Por Fernando Vázquez Corredoira
Não observais os galegos perspicazes o seguinte facto: que o Reino da Espanha está desde séculos a destruir-vos? Dirás que sim, que o observais e que por isso sois nacionalistas galegos. Bom, talvez. Mas pensastes em que sentido vos está a destruir? Pensastes que, se esse é o sentido da destruição, o da construção da “galeguidade” tem de ser justamente o inverso? (A. Gil Hernández)
1. Cousas de galeguistas
Com independência da nossa seita normativa, todos concordaremos em que o castelhano tem exercido e está a exercer alguma influência sobre o galego. É na avaliação da importância dessa influência que se suscita a discórdia — uma das nossas domésticas discórdias.
A questão que quero colocar é «ata que punto o galego actual é basicamente o resultado da evolución libre e espontánea da propia lingua medieval ou, pola contra, o resultado dunha evolución condicionada pola presión do castelán».1
Direi antes de mais que a detecção da profundidade da «acção perturbadora da língua espanhola» — para o dizer com palavras de Pompeu Fabra — tem relevância prática só se se encontra inserta num processo de elaboração linguística posta ao serviço da recuperação/construção de uma identidade regional ou nacional que se julga ameaçada pela contaminação estrangeira. Que os falantes galegos tenhamos acabado por empregar e naturalizar tais e quais formas de procedência castelhana em substituição das enxebres correspondentes pode ser uma observação bem interessante do ponto de vista filológico, mas a nada conduz a menos que exista uma vontade colectiva de recobrar as formas genuínas perdidas.
Um dos sintomas da acentuada e persistente depreciação social da nossa língua é que os seus falantes não opuseram à interferência linguística mais obstáculos que a própria familiaridade com o castelhano. De modo que a vulgarização entre nós deste idioma e a destruição do nosso são duas faces do mesmo processo. Assim o viu Saco y Arce, ainda que a sua lealdade para com a «Lengua Nacional» lhe vedasse tirar as derradeiras consequências da sua lucidez. E, inversamente, um dos sinais mais certos de que está em marcha um movimento de reivindicação linguística é que as interferências começam a ser notadas, censuradas e corrigidas.
A «purificação» da língua, uma necessidade unanimemente sentida por uns e outros2 é, logo, um elemento central dessa procura da «autenticidade» que define a essência do nacionalismo: «A principal tarefa do nacionalismo consiste em descobrir e discernir o “eu próprio” verdadeiro e purgar o eu colectivo de qualquer traço do “outro”»3.
De jeito que as nossas veementes discórdias à volta de se tal ou qual elemento linguístico presente no «galego espontâneo» é ou não do «outro», de se o português é ou não «outra» língua, são basicamente discussões entre diversas castas de nacionalistas galegos atarefados em estabelecer a distinção entre o autenticamente próprio e o alheio. Donde senão a paixão e a xenreira?4
Notas:
1 Xosé Graña Núñez, Vacilacións, interferencias e outros “pecados” da lingua galega (1993), pp. 19-20.
2 Vejam-se, por exemplo, os protestos de purismo linguístico expressos por Xesús Ferro Ruibal: «Para algúns a primeira opción, a populista, a partidaria de codifica-lo galego tal como se fala hoxe, estaría representada polo Instituto da Lingua Galega. Ora. Foi mesmamente o ILG que iniciou con rigor científico a loita contra os castelanismos (lembrade o Galego 3). É inexacto que o ILG non defenda unha purificación do idioma ou dicir que é “simple coleccionista de fenómenos dialectais […]”». «O Acordo Ortográfico e Morfolóxico de 1982. Entre a Utopía e as Heterografías Lusistas», Encontros Labaca. Ponencias, Ediciós do Castro (Sada, 1984) p. 191.
3 A. D. Smith, Nationalism and Modernism (1998) p. 56 (pela trad. castelhana).
4 A estória a seguir ilustra bem a veemência das reacções emotivas que pode chegar a suscitar a questão da norma a casa nostra:
«Foi a finais de Julho de 84: eu vinha de aprovar – em Ponte Vedra – as oposiçons livres para o corpo de professores agregados de Língua e Literatura. Encontrei Lorenzo em Santiago […]. Ele sabia que eu me apresentara às oposiçons e perguntou-me polo resultado, dixem-lhe que aprovara. Felicitou-me e acrescentou, mais ou menos literalmente: “Agora nom te vaias fazer lusista”. A minha contestaçom foi que tal cousa era impossível dado que já era reintegracionista. Ramón Lorenzo excitou-se terrivelmente mentres eu tratava de calmá-lo dizendo-lhe que tal cousa nom tinha nada a ver com a nossa amizade pessoal, velha de tantos anos, mas ele começou a insultar-me r insultar colectivamente todos os “lusistas”. A grandes berros, que chamavam a atençom dos passantes, dizia que estávamos a acabar com o galego. Eu nom queria argumentar e, quando podia, dizia que se tratava de uma escolha lingüística e que o galego podia ser perfeitamente defendido desde posiçons reintegracionistas sem negar que também pudesse sê-lo desde outra opçom que o nom fosse. Rematou dizendo que os lusistas devíamos ser todos metidos num comboio e enviados a Lisboa; ao retrucar-lhe que podia dizer trem como os brasileiros, a sua exaltaçom nom tivo limites. Vendo o escándalo público que estava armando […], fum-me e aí terminárom as minhas relaçons com ele”. Luís Gonçalez Blasco, “Algo sobre Brais Pinto e as minhas relaçons com o fato”, Agália 63/64 (2000) pp. 167-184; a citação é das pp. 180-1.
