Touradas e genocídio na Galiza (e V)

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Por Isabel Rei

Nas contendas militares o número de mortos de ambos os bandos, os territórios cedidos ao inimigo ou as características do terreno, factos entre outros que podem definir o devir e resultado das batalhas, não sempre, ou quase nunca, significam uma derrota para os mandos.

Acaba-se com as vidas da gente, fazem-se cousas irreparáveis mas para os militares, se há ganhos no aprendizado de estratégias, nunca o sangue é perdido porque as estratégias podem ser aplicadas numa outra ocasião com mais proveito.

No ano 1921 as tropas espanholas na África sofrem um descalabro monumental contra os guerrilheiros do Rif que lutam na sua própria terra contra o colonialismo. Depois disso, os militares espanhóis volverão ao Rif em 1925 sob as ordens do ditador Miguel Primo de Rivera, ajudados pelos franceses. Os quatro anos passados entre um e outro sucesso são para os militares espanhóis como um curso de doutoramento numa universidade europeia.

Após cinco convulsos anos, em 1930 o ditador Primo foge à terra da que militarmente tanto aprendeu, a França. O rei Alfonso XIII segue-o no ano a seguir, em 1931, porque em 12 de abril desse ano as candidaturas republicanas ganham as eleições e dous dias depois proclama-se a II República espanhola. Nesse momento Castelão tem 45 anos e o movimento galeguista em todos os seus frentes e diversidades cresce extenso e útil na Galiza. Assim, em 4 de junho do mesmo ano declara-se a República galega.

Elabora-se o texto do Estatuto galego entre os últimos meses de 1931 e primeiros de 1932. Após quatro escuros e convulsos anos, em 1936 o texto é aprovado em plebiscito na Galiza, mas não em Madrid. Porque apesar de que em 16 de fevereiro de 1936 o Frente Popular de Azaña ganha as eleições e pretende continuar com o modelo de estado republicano, em 18 de julho do mesmo ano declara-se o golpe militar que provoca uma progressiva e desigual situação de guerra em todo o território peninsular.

Segundo A. Miguez:

não se pode desbotar o papel do regime de Primo de Rivera como precedente destes factos, mas […] o seu carácter transitório tinha de substituir-se por uma vontade de permanência no tempo que fazia imprescindível uma ação muito mais contundente. (pág. 125).

É nesse momento quando as experiências aprendidas dos franceses e aplicadas na África começam a praticar-se na península. A situação de guerra, mal chamada “guerra civil” pois foi organizada e levada para a frente por militares, demorou até 1939. Tem-se afirmado que essa demora no acabamento do conflito armado foi devida a milhares de causas e motivos: à má organização dos militares sublevados, às falhas na estratégia, aos imprevistos, às batalhas ganhadas pelos republicanos, etc. A. Miguez sustenta que a demora era necessária para pôr na prática o genocídio programado:

No caso da sublevação militar do 18 de julho de 1936 afirmou-se que a violência foi fruto do fracasso do golpe e do desencadeamento da guerra civil, de tal jeito que no objetivo dos golpistas não estaria pôr na prática nenhum plano de extermínio, mas que as circunstâncias e a resistência da República os impulsaram a isso. Desde distintos pontos de vista desbotamos esta argumentação, inscrita, por certo, na própria lógica da negação da prática genocida que foi o corolário desta. (pág. 124)

Esta não é uma ideia unicamente minha, já Paul Preston a explicitara na tese de que o exército franquista, com Mola e Franco à cabeça, demorou o seu triunfo militar para poder executar uma autêntica e planificada campanha de limpeza étnica da Espanha que iam ocupando, até o ponto de enfadar os seus aliados fascistas que queriam uma guerra rápida [Franco Preston, Barcelona, Grijalbo, 1994]

O terror inexplicável e inexplicado gerou a falta de memória, a perda de discernimento das vítimas que atingiu até aos próprios narradores externos, como acontece com aquelas e aqueles que trataram de explicar os factos. Assim o reconhece o autor deste ensaio:

[…] consideramos que é interessante a reflexão sobre a inarrabilidade das práticas genocidas, porque a dificuldade de narrar verazmente o que se passou faz parte da sua intencionalidade. A violência no seu curso, por muito que seja aparentemente descontrolada, nunca é irracional, mas pretende, entre outras cousas, conseguir esse efecto de afasia histórica a partir da destruição do indivíduo. (pág. 114)

