Touradas e genocídio na Galiza (IV)

Partilhar

Por Isabel Rei

O homem é o animal que fala. Há bastantes anos que um sócio-linguista galego de adopção vem advertindo-nos de que a língua dos galegos não está a ser tratada com os mesmos direitos e deveres que a língua dos castelhanos. Quer dizer, as línguas que cohabitam no Reino da Espanha não desfrutam todas de um tratamento igual.

Segundo as leis que vigoram no Reino, o “galego” é sujeito de direito mas não de dever. Os galegos podem desconhecer a sua língua, porém não podem desconhecer outra, a castelhana. Esse tratamento diferenciado diminui a categoria das línguas pior tratadas e coloca uma hierarquia entre elas, uma delas é melhor que as outras as quais não servem tão bem os propósitos de qualquer língua que é a comunicação entre as pessoas. Poder-se-ia chamar isto de desumanização da língua? Em qualquer caso, se isso for possível não estaríamos a tratar de abstrações: a língua é utilizada pelas pessoas que são as que resultariam diminuídas ou desumanizadas por usar uma língua inferior.

Desde julho do 36 até hoje a Galiza vive numa situação de choque emocional continuado que tem ficado assente nos corpos de mais de duas gerações de galegos. As vítimas sobreviventes a um genocídio reúnem umas características comuns: são incapazes de explicar, perderam a memória e/ou justificam o acontecido. Segundo A. Miguez:

“os que padeceram diretamente a violência mas sobreviveram e as famílias dos sobreviventes e dos que morreram, sofreram, para além das consequências diretas da política franquista de permanente imposição da vitória, um sentimento de culpa por ficar com vida.” (pág. 152)

Mas também existe a memória dos perpetradores. Este é mais ainda:

“um lugar esquecido e significativamente valeiro. Existindo tantas vítimas, e mesmo no discurso dos justicieiros, vítimas de ambos os bandos, é surpreendente a ausência de uma memória dos perpetradores. Semelha que a violência foi um facto abstracto, executado por uns poucos que quase não é possível identificar, e que, naturalmente, é preferível não rememorar.” (pág. 154)

Nesta memória deveria haver milhares de nomes, para além dos que figuram nos espaços públicos tomados pelos genocidas. Funcionários cumpridores como o Eichmann descrito por Hannah Arendt. Mas graças a esses quatro nomes de figuras conhecidas esqueceu-se o resto de pessoas que participaram de maneira ativa no extermínio.

É certo que para quem reclama a justiça com as vítimas, esses símbolos ainda hoje existentes nos espaços públicos das vilas galegas são um facto aberrante e torturador, o que põe em evidência o dano emocional, para além do físico, incutido pelos genocidas. Por isso é lógica e compreensível a luta pela substituição destes símbolos, mas deve ter-se em conta que a retirada dos símbolos franquistas serve também para consolidar a eliminação da memória dos perpetradores.

Sobre a assunção do genocídio:

“É conhecido que há uma reticência entre amplos setores políticos e sociais para condenar diretamente estes factos, e a mesma continuidade de famílias políticas e relações pessoais entre a Ditadura e a Democracia é uma expressão deste discurso legitimador do franquismo. […] Estas reticências são fortes até o ponto da negação absoluta, na inomeabilidade do próprio termo de prática genocida aplicada à violência exercida pelos sublevados desde que se fizeram com o poder, primeiro nuns territórios e depois no conjunto do estado. O negacionismo neste caso não é como na experiência nazi arredor do significado efetivo do holocausto como genocídio, mas uma questão de legitimidade política. Seria como se a discussão historiográfica, social e mediática na Alemanha se tivesse centrado nas últimas décadas em torno do jeito em que Hitler tomou o poder e não nos factores que levaram uma sociedade aparentemente normal a perpetrar uma violência tão extrema contra os seus próprios cidadãos e contra os alheios.” (pág.155-156)

Toda a sociedade viu-se envolvida no massacre: o medo às listas, a ser visto como uma possível vítima, a proteção da própria família, a procura das vítimas na sua casa, a aparição dos mortos e desaparição imediata e misteriosa, o estranhamento pela atrocidade de toda a situação quebrou as relações normais entre as pessoas desde o início e ainda hoje se percebem os efeitos. Não só desapareceram os inteletuais, as pessoas preparadas, os contestatários, mas quebrou-se a comunidade toda: começaram as práticas de delação, a desconfiança entre vizinhos e o alistamento das pessoas nas milícias para-militares de “passeio”, isto é, de assassinato.

Também não é de desprezar a participação do clero no caso galego. Dada a nossa característica constituição do país em paróquias ou freguesias não é desestimável a influência dos cregos nas comunidades: eles elegiam entre denunciar ou não, segundo convier, os seus fregueses ou os da paróquia vizinha, convertidos assim em juízes diretamente implicados na prática genocida.

Contudo, e apesar de que o trauma chegou a todos os âmbitos da sociedade, não todas as pessoas reagiram igual ou se acharam na mesma situação. Sobre os estudos realizados até o momento:

“a historiografia profissional começa a tratar o tema, com achegas parciais nas décadas de 1980 e 1990, com as primeiras teses de doutoramento. […] Com uma pretensão de maior objetividade consagra-se o princípio de tipificar os modos da repressão e estabelecer um reconto minucioso das vítimas, mas dramatizar somente o justo. […]

Mas em todo este cânon historiográfico emergente há uma ausência clamorosa: esvai-se o resto da sociedade, quer dizer, os cidadãos correntes que nem foram vítimas nem pistoleiros, os centos de milhares de pessoas que seguiram com as suas vidas entanto os factos criminais aconteciam, os milhares que se beneficiaram implicitamente da nova situação, não somente ao ocupar cargos políticos, mas também ao se fazer com postos profissionais que antes eram de outros. Os que cresceram num clima de falta de liberdades sendo obedientes e disciplinados, frente aos poucos que lutaram e que se autoexilaram externa ou internamente.” (págs. 165-167)

Estes sobreviventes, também traumatizados pelas atrocidades, que são os nossos avós e pais e até os nossos irmãos mais velhos procuram sobreviver sem saber o que aconteceu ou sem querer lembrá-lo. Ainda se deixam arrastar a partilhar uma tarde de festa com os amigos na tourada, pagam a sua entrada e depois admiram o espectáculo segundo o entusiasmo dos seus camaradas ou o desprezam se percebem neles algum desagrado por como está a decorrer o evento.

Antonio Miguez remata com a reflexão que põe título ao seu ensaio: o que fizemos na Galiza. Mas não explica que foi o que fizemos, talvez ciente de que é um passo emocional difícil de dar.

Eu, pela minha parte, vejo alguns velhos e não tão velhos de hoje, inteletuais ou não, negando-se a si mesmos perante os demais, principalmente no trato com os seus filhos e netos, ou tentando esculpir um mundo de granito com cincel de barro, ou paralisados, traumatizados emocionalmente, esquartejados como coletivo, incapazes de fazer frente ao Estado que os esmagou, hoje constituído em Reino da EspaÑa.

E aos outros, os obedientes e disciplinados, os colaboracionistas, vejo-os a pôr na prática em outros âmbitos (por enquanto) aquelas estratégias genocidas que tão bem souberam aprender dos seus maiores ou dos seus chefes. Porque o genocídio sim é cousa de animais, de animais que falam.

Na quinta e última parte desta série oferece-se um resumo e conclusão da linha política espanhola sofrida pelos galegos desde as primeiras décadas do século XX até o presente ano 2009.

 

+ Entregas anteriores: