Uma história de sobrevivência

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In vino, veritas

Era meu avô mas poderia ser qualquer uma de nós, se fôssemos arrieir@s e tivéssemos ido ao Ribeiro dias antes da estourada franquista. Teríamos montado no Quibém de Codesseda, pequeno autocarro alugado para levar as nossas pipas, que por causa do número e a dificuldade dos tempos não poderiam ir de comboio como de costume. E teríamos enfiado para Riba d’Ávia desde Compostela na intenção de voltar provist@s dos caldos finamente escolhidos nas adegas da comarca.

Depois de provar os vinhos todos, decidir e pagar, teríamos carregado a mercadoria no autocarro com os nossos próprios braços e estaríamos suando de calor quando retomássemos o caminho no dia 18 de julho de 1936.

E era meu avô mas poderia ser qualquer uma de nós, se ao sairmos de Riba d’Ávia bem avisad@s da complicação dos caminhos, ao pouco de começar o retorno tivéssemos de parar por causa duma companhia de falangistas que cortavam a via levantando a mão rija, como querendo medir uma altura mais alta que a sua. E foi meu avô mas poderia ter sido qualquer uma de nós e mais o condutor quem levantássemos rijamente a nossa mão à maneira dos acenadores.

Em deixando atrás o perigo teríamos avançado adentro nas terras, de oriente a ocidente, quando nos veríamos abordad@s por outro grupo que, em levantando o punho fechado, instaria a parar o autocarro e pedir contas e presença. E também levantaríamos o punho pensando nas pipas e nas famílias que aguardavam no poente.

E retomando a viagem, bocado mais tarde toparíamos uma nova companhia de mãos rijas mais altas do que as cabeças e novamente teríamos estendido a nossa mão. E, quilómetros depois, mais outro grupo de punhos e teríamos igualmente fechado o nosso com tanta força quanto o esforçado motor do Quibém.

Assim por diante a trevoenta jornada até arribarmos ao fielato da Ponte Veia, e depois Compostela e finalmente em casa, feita já a noite, onde entre afagos e suspiros de alívio os familiares corpos nos receberiam, temerosos das notícias radiofónicas e os feros ventos chegados da vila.

E era meu avô mas poderia ser qualquer uma de nós, que em revoltos tempos, escorrendo perigos a fio, houvéssemos de salvar o vinho e a vida do transtornado mundo de golpistas e republicas espanholas.

Por isso, hoje também nós entre pipas de Ribeiro e braços em alto, esquivando a chuva de maquilhagens e carautas, saqueios, roubos, fraudes, abusos, prevaricações e torturas, mesmo podendo ser meu avô ou qualquer uma avó protagonista duma história de sobrevivência, dá esperança o saber que enquanto uns estabelecem condições impossíveis para a vida, outr@s conseguimos, por cima de todos os regimes, continuar com as nossas vidas.

(*) Opinião publicada originalmente no n.º 142 do Novas da Galiza, na seção Língua Nacional