Uma manifestação dessa afasia histórica na narração das práticas genocidas é a centralidade que ocupa explicar o irracional da violência. Os primeiros estudiosos que se ocuparam da violência na guerra civil espanhola, os hispanistas británicos, ficaram estupefactos e fascinados ao tempo que as consideravam expressões de uma violência desatada, primitiva e cruel. (pág. 115)

Os centros de detenção extraordinários criados na Galiza foram, ante tudo, lugares em que se aplicaram as mais infames técnicas de denigração da pessoa, que iam desde as malheiras mais brutais até o emprego de técnicas mais depuradas de tortura. As testemunhas ao respeito são, como é evidente, dramáticas. (pág. 129)

A prática genocida não se ocultou no início devido a que o pingado constante de referências às execuções e sentenças fazia parte do plano. Queria dar-se a sensação de haver processos justos, evitar a ideia de serem atuações arbitrárias. Essa informação serviu também para polarizar a opinião daquela parte da sociedade que não estava perseguida, por causa da exposição de maneira continuada à violência exercida pelas autoridades. A defesa da “raça” converteu-se num pretexto para justificar as mortes:

O componente xenófobo existia mais na prática que na teoria, pois servia para separar perpetradores e vítimas dentro duma mesma sociedade (pág. 135)

Nasci em 1973 e quando Franco morreu, eu nem sabia quem era Franco. Mas agora sou capaz de entender como aplicou na nossa gente o terror e de ver os seus efeitos ainda ativos em nós.

O genocídio começou antes do golpe com toda a preparação militar, a propaganda fascista e os movimentos antirrepublicanos. Uma vez anunciada a sublevação, os golpistas começaram a executar os seus planos, sabedores de que o choque emocional serviria a longo prazo os seus interesses. E dessa maneira, a gente que não morreu nem foi fisicamente torturada ficou traumatizada, desarticulada, sem fala.

Essa é a geração de muitos dos nossos governantes e dos inteletuais galeguistas que cresceram arredor da mesa-camilla. É a geração dos nossos avós e pais que não sabem explicar nada do que aconteceu, que são incapazes de levar uma discussão sobre estes assuntos mantendo a calma, que não concordam com nada do que os seus filhos e netos pensam hoje. Porque eles sabem de repressão, de luta, de medo, de fome e frio, de delações, de desconfiança. Sabem das pegadas dos fugidos na geada e das reverências, das assinaturas e dos presentes para a Guardia Civil, do olhar de esguelho e da boca calada. E de tentar fazer uma vida no meio de isso tudo.

Foi numa praça de touros de Badajoz que morreram não se sabe quantas pessoas o 14 de agosto de 1936 a mãos dos genocidas golpistas. Porém, no filme Raza (1941) de Jaime de Andrade, galego pseudónimo de Francisco Franco Bahamonde, uma mãe diz ao seu filho: «Los animales no son indiferentes al dolor y no se les debe hacer sufrir» (minuto 4 aprox.) [Tradução: Os animais não são indiferentes à dor e não devemos fazê-los sofrer]

Parece que esse ensinamento tão importante continua a ser desobedecido pelo atual partido no governo autonómico, o qual insiste em fazer sofrer os animais. E não só os animais que falam. Para além de exercer legalmente a prática touricida estes têm também à estranha pretensão de tingir de azul as galinhas. Dirá o leitor que isso não é nada original, que já o escreveu um galego no 68 e terá razão. Naturalmente, Casares reproduziu o terror que ao seu pesar aprendeu. Ele narrou o reflexo da sua luta interior contra a desnaturalização das galinhas que, ainda azuis em 2009, acabam de ser convertidas em classificação e símbolo dos infantários do ensino em galego. Já temos três, podemos imaginar o que resta para completar as oito fases da continuação do extermínio na Galiza.

E imaginemos, sim, mas para adiantar-nos, para reagir. Para introduzir no pensamento, na educação, na comunicação social e nas nossas vidas particulares os meios que permitam a superação do terror, a recuperação da comunidade, do sentido de reciprocidade, o nosso jeito de nos relacionar e de estarmos no mundo, a reconstrução da sociedade civil. Para podermos traçar com caneta fina e boa letra o plano do nosso ainda possível, longo e próspero futuro.

 

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