Touradas e genocídio na Galiza (III)

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Por Isabel Rei

O genocídio, ou a prática genocida, é um processo que requer uma preparação antes da ação e uma estratégia de disolução depois dele. O autor do livro comentado segue a teoria de G. H. Stanton (1998) quando afirma que um genocídio consta de oito fases:

1. Classificação: Esta fase e as duas a seguir fazem parte da preparação da prática genocida. Os perpetradores devem definir-se claramente a si mesmos e aos “outros”, que são o inimigo que mais tarde será exterminado. Essa classificação muito precisa faz-se em combinação e simultaneamente com a fase 2).

2. Simbolização: Na classificação do inimigo, em época de paz, que será vítima do extermínio, é muito importante a sua relação com uns símbolos conhecidos por todos e que os identificam também muito claramente: adjudicação de nomes ou adjetivos, cor de pele, roupa, etnia, religião, cultura, língua… Nesta fase estão claramente envolvidos os meios de propaganda.

3. Desumanização: Com efeito, as duas fases anteriores não têm por que desencadear uma prática genocida se não existe esta terceira:

«Não temos evidências de que um genocídio fosse praticado alguma vez num grupo de iguais. As vítimas não somente não devem ser iguais, senão também definidas com clareza como algo inferior ao plenamente humano». [Chalk, F. e K. Jonassohn 1990] (A. Miguez, págs. 51-52)

4. Organização do genocídio: A organização do extermínio de um grupo humano, seja qual for, é uma característica que define o genocídio e o distingue de outras práticas violentas. Segundo A. Miguez:

«O genocídio sempre está organizado e frequentemente pelo próprio estado e com o emprego das suas forças de segurança ou militares, ainda que pode fazer-se através de mecanismos mais informais como unidades armadas especiais ou milícias. […] Como sabemos pelos exemplos históricos, a relevância destas unidades paramilitares foi fundamental na prática genocida, algo que aconteceu também no caso galego». (pág. 55)

5. Polarização: Precisa-se uma polarização ideológica através da propaganda e da promulgação de leis que proibam a interação social entre os grupos opostos. Segundo o autor:

«Pensa-se aqui nas leis contra os judeus, mas também contra todos os grupos de «indesejáveis» que elaborou o nazismo, ou noutros casos leis contra grupos étnicos, culturais, religiosos que foram perseguidos. Porém, também há leis que se estabelecem contra os grupos políticos que ajudaram a prefixar a matança. No caso que nos ocupa, a publicação dos bandos de guerra nos primeiros dias em todos os lugares em que a sublevação teve lugar, e ali onde triunfou, nas semanas sucessivas, atuou a modo de demarcação violenta do que seriam os grupos para exterminar. Assim, quando se sinalavam as proibições e as limitações em que se poderia incorrer de não respeitá-las, estava-se a fazer o caminho para dotar de justificação as mortes». (pág. 57)

6. Construção de listas de morte: (pág. 59)

«A elaboração de listas de mortos faz parte duma rotina burocrática que é intrínseca às práticas genocidas, em que se pode intuir a participação do aparato do Estado através dos seus corpos e forças de segurança, da participação de paramilitares ou milícias, e através das suas implicações. No caso galego, a elaboração de listas foi um proceder característico, antes, durante e depois da prática genocida. Em todos os núcleos de população do país, fossem pequenos ou grandes, urbanos, vilegos ou rurais, as autoridades sublevadas e os seus apoios elaboraram uma lista de pessoas que deviam ser imediatamente achadas e detidas».

7. Extermínio: É sempre uma consequência das fases anteriores, não é improvisado, mas organizado e programado. Também não é uma reação espontânea ou imediata que se produz motivada por outros sucessos, mas um comportamento premeditado que procura um objetivo racional. Diz o autor que:

«no momento do extermínio a única razão externa que freará os perpetradores é a razão da força. […] Em geral, [nas vítimas] existiu uma atitude de espera passiva, na confiança em que nada grave se passaria e que, em qualquer caso, não se ultrapassaria um determinado grau de repressão». (pág. 61)

Era alimentar a falsa esperança de que uma atrocidade não poderia vir a acontecer.

8. Negação: É a última fase do processo. Faz parte das tácticas posteriores ao extermínio e consiste na narração do discurso, muito elaborada, que segue a todas as práticas genocidas.

«Os perpetradores de genocídios cavam tumbas coletivas, queimam corpos, tratam de ocultar toda evidência e intimidar as testemunhas. Negam que cometessem qualquer delito e culpam com frequência as vítimas pelo acontecido. [citação que omito] Quase como uma rotina nas práticas genocidas, tem lugar esta conceptualização negacionista. Todos os recursos a disposição do aparato estatal no desenvolvimento das atuações criminais empregam-se depois para apagar as testemunhas do que aconteceu, mesmo muitas décadas depois dos factos». (pág. 63)

Existe uma tendência a definir as práticas genocidas pelo grau de indefensão das vítimas, o qual não é correto. No caso galego o grupo de vítimas indefesas ou inocentes seriam os mestres de ideias republicanas, os políticos e cargos leais à República, os inteletuais e artistas, as classes médias profissionais de atitudes mais democráticas, em definitivo, aquelas pessoas que tendo um lugar de relevância dentro da sua comunidade ou vizinhança não se pregaram aos golpistas, constituindo o grupo dos chamados “represaliados”.

Porém este facto só não indica uma ação genocida. O genocídio caracteriza-se pela sua intencionalidade. Não é por acaso que se escolhem um determinado tipo de pessoas, inocentes ou não. Por trás de todo o processo está a pretensão de manter as desigualdades sociais, por isso a aniquilação tem de ser escolhida, violenta e massiva, para procurar a destruição das atitudes cidadãs contestatárias, críticas e/ou solidárias, que são substituídas por uma relação unidirecional de cima para baixo baseada na delação e na desconfiança, para provocar a rotura das relações de reciprocidade e a instauração de um regime reacionário.

Apliquemos agora estas breves noções de tortura e assassinato a uma tourada como se fôssemos empresários taurinos. Classificação da vítima: um touro. Simbolização: o mito da espanholidade. Desumanização: é um animal, portanto, não é humano. Organização: preparação do ato. Polarização: o touro nasceu para ser toureado. Listas: os melhores são os Mihura. Extermínio: a tourada. Negação: é um evento artístico de carácter festivo.

Esquecem os empresários taurinos que o homem fala: é o animal que fala e escreve.

 

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