Touradas e genocídio na Galiza (I)

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Por Isabel Rei

Havia que dar uma resposta necessária às barbaridades que este verão disseram uns empresários taurinos e toledanos, bem conhecidos em Ponte Vedra, que ao serem denunciados por pessoas defensoras da liberdade, dignidade e respeito pela vida de todos os animais (também a dos próprios agressores), reagiram orneando que era melhor preocupar-se pelo aborto, que «isso sim que é um assassinato».

A provocação, sem dúvida castelhana, foi tão forte que eu queria responder, ou melhor, contestar porque a quem lhe poderia ocorrer comparar o direito das mulheres a decidirem sobre o seu corpo (assim hoje os homens podem eleger entre ser castrados ou não, já houve tempos em que não podiam) e o espectáculo sanguento de matar touros fazendo disso, por cima, um negócio.

Como todo o mundo sabe, o aborto é indicação médica em certos casos. Porém não sei de nenhuma indicação médica que prescreva a tortura de animais, a não ser aquela psiquiátrica a determinar uma paradoxal forma de paliativo consistente em matar animais no cenário para diminuir violências irreprimíveis em alguns indivíduos.

Porém, sem esquecer o caso decidi fazer outra cousa. Já que de morte pública se tratava, escolhi expor umas considerações sobre os assassinatos premeditados e organizados que se perpretaram na Galiza desde o ano 1936 em adiante, sobretudo nas duas primeiras décadas depois da sublevação militar golpista, mas que também chegou até o ano 1975 com a morte do bem conhecido e ultimamente lembrado, o licenciado e operário Moncho Reboiras.

A motivação principal desta reflexão é o livro intitulado O que fixemos en Galicia. Ensaio sobre o concepto de práctica xenocida, escrito por Antonio Miguez Macho, prémio ex aequo Alexandre Bóveda deste ano, e editado pela Difusora (Ourense, 2009). Sobre o seu valor linguístico e mesmo literário nada mais vou dizer que parece ter sido escrito em castelhano e depois “traduzido” a uma estranha forma de transcrição das falas galegas, discorde com qualquer normativa, em que se admitem termos como “xerga” e outros do estilo que será melhor esquecer. Porém, no conteúdo, devo dizer que fiquei esclarecida e gratamente surpresa pela determinação e múltiplas referências com que o autor tem exposto os seus argumentos que passo a comentar:

O autor deste ensaio sustenta que:

“a prática genocida é uma terminologia ajeitada para definir um processo de violência de retaguarda como o que se deu na Galiza fundamentalmente nos anos da guerra civil, precedido de uma série de construções discursivas e seguido de uma elaborada trama narrativa“. (pág. 173, adaptação ortográfica minha, assim como nas seguintes citações).

E também que:

“a dificuldade moral para explicitar os processos genocidas é um sintoma destes. No nosso caso, extraordinário por diversos motivos, a violência genocida conseguiu (quase) todos os seus objetivos. Estes não são somente os de extermínio físico e identitário das suas vítimas, mas também, e por isso se produziu a violência, os de consolidar uma nova forma de poder, de relações sociais e culturais no seio duma sociedade“. (págs. 14-15).

Desde fins do século XIX e as décadas anteriores a 1936 vinha-se observando um paulatino crescimento, por um lado, do movimento operário na Galiza, e por outro, da construção moderna da identidade galega pela que tanto escreveram Murguia e os primeiros galeguistas.

Havia também uma vontade de mudança dos roles sociais: os trabalhadores estavam chegando a presidentes de câmaras municipais. As mulheres exigiam os mesmos direitos que vigoravam para os homens. Os canais de circulação das relações estavam mudando ao ganhar apoio social as posições contrárias ao absolutismo e aos velhos caciques. Apareciam as escolas do ensino galego. Este processo de renovação do sistema social em relação com a cultura galega está avondosamente descrito em diversos artigos da seção do velho PGL, De cânones e canões do académico Ernesto V. Souza, que complementam muito bem o livro de A. Miguez.

Situemo-nos agora em 1931, quando as candidaturas republicanas ganham as eleições, o rei Afonso XIII exila-se da Espanha, agora republicana, e Azaña, ainda deputado, anuncia a sua intenção de acoutar as influências políticas da Igreja Católica. Segundo o autor deste livro:

“A partir da derrota eleitoral voltaram a medrar os sentimentos de injustiça e de privação fraternalista que se viveram [por parte dos conservadores e monárquicos] em 1931 com a chegada da República, mas com uma série de diferenças substanciais:

a) A identidade do grupo dos futuros sublevados estava agora melhor definida.
b) A atribuição de significados e valores e a identificação do grupo ao que se considerava inimigo [estava melhor perfilada].
c) O factor de atuação deslocara-se da via eleitoral à via armada.” (págs. 92-93).

Quer dizer, na Galiza dous grupos sociais estavam começando a definir-se melhor em virtude de dous factos:

a) a construção do galeguismo moderno

b) a construção do moderno fascismo galego

Isso constituiu o precedente, os primórdios da prática genocida que os sublevados golpistas puseram em andamento assim que conseguiram, pela via militar, o progressivo controle do território. Galiza foi o primeiro lugar em que começaram essas tácticas de extermínio, usando a terminologia do autor, às que seguiram um discurso narrativo claro: primeiro de anunciação e propaganda do terror e depois de silenciamento.

Sem ser o mesmo, é parecido a como fazem os empresários taurinos, que primeiro anunciam o espectáculo sanguento por toda a cidade mas depois tiram-lhe importância enviando à gente a se preocupar por outro tipo de assuntos.

Ou como os novos inquilinos de São Caetano, que primeiro anunciam aos quatro ventos um inquérito parcial (referendum, não) sobre a língua no ensino e depois tratam de silenciar os resultados com absurdas conclusões no canicular mês de agosto.