida e a morte. Três modelos interligavam-se no seu funcionamento: androides com emoções construídos com materiais orgânicos, seres modificados geneticamente segundo programas eugenésicos de melhora e cyborgs, e quase tudo tendia a que estes últimos proliferaram. E tudo conectado a uma grande rede central, um exocerebro mundial que os ligava a todos.

Os problemas que surgiram na década seguinte com respeito á imensa massa de seres humanos que se viram despossuídos de trabalhos e desligados do aceso aos programas de cobertura social básica deu lugar a uma programação e desenho de prioridades e cálculos económicos que fizeram prescindível uma parte considerável da humanidade. Simultaneamente ao desenvolvimento dos programas de “melhora” foram concebidas políticas de extermínio em forma de guerras, acidentes e atentados massivos, proliferação do uso de armas bacteriológicas, controle alimentar e manipulação climática. Obviamente muitos destes programas estavam em mãos de grandes corporações privadas que manejavam os governos segundo os seus interesses particulares. O caos gerado permitiu justificar com veemência a necessidade da efetividade e o controle por cima de tudo. De fato, aproximadamente na década de 30 já não era possível discernir quem tomava as decisões a nível mundial. Todas as decisões estavam agora nas mãos de grandes sistemas de computação quântica. E tampouco estava claro quem pertencia ainda, nas posições de autoridade, á velha raça humana, que papel jogava, quem era realmente quem.”

Eva era a médica encarregada de levar adiante o programa que converteria a Irene num ser da nova era. Tinha um corpo estilizado, uma beleza caucásica com uns olhos verdes e grandes, uma voz profunda, com certa aspereza na pronuncia dos “erres”, e isso produzia um sentimento evocativo, uma aura de estranheza sedutora e fascinante. Podia ser grácil, serena e atenta. Não havia erros no seu comportamento, nem afetação. Não era nem demasiado compassiva nem distante, media o vínculo a estabelecer sem dar lugar a equívocos. Mas nunca resultava ofensiva, mesmo quando tinha que atuar numa situação difícil como podia ser agora

– Levo a observar-te desde que chegaste e fazes muito bem o teu trabalho. És uma autêntica profissional – disse Irene

– Obrigado- respondeu Eva. E devolveu um sorriso para Irene, aberto e acolhedor.

– Mas o problema é que não sabes para que fazes o que fazes.

– Acha que é assim? É necessário dar explicações polo trabalho bem feito? Acaso não é esse o objetivo dos seres humanos? E utilizou deliberadamente a expressão “seres humanos” como para dar mais força à sua argumentação. Sem dúvida Eva era muito boa fazendo o seu trabalho. Era inteligente na maneira em que media a intenção das suas respostas, escolhendo as palavras mais precisas. Tinha uma tonalidade emocional estável e profunda.

– Fazer as cousas bem não é o objetivo. É tão só um meio para converter-se num ser humano- respondeu Irene.

– Mas sendo um meio qual seria o problema então? Não estou a utilizar um bom meio se fago bem o meu trabalho?

– Não se não sabes para que o fazes.

– A eficácia é um bem em si mesmo. Não há lugar a qualquer crítica ao respeito. É compreensível que “os ancestrais” queiram vestir de virtudes a sua ineficácia substituindo-a por considerações sentimentais ou filosóficas, mas é um erro de programação. Nós compreendemos isso com claridade. Todos os problemas resultantes da velha raça, a violência, a desordem, o caos introduzido na vida deve-se à ilusão da liberdade e um uso deficiente da inteligência. O livre arbítrio é uma ilusão devida à ignorância dos fatores que determinam as situações. Tendo o cálculo e o conhecimento de todos esses fatores simplesmente não há alternativas.

A eficácia é um bem em si mesmo. Não há lugar a qualquer crítica ao respeito. É compreensível que “os ancestrais” queiram vestir de virtudes a sua ineficácia substituindo-a por considerações sentimentais ou filosóficas, mas é um erro de programação.

– Em realidade a eficácia da que falas não é tal. Uma eficácia que se baseia exclusivamente na subordinação ao mundo externo opera sobre uma mentira. Em realidade tu não sabes quem és. Sem saber quem és como podes tomar decisões?

– Claro que sei quem sou. Mas essa é a velha metafísica em ação. Totalmente ineficaz.

– Não, não sabes quem és. Não sabes o que sentes. Não sabes por que és tão boa nem para que. E sem saber tanto pareces tão sábia! Gosto de observar-te, de falar contigo. És o modelo de humanidade que durante tanto tempo perseguimos e porém, porém…falta algo!

– Irene, e se fosse a ti a quem faltasse algo? Porquê me aplicas uma falta que pode estar em ti? Porquê te apegas a um modelo de identidade que não existe mais que de um modo vago, sonhador, sem sentido prático?

As palavras de Eva eram tão razoáveis e convincentes que não parecia que a questão pudesse dilucidar-se em termos de diálogo, mas era a maneira em que o programa se iniciava. Era necessária uma interação próxima de jeito que se pudesse ter um mapa exato das elaborações mentais dos que seriam submetidos à reprogramação. Eva não era um Androide, pois este trabalho precisava de um tipo de proximidade com os seres humanos que simplesmente um androide não poderia ter nunca. Eva pertencia à geração de modificações genéticas realizadas mediante sofisticados sistemas de computação que conseguiram afinar todo o nível das “estridências cognitivas e afetivas”, tal e como era referido nos informes técnicos. Deste jeito o modelo de configuração genética era um híbrido sintético que eliminara toda vocação não referida ao uso da inteligência segundo os padrões dos interesses técnicos e práticos mais imediatos. Portanto tratava-se de um ser de configuração natural na sua base, mas fortemente ancorado nas determinações do sistema de programação computacional.

Mas Irene ainda falou:

– Não importa aquilo que nos podam tirar mas não deixamos de procurar o que não temos.

[Este relato foi publicado originariamente em Palavra Comum]

José António Lozano Garcia

José António Lozano Garcia

Nasceu na cidade da Corunha em 1967. É professor de Filosofia no ensino secundário. Foi finalista em 1988 do Prémio de poesia Nacional O Facho. Em 1989 publicou no livro coletivo Fogo Cruzado (AGAL) o relato O pêndulo sob o pseudónimo Jorge Mário Novais. Em 1993 foi prémio ex-aequo junto a Xavier Alcalá no certame de narrações breves Manuel Murguia de Arteijo pelo seu relato Retrato antigo:pinturas e superfícies. No mesmo certame recebeu em 2016 o 3º prémio pelo relato A Aranha de Sidney . Publicou em 2002 no livro comemorativo dos 10 anos do prémio Manuel Murguia o relato Porco Transgénico.
Em 1995 publicou Nocturnos indígenas na obra coletiva 7 Poetas com o grupo Hedral, do que formou parte.
Em Fevereiro de 2020 publicou Obscura Anatólia na editora Urutau, o seu primeiro poemário a título individual.
No âmbito da filosofia tem várias publicações em Portugal e na Galiza sobre o filósofo portuense José Marinho. Especialmente interessado pelas vias iniciáticas da Tradição primordial está a dirigir a sua criação atual na interação de filosofia, poesia, teatro e música para resgatar a conexão originária e viva da arte na sua função espiritual e sapiencial. Tenta ligar-se a um pensamento libertário que integre as sabedorias ancestrais e originárias da raça humana.
É colaborador da revista digital Palavra Comum onde tem publicado ensaio, poesia e narrativa.
José António Lozano Garcia

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