Os vencedores escrevem a história

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Por Fernando Vázquez Corredoira

Os vencedores escrevem a história, diz-se. Santo Agostinho de Hipona (Tunesino portanto) foi dos vencedores: é santo e os seus escritos foram fundamentos da Cristandade. Prisciliano não é santo, e o que escreveu, muito ou pouco, bom ou ruim, foi destruído. Ele próprio também foi destruído – quer dizer, degolado, como Jacob, pescador, irmão de Jesus, carpinteiro, outro supliciado. Ficou-lhe o consolo póstumo de que os seus seguidores passassem a honrá-lo como um mártir, graceja mais ou menos Voltaire.

No entanto, a fação ‘prisciliana’ (foi Agostinho que lhe deu o nome sectário, o que era já era uma condenação) acoutou-se e vingou na Galécia, que durante cerca de dous séculos foi prisciliana. Outra maneira de dizê-lo é, talvez, que o cristianismo entrou na Galécia sob forma prisciliana. Uns mil e cinco-centos anos mais tarde alguns hão de topar aí mais um traço diferencial para irem inventando uma Galiza.

Porque precisamente e só na Galécia? Na verdade é cousa que escapa ao meu conhecimento, mas António López Ferreiro no seu libelo inquisitorial (Estudios histórico-críticos sobre el priscilianismo, 1873) tem algo interessante a dizer:

«El priscilianismo no fue un hecho que, con un meteoro, pasase fugazmente por nuestras comarcas; sino que aquí echó profundas raíces […]. Aun hasta por el mismo carácter personal de los habitantes de este país, parece que se extendió su influjo esta tenaz heregía.»

O priscilianismo casava bem com a idiossincrasia nativa e entranhou-se com tenacidade no País, diz-nos López Ferreiro. Logo havemos de voltar ao cónego compostelano.

A seita foi afinal erradicada. Leão, outro vencedor, santo e papa, aplicou-se à tarefa com diligência. Houve depois concílios toledanos e bracarenses e mais.

Cui prodest?

Quem matou Prisciliano? Quem o condenou? Por quê?

Matar, matou-o o Imperador Máximo; condenar, condenou-o uma fação da instituição eclesiástica. Uma fação, a que ganhou: a de Santo Agostinho e a de López Ferreiro, o que é escusado lembrar. E é aí que bate o ponto, como veremos.

E por quê?

Por maniqueísmo e maleficium, acrescidos de agnosticismo e doutras acusações tão fascinantes e antigas (tão estranhas e terríveis talvez como, noutro lugar e noutro tempo mais chegado, ‘troskista’, ‘revisionista’ ‘cosmopolita’, etc.). Os termos concretos da sua dissidência doutrinal (se a houve) são para nós estranhos e atraentes. Sustentava – diz-se – que a alma humana era da mesma natureza que a alma divina, entre outros erros não menos gravíssimos. Confessamos no entanto que, ignorando largamente a ortodoxia, não nos aventuraremos calibrar em que consistia a heterodoxia acoimada. De certo, tanto uma como a outra serão hoje por igual remotas.

Menos obscuro e remoto nos parecerá o sabermos que Prisciliano pregava a abolição da escravatura, a igualdade de homens e mulheres (as «mulherezinhas», dirá S. Jerónimo) em Cristo e que estas pudessem exercer funções litúrgicas e sacramentais: inadmissível. Parece que era dado a práticas ascéticas e que gostava da solidão das florestas: suspeitoso.

De qualquer modo, as acusações que o levaram à morte pouco nos importam aqui. Tampouco nos sentimos inclinados a juntar-nos ao populoso e loquaz coro dos que ultimamente querem reabilitar Prisciliano para uma ortodoxia católica mais ou menos descontraída e até progre. Lamentamos a morte de Prisciliano, mas não entraremos a rever o caso. Enfim, não nos interessa se Prisciliano era ou não era heresiarca, se foi ou não foi injustamente condenado.

Seguiremos Voltaire e passaremos por cima disto.

Prisciliano era Galego de Nação?

Deveria interessar-nos a origem nacional do heresiarca? Era Egipciano? Era Bético? Era Lusitano? Era Galaico? Há mestas e antigas especulações, mas, afinal nada se sabe ao claro. Fundados na autoridade do P. Flórez, os historiadores espanhóis quiseram que Prisciliano fosse gallego – o que podia entender-se como uma injúria (para os Galegos). Assim o entendeu o formidável cura de Fruíme: Prisciliano não era Galego, porque o solo galego não engendra tais monstros, que lhe mostrassem «la fe de bautismo testimoniada en su debida forma». Até então, para ele, Prisciliano não era Galego.

Ou então, poderemos despachar o assunto e com o P. Sarmiento dizermos: «Me importa dos caracoles que Prisciliano fuese de aquí o de allí»? (mesmo que logo a seguir acabe por mostrar-se que inquieto diante da perspetiva da galeguidade do herege, que descarta).

Parece-me interessante fazer notar que a atribuição da naturalidade galaica a Prisciliano foi no início cousa de espanhóis, quer dizer, de espanhóis não galegos. E é também notável que certos galegos, eclesiásticos e importantes, não gostassem, se alporiçassem e reagissem: o Padre Pardo, o Padre Sarmiento e o cura de Fruime, esses pelo menos. A bem pensar, o desgosto e a reação não deveriam surpreender-nos: «Prisciliano, el heresiarca gallego» era mais um insulto arremessado contra a Galiza e contra os Galegos.

Não consta que Manuel Martínez Murguia achasse a «fé de bautismo» ou outro documento análogo, mas isso não o impediu de perfilhar para a galeguidade em que andava a trabalhar o célebre heresiarca.

Havemo-lo de ver.