A aposta consciente com o galego



Como aqueles que me conhecem sabem, sou de origem leonesa; apesar de ter nascido nas terras do Caminho de Santiago, “com a fronte erguida para as estrelas” –como disse X. Chao no Prólogo do meu primeiro livro–. A minha língua materna foi, desde o meu berço, o castelhano; um espanhol reivindicado pela minha família monolingue, apesar de termos vindo para a Galiza, para o rural galego, há já cerca de 60 anos e de ter andado, em criança, à escola na aldeia, até ao bacharelato e aos estudos superiores.

Porem, com clérigos como Chao, Queiruga, Miguélez e Regal, fui eu algum dos que mais escreveu para normalizar o galego na Igreja; e com um grupo mais amplo de clérigos e leigos, estou entre os mais consequentes nesta praxe. Todos somos defensores contumaces da língua galega. Há uma só diferença: eles são galegos de ascendência e foram “mamando” o galego desde a infância deles, e eu… não.

A minha conversão em galego-falante/escrevente/militante aconteceu no Seminário de Compostela; exatamente onde outros clérigos aprenderam a desprezar o galego. Aprendi o galego com os meus amigos e colegas de estudos, e tornei-me galego-falante lendo Otero, Risco e sobretudo Castelao. A minha opção e a minha aposta não tinham raízes estéticas, assentadas na beleza da língua e da sua literatura, mas éticas e sociopolíticas: o galego era a língua do povo ao qual queria servir; portanto, falar/escrever em castelhano era uma traição. Se queria ser galego-consequente, tinha que ser, no mínimo, galeguista/nacionalista.

A minha opção e a minha aposta não tinham raízes estéticas, assentadas na beleza da língua e da sua literatura, mas éticas e sociopolíticas: o galego era a língua do povo ao qual queria servir

Isto vem direto ao assunto por um artigo que publicava Mª Pilar Garcia Negro, amiga e colega, nestas páginas, onde dizia que “neofalantes somos todos, em sendo galego-falantes conscientes”. Senti-me muito identificado com a sua opinião autorizada da “fronteira artificialmente estabelecida entre o galego mamado e o galego aprendido, com primazia para o primeiro”. Sempre me senti reconhecido na Galiza pela minha aposta, apesar dos defeitos do meu galego aprendido. Depois, li a resposta oposta de A. Lopes Carreira no jornal, que também tinha as suas razões, mas com as quais discordo em vários pontos que comentarei noutra ocasião.

[Este artigo foi publicado originariamente no Nós Diario.]

Victorino Pérez Prieto
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